
Ou bem que transformamos a nostalgia numa arte ou então a nostalgia é uma emoção morta.

A Página Negra de Manuel S. Fonseca
Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!

Ou bem que transformamos a nostalgia numa arte ou então a nostalgia é uma emoção morta.


O infeliz burguês que sou, humilhado por só ter conseguido comer caviar digno do nome em recepções da ex-Embaixada da URSS, começa a ter esperança no Bloco de Esquerda. A cisão e carta dos 26 ardentes revolucionários atira-me para os mortaguianos braços de Catarina, agora acusados de terem suavidade burguesa. O BE, interpreto eu, é acusado de já não degolar burgueses e só querer carregar-lhe nos impostos e na bica curta. É um passo. É bem melhor que o BE queira mais acabar com os pobres, como queria o social-democrata Olof Palm, do que acabar com os ricos, como ao sueco disse o nosso lendário Otelo.
Catarina, o paciente PS espera-a.
Bica Curta publicada no CM

Ainda os genes do nosso Marcelo e do primeiro Costa peregrinavam pelos seus ancestrais e já Félix Faure era presidente da França. Exaurido pela governação, Félix, em vez de relaxar com uma bica curta, estendia-se ao comprido, com uma jovem amante, Margarite. Faz agora 120 anos, Marguerite veio ao palácio e, botão a botão, soltou a virilidade dos 58 anos do presidente, mimando-o com o acto a que o povo, sensível, dá o nome de uma jóia de peito. A meio, Félix estremece e grita “Sufoco”. E sufocou mesmo, exalando o último suspiro, calças caídas, para comoção da França.
Confesso uma gota de nostalgia face à velha forma de fazer política.

Bica Curta publicada no CM

Páro. Um palmo de língua de fora. Na minha idade, as caminhadas rápidas de fim de tarde deixam-me sem fôlego, embora, a ter de morrer, o Père-Lachaise não fosse um local destituído de poética ironia. Estou, agora, junto ao n° 637 P de 1884. A campa pertence à 41ª divisão e está na 10ª linha, mesmo em frente à 40ª divisão. Ou melhor, é a primeira tumba a partir da 42ª divisão. A discreta campa guarda silêncio. Não diz nada sobre a beleza da mulher que nela está enterrada. Ainda menos sobre a aura romanesca que lhe re-desenhou a vida.
Esta manhã, a inspirar devagarinho o ainda fresco ar de Junho, desci as escadas do Grand Palais, as mesmas escadas que Henri (ou seria já Alain?) descia quando a viu. Foi também em Junho, mas de 1905. Henri começava a deixar de odiar Paris com ódio de camponês e viera ao “Salon de la Nationale”, à exposição. Descia os degraus a dois e dois, com a despreocupação dos 18 anos. Primeiro foi a elegância, alta, loira, a surpreendê-lo. Logo a seguir os azulíssimos olhos que foi impossível, depois, descrever na carta que enviou a Jacques Rancière, o seu melhor amigo. O olhar dele parou no dela, o dela no dele.
Num olhar falha-se ou cumpre-se uma vida. O dia de Henri, o que tinha de fazer, se havia obrigações, tudo se dissolveu no olhar da jovem mulher que outra mulher mais velha acompanhava. Seguiu-as, Cour-de-la-Reine primeiro, um bateau mouche a seguir e, por fim, o boulevard St. Germain onde as viu entrar no nº 12, quase na esquina com a rue du Cardinal Lemoine.
O que lhe diria Henri se tivesse podido falar com ela? Que, se queria ser escritor, no azul cândido dos olhos dela, plus simple et plus doux qu’une main de femme la nuit, se renovaram e confirmaram vontade e vocação? Durante os dez dias seguintes, vigilante, caminhando entre o Sena e St. Germain, esperou poder vê-la e falar-lhe. A 10 de Junho, vislumbra-a atrás duma cortina que se levanta. Julga que ela o viu também. Tem mesmo a certeza, contará ao amigo Jacques, a certeza de ela lhe ter fugazmente sorrido.
A 11 de junho ele continua à porta dela. Terá passado ali a noite? E ela sai de casa, livro de devoção na mão, para a missa de Pentecostes. Henri aproxima-se e, pouco mais de um sussurro, diz-lhe: Vous êtes belle… Belíssima, rosto redondo, boca tão bem traçada, olhos rasgados, nariz perfeito. Ela sabe que é bela e verdades destas não magoam ninguém.
Insiste, no fim da missa, e ela deixa-o acompanhá-la. Caminham lado a lado. Chamo-me Henri e terão conversado do sonho dele ser escritor, talvez de como pareciam frias as águas do Sena. Cruzavam a ponte da Concórdia e ele perguntou-lhe o nome. Os olhos azuis dela atravessaram-lhe a alma e pleine de noblesse et de confiance elle a dit fièrement: Mon nom ? je suis mademoiselle… Chamava-se Yvonne Marie Elise Toussaint de Quiévrecourt e, na ponte dos Inválidos pediu-lhe que, a partir dali já não a seguisse.
Henri está parado e, lá à frente, ela volta-se primeira e segunda vez. Para o ver outra vez? Para, nessa segunda vez em que tão demoradamente se volta, o ver pela última vez? Yvonne partia no dia seguinte. Para a província. Henri voltou, mas já nenhuma cortina balouçava na janela fechada. Não é um quer lá saber, mas pouco importa. Tinha a imagem, imagem dela, pequenina imagem de cristal, glass menagerie, que via sempre, estivessem abertos ou fechado os seus olhos.
Voltou ao Grand Palais um ano depois do primeiro encontro. Para a encontrar? E mente ao amigo Jacques: Elle n’est pas venue. D’ailleurs fut-elle venue, qu’elle n’aurait pas été la même. Mentes, Henri. É a mesma sim, mesmo que ela mude, que ela mudasse, a imagem de cristal dela já nunca mudará na tua cabeça. Será sempre obsessivamente a mesma e tu, meu caro Henri, bem devias, melhor do que ninguém, sabê-lo. Vence a timidez e fala então com a porteira do número 12, St. Germain. Ela casou. Partira para casar um casamento que a família arranjara.
Sento-me no salão do Lutetia, boulevard Raspail. Um chá, digo, enquanto revejo as minhas notas. Henri foi para Londres e as raparigas inglesas eram tão fáceis: nunca lhe pediam que não as acompanhasse. Voltou a Paris e foi jornalista. Literário, mas jornalista, até que o filho de um presidente, Claude Casimir-Perier, o contratou como secretário. Vivera uma relação semi-conjugal turbulenta, antes. Uma modista calorosa e emocional. Vai viver outra com a incandescente mulher de Casimir, uma actriz de quem se torna amante.
Ama-a? Henri amou a modista e amou a amante. Na cama, com galhardia e as boas más maneiras que a coisa exige. Mas há um Henri que não deixa de amar, e só terá amado, Yvonne. A esse Henri adolescente, chamou ele Alain, o autor de “Le Grand Meaulnes”, o romance onde, à maneira de Stendahal, ele “cristalizou” o amor do jovem de 18 anos fulminado por um azulíssimo olhar na escadaria do Grand Palais, na manhã de 1 de Junho, dia da Ascensão.
Henri nunca recalcou Alain. E de vez em quando deixava o adolescente voltar. À la recherche de Yvonne. Desse tempo nunca perdido. E voltou a encontrá-la. Casada ainda e com dois filhos. Henri deu-lhe uma das cartas que lhe escrevera. Ela, as mãos a arder, devolveu-lha logo. E ele deixa-a de vez para regressar ao corpo da actriz amante.
Mandar-lhe-á, no ano seguinte, a Yvonne e ao marido, o romance em que outra Yvonne, Yvonne de Galais, é o amor idealizado, uma cantiga de amigo e de amor. Assinou-o como Alain-Fournier para que, no século XXI o “Monde” lhe chamasse um dos 100 livros do século. Foi o único livro de Henri, ou seja, de Alain-Fournier. Tenente, morreria no ano seguinte, a combater os alemães, em Verdun. O corpo só foi descoberto, numa vala comum, 77 anos depois. Já decidi, hoje vou jantar ao Lipp e amanhã apanho o comboio para Verdun.

Para esta varanda, que felizmente não é no Minnesota, nem no Wisconsin, convido os meus kambas. Amigos de longa ou recente data.
Onésimo Teotónio de Almeida, escritor e professor, pessoano admirável, autor de livros desassombrados, senhor de uma prosa fluente e de elegante coloquialidade, tem-me dado o privilégio de trocar comigo algumas gentilezas, muita simpatia. Acedeu a deixar-me publicar este texto fabulosamente gélido. Não podia, e é isso que quero dizer, ser mais quente.

Nota bárbara sobre frio bárbaro
Onésimo Teotónio de Almeida
2 de Fevereiro
Tem sido uma invasão de emails na minha caixa de correio de amigos a indagarem se a Leonor e eu estamos sobrevivendo às brutais temperaturas que a televisão propaga como ocorrendo por estas bandas. O meu silêncio de uma semana sem remeter aos amigos as habituais “notas bárbaras” por dificuldades técnicas no envio de fotos não ajudou o caso. Alguns devem mesmo ter pensado que morri soterrado no gelo.
Aqui por Rhode Island, os dias têm sido esplendorosos de sol e céu azul. O temómetro desceu até – 15º C, nada de matar nem que já não tivesse ocorrido no passado. Sobretudo nada comparável aos -50ºC de Minnesota, Wisconsin, Chicago… Aí, sim, tudo fiou mais fino.
Salta-me à mente uma história por mim não presenciada, mas ouvida na rádio. Num Inverno de há anos, a Leonor e eu rolávamos de carro por uma estrada do norte da Nova Inglaterra e sintonizávamos uma estação de rádio local. O programa era uma linha aberta de conversa com os ouvintes, a quem o moderador pedia que contassem uma história pessoal, verdadeira, de experiência dura de frio.
Uma mulher entra em linha e narra o seguinte (resumirei porque ela deslindou-a demoradamente, enchendo a narrativa de magníficos pormenores que ajudavam a assegurar-lhe autenticidade). Em enxutas palavras, aqui vai:
Era um first date, a instituição americana de marcar um encontro com um/a namorado/a. Pode ser mesmo o primeiro entre gente que se conheceu por acaso e pretende conhecer-se melhor. Às vezes é um blind date, encontro às cegas entre desconhecidos, agendado por amigos esperançados em que duas pessoas encontrem entre si algo em comum para uma possível relação duradoura. Hoje, tudo isso se faz via serviços na Internet e, portanto, nada alheio a Portugal. Mas fica a introdução para os leitores da velha guarda.
Contava então a moça que fora jantar com um indivíduo num primeiro encontro. Tinha nevado e o frio era gélido. Depois do jantar, a moça, conservadora de costumes e a querer marcar uma posição de seriedade, de alguém que não acreditava em amor à primeira vista, pedira ao comparsa para deixá-la em casa. Ele, sem evidenciar qualquer sinal de contrariado, respeitou-lhe o desejo e rumou a cumprir-lhe a vontade. A alturas tantas, porém, a jovem foi assaltada por uma vontade enorme de fazer um xixi. Atravessavam numa estrada no meio de uma floresta sem sítio onde parar a não ser mesmo no meio do mato. A urgência apertava tão severamente que teve de ser mesmo ali. Noite cerrada e sem luzes, não haveria problema.
A jovem saiu do carro, contudo a neve no chão era tão alta que ela se enterrava e não teve outro remédio senão aliviar-se mesmo junto ao carro, apenas com a porta a servir de biombo. Entretanto, sem querer, encostou a nádega ao carro e – quem já experimentou temperaturas baixas a valer sabe o que acontece ao corpo se toca metal gelado – ficou colada. Na tentativa de se descolar, encostou-se ainda mais e… mais pregada ficou. Acometida de terror, gritou a pedir socorro. O seu date saltou fora do carro a averiguar o que se passava e deparou com ela de cócoras, de pernas entulhadas na neve e de rabo ao léu encostado à porta do carro. Tentar desviá-la a frio da superfície metálica de certeza resultaria num desastroso arrancar-lhe de pele que ficaria presa ao carro, deixando-lhe aberta uma vasta ferida na coxa e traseiro. A única solução era – e quem vive em regiões frígidas sabe disso – lançar água quente sobre a zona colada ao metal. Mas onde ir buscá-la? À mão, ele só poderia recorrer à… sua urina. Hesitou, hesitou mas importava ser célere no agir e explicou então a sua ousada proposta. Em desespero de causa, a moça teve de aceitar. O rapaz abriu a barguilha, tirou fora o dito cujo e, generosamente, regou a nádega da infeliz que, envergonhada, sentiu vontade de se enterrar na neve como a Leonor do “Naufrágio de Sepúlveda” da História Trágico-Marítima se enterrou na areia cobrindo a sua nudez com a cabeleira.
A inventiva solução do moço resultou.
Regressaram ao carro, todavia mantiveram-se num civilizado silêncio durante todo o resto da viagem. O rapaz deixou-a em casa, onde ela se arrumou respirando finalmente de um profundo alívio, mil vezes maior que o sentido depois daquele imparável xixi. E – contava a radiouvinte – nunca mais se viram na vida.


O que eu gosto de estatísticas! Devíamos tomar uma dose de estatística diária, como quem toma a bica logo pela manhã. Hoje, estava a olhar para o meu exausto corpo e a pensar que, com excepção da cirurgia ao apêndice, nem mais um corte. Ainda bem, pensei: não fomos feitos para ser retalhados.
Digo isto, depois de ver a abominável estatística. Quatro milhões e 200 mil seres humanos morrem, em todo o mundo, 30 dias após uma cirurgia. Muito mais do que os mortos de sida, tuberculose e paludismo juntos. Ironia do admirável mundo em que vivemos: não morremos da doença de que já sabemos tudo, o que nos mata é a cura que ainda não dominamos.
Bica Curta, publicada no CM
Comemoram-se ontem os cem anos da criação do Liceu Salvador Correia, liceu de Luanda que fez de mim o homem que sou. O Eurico Neto e o Aníbal Russo deram-me a imensa honra de ser um dos oradores da sessão, que teve lugar em Lisboa. Deixo-vos, na íntegra, o que, do coração consegui dizer.

Olá, boa tarde. Deixem-me começar pelos agradecimentos. Primeiro aos nossos anfitriões, à UCCLA, União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, na pessoa do seu representante, João Laplaine Guimarães: muito obrigado por nos acolherem.
Saúdo os meus companheiros participantes nesta sessão, o Eurico Neto que acabou de falar, o meu tão poético amigo Nicolau Santos e o Justino Pinto de Andrade, a quem faço uma vénia, pelo que ele deu, de corpo e alma aos ideais de independência e de dignidade humana que à ideia de independência devem estar associados.
Agradeço também à Associação dos Antigos Alunos do Liceu, o convite que o Eurico Neto e o Anibal Russo me fizeram, para ser um dos oradores, e que só é explicável pela bondosa amizade com que o Eurico e o Aníbal me brindam. Tentarei não os desiludir e não vos desiludir.
E sobretudo quero, mais do que agradecer, saudar a vossa presença, a presença da malta do Liceu:
Viva a malta do Liceu
Viva a Malta sempre fixe
Quem não pensa como eu
Que se mate ou que se lixe.
Mas vamos começar por onde as coisas devem começar, pelo mais importante, pelas coisas essenciais. O Liceu Salvador Correia é o liceu mais bonito do mundo. Eu sentir-me-ia obrigado a repetir esta afirmação, para vos convencer, se ela tivesse um carácter ideológico ou um grão que fosse de subjectividade. Não é o caso.
Ser o Liceu Salvador Correia o mais bonito do mundo é um facto científico, ditado pelo meu estudo e observação directa de todos os liceus do mundo. Não há nenhum que se lhe compare, que lhe chegue sequer aos calcanhares, sabendo-se ainda por cima, que nem o Liceu, nem Salvador Correia eram lá muito de ter calcanhar de Aquiles.
E agora que já estabelecemos o dado científico de partida, a única e inultrapassável beleza do nosso Liceu, que é a Vénus de Botticelli de todos os liceus, deixem-se ser emotivamente subjectivo.
O Salvador Correia foi o meu liceu. Que eu servi e que tão bem me serviu a mim, por sete anos, os mesmos anos que, ensinou-nos Camões, Jacó serviu a Labão, por amor à serrana bela que era Raquel, a filha de Labão. Também os meus sete anos de Liceu foram sete anos de amor.
Ora, eu só acredito no amor à primeira vista e quando, com dez anos de idade, cheguei aos celestiais portões de ferro da então Brito Godins, caí logo para o lado, a pingar amor. Estava lá em cima o Liceu, aquelas duas grandes alas norte e sul, de braços abertos, a dizerem-me, não tenhas medo, vem, “sê grande”. “Sê grande”, era isso o que a escadaria do Liceu me dizia, logo a mim, tão pequeno, tão cambutinha.
E havia, muitos de vós lembrar-se-ão muito melhor do que eu, havia duas sucessivas escadarias, uma, primeiro, logo a seguir aos portões, a outra mais curta antes das majestosas colunas de entrada.
Essas duas escadarias, cada uma à sua maneira, estavam sempre a dizer-nos, “sobe mais um degrau”, “sobe mais um degrau”.
Tenho a certeza de que muitos de vós estão agora a lembrar-se de ter ouvido essa voz do Liceu, porque o Liceu falava e era polígamo e poliândrico, tanto me amou a mim, como nos amou a todos, rapazes e raparigas, um a um.
Faço um parêntesis para dizer que não pretendo, nem quero fazer, uma análise histórica, política ou sociológica do que foi o papel do Liceu Salvador Correia. Venho falar de uma perspectiva subjectiva e, por isso, tenho de falar um pouco de mim, para se perceber a secreta paixão assolapada que me deu ao ver o Salvador Correia.
Um dia de 1959, o paquete Vera Cruz atracou ao Porto de Luanda e, entre malas e fardos, saí também eu, um miúdo de cinco anos, agarrado às saias da minha mãe. Do porto fui para a minha primeira morada em Luanda, no musseque Sambizanga, numa rua, se assim lhe podemos chamar, de terra vermelha e charcos, rua que ia da Casa Branca e entrava musseque dentro. Era lá que o meu pai tinha já arranjado casa.
Os sociólogos dirão que nos musseques não havia brancos, a não ser os fubeiros. Não é o caso do meu pai e da minha mãe que nunca venderam coisíssima nenhuma a ninguém.
Éramos mesmo e só moradores. Fomos morar para o Sambilas porque foi a casa de tijolo possível, com luz e água, para os recursos paupérrimos que tínhamos. O meu pai tinha então uma motorizada e um bandolim. E foi assim que eu comecei a ser feliz em Angola.
Da mesma forma, frequentei a Escola Primária da Missão de São Paulo, dos padres capuchinhos, em cuja população estudantil eu era então um dos raros miúdos brancos.
Aos oito anos, uns bons meses depois do 4 de Fevereiro de 61, tendo o meio de transporte da família mudado de uma ranhosa motorizada NSU, para uma pujante moto BSA, em segunda ou terceira mão, os meus pais levaram-me para a Vila Alice. Ainda o bairro não era asfaltado e fui morar numa rua em que viriam a ensaiar os Negoleiros do Ritmo, a rua Alberto Correia, onde morava o velho Benje, Pedro Benje, que foi um dos primeiros mortos nos confrontos raciais pós 25 de Abril. Essa rua, vamos já ver, tem muitas ligações ao Salvador Correia.
Se trago isto tudo à colação, é só para situar o miúdo que, em 1963, pequenino, sorridente e tímido, ou sorridente porque tímido, chegou às portas do Salvado Correia, pendurado nos seus calções e numa camisinha terylene branca de manga curta. O miúdo, como se pode ver, era um miúdo branco de família pobre.
A par do brio e da educação que os meus pais beirões me incutiram, o imponente e grandioso Liceu Nacional Salvador Correia foi o que hoje chamamos um “elevador social”, o “meu elevador social”.
O Liceu levou-me ao colo numa aventura de conhecimento, deu-me a conhecer a História e a Geografia, as Ciências Naturais, fortaleceu o meu gosto pela leitura, deu-me um banho de moral, abriu-me o apetite à reflexão e ao pensamento, e acima de tudo abriu-me os olhos à beleza, dando-me um sentido de estética, de equilíbrio e harmonia, que considero o maior legado que trouxe do Liceu.
Por culpa minha, fui o maior desastre a matemática e por culpa dos meus genes, o desenho e o canto coral do liceu mostraram-me que qualquer tentação de seguir carreira artística estava condenada ao mesmo falhanço humilhante porque passou o secretário de estado americano da defesa, Donald Rumsfeld, quando quis publicar poesia.
Mas para vos contar tudo isto, para vos mostrar a minha dívida ao nosso Liceu, deixei-vos ficar pendurados na escadaria. Vamos entrar.

Ainda não passámos pelas portas grandes, ainda não passámos o átrio com a secretaria, nem desembocámos, enfim, no fantástico corpo interior, nesses claustros que, felizmente não eram claustros de santidade, mas sim claustros de vida.

Acho que ninguém tem vocação para santo. Só se vai para santo depois de se falhar a vocação para se ser pelo menos um bom diabinho. E o nosso liceu foi também, pelo menos em parte, o projecto de um “Lúcifer da educação”, Monsenhor Alves da Cunha. Foram muitos e ínvios os caminhos da santidade que criaram o Salvador Correia.
Por falar de claustros, no primeiro dia de aulas, havia uma praxe, fazer-se uma careca de frade a cada caloiro. Como se entrássemos no mosteiro. Ou seja, antes de entrarmos no mosteiro, raparem-nos a careca era o nosso último canto profano, mais gentil do que grosseiro, a nossa macia carmina burana. Depois entrávamos: e o liceu transformava-se num mosteiro do conhecimento, de experiência e de vida, com uma única devoção, a de sermos muito melhores.
Mas era um mosteiro com jacarés. Se bem se lembram, no nosso liceu virado para o Atlântico, apontado a Oeste, havia dois pátios. Quem via um quase via o outro — mas só num, no pátio norte, o da sala dos professores, havia o tanque dos jacarés. E quando digo jacaré, digo mesmo jacaré, espécie crocodiliana de boca grande, olho de cachucho, o bicho que olha de lado.

Os seres humanos comuns, que nunca tiveram a felicidade de pôr um pé no Salvador, não acreditam nisto. E há colegas nossos que já começam a pensar que os jacarés são uma fantasia, uma cena da memória a pregar-nos uma partida. Mas não! Estavam lá, existiram. Há quem diga que era só um, mas eu acho que eram dois, e aí sim, já receio que a memória me esteja a tirar o tapete.
Seja como for, na varanda do primeiro andar sobre esse pátio do jacaré, a uma parva insinuação dos meus 13 ou 14 anos, uma menina de olhos azuis agarrou-me na mão, pôs-ma sobre o já esférico peito dela e disse-me que por mim só nutria sentimentos maternais. Por isto e pelo jacaré bem se vê como o nosso liceu era avançado. E agora, é altura de entrarmos numa das salas de aula.
Bem preparado pela minha professora primária Emília, da escola da Missão de São Paulo de que já vos falei, comecei o liceu no distinto quadro de honra, mas o segundo ciclo, com aquele sobressalto hormonal que dá a volta ao nosso físico de rapazes, somado ao desastre que foi a minha relação com a matemática, mudou tudo.
Ora, eu acho que essa mudança começou num episódio com uma certa figura lendária. Perdoem-me tratá-la assim, e eu sublinho já que o faço com carinho, a figura lendária era a professora Joana Bocarra, a professora Maria de Lurdes.
Vejamos, a professora Joana Bocarra entrou na sala. Levantámo-nos todos, como os preceitos de boa educação nos ensinavam e eu levantei-me também, claro, mas já a esconder-me numa das carteiras do fundo para evitar chamadas ao quadro, como quem foge com o rabo à seringa. A professora Joana lança um olhar de fogo à sala, e abre-se-lhe a temida boca num berro, dedo apontado na minha direcção: “O menino lá atrás porque é que não se levanta”. Ora eu, caramba, já estava tão de pé quanto se podia estar.
A minha fantástica altura foi sempre um motivo de grande animação, a começar pela primeira aula de Religião e Moral, com um padre que tinha acabado de chegar dos Estados Unidos e que nos incitava à igualdade de classe dando o exemplo dos filhos dos generais americanos que nas férias trabalhavam a distribuir jornais ou a vender cachorros quentes. No primeiro dia, olhou para mim e baptizou-me. “Tu és o Pica-Miúdo”, comparando-me com uma célebre figura de Coimbra, o Pica, que andou dez anos ou mais para fazer o curso na Universidade. E fiquei Pica-Miúdo, e depois só Pica, o que me trouxe uma imerecida e injusta fama quando, para se fumar um coche de liamba, se passou a dizer “vai uma pica, meu!”
Mas não foi este padre, que eu julgo chamar-se Fernandes, e que teve passagem efémera nesse meu primeiro ano, o professor que me marcou. Até para fazermos ligação com a minha instabilidade hormonal dos 12 anos, deixem-me falar da professora Mimi. Foi a minha professora de inglês e única professora de inglês que eu tive. A mim marcou-me mais do que a qualquer outro aluno do liceu, porque ela morava na minha rua, que já entretanto se asfaltara e começava, lindamente, a aburguesar-se.
De 1965 a 1968, passei três anos de olhos postos na professora Mimi. Para mim, ela incarnava tudo o que de moderno havia nesse tempo. Melhor, incarnava o que que ainda nem havia nesse tempo. Só mais tarde, quando vi o filme Blow-up, de Michelangelo Antonioni, é que percebi que eu tinha estado de olhos postos, durante três anos, na esplêndida linha de pernas que marcou a swinging London de 68, a linha de pernas de modelos como a Jane Birkini.
A professora Mimi, minha vizinha de rua, guiava um Triumph azul descapotável e a sua chegada ao liceu era aguardada e saudada com o mesmo bruá de contentamento e espanto estético que, hoje, o turista dedica à Acrópole ou ao Louvre, em Paris.
Devo à professora Mimi o gosto pelo inglês e, sobretudo, pelo cosmopolitismo, de que sou um convicto adepto.
Na minha rua, depois da professora Mimi se casar – e eu, de coração aflito, vi-a sair de vestido de noiva – veio morar a professora Laura, que viria a ser a minha professora de alemão. O que subi e desci a minha rua, com uns patins que então tinha comprado, acima e baixo, para ter um vislumbre do saber magistral da excelente professora que ela era.
E deixem-me falar brevemente de meia-dúzia de colegas. Dos anos juvenis do liceu, recordo o Carlos Fernandes, o Bazófias, maravilhoso e delirante contador de histórias, que está agora na Câmara de Sintra. Com ele e o mano mais novo dele, o Jorge, fiz, anos e anos, o caminho do liceu à Vila Clotide.
Também partilhei aquelas carteiras de dois lugares, com o Bito, o Álvaro Pacheco dos Santos, que foi director da Cinemateca de Luanda e adido cultural de Angola no Brasil, e com quem mantive contacto até ele falecer, e com o António Henriques, que eu julgo ter chegado a ministro das finanças ou economia de Angola nos anos 80, e que tinha a caligrafia mais bonita e perfeccionista que vi em dias da minha vida. A ele é que, infelizmente, nunca mais o voltei a ver, embora julgue que está são e salvo.
Nos meus últimos anos de liceu, na alínea E, numa turma que juntava Direito e História, os meus colegas mais famosos ou populares foram a Paula Pena, tão prematuramente falecida, e o Edgar Valles, irmão da Sita e do Ademar, cuja tragédia conhecemos e cujo ciclo de luto se espera que Angola faça, em breve, com justiça.
O Edgar, felizmente, está vivo e é, hoje, um jurista prestigiado. Dessa turma faziam também parte o Redinha, o mano mais velho, filho do famoso antropólogo; um descendente de Eça de Queiroz, primo do bisneto António Eça de Queiroz, meu grande amigo; o charmoso Cid Belo, amigo que não vejo há anos; e o Luis Azevedo, que trouxe a primeira Playboy.
A revista era impressa num couché tão suave, que passávamos horas a analisar o índice de mão do papel, fugando a algumas aulas, ali à sombra da estátua do poeta Tomás Vieira da Cruz, na rampa do liceu. É possível que o velho e sério Tomás Vieira da Cruz tenha, uma ou outra vez, arregalado os olhos com certas imagens que via.
Desses dois anos finais, emerge uma professora que foi, para mim, como no 5º ano já o tinha sido um professor de português, o excelente professor Montenegro, marcante para a minha ideia de cultura e pensamento e para a minha escrita. Estou a falar da professora Vera Gil, que nos deu, no 6º e 7º anos, literatura, com uma exigência mas também com uma emoção estética que converteram os meus 16 e 17 anos ao deslumbramento que é a leitura.
À professora Vera Gil devo a primeira percepção de que a literatura, a poesia e o romance, a crónica, são, antes de mais, emoção. E, depois de serem emoção, são também saber, um saber que se confronta, na forma íntima que é a leitura, com a diversidade da experiência humana.
E aprendi que, se dependêssemos apenas da experiência da vida jamais teríamos, em diversidade e proximidade, o que a literatura nos oferece. A leitura é emoção estética, é saber e é experiência de vida, esta foi uma das lições do meu liceu.
O Liceu Salvador Correia era um liceu de Luanda e Luanda era, então, a capital de uma colónia portuguesa, Angola. De 63 a Junho de 70, os anos em que o frequentei, esse liceu, que depois da independência se passaria a chamar Mutu ya Kevela, era frequentado maioritariamente por alunos brancos, se bem que fosse crescente a frequência de alunos mestiços e negros.
Eu vinha, como já disse, de uma escola em que o pingo de leite que eu era, constituía uma imensa minoria. E ainda tinha, dos oito anos, ecos do meu triénio no Sambilas. Mesmo nos arredores da Vila Alice, a minha frequência do São Domingos, cinema da igreja Nossa Senhora de Fátima, também dos padres capuchinhos, tinha-me habituado a ser minoria. O liceu foi o primeiro sobressalto à normalidade demográfica da maioria negra.
Julgo que vivi essa clamorosa discrepância com inocência, dos 10 aos 15 anos, a inocência dos factos consumados que não nos lembramos sequer de interrogar. A turma do 6º ano, com o Edgar Valles e a Paula Pena, ajudou-me, aos 16 anos, ao primeiro bocejo e espreguiçar de despertar político.
Lembro-me de termos feito uma greve silêncio nas aulas de religião e Moral. Lembro-me de integrar com o Edgar Valles e mais dois colegas – e julgo que devo ter ido como mascote – uma comissão que foi contestar uma coima e outras punições que o professor Lucas, então reitor, nos aplicou por danos provocados a carteiras com inscrições a canivete e a estátuas de gesso da bela sala do nosso 6º ano.
O que nós lhe dissemos no gabinete de reitor em que nos recebeu, mereceu-lhe um despacho lido em todas as salas de aula, e cujo espírito era mais ou menos este: “Vieram ao meu gabinete quatro manjericos, feitos anjinhos, a protestar inocência no vandalismo das carteiras e estátuas de gesso…” e continuava por aí adiante. Julgo que fomos poupados a punições, substituídas por trabalho de limpeza às peças danificadas.
Eu regressava do liceu a pé para a Vila Alice. Nos anos em que as aulas eram à tarde, regressei muitas vezes, fazendo eu e mais dois ou três, companhia ao nosso célebre Videira, que depois continuava, a pé, em direcção, julgo eu, ao musseque onde vivia.
Não quero, nem seria admissível, tirar qualquer ilação política dessas caminhadas, mas conversar e caminhar ao lado do Videira consolava a minha alma idealista que desejava então, e deseja ainda hoje, felizmente, termos um mundo perfeito. Noutra coisa, continuo na mesma, não sabia então como é que se convertia o mundo, num mundo perfeito, e continuo hoje sem saber. Com uma pequena diferença, aprendi com os meus próprios erros, a temer os que sabem como fazer um mundo perfeito.
O Liceu Salvador Correia não era um mundo perfeito, mas era um pequeno universo com vida própria. Retenho o valor essencial desse pequeno universo: a tolerância. O espaço físico do liceu Salvador Correia ajudava. Ora lembrem-se lá comigo.
Havia o inesquecível balcão da cantina, a que, na primeira vez a que lá cheguei, pedi ao Videira um jesuíta e uma coca-cola, pagando-o com o primeiro dinheiro de mesada, e sentindo que tinha aos 10 anos chegado a adulto.
Tínhamos os campos de jogos, o rink de hóquei e de andebol, o campo de basquete, os campos de ténis em que só se jogava futebol e onde vi um dos nossos colegas apanhar a bola em chulipa, passá-la sobre mim e continuar a correr, bola controlada, deixando-me completamente buelo, como se dizia no meu bairro: “Ficaste buelo, então”.
E a seguir havia as barrocas. As que estavam depois do campo de basquete, eram enormes, com uma mata, terreno aberto a verdadeiras batalhas campais e a outras aventuras.
Havia a torre com o sino e o relógio e o ninho de corvos sobre o ginásio de que era imperador o nosso professor de educação física, o professor Ramalho, senhor absoluto daquela ala. Por causa do amor que ele tinha ao ginásio, e para não vir para os campos exteriores, juntava à ginástica uns jogos de futebol de salão em que as balizas eram as caixas de base dos plintos. Esse jogo tinha as regras mais estranhas que alguém poderia inventar, dois atacantes e dois defesas, cada um com áreas territoriais proibidas.

Havia o salão nobre e a extraordinária biblioteca, onde pela primeira vez li o livro que eu julgava o mais proibido, O Crime de Padre Amaro, local excelso de leitura, mas também por vezes de furtivo e doce contacto com os joelhos e as pernas de algumas colegas.
E havia, acima de tudo, uma imensa liberdade física. Era essa a grande alegria do nosso liceu. A maior explosão era o último dia de aulas, com a queima dos cadernos e a queima do boneco de trapos, metáfora do ano que acabáramos de vencer.

À sombra do painel do Império, vi atirar as primeiras pedras à polícia, em dia de encerramento do ano lectivo. As mesmas mãos que atiravam pedras eram as mãos que queriam e iam, cheias de enlevo e doçura, assinar o nome nas batas brancas das colegas do liceu, outro dos rituais de fim de ano escolar. Sei lá porquê, queríamos sempre assinar sobre o seio de mel ou sobre a coxa de canela.
Essas meninas eram tão nossas que se um estranho as abordasse, logo diríamos “Ó meu, larga o osso que não é teu, é da malta do liceu”.
E acabo como comecei, com o essencial. O Liceu Salvador Correia, comemora agora cem anos da sua criação. O edifício de 1942 foi recuperado com carinho pelo estado de uma Angola independente. Chame-se Salvador Correia, Mutu ya Kevela ou só Liceu de Luanda era e é o liceu mais bonito do mundo.
É impossível não sermos tocados pelo esplendor do Salão Nobre, pela biblioteca, pelos claustros e pelos azulejos, pelos jardins e pela escadaria, pela nobre mangueira sobre a Brito Godins. Essa beleza dignifica o que de melhor a humanidade já fez, criar saber e transmitir saber. Chegámos a esse nosso liceu crianças de dez anos, saímos de lá quase homens ou mulheres de 17 anos. Rimos como uns doidos, chorámos baba e ranho, tivemos momentos de frustração e êxtase e foi isso que fez de nós os seres humanos que somos.
Hoje, nesta nostálgica tarde de Fevereiro, cai sobre nós uma onda, uma calema de saudade. Fechamos os olhos, e eu peço que fechem os olhos, a voz do Videira, o seu canónico “não sabem esperar” entra-nos pelos ouvidos como música de fundo, e voltamos a ver aquela imensidão, a rampa, as escadarias, os campos, a fachada, o torreão e o casal de corvos e sabemos que esse passado, esse passado tão bonito e tão jovem, não voltará. Nunca mais.
O liceu, a Mimi, a Vera Gil, o reitor Lucas, os nossos calções curtos, o calor e a liberdade juvenil, a colega de olhos azuis, nunca, nunca mais.
Cito a tradução que Fernando Pessoa fez do poema O Corvo, que Edgar Allan Poe escreveu a pensar, estou certo, nos corvos no nosso Liceu:
Minha solidão me reste!
Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito
e a sombra de meus umbrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.

Não lembraria ao diabo começar uma crónica sobre um cientista, seja o nosso solar Carlos Fiolhais ou o admirável Sobrinho Simões, associando-lhes o termo “ass”, que é, em português, a forma de reduzir um rabo a duas letras. Pelo contrário, ao falar-se do biólogo evolucionista Robert Trivers, é crime de lesa retórica não invocar aquele apertado “ass”. Trivers é um “bad ass”, mau cu, pelo seu intratável feitio, e quis ser um “black ass”, cu preto, episódio a que vou ali e já volto.
Espreitemos primeiro os revirados olhos do amor à primeira vista, fidelidade e amantes, os filhos que fazemos. Tudo deliciosas e dinossáuricas actividades que entretínhamos antes de Trivers existir. Ele estudou-as e passámos a olhá-las como olhamos para António Costa quando lemos o que Vasco Pulido Valente escreve sobre ele.
Trivers mostrou, nuínhos, os devaneios de sedução e enlace revelando que são o resultado da radical diferença biológica que os óvulos e os espermatozóides causam no comportamento de mulheres e homens. Sobreviver e reproduzir, a culpa é dos genes.
Os genes de Trivers baralharam-se na adolescência. Aos 13 anos, livro na mão, aprendeu cálculo diferencial e integral. Sozinho. E não pensem que era um rato de biblioteca. Moldou os punhos no pugilismo e em artes marciais. Foi para matemática, em Harvard, e chateou-se de morte. Matriculou-se e rifou física, direito e psicologia. Aqui, deu-lhe uma coisinha má ao tropeçar na explicação do desenvolvimento humano em três estádios, anal, oral e edipiano, que Freud, jura Trivers, terá arrancado das brumas em que mergulhou a sua mente de tanto inalar planícies de coca.
Confuso, Trivers deixou de dormir e apanhou uma depressão de caixão à cova. Levaram-no às urgências. À pergunta, “quem és?”, disse ser “um recém-nascido”, o que logo corrigiu para “uma mulher grávida”. Descobriu que era bipolar. Para relaxar foi fazer livros numa editora infantil. O primeiro, de biologia. Trivers era incapaz de distinguir um hipopótamo de um rinoceronte, mas o trabalho de campo com um cientista, assobiar aos pássaros, observar-lhes os rituais de acasalamento, foi a sua epifania: a biologia era o destino. Chegou ao Nobel.
Os genes deste branquelas e filho de diplomata têm romântica inclinação para a negritude. Fez amizade com Huey Newton, líder dos Black Panthers, a que deu aulas na prisão. Foi membro do movimento, lamentando não ter ele mesmo um “black ass”. Newton corrigiu-o: “Robert, vistos de perto, todos os cus são pretos.” Mas os genes de Trivers queriam mais e levaram-no para a Jamaica. Contribuiu para a gloriosa mestiçagem do mundo: casou com duas jamaicanas e teve delas cinco filhos e oito netos. Nunca tinha sido tão livre, disse.
O que nos salva é o que nos perde, e a Jamaica ia sendo a sua morte. Teve um prémio de meio milhão com o Nobel. Toda a Jamaica soube. Uma noite, dá com dois putos muita feios no quarto, machete e faca na mão. Trivers trazia uma faca nas calças, puxa-a e espeta-a no pescoço de um dos mânfios. Não o mata, mas afugenta-os.
Outra noite, foi ao clube onde comprava a sua liamba recreativa. Mal entrou, apontaram-lhe duas pistolas à cabeça, já estava um cadáver no chão. Era uma acção de vigilantes contra a droga. Entra um terceiro cliente e na confusão consegue ou deixaram-no fugir, por ser branco. Uma velhota que o viu correr, comentou: “Senhor, até te ver fugir, não sabia que o branco podia voar.”
E é por causa deste pé leve que hoje sabemos porque corremos uns atrás dos outros, homens e mulheres, sem pôr os pés no chão.
