O meu reino por uma galinha

Crónica publicada no Jornal de Negócios
na coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo

galinha

O meu reino por uma galinha

Levantou-se o mundo inteiro contra as galinhas de Ernie Hausen. Mesmo eu, nas galinhas depenadas de Ernie só vejo, horrorizado, os meus pintainhos. E nem sei bem se começo pelo Wisconsin que viu nascer Ernie, se pela Luanda colonial que fazia a alegria dos pintos e dos quá-quás amarelinhos que minha mãe e meu pai criavam numa capoeira multicultural em que as galinhas conviviam com patos e patas, um ganso, mesmo alguns reservados e fugidios coelhos. Também tivemos um macaco, mas esse não é desta história.

Do Wisconsin, sabia que já lá dera aulas o professor e poeta Jorge de Sena, cujos “Exorcismos” e o erótico “O Físico Prodigioso” ofereceram tanto valor calórico à minha adolescência como os ovos dessa capoeira que, acabadinhos de pôr pelas esforçadas galinhas, eu furava de um lado e de outro com um alfinete, e chupava como se estivesse para acabar o mundo ou extinguir-se o cosmos, deliciando-me com a cruíssima clara e gema, logo voltando a pôr a intacta e agora oca casca no berço de postura da ofendida poedeira.

E deixem-me sair da capoeira de Luanda para o ar livre de Spring Hill, amena comunidade da Florida. Estava, nesse dia de 1995, como sempre está na Florida, um tempo de bermudas, shorts, tops ligeiros, bons para a livre expansão dessa carne jovem perante a qual toda a transcendência estremece e mesmo a virtude de um Josemaría Escrivá falece. Mas não vos quero enganar, temos problemas na rua, a multidão de Spring Hill era tudo menos afrodisíaca. Gritava, ululava, erguia punhos, como só a multidão militante americana é capaz.

A multidão de Spring Hill de 1995 era pelos direitos dos bichos de capoeira. Queria acabar com o Campeonato Mundial de Depenagem de Galinhas, no qual, há 30 anos, os competidores se esforçavam por derrubar a imbatível herança de Ernie Hausen, herói desta crónica.

O talento humano é poliédrico: tem mais facetas do que os olhos de uma mosca. Há quem, ultrajantemente favorecido por Deus, só tenha talento para o sexo, a Einstein foi dada a sua humilde inteligência, a Donald Trump esse cabelo camaleónico, que vai do castanho ligeiro ao escuro marrom, culminando no mais recente louro suave, a bem dizer, um dourado a faiscar de verde. Ora, a Ernie Hausen, Deus pôs-lhe o ouro nas mãos. Fazia com elas o que queria. E exagero: Ernie, que se saiba, só fez com elas uma coisa, depenar galinhas.

Nascido em Fort Atkinson, de que seria o único cidadão a atingir os cumes da fama, Ernie entrou a depenar galinhas no Campeonato do Mundo de 1926 e em seis segundos, ainda nem se tinha acendido um fósforo, a galinha estava mais nua do que Deus a mandara ao mundo. O Madison Square Garden veio abaixo, apoteótico. Ora, a paixão que T. S. Eliot tinha pela poesia ou Caravaggio pela pintura, tinha-a Ernie pela sua arte: a 15 de Janeiro de 1939, desafiado para um duelo de depenagem por dois miseráveis arrivistas, Ernie depena uma galinha em 3,5 segundos, o que nem como rapidinha conta, recorde que nenhum humano ou robot até hoje arrebatou.

Picasso desenhava nem que fosse num guardanapo? Pessoa escreveu em pé, debruçado sobre uma velha cómoda, os seus heteronímicos versos? Ah, meus amigos, Ernie tanto depenava galinhas de olhos vendados como de mãos enfiadas em luvas de um só dedo. Depenava-as até com os cotovelos. Num dia, em menos de oito horas, depenou 1472 infelizes galináceos. Cometimentos gloriosos, que a humana, demasiado humana, multidão de Spring Hill, campeã dos direitos das galinhas com que se deita, aboliu e mergulhou num depenado esquecimento.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

Bica curta: tribunais, baladas e Brexit

Este é o meu quase diário.
Escrito a bicas-curtas. Uma, tomada no tribunal; outra, com Bob Dylan e Zeca Afonso; a última, na fronteira das Irlandas, já de chapéu posto. 

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Bica Curta
3ª feira,  29/1/2019

A juíza fria
A bica estava a saber-me tão bem que pensei, isto hoje está bom para assaltar o Banco de Portugal e sacar uns 50 quilos de ouro. Pois sim, e a chatice da polícia e tribunal? Talvez, e era a bica a saber-me bem, apanhasse uma juíza gira que se encantasse comigo e me desse liberdade condicional em casa dela! Mas a menina do café acenou-me com uma notícia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts: os tribunais vão ter inteligência artificial e um algoritmo avaliará se o réu é menino para repetir o crime, decidindo se fica preso ou sai em liberdade. Eis o futuro: tal como a bica, uma máquina servirá a justiça. Vai é servi-la fria.

jose-afonso

Bica Curta
4ª feira,  30/1/2019

Maior que Bob Dylan
Descobriram-se gravações inéditas de José Afonso. Eu fumei-o, bebi-o e dormi-o em aventuras entaladas entre a adolescência e a maturidade. Sempre pensei: o Zeca podia ser tão grande, no mundo, como é Bob Dylan. “Somos Filhos da Madrugada” devia ser o hino de quem tem 18 anos de sede, tesão e inquietação.

Dizem-me: o Zeca é um “cantor de intervenção” e já o diminuem. Sobrevaloriza-se a política e deixa de se ouvir a sua realíssima emoção musical. Era de esquerda. Era, haja Deus. Mas Fernando Pessoa também é de direita e não é por isso que o lemos. Triunfasse a esquerda que tanto faz dele bandeira e, abafado, nem o Zeca cantaria.

brexit

 

 

Bica Curta
5ª feira,  31/1/2019

O sonho e o pesadelo
Em Portugal, o sonho da extrema-esquerda, PCP ou Bloco, é a saída da União Europeia, o nosso Portexit. A direita populista inglesa, aliada aos próceres da desregulação da alta finança da City, e em involuntária veneração aos nossos PCP e BE, experimentou a receita. Resultado, não há bicas curtas para ninguém: as empresas fogem, espatifam-se empregos e o regresso da fronteira entre as Irlandas acende até o velho rumor dos tiros. Um caos a que Trump bateu palmas em público e o insidioso Putin nos bastidores. Afinal, descobrem os ingleses, havia reais benefícios na Europa. Percebeu a nossa extrema-esquerda o pesadelo do seu sonho?

Meus Kambas: Paulo Nogueira

 Eu sempre me lembrarei do Paulo em Tróia. Ele a escrever sobre o festival de cinema para o iconoclasta O Independente, e eu, já não me lembro, talvez para o Semanário, a efémera Face, a RDP ou já de regresso ao Expresso. O riso do Paulo, o ar de gozo do Paulo, a alegria do Paulo quando me viu de calções, os joelhos desajeitados a tirarem o tapete às minhas pretensões de vir a ser um crítico vetusto, um Mencken ou por aí.
E depois, como um cometa, o Paulo Nogueira, nascido em São Paulo, atravessou tudo, a imprensa portuguesa, a televisão, a literatura. O Paulo é nosso e o Brasil roubou-o, ou talvez tenha só vindo cá buscar o que nos emprestara e não tivemos unhas para merecer. Sei é que nos faz agora tanta falta. 
O Paulo veio hoje visitar-me. A prosa dele, a invenção em cada frase, a sintaxe que me troca as voltas, o léxico cheio de sabor, restituem-me a alegria dos anos 80. Leiam-no. Um dia, hei-de ser editor dele e ele meu autor.

Camus-Goleiro

Albert Camus, o guarda-redes, assinalado pelo círculo

Gols de letra
Paulo Nogueira

Outro dia o Telegraph pontificou sobre escritores que foram torcedores inflamados do venerando esporte bretão. Mais aí eu roubei a bola e resolvi extrapolar para um gol de placa. Escalei uma espécie de seleção da FIFA de prosadores – que, no banco, tem o melhor treinador do mundo. É mole?

– ALBERT CAMUS, o craque das letras francesas que morreu em 1960 num acidente de automóvel (se transfigurando no James Dean da pena) foi o único goleiro da história a embolsar o Nobel de Literatura (1957). Ainda dente de leite, fechava o gol do Racing Universitaire, um time universitário da Argélia que faturou a Copa dos Campeões do Norte da África. Uma certa frase de Camus sobre a modalidade reverbera até hoje, inclusive em camisetas e posters: “Tudo o que sei de mais importante sobre moral e dever devo ao futebol”. Nota-se que ele nunca frequentou a CBF.

– SIR ARTHUR CONAN DOYLE – O criador do Sherlock também foi goleiro – do Portsmouth. Jogou sob o pseudônimo de A. C. Smith, e não deixava passar nem pensamento. Como espírita praticante (escreveu livros sobre o tema), Conan Doyle sabia de cor e salteado a importância do Sobrenatural de Almeida (fantasma criado por Nelson Rodrigues, que habitava o Maracanã e aprontava à beça durante os jogos).

– SALMAN RUSHDIE bota banca de torcedor do Tottenham desde criancinha. Em 1999, escreveu um artigo de oito páginas na revista New Yorker (O Jogo do Povo – a Educação de um Fã do Futebol) que continha uma baita abobrinha: que o técnico do Manchester United tinha morrido na queda daquele avião que matou o elenco do time. Não tinha.

– J. K. ROWLING vai ver partidas do West Ham disfarçada (e quando o time perde ela vira um Valdemort e xinga a mãe do juiz). Esse clube aflora no primeiro volume da saga Potteriana, A Pedra Filosofal, e no quarto, O Cálice de Fogo. Quando perguntada nos EUA se realmente se referia ao time inglês, ela resmungou: “Pombas, por acaso esse troço de futebol americano tem alguma equipa chamada West Ham?”

– NICK HORNBY – Tiete imbatível do batível Arsenal, e autor de um dos mais sumarentos livros sobre futebol: Fever Pitch.

– MARTIN AMIS – Alinhavou uma sacada bacana e penetrante: “Os intelectuais que curtem futebol vivem num mato sem cachorro – são desprezados tanto pelos intelectuais puros e duros como pelos torcedores comuns, que encaram nosso apreço pelo jogo como afetado, pseudo-proletário e até meio abichalhado.”
Numa entrevista recente em Nova Iorque (onde vive atualmente), Amis chorou as pitangas: “A coisa de que mais sinto saudades da Inglaterra é de um bom joguinho de futebol.”

– JULIAN BARNES – O vencedor do Booker Prize de 2011 é torcedor do Leicester City desde os tempos da chupeta. Já explicou que “seguir as campanhas do City é o meu jeito especial de me manter ligado ao cenário da minha infância.” Ah, então não é por que ele quer ser campeão invicto. Ah, conta outra, vai!

– IAN MCEWAN – A paixão pelo futebol fez McEwan pagar um mico daqueles. Durante a final da Liga dos Campeões de 2010, entre o Barcelona e o Manchester City, ele vendia seu peixe numa feira literária em Londres. Aí não aguentou: se esgueirou furtivamente para a tenda da Sky Television, afivelou uns óculos 3-D (parecidos com aqueles os jogadores de vôlei de praia usam) e babou ovo diante da classe daquele clássico. Não deu outra: foi filmado, fotografado, etc. e tal. Como se não bastasse, os espanhóis deram um baile nos ingleses.

– GEORGE ORWELL – Orwell era um cara tão legal que, embora tísico (morreu aos 47 anos), fazia o possível para manter o corpo são na mente sã. No quarto do sanatório em que esticou as canelas, tinha uma vara de pescar encostada à parede – para estar disponível quando ficasse bom. No entanto, como era também honesto e perspicaz, escreveu palavras amargas sobre o esporte-rei: “Se quisermos exacerbar a má vontade internacional, basta organizarmos uma série de partidas de futebol entre Judeus e Árabes, Alemães e Checos, Indianos e Britânicos, Russos e Poloneses, etc. – cada jogo assistido por umas 100 mil pessoas. O futebol não tem nada a ver com fair play. Está contaminado pelo ódio, inveja, boçalidade, desrespeito a qualquer tipo de regras e prazer sádico com a violência. Por outras palavras, é a guerra menos os canhões.” Hã, por falar em menos: menos, George, menos.

– JEAN PAUL SARTRE – Sim, o filósofo meteu o bedelho no futebol. E saiu-se com uma frase fenomenal, em plena Critique de La Raison Dialectique: “Em uma partida de futebol, tudo é complicado pela presença do outro time.” Ô, Sartre! Pede pra sair! Pendura as chuteiras!

– OSCAR WILDE – Parece estranho dada sua reputação de decadentista, mas a verdade que o divino Oscar mandou bem sobre o esporte bretão, com a verve brilhante de sempre: “O futebol está muito bem para garotas rudes, mas não é adequado para rapazes delicados.” E esta: “O rugby é um jogo para bárbaros praticado por cavalheiros. Já o futebol é um jogo para cavalheiros praticado por bárbaros.”

ENRIQUE VILA-MATAS – Adepto do Barcelona, já declarou que o futebol é a atividade mais inteligente da contemporaneidade. Por outro lado, justificou a carência de grandes romances sobre esse esporte invocando a imprevisibilidade das partidas. Numa FLIP, o catalão deu uma de Galvão Bueno: “O que nos atrai, como torcedores, é o imponderável de cada partida, algo que nenhum escritor foi capaz de captar.” Fale por você, mané.

GUARDIOLA – É, Guardiola! E daí, vai encarar? O futebol está infestado de mentecaptos, mas também tem suas massas cinzentas. Armando Nogueira flagrou Beckenbauer lendo Shakespeare na concentração da Alemanha, na Copa de 70. O argentino Jorge Valdano, campeão do mundo em 1986, escreve melhor do que muito literato emproado, e Menotti, também argentino e campeão mundial em 1978, sabe na ponta da língua parágrafos inteiros de seu autor predileto, Ernesto Sábato. Para não mencionar Tostão, que às vezes mata umas frases de canela mas é praticamente o único cara a conseguir comentar táticas de maneira inteligível e sugestiva. Enfim, todos eles (e mais alguns) refutam aquele epigrama malvado: “Precisei fazer um transplante de cérebro e então exigi os miolos de um jornalista desportivo. Assim tinha a certeza de que nunca haviam sido usados.”
Pois bem: Josep Guardiola i Sala publicou um livro muito atraente: Mi Gente, Mi Fútbol, uma espécie de autobiografia assaz encantadora (sem falar nas crônicas que escreveu para o El País, durante a Copa de 2006).
Guardiola é tão cultivado que inúmeros escritores catalães (torcedores do Barça, por supuesto) ficaram compinchas dele. Entre eles, o indefectível Vila Matas. Foram apresentados por David Trueba (prefaciador de Mi Gente, Mi Fútbol e irmão do cineasta Fernando Trueba) e, segundo o próprio escritor, quando se encontram só papeiam “de Joyce para cima”

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Um meticuloso trabalho de sacristia

Vejamos, é a quarta crónica que assino no Jornal de Negócios,
na coluna intitulada 
Vidas de Perigo, Vidas Sem Castigo, na última página do Weekend, com ilustração de José Tiny.
Mas quem tenha, e bem, comprado esta 6ª feira o melhor jornal económico português (e lá estou eu a engraxar o director) leu já ou vai já ler a quinta crónica, sobre a relação do misterioso Ernie Hausen (quem será?) com mil galinhas depenadas. A ler aqui.

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Eddie Manix, à esquerda, de fato escuro, ao lado de Clark Gable

Um meticuloso trabalho de sacristia

O cinema é americano. Eis uma vaca sagrada que nem o #metoo se atreve a beliscar. Belisco eu: o que seria do cinema sem o catolicismo! Sem o arrevesado católico John Ford os westerns nunca seriam o que foram, sem o perverso católico Hitchcock não nos benzeríamos na água benta do medo e do suspense. Mas quem, num meticuloso trabalho de sacristia, protegeu o sensível bebé que era o cinema foi o católico Eddie Mannix. E vejam: os nossos selectos críticos só não o desprezam porque nem o conhecem.

Eddie Mannix foi o braço direito de Louis B. Mayer, patrão do maior estúdio, a MGM, que tinha mais estrelas do que estrelas há no céu. Deus limpará as borradas que fazem as estrelas do céu, Mannix limpava as borradas das estrelas da terra. Era um fixer: tinha a polícia, médicos, juízes e jornalistas na mão. Imaginem que Clark Gable se embebedava e enfiava o popó contra uma palmeira de Los Angeles, ou partia as pernas a um peão. Vinha Mannix, bem antes da polícia, e limpava tudo, Gable, o popó e o peão, enquanto Howard Strickling, seu parceiro, em troca do silêncio sobre Gable, largava à Imprensa um escândalo com alguma estrela de outro estúdio.

Mannix esmerava-se. Para as bebedeiras e cenas de pancadaria de Spencer Tracy, tinha sempre atrás dele uma ambulância e quatro enfermeiros, pugilistas na verdade. Montava segurança aos muros da casa de Greta Garbo para que não lhe fotografassem os delírios hetero ou lésbicos. Cuidava dos abortos das actrizes. E quando Gable violou e engravidou a bela e católica Loretta Young, recusando ela abortar, Mannix e Strickling esconderam-na na Europa, afinfaram-lhe com um regresso triunfal depois do parto clandestino, e ela adoptou uma menina num orfanato, que por acaso era a sua própria filha. A verdade soube-a a filha mais de 20 anos depois.

O católico Mannix era um fixer, fixava as coisas, e ainda era produtor. Caíam-lhe actrizes no colo. Casado, dava-se a lendárias infidelidades. Ora, havia um dogma em que ele era tão inabalável como Dom Manuel Clemente: o casamento era indissolúvel. E só casou com a segunda mulher, a católica Toni Mannix, já antes sua amante, quando morreu a primeira, num intrigante acidente automóvel, mesmo à muito conveniente beira do rancho de um amigo de Mannix. Digo isto e logo me calo.

Casou indissoluvelmente com Toni, tendo já, porém, uma jovem amante japonesa. A adorável esposa arranjou ela própria o seu brinquedo: foi para a cama com o Super-Homem. George Reeves tinha menos oito anos do que ela, e fora o pedaço de peito e músculos escolhido para ser o Super-Homem na televisão. Mannix, que nesse aspecto tinha um catolicismo de Papa Francisco, achou bem. Jantavam os quatro, férias e viagens a quatro, ele e Toni em 1ª classe, os dois brinquedos na económica, que uma coisa são os bispos, outra os diáconos.

E não é que o Super-Homem trocou Toni por nova amante! Inconsolável, a velha amante telefonava-lhe: «Mas o que é que ela faz? Atira anéis de fumo com a pombinha?» Noto: Toni não disse «pombinha», apertando a coisa em quatro letras execráveis. E caiu numa desolação que incomodou o marido. Ele não admitia que a catolicíssima mulher sofresse. Súbitos incómodos vieram povoar os dias do Super-Homem: um carro sem travões, lembro-me agora. Até que o encontraram, nu como viera ao mundo, deitado na cama da casinha que Toni lhe comprara, com uma bala na cabeça. Suicídio, disse a polícia, ainda nem a autópsia estava feita. E se foi mal feita. Toni e Eddie continuaram casados, só a morte os separou.

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Toni Mannix e o Super-Homem

Publicado no Jornal de Negócios

Bica Curta: odes e martírios

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Esta é a minha terceira semana a servir bicas curtas. De 3ª a 5ª, viajei da pretensa censura a Álvaro de Campos à cidade mártir de Mossoul. Com paragem noutro secreto lugar mártir, esse silêncio doméstico onde há atentados cobardes a mulheres. Ah, sempre de chapéu posto. 

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Bica Curta
3ª feira,  22/1/2019

A pior das censuras
O cadáver futurista de Álvaro de Campos, que por acaso está dentro do cadáver do prestidigitador Fernando Pessoa, deve estar a revirar-se eufórico e a gritar odes no cemitério. Já morto armou um escândalo: há um manual para meninos e meninas que leva truncado um poema triunfal dele.

Uma multidão de Vestais clama censura. Luxos de quem confunde censura com falta de jeito. Portugal não tem censura, haja Deus. Melhores ou piores, deve ter, sim, critérios pedagógicos. Ameaça de censura é ninguém ler e comprar livros. Ameaça de censura é um editor já não conseguir publicar poesia a não ser subsidiada. Não ler, eis a pior das censuras.

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Iraqis gather at a cultural café named “Book Forum” in the former embattled city of Mosul on January 6, 2018 six months after Iraqi forces retook the northern city from Islamic State (IS) jihadists. / AFP PHOTO / Ahmad MUWAFAQ (Photo credit should read AHMAD MUWAFAQ/AFP/Getty Images)

Bica Curta
3ª feira,  23/1/2019

O Daesh que nos mói
Deslarguem-me, deixem-me ir tomar a bica a Mossoul, cidade mártir do Iraque. Os terroristas puseram-na em cacos, queimaram todos os livros. Na cidade libertada, dois loucos criaram uma livraria. Vencido o Daesh, dir-se-ia que havia outras prioridades. Mas há alguma coisa mais importante do que ler e sonhar? Os dois sonhadores venderam tudo, até as jóias das mulheres, e a livraria nasceu. À meia-noite, ainda aqui se lê, recita, toca, há chá e café. Sentam-se muçulmanos e cristãos, homens e mulheres. Que lição: em média um português compra 1,2 livros por ano contra os 9 que compra um espanhol. Temos um Daesh a moer-nos por dentro.

violencia

Bica Curta
3ª feira,  24/1/2019

Não é de homem
Hoje é bica escaldada, em honra de meu pai, que tocava bandolim, só tinha a 4ª classe e tanto me ensinou. Ensinou-me que não se bate a quem dizemos amar. Usar a superioridade física para bater a uma mulher é cobardia. Uns merdas, dizia-me ele. E morrem mais de 20 mulheres por ano.

Ouço muita treta e rainha da cocada preta, alto paleio sociológico à conta da violência doméstica, o flagelo e coisa e tal, mas a lição do meu pai brilha como sol no céu e não há cá eclipses: o homem que bate é cobarde. Ou covarde, que a besteira não é ortográfica, a besteira é de quem não mete na cachimónia matumba que bater numa mulher não é de homem.

Publicado no CM, Correio da Manhã

Longa lista dos meus gostos

Esta lista tem mais de 10 anos. Mas é que não mudo quase nada. Sem prejuízo dessas ruminações em que os velhos são tão insistentes.

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Charlize

Longa lista de gosto tanto

Permito-me fazer aqui a cândida lista das coisas de que, diletante e descomprometido, gostava muito e gostava sem vergonha. Passaram dez anos. Tenho, por vezes, de comentar à frente de alguns “gostos” – e em bold rouge –  para não encher tudo de notas de rodapé. E então, por razão nenhuma e com toda a razão, gosto:

De olhar para ti – ainda hoje, sempre;
Das “Palmeiras Bravas” de Faulkner;
Do “Ces Petits Riens” do Serge Gainsbourg;
De Deus nos seus momentos de volúpia;
De decotes;
Da “Estrutura das Revolução Científicas” de Thomas S. Kuhn;
De ficção, de Philip Roth – rip;
Da simplicidade gastronómica do Fiorde – que pena, o Senhor Armindo foi servir o Senhor;
Das pernas das raparigas quando chega a Primavera – ah, nunca mais chega;
Da “Carmen”;
De acácias e jacarandás;
Da língua portuguesa e das variações brasileiras e angolanas dela;
De Werner Heisenberg – cada vez mais;
Da Debra Winger nos anos 90 – da Charlize Teron maintenant;
De sopa da panela com carne de borrego;
Dos Estados Unidos da América – que sempre teve o seu pato Donald;
De 20 minutos à Benfica – João Félix, só tu para eu voltar a acreditar no eterno retorno;
De Anna Karina no “Pierrot le Fou”;
Do atiçador na mão de Wittgenstein;
De beijar;
De quem ama sem ressentimentos;
De Picasso, Modigliani e Matisse;
Do brilho do rio quando, entre Caxias e Paço de Arcos, reflecte a luz de inverno – já lá passo tão pouco;
Do “Für Elise”;
De caramanchões e pérgulas;
De um mundo com ricos e pobres, pretos e brancos (todos diferentes, todos diferentes) – e anda por aí so much ado about nothing;
Dos filmes de Rob Reiner – hmm, venha de lá o Manick de cada ano;
De golos de bandeira;
De ouvir cantar o “Auld Lang Syne”;
De um dry martini ao fim de tarde no Shutters on the Beach – e do tinto do Douro de cada dia.
E cada vez mais do oceano, o grande mar e o medo do mar.

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Sea Fury, foto de Edgar Laureano, com a devida vénia

Portugal e Manoel de Oliveira

Convidado pela Cinemateca, participei hoje num colóquio sobre Manoel de Oliveira. Além de José Manuel Costa, o director, comigo estiveram António Preto, que vai dirigir a Casa Manoel de Oliveira, em Serralves, e o Augusto M. Seabra, que não encontrava há um século, e tanto gostei agora de rever. Bem sei que é prosa longa, para não dizer interminável, mas aqui fica, para memória futura, o que se me ofereceu dizer.

oliveira

Manoel de Oliveira e Portugal

Quando recebi o convite da Cinemateca Portuguesa para estar presente nesta conversa, o nome Manoel de Oliveira soou-me familiar e desencadeou até no meu cansado corpo uma faísca emotiva. Fiquei contente. Vir a esta velha casa e sair das ilhas por onde ando ostracizado, pareceu-me muito bem, sobretudo na companhia de Manoel de Oliveira. O convite rezava assim: Manoel de Oliveira e Portugal – A relação com a História como tropo da relação com o presente.

As palavras História e presente, mesmo nas ilhas solitárias por onde ando, são banais e recomendáveis, sobretudo se a palavra História vier escrita com maiúscula, como é o caso. A palavra relação, ainda por cima em dose dupla, faria logo, julgo eu, abrir um sorriso meio perverso a Manoel de Oliveira. Tenho a certeza de que ele ia começar a perorar sobre as diferenças que há entre a sensata e sóbria relação conjugal e, na velha e descabelada tradição de outros tempos, a relação proibida, roubada, de um erotismo sórdido ou buñueliano.

Mas o meu maior problema foi com o termo tropo. O que é, o que significa tropo? Lá fui eu aos meus estafados livros de retórica e filosofia antiga e deparei com um significado que me agradou por ser plenamente oliveiriano: tropo é o mesmo que girar. Ora, eu sei umas coisas, ensinou-mas Oliveira, sobre o que é girar.

Oliveira e eu passámos, em 1982, uma noite juntos e a sós, na maravilhosa casa dele da Vilarinha. Não vos direi o que estivemos ou não estivemos a fazer, mas às seis e meia da manhã, o Manoel, já a caminho dos 80 anos, num gesto de cortesia entre cavalheiros, não me deixou apanhar um táxi. Meteu-se no carro e levou-me ao meu hotel, perto da estação de São Bento, atravessando o Porto a uma velocidade que me fazia girar a mim, que fazia girar a cidade invicta, que fazia girar o mundo. Há tropos e tropos, mas nenhum gira como girava o Manoel a conduzir.

Não ficaria mal dizer que o cinema de Manoel de Oliveira gira, veloz ou lento, em travelling ou em plano fixo, entre a maiúscula História e o nosso pequeno e irredutível presente. Só que a palavra tropos, ao mover-se, vai estabelecer ligações entre ideias, associando-as por proximidade ou comparando-as. Poderíamos dizer então que o tropos oliveiriano pode usar a História como alegoria do presente ou como metáfora do presente ou mesmo como ênfase do presente. O humaníssimo Oliveira, nada do que é humano lhe sendo estranho, conviveria bem com todas estas significações, mas julgo que jamais confessaria uma coisa. Jamais confessaria que o seu tropo preferido era o da ironia, essa belíssima e desapiedada figura que consiste em dar a entender o contrário do que em boa verdade se está realmente a dizer. Embora eu não goste muito de absolutos, direi, para simplificar, que os filmes de Manoel de Oliveira, toda a relação até de Oliveira com o cinema está marcada por essa figura elegante e civilizada a que chamamos ironia.

Mas falemos da História. Muitos filmes de Oliveira estão invadidos por figuras e acontecimentos da nossa História, por sermões do Padre António Vieira, pela maquinação do Santo Ofício, por soldados na Guerra Colonial em diálogos nas Unimogs numa mata africana, pela evocação de Viriato, do primeiro rei Afonso, pelo belo e utópico Dom Sebastião, por um Cristóvão Colombo alentejano. O que fazer com eles? Trazê-los à letra para o nosso presente? O que dizem os seus monólogos e diálogos, que às vezes são exaltantes, outras vezes anacrónicos, mesmo reaccionários por obsoletos? Dizem o que dizem ou quererão dar-nos a entender o contrário do que dizem?

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Antes de responder, se é que eu vou conseguir responder, deixem-me dizer que o convite da Cinemateca, antevendo os meus problemas de literacia, acrescentava duas perguntas, que me sossegaram e muito me ajudam, agora, a organizar a minha pobre cabeça. Eis as frases: Como é que Manoel de Oliveira dialogou com o país? Qual é a sua verdadeira contribuição para a cultura portuguesa?

Já respondo, mas antes volto às minhas conversas com Manoel de Oliveira. Falámos algumas vezes, entrevistei-o, julgo que duas vezes, e convivemos em jantares e outras amenidades sociais, uma delas a roçar o prodígio, numa noite em que, na Embaixada de Itália, em Lisboa, Manoel de Oliveira e Michelangelo Antonioni, contaram, em duelo, anedotas. Antonioni as barzelette dos carabiniere, o Manoel, piadas de alentejanas. Foi das noites mais culturais de toda a minha vida.

Ora, numa dessas conversas ou numa entrevista, o Manoel falou-me da importância que teve para ele, no Porto, o convívio com filósofos e com escritores. Os filósofos da Escola do Porto, julgo que sobretudo José Marinho, balizaram um paradigma de pensamento e reflexão, que a relação com Teixeira de Pascoaes e, em particular, com José Régio matizou esteticamente. A visão da História, o mito do Quinto Império, o messianismo sebastiânico que invade parte do cinema de Manoel de Oliveira tem naquele movimento filosófico – o da chamada filosofia portuguesa – e nas figuras tutelares de Pascoaes e Régio as suas mais poderosas referências.

O diálogo de Oliveira com o país, de que a Cinemateca me pede que fale, começa ali e, nos seus filmes, não pára. Se eu contei bem, Manoel de Oliveira assinou 31 longas metragens de ficção. Há pelo menos 14 cujo argumento ele mesmo escreveu. E há 19 dos seus filmes que são adaptações de textos literários portugueses, romances ou contos ou peças de teatro. A soma destas duas colunas dá mais do que os filmes que ele realizou, mas não fiquem a pensar nisso: é simples, há filmes em que Oliveira assina o argumento, embora use textos, nalguns casos de vários autores, criando o que os americanos ou a malta da indústria do têxtil que faz acolchoados chamariam patchworks. Oliveira combinava, e às vezes, genialmente, retalhos de várias origens. Mas já lá vamos.

É muito variado o valor literário, intelectual ou cultural que possamos atribuir aos escritores portugueses que Oliveira assaltou e adaptou. O Padre António Vieira, Camilo, Régio e Agustina estão entre os maiores e são talvez aqueles com os quais Oliveira se funde mais apaixonadamente. E há ainda o encontro tardio com o Eça da Singularidades de uma Rapariga Loira, que a mim me parece mais um desencontro, e com o Raúl Brandão de A Sombra e o Gebo.

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Não menosprezemos, no entanto, os autores menores. Há uma categoria, a que, por serem sanguíneos e cruéis, eu chamaria os admiráveis filmes trogloditas de Manoel de Oliveira, filmes que nascem do casamento de Oliveira com autores secundários, caso dos Canibais, de Álvaro Carvalhal, que eu adoro, ou essa obra-prima, O Passado e o Presente, do trágico-cómico Vicente Sanches, para não falar do campeão português do teatro do absurdo que foi Prista Monteiro, a que Oliveira roubou A Caixa, filme que nos meus tempos de bandidagem e pirataria exibi na SIC, em horário nobre, liderando audiências para espanto e vénia do meu caro amigo Francisco Balsemão.

Aliás, e voltando à minha designação de admiráveis filmes trogloditas, deixem-me dizer que é na Francisca, adaptação da Fanny Owen de Agustina, que a crueldade encontra o seu melhor teatro, nessa cena em que José Augusto segura na mão o sangrento coração da amada. Nesse filme tão obcecado com a virgindade, esse velho desporto português por excelência, e tal como Oliveira fez questão em sublinhar, com a amada morta, o que o apaixonado José Augusto guarda não é o tão discutido hímen, mas sim o coração, o mais romântico dos símbolos. De todos os filmes que vi de Manoel de Oliveira, e não vi todos os que ele filmou na vertiginosa década de produção cinematográfica que foi a sua última década de vida, para estes olhos que a terra há-de esmifrar, Francisca será sempre a obra-prima dele.

Estas escolhas são sempre discutíveis, e se a faço é porque também Oliveira tinha uma hierarquia. Na sua relação fílmica com a cultura portuguesa, Oliveira fez escolhas. Ignorou Jorge de Sena, nada o aproximou da poesia de um Herberto Helder, não caiu na tentação de um Saramago, nem mesmo, apesar da Guerra Colonial, visitou o António Lobo Antunes. Como se a contemporaneidade, a discussão estética moderna, estivesse nos antípodas dos interesses e gostos que lhe eram vitais. E dos seus quatro autores-fetiches, Régio, Agustina, Camilo Castelo Branco e o luso-brasileiro Padre Vieira, se seguirmos o muito objectivo método quantitativo, arrisco dizer que, ainda mais do que José Régio, Agustina foi a sua mais-do-que-tudo.

Vejamos.Oliveira visitou, homenageou, girou à volta de Régio, pelo menos seis vezes, a começar, indirectamente, pelas Pinturas de Meu Irmão Júlio; na prodigiosa Benilde ou a Virgem Mãe; dedicou à memória de Régio Le Soulier de Satin; atacou Régio com estética francesa em O Meu Caso; citou-o em A Divina Comédia; fez, por fim, da peça de Régio, El-Rei Dom Sebastião, o seu Quinto Império.

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Já com Agustina, e de uma forma que me parece mais substantiva, a história da nossa cultura de quatro décadas há-de registar sete tremores de terra ditados pelo choque dos mais gentis e divertidos titãs que conheci em toda a minha vida, o meu amigo Manoel, que, sempre que vinha à Cinemateca, só queria catrapiscar a minha mulher com o pretexto de mandar um apertado abraço para mim – «dê lá um abraço ao Manuel Fonseca e ele que não me dê bolas pretas» –, e a minha querida autora Agustina, que numa emergência, e com o seu sonoro consentimento, tive de ajudar, segurando-a intempestivamente pelas assertivas pernas, num episódio que, lamento muito, não é desta história e por isso não contarei.

Eis os sete choques dos titãs Agustina e Manoel: Francisca, o mais belo dos mais belos dos filmes, baseado no romance Fanny Owen; os diálogos que Agustina escreveu para o secreto Visita ou Memórias e Confissões; Vale Abrãao, que eu nem sei se é mais de um ou mais de outro; O Convento, bizarra ideia original dessa senhora que mora na Calçada do Gólgota, que o senhor da casa da Vilarinha desenvolveu e que ela transformou num novo tipo de romance, o romance a posteriori, a que chamou As Terras do Risco; os diálogos de Party, que ficam tão bem na boca de Michel Piccoli; a benfazeja usurpação desse curtíssimo A Mãe de um Rio, de Agustina, no filme Inquietude; e esse último e agónico encontro em Espelho Mágico, título de Oliveira que, a meu ver, não tem a força do formidável A Alma dos Ricos, título de Agustina.

Dezanove adaptações de grandes e pequenos autores, seis diálogos com Régio, sete virginais idílios com Agustina, são o suficiente para atestar Manoel como cliente da literatura portuguesa. Não o é menos da nossa História. Ora vejam: Soulier de Satin é uma reflexão sobre o destino histórico do Portugal renascentista. O Non, a que tanto resisto e que inconciliavelmente discuti com Oliveira, numa noite de Maio, para cima e para baixo, entre o Carlton e o Majestic, na Croisette, em Cannes, os franceses espantados a ver dois malucos a berrar amavelmente, enquanto a Isabel Branco, responsável pelo guarda-roupa e irmã do afamado produtor, tentava arranjar o melhor ângulo para me enfiar uma estampilha que me fizesse voar os óculos, esse Non é uma reflexão sobre a Guerra Colonial, sobre o 25 de Abril e é um périplo pela nossa história, a cavalo por Viriato, Afonso Henriques, D. Afonso V e a batalha de Toro, os Descobrimentos, Alcácer Quibir, enfim por alguns vencidos da nossa  História. E eu disse, a cavalo, e há dias o meu querido amigo Tó Costa, o António M. Costa, que viveu praticamente como filho adoptivo do Manoel neste século XXI, lembrou-me que os tão poucos cavalos, de que eu me queixava em certas cenas, se ficaram a dever à peste equina que nesse ano avassalou Portugal e interditou a circulação dos magníficos animais, e que mesmo assim só houve cavalos porque o produtor Paulo Branco, com os ardis e talentos de um Ulisses, arranjou modos de os traficar, fintando as brigadas veterinárias, a lei, a GNR e o diabo a quatro.

E falando ainda do confronto e invocação do cinema de Oliveira com momentos da nossa história, lembro, n’ O Dia do Desespero, o suicídio de Camilo, que estranhamente vi em Sevilha, na inauguração da Expo que lá houve antes de termos a nossa em Lisboa. E lembro, na Palavra e Utopia, a vida e as palavras do Padre António Vieira, a sua expulsão do Brasil, o ataque do Santo Ofício, o caldo messiânico. Tudo retomado no Quinto Império, invocando o mito camoniano e de Vieira da missão divina de Portugal, o nosso sebastianismo messiânico por cumprir. De tudo isto há ainda ecos no Cristóvão Colombo – O Enigma, revisitação das teses que sustentam a origem portuguesa de Colombo.

Quero, antes de terminar, e agora que já fiz o elenco da presença da Históira em Oliveira, dizer três coisas. A esta portugalidade, a esta veia identitária que eu aqui sublinhei, Manoel de Oliveira abriu várias vezes parêntesis. Há um momento, na filmografia de Oliveira, em que esse mundo da cidade do Porto, esse mundo da escola da filosofia portuguesa, de Pascoaes e de Régio, é profundamente abalado. Le Soulier de Satin, adaptação da obra de Paul Claudel, quebra o paradigma estético, de virgindade, de crueldade, de um romantismo encantado com a morte e com os amores frustrados que era a obra anterior de Oliveira.

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Começa aqui um novo discurso e uma nova prática. Ou, para nos adequarmos, às raízes do paradigma que vai torrencialmente arrastar Oliveira, uma nova teoria e uma nova praxis. Com Soulier arranca uma aventura estética que é estranha ao pensamento e à filosofia do primeiro Oliveira. Toda esta ideia do cinema como reprodução audiovisual da realidade, do cinema como fixação do teatro, a fixidez da câmara, a redução da montagem, com os longos planos fixos, são elementos de uma “estética francesa”. Não sei se Oliveira aceitaria designá-la assim. Não sei se Jacques Parsi, que passou a ser seu regularíssimo colaborador, a influenciou. Sei que, contou-me o Tó Costa, Oliveira era também, a partir de certa altura, leitor de filósofos da arte, tão heterodoxos e herméticos como Jean-François Lyotard e Gilles Deleuze.

Juntamente com Soulier, Mon Cas, com as repetições, com a distorção cromática – a preto e branco e a cores – e com a distorção da velocidade – mudo e sonoro, acelerado e lento, é outro dos expoentes dessa revolução estética, que, de uma forma mais ou menos intensa haverá reflexos no Non ou a Vã Glória de Mandar e nos filmes que se seguem.

E eis a segunda coisa que quero dizer. Será que Oliveira adoptou este paradigma, para seguir, acima de tudo, a lição de Roberto Rossellini, lição do pós-guerra que ensina ser essencial fazer filmes depressa e a bom preço, mesmo que seja com câmaras a cair da tripeça, com restos de película e com não-actores? No final do século XX, essa ideia da câmara imóvel, da representação teatral, longos planos fixos, não terão sido a condição para que Oliveira tivesse filmado praticamente uma longa metragem por ano contra as seis que fizera nos 40 anos anteriores?

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E falta-me dizer a terceira coisa. O Manoel declarou, e eu levo-o a sério, que filmava para lutar contra o aborrecimento. Caso contrário, morreria. O Manoel, acima de tudo, ainda mais do que Rossellini, tinha de filmar. O João César Monteiro disse-me um dia que o Rossellini não queria ou não precisava de fazer filmes que fossem bons filmes. Manoel de Oliveira talvez se tenha servido de uma estética que acima de tudo lhe permitia fazer filmes, sem precisar necessariamente que fossem bons filmes, desde que tivessem a verdade que ele queria passar, por mais estranha e anacrónica que fosse essa verdade.

E aqui, tenho de voltar à ironia que invoquei no começo desta conversa. O que me leva a defender uma relação, que não é, nem conjugal, nem perversa, entre Oliveira e Agustina, é a sua comum meninice. Agustina e Manoel são daqueles adultos que conservam uma criança dentro de si. Gostam mais da vida do que da arte, mas precisam da arte para sentirem plenamente a sua vida.

Fazer filmes permitiu a Oliveira ser uma criança permanente. Foi esse o património que deixou em herança à cultura portuguesa. A tetralogia dos amores frustrados, a virgindade de Benilde e de Francisca, o amor da protagonista de O Passado e o Presente aos maridos mortos e a repugnância pelos maridos vivos, a obsessão pela aparição de Nossa Senhora da Leonor Silveira em Espelho Mágico, os mortos que abrem os olhos como tão bem os abre a Pilar López de Ayala de O Estranho Caso de Angélica, a grande surpresa de Leonor Silveira quando vê, pedaço a pedaço despido, o corpo desconjuntado de Luis Miguel Cintra, em Os Canibais são exemplos da ironia e da vivacidade de um Manoel de Oliveira eternamente infantil. É assim, infantil, que lembro o Manoel, às seis da manhã, depois de uma noite sem dormir, e é assim, quase infantis, que quero lembrar os melhores dos seus filmes. Deixemos vir a nós as criancinhas!

 

Manoel de Oliveira

Estou aqui, ata não desata, para ir a correr direitinho à Cinemateca. Pediram-me que fosse hoje lá falar. O tema é o senhor Manoel de Oliveira. Conhecê-lo foi uma das bênçãos da minha vida. Tinha graça, imensa, e nunca foi velho, por sempre ter sido tão menino. É isso que vou lá dizer, às 18:30.
Onde fica a Cinemateca? Por amor da santa, fica na rua Barata Salgueiro, nº 39. Ora vejam quem vai também falar. É boa companhia. E venham que esta é a última das três conversas que integraram este ciclo.

cinemateca

CONVERSAS EM TORNO DA OBRA DE MANOEL DE OLIVEIRA
MANOEL DE OLIVEIRA E PORTUGAL – A relação com a História como tropo da relação com o presente. Como é que Manoel de Oliveira dialogou com o país? O que é a sua verdadeira contribuição para a cultura portuguesa?

Com a presença de António Preto, Manuel S. Fonseca e Augusto Seabra