O meu reino por uma galinha

Crónica publicada no Jornal de Negócios
na coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo

galinha

O meu reino por uma galinha

Levantou-se o mundo inteiro contra as galinhas de Ernie Hausen. Mesmo eu, nas galinhas depenadas de Ernie só vejo, horrorizado, os meus pintainhos. E nem sei bem se começo pelo Wisconsin que viu nascer Ernie, se pela Luanda colonial que fazia a alegria dos pintos e dos quá-quás amarelinhos que minha mãe e meu pai criavam numa capoeira multicultural em que as galinhas conviviam com patos e patas, um ganso, mesmo alguns reservados e fugidios coelhos. Também tivemos um macaco, mas esse não é desta história.

Do Wisconsin, sabia que já lá dera aulas o professor e poeta Jorge de Sena, cujos “Exorcismos” e o erótico “O Físico Prodigioso” ofereceram tanto valor calórico à minha adolescência como os ovos dessa capoeira que, acabadinhos de pôr pelas esforçadas galinhas, eu furava de um lado e de outro com um alfinete, e chupava como se estivesse para acabar o mundo ou extinguir-se o cosmos, deliciando-me com a cruíssima clara e gema, logo voltando a pôr a intacta e agora oca casca no berço de postura da ofendida poedeira.

E deixem-me sair da capoeira de Luanda para o ar livre de Spring Hill, amena comunidade da Florida. Estava, nesse dia de 1995, como sempre está na Florida, um tempo de bermudas, shorts, tops ligeiros, bons para a livre expansão dessa carne jovem perante a qual toda a transcendência estremece e mesmo a virtude de um Josemaría Escrivá falece. Mas não vos quero enganar, temos problemas na rua, a multidão de Spring Hill era tudo menos afrodisíaca. Gritava, ululava, erguia punhos, como só a multidão militante americana é capaz.

A multidão de Spring Hill de 1995 era pelos direitos dos bichos de capoeira. Queria acabar com o Campeonato Mundial de Depenagem de Galinhas, no qual, há 30 anos, os competidores se esforçavam por derrubar a imbatível herança de Ernie Hausen, herói desta crónica.

O talento humano é poliédrico: tem mais facetas do que os olhos de uma mosca. Há quem, ultrajantemente favorecido por Deus, só tenha talento para o sexo, a Einstein foi dada a sua humilde inteligência, a Donald Trump esse cabelo camaleónico, que vai do castanho ligeiro ao escuro marrom, culminando no mais recente louro suave, a bem dizer, um dourado a faiscar de verde. Ora, a Ernie Hausen, Deus pôs-lhe o ouro nas mãos. Fazia com elas o que queria. E exagero: Ernie, que se saiba, só fez com elas uma coisa, depenar galinhas.

Nascido em Fort Atkinson, de que seria o único cidadão a atingir os cumes da fama, Ernie entrou a depenar galinhas no Campeonato do Mundo de 1926 e em seis segundos, ainda nem se tinha acendido um fósforo, a galinha estava mais nua do que Deus a mandara ao mundo. O Madison Square Garden veio abaixo, apoteótico. Ora, a paixão que T. S. Eliot tinha pela poesia ou Caravaggio pela pintura, tinha-a Ernie pela sua arte: a 15 de Janeiro de 1939, desafiado para um duelo de depenagem por dois miseráveis arrivistas, Ernie depena uma galinha em 3,5 segundos, o que nem como rapidinha conta, recorde que nenhum humano ou robot até hoje arrebatou.

Picasso desenhava nem que fosse num guardanapo? Pessoa escreveu em pé, debruçado sobre uma velha cómoda, os seus heteronímicos versos? Ah, meus amigos, Ernie tanto depenava galinhas de olhos vendados como de mãos enfiadas em luvas de um só dedo. Depenava-as até com os cotovelos. Num dia, em menos de oito horas, depenou 1472 infelizes galináceos. Cometimentos gloriosos, que a humana, demasiado humana, multidão de Spring Hill, campeã dos direitos das galinhas com que se deita, aboliu e mergulhou num depenado esquecimento.

Crónica publicada no Jornal de Negócios

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