Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Morreu hoje o homem que raptava mulheres. Raptou sete num dos mais musculados musicais do cinema clássico americano.
Stanley Donen, coreógrafo e realizador, é um nome que a história do cinema tende a varrer para debaixo do genial tapete chamado Gene Kelly. Juntos conceberam e realizaram “On the Town”, “Singin’ in the Rain” e “It’s Always Fair Weather”, eufórica e exaltante trilogia em que a vozes e pés se exprime a inteligência e a emoção humanas. São filmes inimagináveis sem a presença atlética, saudável, sorridente, genial, de Gene Kelly. Mas a realização de Donen existe, está lá.
Sozinho, Donen realizou as “Sete Noivas para Sete Irmãos” de que estava a falar quando comecei a escrever, antes de me atrapalhar e meter os pés pelas mãos. Sozinho, já sem Kelly, Stanley Donen repetiu a genialidade dos números musicais, a mesma euforia, um contentamento que irradia dos corpos, a mesma forma de pés, saltos, quedas, objectos, braços contarem melhor e mais literalmente uma história do que se fosse contada por palavras. Vê-se “Seven Brides for Seven Brothers” e vê-se que Donen está lá, “he shows up!”
Quando lhe deram um Oscar honorário, Donen subiu ao palco. Mal discursou e fez, ainda assim, um dos melhores “speeches” que em cima de um palco se pode fazer. Por uma razão simples: este homem sabia o que era a felicidade. Raptava mulheres e sabia filmar a felicidade.
Tenho razão, não tenho? As saudades que vamos ter de Stanley Donen.
Há 65 anos não bebia café. Bebia, sim, o leite do peito de minha mãe. Vi, a cada dia, o mundo ficar melhor. Hoje, 4ª feira de bica curta, sei que este é o melhor dos mundos em que já vivi.
É verdade, 10% da população vive em extrema pobreza: mas havia 37% há três décadas! Milhões de crianças sobrevivem, agora, à voraz boca de diabo da mortalidade infantil. Vivemos mais tempo e há telemóveis onde antes a comunicação era zero. Morre-se menos de morte violenta. Este mundo melhor ganhou-o a humanidade com ciência, tecnologia e trabalho. Agita-se muito o estandarte revolucionário, mas uma reforma dá dez a zero a qualquer revolução.
Tomei a bica curta. Ia ao cinema e precavi-me, que a sala escura convida ao sono. Vi “O Correio da Droga”, de Clint Eastwood, actor e realizador a um passo dos 89 anos. Fez já uns cinco filmes a roçar a perfeição.
Se estão prontos para experiências fortes vejam “O Correio da Droga”. O filme desliza suave e irónico como a carrinha de Eastwood pelas estradas da América. Mas, a pouco e pouco, a morte, a consciência da morte, invade-nos. Saí da sala com a alma ao colo. Tenho 65 anos, sei que vou morrer, mas foi a primeira vez que experimentei morrer um bocadinho. Morrer é assim, tristeza tão bonita, um esplendor que nos faz chorar.
O beijo de dois homens sacudiu a Terra. Francisco, papa, e Ahmed al-Tayeb, grande imã do Egipto, beijaram-se. Lembrei-me dos beijos que dava ao meu pai. Descia um silencioso sossego sobre a casa, quando o beijava – muito menos do que, agora, gostaria de o ter beijado.
Será o beijo do Papa e do Imã uma efémera bica curta? Ou reconcilia duas fés que, de tão próximas, tanto se odeiam? No Corão, o nome de Jesus é dito 25 vezes, mais do que o de Maomé, só referido quatro. E Maria é a única mulher a quem o livro do Islão chama pelo nome, proclamando-a pura, rainha dos santos.
Pode este beijo, no futuro, parar a degola dos inocentes?
Nenhum homem heterossexual voltará a ficar sozinho. A indústria sextech está imparável. Esqueçam lá as bonecas insufláveis: a tecnologia já oferece parceiros sexuais humanóides.
Rostos perfeitos, curvas de valha-me nosso senhor. Para não falar de competências: sexo oral com base em 16 técnicas escolhidas (à mão?) do estudo dos melhores 1200 vídeos da especialidade. Há até uma robot dotada da louvável fantasia que é o ponto G. Gemem. Bebem a bica curta. Também conversam. Tão compreensivas, tão disponíveis, há casos de paixão assolapada de homens pela sua robot sexual. Nenhum homem voltará a estar sozinho na sua imensa solidão.
Não se dá o devido valor ao arrepio na espinha, forma popular de designar o orgasmo estético. Recuemos aos anos 60 e visitemos o Fogg Museum, em Harvard. Uma tela de Matisse prende os nossos olhos. Uma chispa de prazer corre-nos pela medula com a velocidade e o estonteante drible do benfiquista Rafa: é só uma tela, um rosto de mulher, e é como se uma colher de paraíso se derramasse na ilha triste que é qualquer coração. Sai-nos boca fora, com dois pontos de exclamação, esta alegria infantil: que bonito, oh, que bonito.
Porém, uma semana depois, os jornais dizem que o quadro é falso. Pode o arrepio na espinha ser retráctil? Pode o benfiquista Rafa desfazer os dribles e correr veloz às arrecuas?
Foi este o pão e manteiga dos dias de Elmyr de Hory, herói do filme “F de Fraude”, de Orson Welles”. Antes da manteiga, já Elmyr comera o pão que o diabo amassou. Até pode ter nascido num estábulo, na remota Hungria, sabe-se lá. O que interessa é que Elmyr substituiu essa risível realidade por ascendência aristocrática e um pai embaixador austro-húngaro. Mentia e dava gosto acreditar nele. Foi uma sopa de mentiras que deu gasolina à fuga do campo de concentração nazi onde o vazaram, por ser judeu e homossexual. Meia-verdade nazi: de judeu nada tinha, homossexual era sempre que podia.
Lixe-se a verdade e falemos do amor. Em Paris, Elmyr estudou belas artes com o cubista Fernand Léger. Quando fecho os olhos e vou à Paris dos anos 40, vejo Elmyr a vender os seus quadros, na Place du Tertre, o Sacré Coeur tão perto. Mas vejo também que Elmyr está num desassossego que poria apopléctico o Bernardo Soares de Fernando Pessoa. Lembram-se daquela coisa das ideias inatas? Paris despertou e pôs em brasa a inata vontade de luxo e volúpia de Elmyr: festas, caviar, o efervescente champagne, todo o frufru, seda ou veludo, que o corpinho humano pede. A vender os seus próprios quadros, está bem, abelha, nunca Elmyr lá chegaria.
Um dia, Elmyr desenha à Picasso, um Picasso original. Num silêncio interrogativo, põe-o na mão amiga de um art dealer inglês, que logo sobe ao céu: um Picasso, diz, e oferece uma pequena fortuna. Foi o dia da Criação para a alma de Elmyr. Pintou Picassos, a seguir Matisses, Modiglianis, Renoirs. Sempre originais. Primeiro conquistou Paris, depois Manhattan. O Texas petrolífero por fim.
Pequeno sobressalto a roçar o opróbrio: um galerista de Los Angeles, desconfiado do portfólio de originais de Elmyr, grita-lhe «a porta da rua é a serventia da casa». Na rua, humilde, Elmyr murmura: «Mas acha que os quadros não são bons?» Não são bons, são obras-primas de falsificação, festa dos olhos e dos sentidos, que o Fogg Museum não só compra como expõe. E foi aqui que o busílis chegou dos olhos ao nariz: um, dois, três especialistas viraram do avesso um Matisse de Elmyr. Verdadeiro nas duas primeiras avaliações, que maravilha; falso, à terceira, que vergonha. Já foste Elmyr: era arte ao meio-dia; é lixo à meia-noite.
No Texas, Algur H. Meadows, magnata do petróleo, fica a saber que tem a maior colecção do mundo de falsificações de Degas, Bonnard, Matisses e Picassos. Numa raiva inestética, põe o FBI à caça de Elmyr. Para escapar, o nosso herói esconde-se na Espanha de Franco e trata a clandestinidade a pata negra e botellas de Vega Sicilia. Mas o ditador Franco vai extraditá-lo – fascista! Com o sossego da uma mão cheia de comprimidos, Elmyr deixa este mundo legalista: finta a prisão e vai direito ao céu dizer a Picasso que pintava tão bem como ele.
O cineasta Godard está para o cinema como Maradona para o futebol. Maradona limpava sete ingleses em fintas e reviangas e era golo. Ou, descarada batota, fazia golo com a mão de Deus. Godard foi à televisão, ofereceram-lhe livros e ele só quis um de economia. Disse: este é que conta. Até entornei a bica curta: sem economia a democracia é uma batota.
Qual é o PIB português? Não sei. Nem sei qual é a dívida pública e mal tenho ideia dos impostos que paga uma empresa sobre o salário de um trabalhador. Não sabemos e vamos a jogo, votar. Não é democracia, é alucinação: como se Maradona viesse a jogo a pensar que a bola era quadrada.
Por razões várias que, mais do que não virem ao caso, na verdade não consigo elencar, explicar ou descortinar, deixei de vir aqui, à Página Negra.
Estou em apagão. Vou voltar devagarinho, sempre que possa. Para começar, regressa, em nova fórmula, a Bica Curta, e na fórmula já estabelecida, as Vidas em Perigo, Vidas sem Castigo, bem como Os Meus Kambas.
Digamos que fui ali e volto logo que os deuses mandem.