Um mundo perfeito

La-Chinoise

Acompanhei e bebi bicas angolanas com quem queria um mundo perfeito. Traziam o poder na ponta de uma espingarda, no bolso um pequeno livro vermelho. Numa coisa não mudei: o que eu sonho ainda hoje com um mundo perfeito! E também não mudei noutra coisa: não sabia então e ainda menos sei hoje, como se faz um mundo perfeito.

Mudei, e mudei muito, numa coisa: tenho medo, muito medo, dos que afirmam saber como se faz um mundo perfeito. Têm sempre uma teoria refulgente, não cabem lá é as pessoas e a vida das pessoas. Prometem deitar fora a água do velho banho. Com tanta devoção teórica, que deitam fora o bebé com a água do banho.

Bica Curta, publicada no CM, na semana passada

A fome é uma arma

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Mais insustentável do que a leveza do ser é o peso da fome. Na Venezuela, o insustentável peso da fome é ditado pela decisão dos homens. Há fome porque um homem quer que haja fome. É insustentável a fome ser arma política.

Maduro herda numa velha tradição revolucionária. A arma cega da fome tem uma genealogia tão distinta como infame: usou-a Lenine, massacrando milhões de soviéticos, só aceitando reduzida ajuda internacional, e foi usada pelo velho Mao na China. Arma cega, a fome? Não. Maduro tem meios. Usa-os como cenouras a distribuir só aos que, caninos, o sigam. A barbárie é móvel, tanto vem da direita como da esquerda.

Bica Curta, publicada no CM, há duas semanas

Boca a boca

Bica Curta, publicada no CM, há duas semanas

penafiel B

Os últimos serão os primeiros. Lembrei-me da velha lição ao ver o choque tremendo entre um jogador do Penafiel B e outro do Águias de Eiriz. Tiago, do Eiriz, tombou, desfalecido e hirto. A aflição de colegas e adversários tinha a humana marca do desespero. Henrique Vieira, capitão do Penafiel B, correu, meteu-lhe a mão na boca, puxou-lhe a língua enrolada que já o sufocava. Manobrou-o, respirou por ele, deu-lhe vida.

De repente, o futebol recuperou o seu rosto autêntico. O capitão do Penafiel B trouxe paz ao que alguns transformam num teatro de guerra. Colegas e adversários abraçaram o herói. Soube-me a esperança a bica curta.

henrique
Henrique Vieira, o herói

A maçã de Newton, uma lista

van gogh
Estas nunca Newton as viu. São maçãs de Van Gogh

Estava por polir e era mal areado. Estou a falar de mim. Mesmo mim, só mim. Eu. Entendamo-nos, eu não era propriamente burro, que os pobres raramente são burros ou matumbos, como se dizia naquela minha outra terra. Ser-se burro era um luxo a que só se podiam dar as classes altas – e sim, hoje estou nervosamente marxista.

Vinha a sair da ruralidade campesina, a baldear-me para a pequena burguesia, sem ter passado pelo proletariado. Estas coisas dão em geral mau resultado. Há ali um leap of faith que, em muitos casos, faz um tipo bater com os ossos no lumpen. Em alemão, para que se perceba a gravidade da coisa: das Lumpenproletariat. E ninguém, por mais mal polido e pior areado quer ser trapo,  ou coisa desprezível, molusco sem coluna vertebral, que é o que o palavrão alemão quer, no finalzinho das coisas, verdadeiramente dizer.

Não sabia nada, ninguém me tinha dito coisa nenhuma, e as coisas de que vou falar atropelaram-me. Descobri sozinho ou foram coisas que sozinhas vieram ter comigo. Antes de ter 18 anos. Foi entre os 15 e os 18 e gostei. Depois descobri que, para cada uma dessas coisas de que eu, quase intuitivamente começara a gostar, havia turbas de apreciadores e que as autoridades, ou os mestres na especialidade, estimavam, fazendo muitas festinhas a quem gostava.

Ou seja, e deixando-me de folclore, esta é uma lista de coisas de que eu comecei a gostar sem ninguém me ter mandado ou obrigado. Para quem gosta de listas.

Nausea

A Náusea, um romance de Jean-Paul Sartre. Tinha 15 anos e dizia-se que Sartre era um filósofo. Fui ler e era o romance de um tipo que pegava numa pedra e sentia na mão a vida horrivelmente palpável e viscosa da pedra. Fiquei impressionado e com doida vontade de impressionar. Lembro-me que o protagonista ia para a cama com a dona da pensão: “Apertava-me a cabeça contra o seu peito num transporte de paixão: julgava que era assim que devia ser. Eu, por meu lado, dedilhava-lhe o sexo debaixo da roupa; depois o meu braço entorpeceu.” Pensem o que quiserem, as folhas do livro de 301 páginas estão todas a soltar-se.

purple

Deep Purple –  Agora que vou congelando as famosas “memórias afectivas” ponho-me a imaginar que “Child in Time” foi a primeira canção que ouvi deles. Se foi, tinha 17 anos e julgo que a ouvi num programa que o meu velhíssimo amigo António Macedo, ao fim da tarde de cada dia de semana, fazia na Emissora Oficial de Angola, antes de alguém dizer, como na altura se passou a dizer, que os Deep Purple eram muito bons. Eram. Que se lixe, eram mesmo.

rain

Rain People, de Francis Coppola – Vi-o no cinema dos sargentos, perto do colégio dos maristas – também lá vi Buster Keaton e Chaplin, e agora venham dizer-me que a tropa é repressiva! Ninguém sabia, ninguém queria ou esperava saber, quem era o raio do realizador de um filme com uns miseráveis actores desconhecidos. Gostei muito da mulher que saía de casa e abandonava o marido. Achei, na altura, que era mesmo o que me convinha.

paraso

A Leste do Paraíso, de John Steinbeck. Foi só o titulo e por ser um romance, sem saber sequer que também existia um filme. Aprendi o que havia a aprender sobre o livre arbítrio. Timshel era a palavra hebraica. Dizia-a um criado chinês, extraordinária personagem de que o filme de Elia Kazan abdicou. Era, no romance de Steinbeck, um criado chinês que, incapaz de dizer os “r”, como deve fazer todo o chinês que se preze, dizia lindamente timshel. Que era, como se pela boca desse ilustre servo chinês falasse Nosso Senhor, e em vez de dizer timshel dissesse “tu podes, caralho, tu podes, se quiseres, tu podes.”

gótico

Catedrais góticas – Um gosto estranho para quem vivia desde os cinco anos nos trópicos. Sempre achei glorioso (e nervoso) o rendilhado decorativo externo e a luz que os vitrais filtravam para o interior. Ainda hoje tenho vivo preconceito contra quem revire os olhos quando se fala de Idade Média. Gostava tanto que fui a uma semana de conferências (o que eu ouvi dos meus amigos) que o professor Adriano Vasco Rodrigues foi fazer a Luanda comparando e contrastado o românico e o gótico. Projectavam-se uns revolucionários slides e descobri então que era míope. À saída, por volta das 11 da noite, perdia os autocarros por não conseguir ver-lhes os números. E lá ia eu a pé, ogival, em passo de gótico manuelino, Estrada de Catete acima, a chegar ao Bairro Popular, para onde acabara de me mudar, às duas da manhã.

beatles

Sgt.Peppers Lonely Hearts Club Band – Tínhamos outra vez 15 anos (tínhamos sempre 15 anos naquela altura) e o LP era diferente de tudo o que os rapazes de Liverpool tinham feito. Gostei logo e fiquei de cabeça perdida com a Lucy, à espera de que ela virasse para mim os olhos caleidoscópicos.

cage

John Cage – Calhou ouvir. Sabe Deus como, porquê e quando. A ousadia da coisa, a aceitação do ruído, das vozes que falam conversas de cada dia, a mistura fraternal disso tudo com os silêncios, desassossegaram-me e sossegaram-me. Calhou também ler Allan Watts a seguir. Mais Zen não podia haver. Não descansei enquanto não tive dele o meu primeiro LP. Consegui: o Variations IV que está ali em cima.

navalha

O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. A minha lição de boas maneiras. Escrita sem mariquices, se assim se pode dizer, sabendo-se a pronunciada inclinação de quem o escreveu. Prosa límpida e ágil, penetrante e viva nas descrições, de uma sincera humanidade na exposição de cada personagem e meio social. Foi a minha passadeira vermelha para um plácido lago agnóstico. E aprendi que um verso de Ronsard – mignonne allons voire si la rose – fica bem em qualquer dedicatória.

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Eine Kleine Nachtmusik – Restos de uma mala abandonada no Porto de Luanda. O meu pai trouxe-me meia-dúzia de 45 rotações “estrangeiros”. Um era de Jean Ferrat, outro era essa Kleine Nachtmusik que ouvi aos 12 anos até à exaustão. Já me tinham mais ou menos ameaçado que era preciso gostar-se daquilo, não sabia que se podia gostar tanto e de olhos tão fechados.

A poética solidão de Renato Sanches

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Alguma da melhor poesia contemporânea sai dos pés de geniais e jovens futebolistas. Ainda agora, a ver o Real Madrid-Ajax, quando o dinamarquês Lasse Schone marcou de livre o quarto golo da equipa de Amsterdão, um livro batido não sei bem se em vólei, se em pontapé de rugby, numa longa, livre, calma e ininterceptável viagem da bola sobre o guarda-redes Courtois, só me vinha à cabeça este verso de Ruy Belo, «um ramo oscila ao vento é a vida que começa», do longuíssimo poema que leva por título A Margem da Alegria.

Mas se pouco me surpreendem os admiráveis versos que os pés de João Félix e de Florentino Gomes ou as cabeças de Ferro ou Ruben Dias criam, o que me tem surpreendido é a nova qualidade poética que perpassa pela linguagem de quem saiu da academia do Benfica. Há dias, o treinador Bruno Lage, com elegância metonímica,  alterando o sentido natural dos termos, explicou o seu êxito recorrendo ao uso do efeito em vez da causa, agradecendo aos seus jogadores por fazerem dele o treinador que estava a começar a ser. Agora, Renato Sanches, elaborando sobre um conceito tão abstracto como o de decepeção, isolou o momento mais doloroso e íntimo da sua carreira, lesionado em Swansea, dizendo, como se possuído de um espírito de Herberto Helder, apenas isto:

«… all of a sudden I was out for months, sitting alone in an apartment in Swansea watching it rain all day.» Que é como diz «Fiquei de fora meses, num apartamento de Swansea, sentado a ver a chuva cair, sozinho, o dia inteiro.»

Há uma linha de um conto, n’ Os Passos em Volta, que recordo: «Choveu sempre. Sentíamos a chuva sobre a terra inteira. Éramos invencíveis.» Herberto, perdão, Renato, deixa-me dizer-te uma coisa, deixa que chova em Swansea, deixa que caia toda a chuva de Dezembro, «lenta, patética»: há em ti uma poesia que te torna invencível. Tu vais triunfar.

Está doendo em mim

Oi, Hamilton de Holanda, quero só dizer-lhe que meu pai tocava bandolim… Zélia Duncan, querida, cante aí, naquela mesa, que tanto foi de seu como de meu pai. Linda Nilze Carvalho, juro que farei coro consigo se as lágrimas não atrapalharem, ao ver que naquela mesa está faltando ele e que a saudade dele está doendo em mim..

Maria, Carnaval e Cinzas

carnaval

Já sei que vou comprar alguns sorrisos e muito enxovalho. Mas o que é que querem,  cresci em Luanda, nos trópicos, a gostar muito de Roberto Carlos, bem antes de saber que a intelectualíssima Bossa Nova lhe prestaria um dia vassalagem. Valeu-me, aliás, algumas animadas discussões com o meu amigo Mário, barbeiro da Rua Alberto Correia, sábio e mestre, que me sacou  um LP que eu tinha de valsas de Strauss, dando em troca, de volta, ao cabeludo que eu era, um do admirável brasileiro que, cantava ele, «daria a minha vida para te esquecer, eu daria a minha vida para não mais te ver».

De todas as canções dele, tinha eu 14 anos,  houve uma, raramente tocada na rádio e estranhamente desaparecida nas reedições, que sempre estranhei, quase um desvio no estilo do rei, por ser tão tão triste, a roçar a elegia. Chama-se «Maria, Carnaval e Cinzas».

Redescubro-a hoje, a lembrar-me que ainda é carnaval e já, daqui a nada, quarta-feira de cinzas. Cantou-a num famoso concurso da Record, conceito fabuloso de televisão, em que o público aplaudia e vaiava, conforme os gostos, os cantores. Hei-de fazer crónica sobre o fenómeno.

Esta é a versão limpa, limpinha:

E esta é a versão de combate:

 

Karl Lagerfeld

Texto publicado na minha Bica Curta, no CM

Chanel : Runway - Paris Fashion Week Womenswear Spring/Summer 2015
Vestir ou despir?

Morreu Karl Lagerfeld, rei da moda. Invejo-o: vestiu algumas das mulheres que todos gostávamos de ter despido. E invejo-o por outra razão: dizia o que muito bem lhe vinha à cabeça. Do corpinho de Angela Merkel disse que não era fácil de vestir e que, Santo Deus, poucas calças havia tão mal cortadas como as dela.

Tomou a bica curta com o Papa Francisco e logo disse: “Como é que um homem de vida tão austera tem uma barriga tão vasta.” A minha favorita é a boca sobre Pippa, a irmã da princesa Kate: “A mãe é mais bonita. Ela tem uma cara rechonchuda, olhos desmesurados, mal maquilhados. Devia aparecer sempre de costas.” Não o desminto.

pippa
Pippa no casamento da irmã