Karl Lagerfeld

Texto publicado na minha Bica Curta, no CM

Chanel : Runway - Paris Fashion Week Womenswear Spring/Summer 2015
Vestir ou despir?

Morreu Karl Lagerfeld, rei da moda. Invejo-o: vestiu algumas das mulheres que todos gostávamos de ter despido. E invejo-o por outra razão: dizia o que muito bem lhe vinha à cabeça. Do corpinho de Angela Merkel disse que não era fácil de vestir e que, Santo Deus, poucas calças havia tão mal cortadas como as dela.

Tomou a bica curta com o Papa Francisco e logo disse: “Como é que um homem de vida tão austera tem uma barriga tão vasta.” A minha favorita é a boca sobre Pippa, a irmã da princesa Kate: “A mãe é mais bonita. Ela tem uma cara rechonchuda, olhos desmesurados, mal maquilhados. Devia aparecer sempre de costas.” Não o desminto.

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Pippa no casamento da irmã

Uma solidão de Joana d’Arc

O que estava combinado é que A Página Negra devia ser, como a vida de qualquer um de nós, um repositório de passado, o choque do inescapável presente, porventura algum balbuciante desejo de futuro. Há dez anos, uma mulher belíssima, a quem o mundo se ajoelhava, desapareceu na noite de Paris. Nessa altura, e por desafio do Vítor Coelho da Silva, escrevi este texto. E não me arrependo da solidão com que tentei enchê-lo.

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Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro. Há dias, lia os jornais franceses. Os desenjoativos Monde e Figaro. Percebi que, à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada, que homenageia o czar de que herdou o nome, se vai acrescentar-se agora o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.

Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e ouro, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um homem sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro de 2008, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.

A que propósito vem o obituário, e logo subscrito por quem vos prometeu boa vizinhança e um destemperado optimismo? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos foi vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que, à noite, é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que não divide Paris. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.

A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.

Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc”. Cabe-nos a todos nós, homens, uma fatia da culpa da solidão que afogou esta mulher.

Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.

Katoucha-Niane