Bica Curta

 

bica curta

 

Mudei de vida em 2019, como já o cineasta Paulo Rocha nos avisava com o título de um belo filme seu protagonizado por Maria Barroso. Aceitei o desafio que o Octávio Ribeiro me lançou para escrever no Negócios e no Correio da Manhã.
Em boa verdade foi este último o grande desafio. Para o Negócios escrevo uma crónica com o tamanho a que estou habituado. O bico de obra era escrever à 3ª, 4ª e 5ª para o CM o que bem se pode chamar uma micro-crónica. Nunca mais de 640 caracteres, ou seja, duas a três frases. Como se conta uma história, como se desenvolve uma ideia e se chega a uma conclusão em três mirradas frases?
Eis a minha apresentação e a primeira semana. A cada 6ª. feira deixarei aqui a semana anterior 

 

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Bica Curta
5ª feira, 3/1/2019

Ui, quem é este?
Bom dia. Sou novo aqui. Se não se importam, virei a este café, à 3ª, 4ª e 5ª. Como me estão a tirar as medidas, confirmo: sem chapéu, tenho um metro e sessenta e quatro, e muita boa vontade.

Apresento-me. Casado, uma filha. Sou editor. De livros. Fiz televisão e filmes. Tenho uma certa idade, mas mal se nota. Apanhei o fim do império na longínqua Angola. Fui católico, mas não papa-hóstias. Aos 20 anos, era maoista, versão tropical; agora, entre direita e esquerda, tem dias. Gosto do Marcelo e não sou contra os políticos. A minha devoção? A Eusébio, imparável deus da minha infância. Como quero a bica? Curta, sim! Mas escaldada.

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Bica Curta
3ª feira, 8/1/2019

Então e os beijos?
Hoje, a altura média do homem português é de um metro e setenta e três, o das mulheres menos 10 cm. Num século, o homem português cresceu quase 14 cm. Isso significa que eu, com o meu metro e sessenta e quatro, sou um anacronismo histórico. Ou seja, sou um tipo do século XIX que veio aqui tomar uma bica curta.

Mas o que mais me preocupa é a mulher portuguesa. Crescendo embora 12,5 cm num século, nesta escala de progressão, estará cada vez mais distante do homem, numa óbvia descriminação de género, que me indigna. Para não falar de posições mais arriscadas, e os beijos? Como nos beijaremos daqui a um século? Cada beijo uma hérnia?

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Bica Curta
4ª feira, 9/1/2019

Parece que são parvos
Os suíços devem ser parvos. A mim é que não me apanham a beber bicas curtas na Suíça. Há dias, ou há meses, sei lá bem, foram a votos e rejeitaram que as quatro semanas de férias pagas que já recebem passassem a seis. E rejeitaram também que se estabelecesse uma regra para limitar o salário dos patrões a doze vezes o salário mais baixo da empresa. Pior, três quartos dos suíços votaram contra a criação de um salário mínimo universal. Raio de país de queijos e relógios de cuco.

Dizem eles que isso aumentaria os custos do trabalho e diminuiria a potente capacidade de exportação do país. Eh pá, há gente que não gosta de viver bem.

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Bica Curta
5ª feira, 10/1/2019

Um sabor a Putin
Não sei se Putin vale uma bica curta. Mas antes de falar de Putin, falo da minha mãe, que já está no céu, e de lá me perdoa ainda mais do que na terra me perdoava. Aos cinco anos, a minha mãe deu-me o primeiro café. De cevada. Associo o sabor à bomba atómica que me assombrou a infância. Vivíamos no medo e excitação da guerra nuclear. Era um jogo de faz de conta, inócuo como esse café de meninos.

Mas agora Putin tem misseis nucleares hipersónicos. Indetectáveis. Indetectáveis e ininterceptáveis. Disse-o, a avisar Trump, bebia eu uma bica curta. Voltou-me à boca o atómico sabor a medo da infância. Ah, caneco, já não tem é a mesma inocência.

Publicado no CM, Correio da Manhã

Os meus sapatos não são os sapatos de Van Gogh

Foi há cinco anos. Despedi-me destes sapatos. Ainda hoje os meus pés morrem de saudades deles. Tombaram exangues. Os cemitérios dos sapatos não são como os dos humanos. Estes continuam insubstituíveis.

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Não vol­ta­rei a cal­çar estes sapa­tos. Os meus pés e estes sapa­tos têm uma rela­ção de quase 20 anos. A pala­vra rela­ção tem, neste caso, abso­luta e plena apli­ca­ção. Foi um entra e sai diá­rio — em cer­tos momen­tos, e não neces­sa­ri­a­mente só no começo da rela­ção, um entra e sai de várias vezes ao dia. Bem sei que eram sapa­tos de ata­ca­do­res mas, com a fami­li­a­ri­dade, já os meus pés neles entra­vam de luva. Para que conste, nunca foi pre­ciso calçadeira

Estão ali, aban­do­na­dos, uma deses­pe­rada ele­gân­cia, um bri­lho que dis­farça a velhice. Admito, é natu­ral, que lhes digam: “olha nem parece a idade que têm”. Mas abriu-se uma ines­pe­rada fenda, late­ral, mínima, o sufi­ci­ente para que o dedo min­di­nho do pé esquerdo pro­teste des­cri­mi­na­ção e risco. Tam­bém esse dedo min­di­nho requer interioridade, escu­ri­dão e um con­forto de veludo. O meu dedo min­di­nho entrava no seu sapato como quem entra numa sala de cinema. Agora, peque­nís­simo ras­gão no couro, vê de den­tro para fora, ina­cei­tá­vel expo­si­ção da sua inti­mi­dade. O que um dedo, mesmo min­di­nho, faz den­tro de um sapato, é para ficar den­tro do sapato.

Há outros sapa­tos mais famo­sos, mas a his­tó­ria dos meus pés e deste par de sapa­tos é uma his­tó­ria de feli­ci­dade. Dir-me-ão que todas as his­tó­rias de pés feli­zes são iguais, e que os pés infe­li­zes, esses sim, são infe­li­zes cada um à sua maneira. Mas nem mesmo neste momento amargo de des­pe­dida, estes meus sapa­tos se que­rem tols­toi­a­nos ou se resig­nam ao fata­lismo do par de sapa­tos de Van Gogh, a que Hei­deg­ger e Der­rida apli­ca­ram meto­do­lo­gia desconstrucionista.

Ao con­trá­rio do que Der­rida disse das botas cam­po­ne­sas de Van Gogh, os meus sapa­tos são mesmo um par de sapa­tos. Só um tem uma ligeira fis­sura. Podia, tal­vez, cal­çar o sapato direito e cami­nhar ao pé coxi­nho. Pois sim, que é como quem diz, pois não — recu­sa­ram separar-se. O ainda intacto sapato direito, anti-desconstrucionista, assu­miu como sua a fis­sura que só existe no esquerdo. Reformam-se, ou melhor, descalçam-se os dois. Fiéis, dei­xam agora, jun­tos, de cami­nhar, tão uni­dos como uni­dos esta­vam quando pisa­vam ligei­ros, engra­xa­dos, couro negro a bri­lhar ao sol, ou intré­pi­dos a mar­char sob a chuva. A estes nem a morte os separa.

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O meu baile de debutante

Há dois anos andava eu a esfalfar-me para alugar uma casaca, camisa e laço branco que me autorizasse a entrar na Ópera de Viena, para assistir ao mais afamado baile de debutantes desta nossa velha Europa. Digo eu, que nisto não tenho certezas nenhumas. Que um tipo inimputável como eu se meta nestas coisas, está muito certo; mas que me convidem é que eu nunca hei-de perceber. E agora, entrem nesta valsa.

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Baile na Ópera
Manuel S. Fonseca

O imperador Francisco José tinha duas pernas. Não é fácil saber de que gostam as pernas de um imperador. Mas não ouso atirar-lhe às pernas a mesma acusação que me atrevo a cravar na sua mão direita. A mão de Francisco José era uma mão relutante. Já as pernas imperiais tinham dançado dezenas de bailes e ainda a sua mão direita hesitava assinar o decreto que a boa sociedade de Viena lhe pedia.

Vou já dizer ao que venho, mas mesmo antes de dizer seja o que for, é preciso proclamar um princípio ab ovo: Viena gosta de dançar. Deixemos o imperador Francisco José de pernas amarradas, enquanto damos corda às nossas para uma breve viagem no tempo. Em 1814, a Europa estava como a Europa há-de estar daqui a cinco anos – basta que tudo corra mal e já se sabe que tudo o que pode correr mal acaba mesmo por correr mal. Ou seja, tal como hoje, em 1814, a Europa estava de pantanas. Napoleão, afamado corso com gosto pela artilharia, fizera um inter-rail avant la lettre, ou uma espécie de Erasmus militar, bombardeando, em estágios semestrais, a extrema Rússia, a Prússia de dignos bigodes, a alva Polónia e o coração da Europa que era o império austro-húngaro. Fora, enfim, derrotado, e mau grado ainda ter vindo, como as galinhas a que minha mãe cortava o pescoço, a estrebuchar no que foi o seu último governo de Cem Dias, a Europa veio a Viena parlamentar para acabar com as guerras de Napoleão e com as guerras dos futuros Napoleões – entenda-se, sempre que a Europa queira ser Europa terá de vir a Viena parlamentar!

Um Congresso reuniu as potências, a Rússia, a Prússia e, entalada entre as duas, a Polónia, mais a Áustria, a manhosa Inglaterra e a depauperada França e não vos maço com a lista dos países satélites que vieram para ouvir e calar. O que fizeram os congressistas? Dançaram. Houve bailes todos os dias para todos os gostos. Bailes de cerimónia e, sobretudo, como convém a um Congresso, bailes de máscaras. Um filme dos grandes estúdios alemães da UFA, a que Hitler apagaria o brilho e o gosto germânico pelas brumosas fantasias, recordou, no século XX, essa explosão lúdica de pernas, braços e corpos.

O filme é de 1931 e chama-se O Congresso Que Dança. É muito mais Cinderela do que histórico e político. Toma liberdades de conto de fadas e mostra a paixão do Czar, incógnito, por uma jovem austríaca que lhe oferece flores. Ao contrário das outras cabeças coroadas, o Czar obstina-se na recusa a bailes, dizendo: “Não vim a Viena para ver bailados e muito menos russos.” Não dançou de uma maneira, dançou de outra, nos ternos braços da bela e mignonne Lilian Harvey, a actriz que, e perdoem-me os hífenes, a Europa via então como a mulher-criança, o paraíso-feito-mulher, num arrebatamento avant-pedophilie que outro vienense, o pintor Egon Schiele, não desdenharia.

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Pares de pernas tão iguais e tão diferentes

E por já não haver czares a apaixonarem-se por floridas plebeias, voltemos a pôr os olhos na mão direita de Francisco José. Acaba de assinar o decreto que autoriza o que sempre rejeitara: uma soirée na esplêndida Ópera de Viena. Soirée é um termo ambíguo, que não contempla necessariamente um baile. Mas à meia-noite, na noite de 11 para 12 de Dezembro de 1877, o ardor bailarino de centenas de pernas de homens e mulheres austríacos, pares de pernas tão iguais e tão diferentes das pernas de Francisco José, venceu o preconceito e pôs a Ópera a dançar, como já se dançava, com loucura de fin-de-siècle na Ópera de Paris.

Hoje é quinta-feira, dia 23 de Fevereiro de 2017. É a última quinta-feira antes do Carnaval e da pungente quarta-feira de cinzas e eu vou a pé, a caminho da Ópera de Viena. São sete horas da tarde e da porta dos imponentes hotéis, do Bristol, do Sacher, desabrocham mulheres-crianças, musas de branco, lolitas que, mais do que o paraíso-feito-mulher, diria serem uma doce tortura-que-se-fará-mulher. Saem à rua e julgam ter os pés no chão, mas enganam-se. Transportam nelas uma alegria que as faz levitar. Sorriem para toda a gente, para mim também, e o sorriso delas, tão branco e primordial, desarma nuclearmente o mundo. Como se a inocência voltasse a ser possível. Há uma onda de luxo, de dinheiro resplandecente, a caminhar da rua pedonal Kärntner para o Opernring, uma vaga de perfume que sai do Sacher Hotel para dar os cinco passos que o separam da entrada da Ópera.

Sinto que devo já esta explicação aos meus leitores: estas miúdas vêm debutar. Musas ou nereides, chamam-se Franziska, Sabine, Hanna ou mesmo Eva e hoje, na vida delas, vai ser o primeiro dia em que à luz chamarão luz e à noite chamarão noite. Vão ter a sua noite de luz, o dia primeiro. E eu pensava que não, mas falando com elas descobri que afinal sabem: debutando, continuam uma tradição que é maior do que elas, o rito de passagem de meninas a mulheres.

Volto brevemente às pernas de Francisco José, imperador da Áustria e rei da Hungria, Croácia e Boémia. Com um ultimato à Sérvia, fora ele a começar a I Grande Guerra, um baile de metralha e gás mostarda com milhões de mortos, uma carnificina dançante. Abalado, calvo e velho, o imperador sente um derradeiro esticão nas pernas a 21 de Novembro de 1916, e é a última coisa que as suas pernas sentem. Rígido, o império aguenta-se de pé mais dois anos. Depois, uma burguesia industriosa, respondendo à crise da derrota na I Guerra e ao desmembramento do Império, substitui a velha ordem e proclama a república.

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Uma prodigiosa alquimia criada por Johann Strauss

A Áustria não deixou, porém, de dançar – bem vos avisei, a Áustria adora dançar. Em 1921, apenas três anos depois do Império, pernas republicanas dançavam valsas, quadrilhas e polcas na vasta sala da Ópera, como antes as tinham dançado as pernas aristocráticas. E, em 1935, sob o alto patrocínio da decidida mão e robustas pernas do Chanceler Federal, tem lugar, com as actuais características e com este nome, o primeiro Baile da Ópera de Viena, com a apresentação à sociedade de uma centena de meninas que, em poucas horas, uma prodigiosa alquimia desenvolvida por Johann Strauss transforma em mulheres.

Estou em Viena e também eu vou debutar. Enganei a fome com uma apressada garrafa de água e um par de inevitáveis salsichas, um dos 2.500 pares de salsichas que o baile comeu. Trago vestida, saiba-se, a melhor e mais cara camisa que já vesti na vida. Descobri que, de tão fanadíssima, não vinha na mala a velha camisa de cerimónia que tenho desde os primeiros Globos de Ouro. Fui comprar uma no Sir Anthony, men’s best adress, dizem eles seguros do que dizem, o que a minha carteira amargamente comprovou. Recorrendo ao meu melhor inglês, bem sugeri something less expensive, língua-de-trapos que foi recebida com um sorriso complacente e um of course not, um “claro que não” acompanhado de conversa consoladora, em que o magnânimo funcionário de Sir Anthony me revelou compras de clientes meia hora antes de o baile, com contas caladas, que essas sim fariam do homo economicus que eu sou um homo galacticus, seja lá o que isso possa ser.

Entrei agora na sala da Ópera e não há ninguém nos camarotes. Somos só umas 20 pessoas na sala a que retiraram a plateia e abriram o palco para a transformar num imenso salão de baile, e meti conversa com Valentin, neto de bascos de uma aldeia encostada a Biarritz, segunda geração na Áustria. Conta-me que já é a quarta vez que cobre o Baile da Ópera para a ORF, a televisão austríaca. Explica-me o alinhamento do espectáculo, os hinos da Áustria e da Europa primeiro, depois a entrada das debutantes com os padrinhos, o ballet, as interpretações do cantor que este ano será Jonas Kaufmann, tenor alemão. Valentin é novo mas, sem menosprezar a ascendência basca, é um austríaco orgulhoso e jura-me que o baile é muito mais do que um evento cor-de-rosa ou uma festa. Acredita no cerimonial, no valor simbólico, atrevo-me eu a dizer, e na comunhão plena das cinco mil pessoas que ali se vão juntar. Quando o mestre-cerimónias gritar “E agora todos valsam!” também ele irá dançar com a namorada que há-de chegar.

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A libertadora beleza de um decote

Nada do que Valentin disse me preparou para o que a seguir aconteceu. Uma hora e quarenta minutos antes de serem declaradas abertas as hostilidades o salão está cheio. Uma pequena multidão alinha-se e esfrega-se atrás de uma corda vermelha que uns pajens ou escudeiros operáticos seguram. A sala da Ópera de Viena parece o Mar Vermelho dos Dez Mandamentos, de Cecil B DeMille, na cena em que Moisés separa as águas. É entre essas duas alterosas barreiras humanas que o espectáculo vai ter lugar. Não cabe mais ninguém e as minhas costas convivem com o peito ameno de duas gentis japonesas. Nem eu podendo dar um passo à frente, nem elas podendo recuar um passo atrás, não tenho a certeza de que, bem contadas as nuances, as jovens japonesas não fossem três. Vieram com dois jovens austríacos que, no ano anterior, tinham, eles mesmos, debutado, se assim se pode dizer de um rapaz. Gabam-se da experiência com uma excitação e uma alacridade de meninas. E se primeiro me apetece passar-lhes uma reprimenda viril, ouvindo as reacções deliciosamente musicais das macias japonesas, só me resta invejá-los. Explicam às deslumbradas jovens do país do haiku e de Mizoguchi a tensão e a exigência das coreografias e dizem-lhes que houve mesmo um dos rapazes que desmaiou.

Não chegou o venerando imperador do Japão, mas chegou o Presidente da República da Áustria. A sala ouve o hino de pé, os camarotes iluminados, mil e trezentas garrafas de champagne patrioticamente recolhidas nos frapés, casacas e condecorações tão orgulhosamente erguidas como o comovente peito feminino assoma da beleza viva desses libertadores decotes que, santa paciência, Deus não abençoa mais do que eu. Sem decote, Christine Lagarde, a patroa do FMI, está no camarote à minha frente e olha, como eu, para esta sala que, de pé, ouve o hino da Europa. Claro que é sobretudo uma festa, mas também se vê logo que há, nesta sala, um pouco mais do que uma festa. Há aqui uma forma de vida, a que afluem tradição, o gosto do êxito e do bem-estar, um habituado convívio com a riqueza e com os prazeres sem sobressalto a que gerações de revoltados Rimbauds chamaram simplesmente burgueses.

Muito perto passa o Danúbio, estrada vertebral da Europa Central, que atravessa ou se roça por treze países, desde que irrompe na Floresta Negra até que, em delta, se afoga no Mar Negro. É o Danúbio que está, afinal, na sala da Ópera, o antiquíssimo poder das suas águas, fonte de vida, da humilde fertilidade da agricultura às fulgurantes indústrias, parteiro de aldeias e da sumptuosa arquitectura das cidades. Um rio é o pai das Musas, se é que a voz de Johann Strauss tem alguma autoridade e os meu leitores me deixam pedir-lhe ajuda.

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A palpitação rubra de quem experimenta a felicidade

Há cento e oitenta meninas que entram na sala, de puríssimo branco, tules, sedas e organdi, luvas de manga longa. Tiaras de diamantes na cabeça. Brincos de pérolas. Vêm como um rio, apresentar-se à sociedade. Estão a dois passos de mim e trazem nas caras a palpitação rubra de quem está a experimentar a felicidade. Umas fecham quase os olhos, outras seguram neles a lágrima centrípeta que nunca deixarão cair. Karin, por exemplo, é igual a uma moça de Matosinhos, rosada, cabelo negro, mais farta do que magra, pujança a que os 18 anos de hoje dão graça e que os anos futuros converterão em peso. Tem a pele fresca, de um verniz cristalino, mas os nervos, a ansiada tortura de num só dia passar a ser mulher, puseram-lhe nas costas nuas duas borbulhas vermelhas e púberes, que a maquilhagem tenta disfarçar e os meus dedos podiam, se esticasse a mão, afagar para as acalmar. Se ela precisasse… Mas não precisa. Karin e as outras debutantes entregam-se agora, com precisão, mas não de relógio suíço, a uma coreografia. Os pares delas, os rapazes, ajoelham-se numa cortesia de cavaleiros medievais. Recitam-lhes com o corpo cantigas de amor, uma rosa de prata na mão. E elas hão-de responder-lhes, depois, com igual vénia, o corpo em forma de cantiga de amigo, as costas da mão oferecidas ao primeiro beijo. A sala não resiste a esta delicadeza, quase pueril, e vem abaixo com o maior aplauso da noite, a que logo responde a valsa de Strauss, o Danúbio Azul. Os neurofisiólogos vieram há pouco garantir que, estimulado pela música, um feto de 6 meses já dança. Os 180 pares de debutantes, que estão na sala da Ópera de Viena, ao contrário do Imperador Francisco José de pernas relutantes, ainda eram fetos e já dançavam. Dançam e vê-se que pensam com o corpo, braços e pernas, peito e ventre. Como se a música, que os pés deles elegantemente pisam, tivesse sido a sua primeira linguagem.

Dançam o Danúbio Azul e já nada os separa da multidão que assiste, dos pais e das mães que dos camarotes os comem com os olhos, do Presidente da República que os acolheu, dos 71 anos da actriz Goldie Hawn que veio fazer companhia ao milionário Richard Lugner – por 500 mil euros, se cobrar o que o ano passado cobrou Kim Kardashian. E que interessa a moeda vil! Uma valsa levou os jovens pares de uma margem à outra do rio. A sociedade já os recebeu e o mestre-cerimónias grita então, “Alles Walzer”, os cordões vermelhos desaparecem e todos valsam. Mais de um terço dos cinco mil cento e cinquenta convidados, mil pares pelo menos, evoluem no chão da sala da ópera de Viena. A dança, essa liturgia de júbilo, esse prelúdio que arrasta os corpos, adormecendo-lhes a violência para neles acordar a vontade de fusão, toma conta de Viena. Era capaz de jurar que já vos tinha dito isto: Viena adora dançar.

Os editores são um zero à esquerda

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Zero. À esquerda. O que sabem editores, perguntaria Camilo se andasse para aqui a escrever na blogosfera. Basta fazer uma passagem aleatória pela ava­li­a­ções dos edi­to­res no momento da publi­ca­ção de ori­gi­nais.

“Lolita”, de Vladimir Nabokov, por exemplo. Reparem, foi recu­sado por vários edi­to­res que lhe deram sonoramente com os pés. Como, nou­tro tempo e por outros edi­to­res, foi recu­sado o “Pride and Pre­ju­dice” de Jane Aus­ten. Pior (ou melhor?): houve 22 edi­to­res que recu­sa­ram o “Dubli­ners” de James Joyce. Mesmo o con­sen­sual “War of the Worlds”, de H. G. Wel­les, levou uma redonda nega de um redondo edi­tor. E a editora Har­court Brace (de San Diego, Nova Ior­que e Orlando), desdenhou o “The Cat­cher in the Rye”, de J.D.Salinger, que have­ria de fazer a feli­ci­dade de outra editora, a Lit­tle, Brown, de Bos­ton e Nova Ior­que.

Digo isto e sei que exagero. É fácil ati­rar pedras aos edi­to­res, que cos­tu­mam ser pre­sos por ter cão e por não ter cão. Mas lembrem-se do vexame por que pas­sou uma pres­ti­gi­ada revista lite­rá­ria (e conto como me con­ta­ram) a que um cínico enviou um poema de e. e. cum­mings, cui­da­do­sa­mente rees­crito de trás para a frente: o comité da revista deu-lhe o pri­meiro pré­mio do seu con­curso para a elei­ção de novos talen­tos. Mal por mal e nunca fiando, antes o mau feito de uma escar­rado não.

Meus Kambas: António Eça de Queiroz

O António Eça de Queiroz, meu amigo, e grande, não me cabe nesta varanda em que se entra pela porta da cozinha. Esta varanda é um lugar informal, de kambas, mas é tão estreito que o António tem de pôr uma perna para trás das costas, se quiser entrar, sentar-se e tomar um café. Quando eu imaginariamente o conheci, nessa vasta Angola que então buscava o futuro glorioso de quem se liberta das algemas, o António podia esticar as pernas e abrir os braços, correr pela savana e mandar sinais de fumo. Era tão grande que só nos conhecemos cá, na apertada distância com que se tenta separar Lisboa e Porto. E é como se nos conhecêssemos há um século. É tudo mentira e é tudo verdade, como ele, abaixo nos explica.

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Heurística para mentirosos
António Eça de Queiroz

Definição básica desta belíssima palavra que provém do grego antigo εὑρίσκω (tal como o hēúrēka do excelente Arquimedes), roubada sem dó nem piedade algures na net: «heurística pode ser considerada um “atalho mental” do pensamento humano, que o usa para atingir resultados em assuntos complicadas de forma rápida e fácil».

Tem um pequeno senão: nem sempre funciona, ou funciona apenas em parte.

Conheci esta palavra há umas décadas através da informática, mas fui mantendo no arquivo da minha ignorância a ideia de que era matéria exclusiva desse território específico (tal como “override”, “array”, ou outra qualquer terminologia dos manuais desta ciência e respectivas aplicações).

No entretanto, os alvores da sociedade da informação global, mais acirrados pelo surdo batuque do Tempo, permitiram-me com a disponibilidade dos seus vários “motores de busca” a descoberta de que a palavra “heurística” tinha raízes anteriores e bem menos decifradas no sentido mais “humano” do termo – que foi muito publicitado no fim da 2ª Guerra Mundial pelo matemático Húngaro George Pólya, no seu pequeno mas denso estudo intitulado “A arte de resolver problemas”.

Reconheço como perfeitamente legítima a apropriação do vocábulo pela informática, já que (tal como na “investigação operacional”) esta lhe atribui no seu mapa interior a nobre função de simplificar procedimentos – o que no mínimo agiliza a programação e poupa memória.

Espanta-me apenas a sua pouca divulgação como mecanismo decisivo no comportamento humano, que, na generalidade, ultrapassa (ou dispensa mesmo…) o que é meramente racional. E foi por isso que decidi formular uma breve conjectura sobre heurística elementar (ou para diletantes) tendo por base a exclamação interior, silenciosa mas imperial, que relampeja pelas sinapses de cada um de nós num qualquer momento que entendemos como perigoso, crítico ou apenas urgente: “Eu acho que!…”, com a afirmação a transformar-se em acto mais ou menos imediato.

Só posso utilizar exemplos simples – e, em boa verdade, já um pouco desactualizados pelo tumulto bisbilhoteiro que os telemóveis provocaram na Humanidade. Os manuais dizem que ela (a quase secreta mas sempre elegante heurística) é inconsciente ou consciente; mas eu, que sou chato como a potassa, acho que é sempre e apenas subconsciente – embora com dois padrões visivelmente distintos (mas claro que aqui não estou a falar de assuntos demasiado complexos, que podem demorar a resolver de forma consciente, mas tão só dos que exigem solução instantânea ou perto disso…):

– Heurística instintiva: por norma quase uma acção reflexa, semelhante ao movimento de auto-defesa que faremos inevitavelmente quando nos apercebemos que algo nos vai atingir – seja uma pedra, um murro, ou qualquer outra ameaça física do momento; no entanto, e igualmente no domínio defensivo mas não elementarmente (ou exclusivamente) físico, a heurística instintiva é o mecanismo mais utilizado pelas pessoas que não sabem elaborar uma mentira eficaz e necessitam dela (da mentira) com urgência…

Cada um com as suas necessidades, e a seu tempo.

– Heurística intuitiva: apesar da informação disponível ser bastante incompleta, somos circunstancialmente obrigados a agir com rapidez; há padrões disponíveis, gostos pessoais, memórias de outros, legendas dos dias, comportamentos anteriores com a sua credibilidade solidificada, mas…, o facto é que, no final das pesagens todas feitas à pressa, “eu acho que”… E esse “achar que” passa a ser a lei dominante, inexorável, rumo à vitória ou ao desastre total!… (ou nem tanto, já que nem tudo na vida será tão dramático ou exigente, nem nós somos todos políticos profissionais aperreados na nossa própria demagogia, valham-nos os deuses mais meigos).

Do ponto de vista mais racional, a heurística intuitiva parece a mais fiável – mas sei que devo a vida a alguns movimentos de puro instinto (afinal à outra heurística mais primária e, supostamente, mais tosca, mais pobre). Faz parte dos esquemas mais fundos do raciocínio, do comportamento e do próprio conhecimento. Mas saber que a matéria existe, que é assunto de estudos vários, serve para alguma coisa?

Talvez não ou talvez sim.

Em informática tem a validade do prazo, e não há “hacker” digno desse nome que não saiba o que é; já na vida comum tudo depende apenas daquilo que cada um de nós, num determinado momento e numa situação específica, “achar” que sim ou que não. Sobre o que a análise heurística pode desvendar de um discurso, narrativa, ou mera afirmação voluntarista, ou mesmo de um acto puro e duro, isso será sempre óptima matéria para ensaios e ficções da filosofia da linguagem. Mas quase tenho a certeza de que aquela que eu caracterizo de “instintiva” é a que melhor cor e ritmo dá ao provérbio transnacional, velho e experiente de séculos, onde se reza que “é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo” (sim, em várias línguas ou outros formatos, o provérbio é sempre o mesmo).

Tome-se como exemplo uma situação extrema de classicismo elementar pré-telemóvel: um marido é acordado bruscamente pela mulher que o questiona porque chegou tão tarde a casa; ele, o marido estremunhado e ainda enevoado pelos eflúvios da noite, reconhecendo-se apanhado em falta, responde instintivamente: “Estive a jantar com um amigo, o Manuel, lembras-te dele?… e ele, enfim…, olha! embebedámo-nos a recordar velhos tempos…”

Resposta pronta da mulher: essa tem piada…, o Manuel ligou para cá às 21h30, que precisava muito de falar contigo – que estava em Lisboa mas que hoje estará cá…

Podemos dizer sem medo: fraca heurística!

Outra situação, mas exactamente o mesmo contexto: o marido diz que tinha assistido a um acidente violento (que realmente viu de passagem), e mais diz que teve de ajudar, e que depois foi à polícia dar o nome como testemunha, e que depois, três horas mais tarde, se ofereceu para levar um dos condutores, que “miraculosamente não se ferira”, a casa, e que pelo caminho tinham parado num restaurante, e… pronto!

Como se vê, na mentira intuitiva o actor supriu-se automaticamente de vários níveis de evasivas. Ou seja não é desmentido imediatamente pelos factos como acontece na mentira instintiva.

E isto tudo só para falar de maridos mentirosos – para as mulheres penso que seria necessário um compêndio (nada de juízos apresados: ocuparia mais espaço porque elas são muito mais imaginativas e inteligentes do que o homem, toda a gente sabe disso).

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A ilha deserta

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Mussulo, foto de António Barata

O que é uma ilha? Qualquer ilha é um círculo de solidão, redonda soli­dão cer­cada de mar por todos os lados. Quando ouvi­mos a pala­vra ilha saca­mos logo do col­dre uma pis­tola que antes de dis­pa­rar ainda per­gunta “o que é que eu levava para uma ilha deserta?” Como se as tone­la­das de areia e soli­dão de uma ilha, as pal­mei­ras que o vento finta, pudes­sem ser huma­ni­za­das pela baga­gem do náu­frago meta­fí­sico, baga­gem de livros ou fil­mes, uma música favo­rita ou um oci­oso tabu­leiro de xadrez.

A ilha exerce uma suave pres­são sobre a cabeça de um homem: quando ele dá conta já não dá conta e só deseja ser um Robin­son Cru­soé. O que é que eu leria se fosse Robin­son Cru­soé? Que­re­ria ainda ler as pági­nas de culpa e reden­ção de Lord Jim? Leria con­tos de outras ilhas e de outros mares, con­tos dos mares do sul de Somer­set Maugham? Ou entretinha-me em terra, dedo a dedo e per­verso, com uma Lolita de Nabo­kov? E se eu não era – oh! se era – Robin­son para, numa sexta-feira, ler do falecido poeta a Morte sem Mes­tre!

E os fil­mes da minha ilha deserta? Eu quereria ver, ilha sobre ilha pro­jec­tada, a Saga de Ana­tahan. Revia, outra ilha, flu­vial, no Mis­sis­sipi plan­tada, a ilha do Mud, a cor­rer pela orla de uma infân­cia que fin­gi­ria ser a minha. Ou não via ilha nenhuma e enfiava-me ou fer­via (ou fer­via e enfiava-me) no apar­ta­mento de Marilyn, géi­ser da ilha de Manhat­tan em que ela morava em The Seven Year Itch. Mas como é que se pro­jec­tam fil­mes numa ilha deserta? Projecta-os de cor, frame a frame, a nossa cabeça, por­que uma ilha aperta-nos tanto o crâ­nio que a nossa cabeça escu­rece e se faz cinema.

Con­fesso: já tive a minha ilha deserta. A mais deserta das minhas filhas foi a do Mus­sulo, à frente de Luanda, quando lá vol­tei, em 86. O filme era o de uma guerra civil de silên­cio e ago­nia. No Mus­sulo, onde, com ele a mulher, filhas e amigos, me levou o meu avilo Jorge,  havia ecos da velha canção, Res­sur­rei­ção, cantada por Diá Kimu­ezo e nem uma nota de Coney Island Baby de Tom Waits. O lauto lusi­tano almoço pediu sesta e dormi na imó­vel água tépida entre o Mus­sulo e a costa — amnió­tica doçura, a de assim dei­tado, dor­mir den­tro da água do mar. Acordaram-me os pei­xes a fazer-me cóce­gas nos pés. Depois, fui sozi­nho, linha recta até ao outro lado, o do oce­ano. A sufo­cante ilha deserta, um cheiro intenso e bom, de peixe seco e man­di­oca assada. Um cheiro quente, espesso, cheiro dessa estóica huma­ni­dade que nem sabe o que epi­cu­rismo seja, dizia-me o que sem­pre soube, que em nenhuma ilha se está sozi­nho. Sentei-me com o homem sozi­nho, um velho pes­ca­dor. Com a infi­nita gen­ti­leza de um cota, meu mais velho, dizia-me, xé minino. E falá­mos. Tá mau, nem madeira, nem alca­trão, nesses anos de má guerra só tinha cola, rede e umas ras­pas com que tapava rachas da canoa de ir à pesca. Não se quei­xava nem pedia. Dizia só, xé minino, com uma sere­ni­dade de Quin­tus Hora­tius Flac­cus. Como o romano, tam­bém este ango­lano, nobre e inde­pen­dente, fora filho ou neto de escravo liberto. Estava ali sen­tado, como Horá­cio em Tibur, uma canoa a sua poe­sia, a sua casa de campo uma ilha. Uma ilha aperta-se-nos à cabeça como as deses­pe­ra­das mãos do nosso amor e, sem dar­mos conta, já somos Robin­son Crusoé.

O rei de França não era um queixinhas

A 4 de Janeiro do ano da graça de 2019, nasceu na Imprensa portuguesa uma coluna intitulada Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo. É fraca prosa da minha autoria e acolhe-a, magnânimo, o Jornal de Negócios, e mais especificamente, a sua separata das sextas-feiras intitulada Weekend. Publica-se agora aqui, já depois de, na passada semana, ter a referida coluna cortado orelhas a Van Gogh, Paulo Portas, Mário Centeno e António Costa. Na próxima 6ª feira, comprem o jornal se quiserem ver, em primeira mão, junto à Torre Eiffel, o encontro do arquitecto Tomás Taveira, meu amigo, com o ex-ministro Vítor Gaspar, o juiz Carlos Alexandre, que eu não tenho o prazer de conhecer, e os fragilíssimos intelectuais do Bairro Alto, alguns dos quais tanto prezo.

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Luís XIV e os instrumentos que foram usados para seu íntimo sossego 

O rei de França não era um queixinhas
Manuel S. Fonseca

Bem sei que os gilet jaunes, os «coletes amarelos», não se querem sentar, mas se quisessem, podiam. Não era o caso de Luís XIV. Ele podia, queria e dizia “o Estado sou eu”, coisa que os «coletes amarelos» dizem por portas travessas. Mas o que o rei todo-poderoso queria e não conseguia era sentar-se.

Tudo começou com uma dor, a dois dedos de profundidade, no interior do humaníssimo órgão onde o sol não entra. Vejamos: estávamos num tempo de trevas das ciências médicas, o século XVII a cavalgar desabrido para a sua última década. Quem não podia cavalgar era o rei. Diga-se, em louvor da santa verdade: o rei, ao contrário dos «coletes amarelos», era tudo menos um queixinhas e, à reverente e submissa corte, explicou o seu embaraçoso desconforto alegando que o atormentava um eufemístico tumor na coxa.

Pois está muito bem e um par de botas, mas é preciso ver que o grande povo francês, como o nobre povo português, também se guia por esta destemida divisa: «Na peida, é um descanso.» E era o que não dava descanso a Luís XIV. O rei convocou os seus físicos, esculápios, galenos, enfim os médicos do tempo, que estavam para a medicina como hoje os nossos sociólogos estão para o que chamamos ciência. Anunciou-lhes que tinha, com todas as letras e uma dor analfabeta, uma fístula anal. A dois infinitos dedos de profundidade.

O realíssimo traseiro foi analisado pelos seus cirurgiões com a mesma minúcia com que Marques Mendes, Pacheco Pereira ou João Miguel Tavares dissecam os árduos trabalhos e sofridos dias de Rui Rio. Com igual disparidade de remédios: emplastros e paninhos quentes, uma prolongada estada nas miraculosas águas termais de Unhais da Serra, perdão, de Baréges, nos Pirinéus franceses. Ora, irredimíveis dores só vão lá com audaciosas curas. Um cirurgião, Charles-François Tassy, dito Félix, inspirador nome de guerra, soltou o grito que ecoou no mais recôndito âmbito de Luís XIV: cortar a fístula, operar o cu do rei.

Recordo os mais distraídos e muitos ingratos que António Arnauth ainda não nascera e que o Serviço Nacional de Saúde nem uma peregrina ideia era, então, nas plebeias ou reais cabeças francesas. A palavra tecnologia era impronunciável e o dito Félix, para chegar onde o rei lhe pedia que chegasse, tinha de inventar os necessários instrumentos. Pior ainda, tinha de os experimentar. Procuraram-se todos os fistulados mendigos e indigentes de França. O penetrante bisturi recurvo, do qual saía um estilete e as grosseiras pinças (ou tenazes?) – pensem no filme Eduardo Mãos de Tesoura – foram afinados nos lamentáveis e mal tratados fundos das costas desses deserdados da sorte – no meu tempo de rapazola cruel e socialmente insensível, deles diria que eram «pobres pra chuchu». Foram quase cem os operados, morreram às carradas e às escondidas, mas a medicina, pé firme sobre os seus cadáveres, deu um passo de gigante e Félix estava pronto a abrir o até então intocado tabu de Luís XIV.

Deitado de barriga no principesco leito, um travesseiro a expor as nádegas lunares do Rei Sol, a mão na mão de Madame de Maintenon, perceptora dos seus filhos, Luís XIV, sem anestesia, suportou, estóico, a talhante intervenção. Durante três horas, vigiado pelos outros cépticos físicos da corte, Félix fez do posterior real o fundo pátio do seu recreio.

Foi um êxito. Tão grande que a aristocracia francesa, macaquinha de imitação, desatou a baixar as calças: proliferaram fístulas, o bisturi de Félix não parava, expuseram-se à luz do dia os mais nobres cus de França.

Publicado no Jornal de Negócios

A água tudo lava

Já não sei há quantos séculos escrevi este texto. Nele se conjugava o meu amor pela forma de filmar de John Ford, esse intratável e inclassificável americano de sangue irlandês, e o meu concupiscente amor pelo rastejante rabo de Gene Tierney. Deve dizer-se que o rabo de Gene Tierney nunca foi verdadeiramente chamado para o cinema, toda a sua carreira tendo sido fundada no seu tão belo e sublime rosto. Foi preciso o sacana de um irlandês, católico arrevesado, para a tirar dos vestidos de cetim e casacos de arminho e, já o cinema todo se esfregava em technicolor, vesti-la de trapos, atirá-la para um chão de poeira e fazer dela uma rattlesnake papa nabos. (Se virem o filme, saberão o que quero dizer.)
Na imagem abaixo, as pernas dela são as mesma pernas que, depois, fim da década de 50, o anarquista (logo católico e ateu) Luis Buñuel, usaria na rapariga menor de idade de que ele, abusadamente, fez a protagonista desse filme que, de tão dúbio, teve dois títulos, La Joven e The Young One. 

gene tierney

Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.

A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.

A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao glamour calculado ou à complexidade psicológica de femme fatale que a quero ir raptar.

Roubo-a a “Tobacco Road, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.

Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.

Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto gourmet. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma sexualidade predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.

É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.

O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man cujo beijo Spielberg replicou em “E.T., costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidadose “La Joven, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.

No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.

Não há nada que a água não lave.