Manhã, tão bonita manhã

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Que ale­gria é esta que é tão triste! A voz desta mulher vem do peito, da gar­ganta, mas não sai só pelo dese­nho lindo da boca. Sai pelos olhos, pelas nari­nas, pelas dra­má­ti­cas maçãs do rosto. Mesmo sem a estar­mos a ver, a cada pala­vra que liberta, sen­ti­mos o rosto dela contrair-se, expres­siva, ali­vi­ada, dolorosamente.

Maysa, aris­to­crata bra­si­leira, filha do barão de Mon­jar­dim, casou aos 17 anos, nos já lon­gín­quos anos 50, com um empre­sá­rio pode­roso, André Mata­razzo, homem com o dobro da idade dela. Teria sido uma grande his­tó­ria de amor se ele, mas­cu­lino digo eu, pos­ses­sivo desculpá-lo-ão outros, sem­pre os mes­mos, não a tivesse que­rido impe­dir de cantar.

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Maysa deixou-o, can­tou sem­pre e amou com exu­be­rân­cia, cons­truindo um mito. Para ela, ima­gino, inaugurou-se o voo Rio-Tóquio, para que fosse a pri­meira bra­si­leira a can­tar na tele­vi­são japonesa. Em vez de malas, levou a Bossa Nova a Nova Ior­que e a Paris.

Na voz dela, toda a manhã, toda a aurora, é ainda pro­funda, ine­vi­ta­vel­mente nocturna.

Pudesse eu e a todos os que visitam a Página Negra eu ofereceria, vinil, esse Maysa Sings Before Dawn como ela o gra­vou para a Colum­bia Records. Pedaço de paraíso antes da queda.

Insensatez: músicas negras

toledo e bonfá
Toledo e Bonfá

Há coisas de que gosto com lentidão e espessura. Gosto de Maria Helena Toledo. Um dia, em Nova Ior­que, e espero que o ano de 1963 não me des­minta, ela gra­vou a bonita, mesmo muito bonita can­ção a que Tom Jobim e Vini­cius cha­ma­ram “Insensatez”. Luiz Bonfá, o marido de Maria Toledo, acompanhou-a no vio­lão. E ouçam, o tenor sax que sofre deli­cado a amar-lhe a voz é de Stan Getz. O pró­prio Jobim estava ao piano. Era uma noite de Inverno, nesse mês de Feve­reiro de que já se ouvem os passos, e o calor da sala, espesso, de cheiro a café, um certo fumo, pare­cia Verão.

Infe­liz­mente, o vídeo que encon­trei, perturba-me e confunde-me. Não sei se deixe deslargar-se-me o cora­ção  direitinho aos ouvi­dos para bei­jar a voz de Maria e o sax de Getz ou o deixe ir, ao meu cora­ção, digo eu, roçar-se pela tão insustentável e perdida beleza de Romy Schneider, num rival corpo a corpo com Alain Delon.

E que bonito era o som de Getz e tão transcendente a música brasileira.

 

A Princesa Nua

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Leio os jornais, sobretudo os que escorrem sangue de paixões mal-amadas, e tenho de concordar que os portugueses raptam pouco. Rapta-se desde as Sabinas. Mesmo antes, Páris raptou Helena e deu no que deu, a homérica guerra de Tróia. O melhor rapto amoroso português é nos Lusíadas: os cansados marinheiros do Gama carregam aos ombros ninfas semi-nuas. Mas, hoje, nós, os herdeiros muito mais cansados dos marinheiros de Gama, raptamos pouco. E valha-nos Deus, por amor, há tão pouca gente que nos dê vontade arrebatada de meter lá em casa.

No cinema, sim, apetece muito. Já me explicaram que é de tudo no cinema se passar no escuro e de um tipo (pardon my french) ter as mãos nos bolsos. É escuro e os grandes planos dão-nos olhos rasgados a luz, sorrisos de um marfim mais fino do que uma lâmina e aparece-nos uma turbina no lugar do coração.

Em Luanda, uma vez, no lendário N’gola Cine, cinema ao ar livre entalado no musseque, com palco para variedades e um ecrã maior do que uma baliza de Wembley, navegavam as imagens de um peplum, como depois aprendi que se chamava a filmes que metiam túnicas, mais romanas do que gregas.

Não sei se o filme era Hércules e a Rainha da Lidia ou O Filho de Spartacus. Tanto podia ser um como outro porque o herói de ambos foi Steeve Reeves, Mister Universo, montanha de músculos no tempo em que os músculos faziam de um homem um deus. A plateia africana, em que se aconchegava este rapaz branco e os amigos mulatos, uivava como um cachorro feliz, língua de fora aos cometimentos épicos.

Mas houve um momento de calma e apareceu uma princesa. Com as aias. Caminha até à fímbria do mar, um plano americano mostra-lhe as pernas nuas e peças de roupa desamparadas caem-lhe aos pés. A túnica, digo eu, e já me estou a arrepiar. No plano seguinte, por mal que conhecêssemos a gramática cinematográfica ou pelo tanto que escondiam a princesa, bem sabíamos que estava nua, um plano picado a mostrar-lhe os alvos e carnudos ombros, a cara inteira linda nos sete metros de tela e o mar a cobrir o resto, linha de água a coincidir com o nível mais baixo do ecrã. Uma perceptível, sôfrega embriaguez correu pelas cadeiras. Um mais velho, um africaníssimo kota, levantou a sua refinada sensibilidade e correu pela plateia, saltou ao palco e atirou-se contra o ecrã a tentar em urgente desespero olhar para baixo da linha de água a ver se via à princesa o redondo e macio pecado. O alívio tomou conta da plateia. Risos, gritos, bonés pelo ar: “Mais velho à toa, mais velho à toa, o mais velho é salaiko!” E ríamos nele o que, uns segundos antes, gemíamos em surdina.

Uma princesa banhava-se nua em águas mediterrânicas e uma estrepitosa plateia africana saudava o patético mas sincero raptor da nudez dela. E agora invento que só podia ser a Sylva Koscina, a Sylva Koscina de olhos em azul eastmancolor e peito generoso mas não materno. Por estranho que pareça é por causa desse azul, desses ombros e desse mar que acho que vale a pena amar o cinema. Azul, ombros e mar que fazem um “mais velho” levantar-se e, movido a adolescente fé erótica, querer que lhe dê o ecrã o que a vida lhe tira ou talvez nunca lhe tenha dado.

Chorem, toquem tambores

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Um cemitério de John Ford

Nas últimas décadas, desenvolvemos uma cultura que visa naturalizar a morte. Sim, procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de «pessoas civilizadas» já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a mulher tão amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão os pêsames, com ar ligeiramente mais grave, e a seguir juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas, as convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.

Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nietzschiana não nos diz outra coisa e a morte sai à rua num dia assim. Ou num dia assado.

Da Ilíada ao Hamlet, Homero e Shakespeare, com as suas narrativas de violência e morte, se de alguma coisa foram cantores foi desse triunfo da natureza, conflito e crueldade. E o cinema seguiu os passos desse Homero, desse Shakespeare. No mais árido e estéril dos westerns, de John Ford a Anthony Mann, das personagens de Clint Eastwood e Morgan Freeman do Unforgiven, à personagem de Leonardo Di Caprio em The Revenant, o ritual da violência ou o ritual da morte, o campo de batalha ou o cemitério, o morto exposto, o caixão aberto, a conversa do marido com a campa da mulher morta, são o espectáculo do triunfo da natureza ou o da humana aceitação dela.

Deixem-me abrir um sorriso e dizer: é difícil fugir aos clássicos. Mesmo no crime trivial, no pequeno ou mais exuberante assaltante, há ainda um eco homérico; há um pouco de Ulisses no Al Pacino de Dog Day Afternoon. E quem no seu mais íntimo sonho não pensa, como um contemporâneo Agamémnon, que é possível roubar e dormir com a bela Briseida, escrava ou prémio de Aquiles?

Vão-nos morrendo pais e irmãos, os amigos, um esquecido amor de infância. Deixemos que nos rasgue o peito um grito, um choro de baba e ranho, a angústia de quem, fetal, regressa ao caos e trevas de antes de haver mundo.

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o caixão de Freeman /Eastwood

Os sapatos de Olympia

 

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Quando, no Salon de 1865, Édou­ard Manet expôs a “Olym­pia” que acima se pode e deve ver, caí­ram, sem que os pari­si­en­ses sou­bes­sem o que isso era, o Carmo e a Trin­dade. Sobre o almo­fa­dado leito recosta-se uma mulher nua, flor obs­cena na ore­lha esquerda, quase omi­tido e por isso tão pre­sente, “o íntimo tosão escon­dido pela mão em leque que Olym­pia pousa fir­me­mente sobre a coxa”, como escre­veu Michel Lei­ris no melhor texto que conheço (e só conheço ínfima parte) de exal­tada aná­lise deste qua­dro de um metro e trinta por um e noventa.

É bom de ver, e os crí­ti­cos pari­si­en­ses bem o sabiam, que a “Olym­pia” de Manet, como expres­sa­mente Manet quis que fosse, era uma prima tar­dia da “Dama Des­pida” cri­ada por Tici­ano para o nobre Gui­do­baldo della Rovere e que outros e pos­te­ri­o­res pro­pri­e­tá­rios cor­re­ram a escon­der debaixo de diá­fano manto mito­ló­gico chamando-lhe “Vénus de Urbino”, com des­cul­pas de Gior­gi­one e de outras Vénus do pró­prio Tici­ano.

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Sobre a “dama des­pida” de Tici­ano caem direi­ti­nhas duas hipó­te­ses: a de ela, dama, ser um modelo que o pin­tor pagou ou a de ser a pró­pria mulher de Gui­do­baldo II, duque de Came­rino e depois tam­bém de Urbino. O duque enco­men­dou este qua­dro para o colo­car na sua câmara con­ju­gal, cele­brando assim um ero­tismo que teria lugar den­tro de por­tas, o que parece afas­tar a pos­si­bi­li­dade de ser a “dama des­pida” uma cor­tesã que lhe pro­pi­ci­asse favores.

Na pin­tura de Tici­ano, vejo a mesma pose que Manet reto­ma­ria, por­ven­tura ainda mais ofe­re­cida, nenhuma fita de veludo negro a enfei­tar o pes­coço des­pido, os iguais e fru­ta­dos seios, a dife­rença (e que dife­rença) da mão esquerda se dei­xar cair dedi­lhante e apre­ci­a­tiva sobre (quase den­tro) o dou­rado tosão que mais tarde Manet faria “Olym­pia” escon­der atrás da mão firme. Nin­guém, na Veneza de 1538, se revol­tou como na segunda metade do século XIX se indig­na­ria essa Paris que já vira, um século antes, a fra­ter­nal e igua­li­tá­ria Revo­lu­ção e estava à beira, um lus­tro depois, de ver a ainda mais revo­lu­ci­o­ná­ria Comuna. Olha­mos para estes dois qua­dros e vemos que é quase a mesma cama, os mes­mos alvos len­çóis, as mes­mas ser­vi­çais que as con­tin­gên­cias de época redu­zi­ram a uma e afri­cana, o cão fel­pudo agora trans­for­mado, a pedido de Bau­de­laire, em gato negro de olhos fais­can­tes. Ou será gata?

O que é que, então, fez a revolta dos infor­ma­dos crí­ti­cos pari­si­en­ses? O quarto em que Manet fechou “Olym­pia”, sem essa linha de fuga exte­rior que nos tran­qui­liza em Tici­ano? O corpo mais pro­saico, tão con­tem­po­râ­neo, do modelo de Manet? Ou só, e como lon­ga­mente Michel Lei­ris expli­cou, a fita de veludo negro que enfeita o pes­coço de Olym­pia? Ou os sapa­tos que Olym­pia teima em não descalçar?

A rapariga loura, de olhos tão mansos e líricos

Quando eu escrevi esta crónica, ainda lá vivia José Eduardo dos Santos. Sei quem lá vive hoje, mas não sei onde vive José Eduardo dos Santos. Uma coisa é o que se sabe, outra coisa é o rumor das recordações, das velhas lembranças, a afagar o lobo temporal medial, sei lá se o hipocampo. Esta é, está bem de ver, uma crónica epicurista.

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Summer of 42

Agora vive lá José Eduardo dos Santos. Ou ali tão perto. Era uma das casas do quilómetro 14, em que me aboletava para festas e praia. Já longe de Luanda, Morro da Luz na colina à esquerda de quem ia em direcção ao sul, sol e sal. Em frente à casa, o areal e o mar imóvel, não mais do que um rumor de seda nas noites desse Verão, que fervia, tropical, de Dezembro a Abril. Não sei se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42, filme da mulher casada que ensina a um adolescente o amor adulto, salivado, terno e nu. Foi talvez em 1970 e julgo que não haveria então, no mundo, ninguém que tivesse mais de 17 anos.  

Eu não era só muito novo. Estava interiormente cheio dessa estrondosa timidez de rapaz que se sublimava em jogos de futebol, sonhos de revolução e a alarvidade juvenil de vinte imperiais numa só noite. Dancei com ela, com os 16 ou 17 anos dela, sem saber quem era. O cabelo louro podia ser de uma francesinha de Estrasburgo, os olhos tão mansos e líricos como os da miúda de calções de outro inesquecível Verão, o de Bonjour Tristesse. Não sei, aliás, se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42.

Estava habituado a dançar colado, sofregamente colado, primeiro o roço de uma contra outra perna, depois o braço a distrair-se num seio e, numa lógica afirmação das leis da natureza, logo a dar-se, irremediável, o perfeito e irrespirável encaixe de tudo o que era convexo e côncavo.

Mas ali, onde agora vive, ou tão perto, José Eduardo dos Santos, nessa noite que eu começava então a saber que era colonial, dancei-a ou dançou-me ela de outra maneira. Havia nela uma insustentável leveza loura, um delicado aroma mais metafísico do que Ambush ou Channel. Ela tocava-me só de vez em quando, como se fosse um afago de tule, embora chegasse a parecer fogo. E, coisa que eu sempre me proibira, ela falava. Eu era então muito novo e a palavra, esse mágico dom da velhice, era-me alheia.

A translúcida rapariga loura trouxe-me à varanda de madeira tosca, lá dentro a vaga luz do gerador, cá fora a estendida, imensa escuridão da noite, vigiada por uma tropa de estrelas – nunca vi tantas estrelas como as estrelas que vi no Morro da Luz.

Eu queria dizer-lhe “os teus olhos” ou “a tua boca” e morria-me a coragem num silêncio torpe. As palavras dela vinham devagar, sem peso, pousar em mim. Pousavam-me nos cabelos, na testa, nos ouvidos, indecifrável arrepio na pele nua dos meus braços.

“Não seriam mosquitos?”, perguntou-me depois o meu amigo Manuel Ramos, que tinha casa mais adiante, no Km 36. “Não eram, Manel.” Imobilizava-me a louca paixão de me ver assim, patético, cercado pelas palavras que a levíssima rapariga loura acendia como se fossem cigarros para queimar a noite do km 14, ali tão perto da que viria a ser a casa de José Eduardo dos Santos. E, no meu silêncio, a insustentável rapariga loura desfez-se, leve e aromática, dentro da noite que eu já sabia ser colonial.

Talvez tenha sido em 1970, e talvez eu ainda não tivesse visto no cinema o Summer of 42.

A orelha de Van Gogh

Entrego-vos a orelha de Van Gogh. Foi a minha segunda crónica para o Jornal de Negócios – Vidas de Perigo, Vidas Sem Castigo. Depois desta, já fui, com o Jornal de Negócios, tentar vender  a Torre Eiffel a Paris, crónica publicada na passada 6ª feira e que podem já ler aqui. Mas o meu conselho é que comprem, a cada 6ª, o jornal em papel. É outra largueza, outras vistas, a começar pelas ilustrações de José Tiny, a quem digo obrigado.

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A orelha de Van Gogh

Dizemos «irrevogável» e já mal nos lembramos de Paulo Portas. Esquecido e escasso, o adjectivo de género duplo regressou, rabo entre as pernas, à morna sonsice do dicionário. Tivesse Paulo Portas, como Van Gogh, cortado uma orelha e outro dicionário cantaria. Mas quem é que hoje se atreve a cortar uma orelha? Ouçam Mário Centeno e António Costa: “Cortamos meia orelha cada um se não crescermos 2% acima da média europeia!” Pois sim, quem cortou uma orelha foi Van Gogh. A 23 de Dezembro de 1888, fechando um ano de euforia e desespero.

Na casa amarela de Arles onde morava, em França, sobre o Mediterrâneo, vivia também outro pintor, Paul Gauguin. Van Gogh convidara-o para o que imaginava vir a ser um cenáculo de artistas capaz de pintar a manta e reinventar o mundo. Os primeiros tempos de convívio dos dois lembram o romântico ménage à trois socialista, a que Catarina, Jerónimo e Costa emprestaram mais o corpo do que a alma. Faltavam duas noites para o Natal, e talvez estivessem a regressar do bordel da rue du Bout d’Arles, nº1 – e já estou, de novo, a falar de Gauguin e Van Gogh. Olhem para eles: gritam, numa exaltação eléctrica. Gauguin, Catarina e Jerónimo afirmam o primado da fantasia na pintura. Van Gogh e Costa juram por uma realista fidelidade às coisas tais como são. Já arde na casa o lume das palavras mais revolucionárias, mais reaccionárias, e nenhum se cala.

Gauguin fez o que Catarina e Jerónimo não podem fazer, saiu porta fora e enfiou-se num quarto da primeira pensão que encontrou. Sozinho, na casa amarela, Van Gogh, que aspirava a tudo, menos a maiorias absolutas, tocado a absinto, numa alucinação galopante e irrevogável, cortou a orelha. Não o lóbulo ou um pedacinho da parte superior, mas a orelha inteira.

Van Gogh tem na mão a irremediável orelha. Embrulha-a num pano de linho, que logo o sangue tinge. Caminha, da Place Lamartine, onde fica a sua casa amarela, até à casa de tolerância no nº 1, rue du Bout d’ Arles. Bate à porta e pede que chamem Rachel, que hoje sabemos ser Gabrielle. Ela não tem mais de 18 anos, uma bela cara camponesa, rosadas maçãs do rosto. Van Gogh dá-lhe o delicado e tintado pano e diz: «Aqui tens… em memória de mim.» Rachel, ou Gabrielle – e que interessa, se era a inocência em pessoa –, abre o pano, vê o que vê e desmaia.

Gabrielle era da casa, mas, sabe-se hoje, não era uma das meninas da casa. Casou e teve filhos. Um ano antes, mordera-a um baboso cão raivoso. Queimaram-lhe a ferida com um ferro em brasa e levaram-na a Paris, tinha Pasteur acabado de inventar a vacina contra a raiva. A família pagou a pipa de massa que não tinha e Gabrielle teve de ir trabalhar como criada, no lupanar, e também no café em que o obsessivo Van Gogh sempre se sentava à mesma mesa. 

Disputavam-na Gauguin e Van Gogh? Mais do que por uma guerrilha estética, terá sido por causa da saudável beleza dela que os dois se zangaram? Nenhum de nós, nestes tempos de tão civil razoabilidade, porá as mãos no fogo pelo caso. Mas pô-las Van Gogh, que já antes, na Holanda, se apaixonara por uma prima, viúva recente, e quando os pais dela o proibiram de a ver, pôs a mão na chama de uma lamparina, pronto a arder se não a chamassem. Na Bélgica dera toda a sua roupa aos pobres. O anjo em dor era a paixão de Van Gogh. E Gabrielle, tão jovem, de beleza tão boa, obrigada a correr de limpeza em limpeza, do café ao bordel, era o anjo caído de quem Van Gogh quis, no acto de desespero de uma noite negra, ser o Cristo: «Aqui tens… em memória de mim.»

Publicado no Jornal de Negócios

Meus Kambas: Diogo Leote

Esta é a varanda em que recebo as visitas dos  amigos. Quem visita a Página Negra já está careca de saber: entra-se pela porta da cozinha e, um copo em cima da mesa, conversa-se ao ar livre, na varanda. Mesmo no Inverno, esta varanda é um sítio aprazível, sobretudo se tivermos a sorte de apanhar com a visita do Diogo Leote, meu kamba expansivo e genuíno. Nunca sabe é donde é que ele vem – se de um concerto rock ou pop, se de um filme no cinema Ideal, Cinemateca ou Nimas, se  de um lançamento avant-garde ou do Estádio da Luz (em liguagem carinhosa, a Catedral).
O ecletismo do Diogo é o ecletismo mais bonito que eu conheço, porque é de amor a tudo. O Diogo tem, em todas as disciplinas da cultura e do espectáculo, mil concubinas. Sussurra-lhes ao ouvido, uma leve carícia no braço nu, um beijo no lóbulo da orelha, a todas trata com tão amorosa gentileza que um tipo fica a roer-se de inveja, um atómo de despeito a pôr-nos a língua em brasa. Eis o Diogo Leote, meu kamba. Dele, até o Pai Natal é amigo.

May the Force Be With Them
Diogo Leote

 

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“Dizem que Rovaniemi na Lapónia é a sua residência oficial”. Estava lançado o mote para a celebração do Natal em família. Não contando com o autonomeado mestre-de-cerimónias (isto embora lhe faltassem atributos para se assumir como o MC que os juniores reclamavam), estavam ali vinte e duas cabeças pensantes, dos seis aos setenta e quatro anos de idade. Os mais jovens, sequiosos de levar à prática os seus instintos competitivos, os graúdos com uma vontade quase envergonhada de pôr à prova supostos conhecimentos adquiridos em toda uma vida adulta de livros, jornais e noticiários. Ou talvez tudo se resumisse à mais elementar das questões existenciais: de um lado, jovens a querem passar por velhos, do outro “cotas” a fazerem de jovens, uns com uma senha de acesso livre a um mundo ainda proibido, outros embebidos num entusiasmo juvenil desamarrado das censuras prévias que a idade se autoimpõe. Todos de igual para igual, unidos na convergência de interesses que permitiram a mediana das idades (aí pelos 30 anos) e um sorteio na organização das equipas orientado pela representatividade das diversas faixas etárias.

“Natal em espanhol, francês e inglês”. Eis que um dos adolescentes, enquanto se engasga com a pronúncia de uma das derivações linguísticas da palavra, toma consciência, rejubilante de euforia, de quão universal pode ser a mensagem das festividades natalícias. Mas não está só. Logo de seguida, “o pai de Luke Skywalker e da Princesa Leia” e “o único na Aldeia gaulesa que não pode tomar a poção mágica” arrancam das mais imberbes das vozes, duas delas no sexto Natal apenas, um orgulhoso “eu sei” que, quase que vou jurar, tingem de uma vergonha não confessada um ou outro dos mais idosos. Segundo consta, até o Pai Natal, lá em cima, já na sua viagem de regresso, terá sido obrigado a travar a fundo a marcha das suas renas para agradecer a todos os que, cá em baixo, continuam a permitir-lhe a sã convivência com os universos de Lucas, Goscinny/Uderzo e Walt Disney.

O jogo prossegue sem que ninguém desarme. Sucedem-se epifanias, abrem-se horizontes, reencontram-se amores perdidos, descobrem-se paixões. À “escritora que ninguém sabe quem é” respondeu um dos machos presentes, certamente inquietado pelo chamamento do mais feminino dos mistérios, com páginas e páginas, logo no dia seguinte, de leitura voraz da Amiga Genial da Senhora Ferrante. Outro, desconsolado por ter não ter dado o devido valor em vida a uma outra senhora de voz sofrida, que “cantou a reabilitação numa casa de vinhos antes de morrer”, adormece nessa noite a ouvir a pobre da Amy Winehouse. Um outro ainda, subitamente alertado para os perigos que espreitam atrás da ignorância crescente que desperta a pergunta “num Estado de Direito, quais são os três poderes sempre separados?”, volta a ler Montesquieu com a sofreguidão de quem teme não poder voltar a fazê-lo. À lembrança do “ano do último campeonato do Sporting”, vê-se escorrer uma lágrima furtiva. Um sopro de alívio faz-se ouvir quando o MC pede à sala que se identifiquem “as 3 instituições da Troika que tomaram conta de Portugal entre 2011 e 2014”. E, ao anúncio do “casal que no cinema estava de olhos bem fechados e que acabou separado”, pressente-se alguém a tremer de nervosismo – logo desfeito pela forma hábil como um sorriso fintou a polémica dissimulada na pergunta seguinte, formulada através de uma expressão tão delicada (estavam crianças a participar e não havia salas de acesso reservado) como “onde podemos ver as pilinhas do Robert em Portugal?”.

As respostas dão lugar a reações desencontradas, ali uma explosão de alegria equiparável a um golo de levantar o estádio, acolá a frustração de uma palavra debaixo da língua que se deixou fugir, mais além um sentimento de injustiça pela álea própria de um jogo que também é de sorte e azar, noutra banda ainda a sensação do dever cumprido, ou de superação de expetativas, de quem sente estar a ser testado por outros. Mas, por mais diversas que sejam as reações, em momento algum, ao longo das cerca de duas horas e meia de jogo, se vislumbra o mais leve sentimento de indiferença ou de apatia, ou se evidencia qualquer sinal de cansaço ou monotonia. A razão para o empolgamento parece bem simples de decifrar: são vinte e três cabeças, dos seis aos setenta e quatro anos de idade, todos unidas por laços de sangue ou afinidade, e imbuídas do mais puro prazer de entretenimento de um quizz.

O mestre-de-cerimónias, no entanto, consegue ver mais do que isso. Num curto vislumbre, vê, ali mesmo, a solução para todas as desavenças familiares e para todas as incompreensões da gap generation, o antídoto para os problemas crónicos do abandono ou desinteresse escolar, numa palavra, o elixir miraculoso para a ausência ou défice de comunicação do mundo moderno. Iluminado pela extraordinária revelação, o mestre-de-cerimónias quer anunciar, primeiro aos presentes, depois ao mundo inteiro, o poder transformador do conhecimento e da palavra. Tem consigo pelo menos vinte e dois apóstolos dispostos a espalhar a boa nova.

Tem? Teria, não fosse o Mestre-Cerimónias ter acordado do sono retemperador que só a noite de Natal é capaz. Acordou para o mundo, hèlas. De um mundo sem apóstolos, sem o Pai Natal e sem os super-heróis que, umas horas antes, no quizz de faz-de-conta familiar, fizeram de vinte e três irmãos, pais, filhos, avó e netos, genros, noras e primos, um universo particular. Ficou a ilusão, cogitou o falso mestre, já sem cerimónia nenhuma. A ilusão do exemplo de motivação e inspiração de um simples jogo de encantar, feito do saber das coisas passadas, da sua marca no presente e, quem sabe, da sua capacidade de influenciar o futuro. Quem sabe no próximo Natal o deixariam voltar a arrastar uns quantos primos no faz-de-conta. E talvez, em anos vindouros, mais e mais primos e famílias o acompanhassem pelo mundo fora. Ou não. A dar ouvidos ao mundo, dizem que cada vez mais perigoso, não é de pôr de lado a possibilidade de a atividade dos mestres-de-cerimónia, assim como a de todos os que os inspiram – escritores, músicos, atores, cineastas, dramaturgos, artistas em geral -, acabar proibida para dar lugar a uma única e universal ficção, com um guião pré-determinado. Uma ficção que, nesses tempos negros que aí virão, se confundirá com a própria verdade. Mas isso é o que se diz por aí. O Mestre-Cerimónias não vai em conversas. Prefere continuar a acreditar no Pai Natal, com pelo menos outras vinte e duas almas. May The Force Be With Them.