O quadro roubado

 

crucificação

Que quadro é que eu levaria para uma ilha deserta? A ter de roubar um quadro, só mesmo um, para me acompanhar na solidão da mais recôndita e nua das ilhas, escolhia esta Crucificação, que Matthias Grünewald começou a pintar em 1512.

Duas mulheres, dois homens e o cordeiro de Deus (o que tira os pecados do mundo?) rodeiam um agónico Cristo que os especialistas dizem estar morto. Mentem: pressinto haver nele um indelével rasto de vida. Este homem gigantesco, cujo peso torturado faz ranger o madeiro que o sustenta, desequilibra todas as linhas, nega os mais básicos princípios da boa composição. Um morto já não se cansa a romper assim as convenções de painéis e altares. “Quem me dera estar morto” diz o ar que lhe enche o peito e recorta as costelas; “quem me dera estar morto” diz o esforçado encosto do joelho esquerdo, diz o vigor com que o rei judeu na cruz ainda eleva os ombros. As mãos dele, garras impoderosas, confirmam um último alento.

mão

Este quadro não é belo. Só é belo de nele não haver beleza nenhuma. Só é belo pela veemência com que, militante, protesta as dores do Cristo salvador. Protegida por invisíveis alarmes (e, de certeza, com escutas) na antiga igreja que agora é o Museu de Unterlinden, em Colmar, há nesta Crucificação um excesso patético de que as mãos do Cristo flagelado são a mais retorcida e desmesurada representação.

Abaixo deste Cristo que o sofrimento faz gigantesco, todas as outras figuras encolhem e se encolhem. O crescimento – ser esticado – dói muito ao Cristo pregado aos dois barrotes de madeira; mas é também, até mais, terrivelmente dolorosa a violenta compressão de Maria, Madalena, João e, no outro lado, do Baptista. Tive, e julgo que todos tivemos, sonhos adolescentes de ver quartos, mesas, cadeiras gigantescas, de quase infinita grandeza e sonhos de tudo ver em inenarráveis paisagens liliputianas, de figuras miniaturais. Ambos são sonhos penosos, acompanhados da mesma tontura que faz a rejuvenescida Madonna de Grünewald tombar nos braços do apóstolo dilecto.

madona

Ou que faz a entrançada angústia das mãos de Maria Madalena.

maria madalena

Nenhuma imaginação interpretativa. No quadro, nesta Crucifixão em que já a noite cai e um rio de indiferentes águas corre imutável em fundo, sobre a mão quase acusatória do Baptista, a cujos pés o cordeiro segura uma cruz simbólica e simbólico verte no cálice o sangue da salvação, há uma legenda que diz literal: “Illum opertet crescere, me autem minui”. É preciso que ele cresça e que eu diminua. Matthias, que não se chamava Grünewald, não deixou a ignorantes mentes alheias como a minha, o direito a falsos testemunhos, fixando ad aeternum a verdade do seu portentoso retábulo.

Este seria o meu quadro roubado. Mas como é que se rouba de um retábulo a madeira de um painel de dois metros e sessenta e nove de altura por três metros e sete de largura?

do not go gentle into that good night

thomas_portrait

A certas horas da noite a morte seduz e assusta-nos. Mas há convites a que não se pode ceder sem uma boa luta. Mesmo que o sonoro convite seja dito em “g” de gentle, consoante que o meu Aurélio diz ser fricativa palatoalveolar quando precede a vogal “e”, como é o caso neste poema de Dylan Thomas.

Gosto do ritmo, das rimas e do trovão de érres que se repete em  “Rage, rage against the dying of the light”.

Entre a doçura e a fúria, Thomas terá escrito este poema, inundado de vogais abertas, quando o pai adoeceu gravemente. Só o publicou depois dele ter morrido.

Vale a pena ouvi-lo na pessoalíssima voz (tão teatral) do poeta galês.

 

Meus Kambas: Pedro Correia

E se não tivesse havido já três visitas a Meus Kambas, esta não seria a quarta, diria, se fizesse contas, Monsieur Jacques de La Palisse. É, portanto, a quarta vez que entramos na varanda pequenina com porta para a cozinha, onde recebo os amigos. Hoje, senta-se comigo o Pedro Correia, jornalista e autor, figura tutelar do Delito de Opinião, e uma figura que muito ajudou a fazer a blogosfera portuguesa, dotando-a de espírito de diálogo e convivialidade, esses dois imprescindíveis sinais de civilização.
É uma honra tê-lo aqui. E é um prazer ler este seu
As Palavras em Vias de Extinção.

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As palavras em vias de extinção
 Pedro Correia

Temos a mania de mudar o que está certo. Penso nisto ao ver alteradas, em sucessivos lançamentos editoriais, antigas designações de obras-primas da ficção literária vertidas para o nosso idioma: O Monte dos Vendavais derivou primeiro para O Monte dos Ventos Uivantes e depois para O Alto dos Vendavais; a Cabra-Cega, de Roger Vailland, tornou-se Jogo Curioso (alguém estará convencido de que se adequa assim à semântica portuguesa o Drôle de Jeu original?); o Catcher in the Rye, de Salinger, passou a intitular-se À Espera no Centeio, abandonando-se Uma Agulha no Palheiro, feliz título concebido na anterior tradução, de João Palma-Ferreira.

Anda agora por aí uma recente versão de Três Homens num Bote, divertido romance de Jerome K. Jerome com este nome consagrado há décadas em português. O novo tradutor e o novo editor optaram por outro título: Três Homens num Barco. O que de algum modo confirma a intensa compressão vocabular que a língua portuguesa vai sofrendo, com a definitiva eliminação de milhares de palavras subitamente tornadas imprestáveis nesta era das mensagens instantâneas, quando até já há quem escreva “romances” por telemóvel. Se bote e barco são sinónimos, mas o segundo termo se reveste de um teor mais impreciso e sem o relance humorístico que num bote para três já se insinua, porquê rejeitar a designação já consagrada? Não custa adivinhar: a outra é de apreensão mais fácil.

Assim vamos comunicando de forma cada vez mais esquemática, prestando culto ao literalismo despido de ironia e despovoado de metáforas, com um naipe de palavras cada vez mais reduzido, o que produz reflexos óbvios no pensamento e na própria cidadania. Vocábulos rudimentares conduzem fatalmente a raciocínios esquemáticos, cada vez mais distantes da complexidade e da sofisticação que só um domínio alargado das variações semânticas induz. Daí à visão do mundo e da vida a branco e negro, numa dicotomia simplista que favorece os demagogos de todos os matizes, vai um curto passo.

«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário curto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alerta-nos Mário de Carvalho no seu excelente manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, justamente galardoado em 2015 com o Prémio P.E.N. Clube para melhor ensaio. E o escritor concretiza, indo ao cerne da questão: «Se hoje muitos jovens não conseguem perceber um provérbio, isso acontece não somente porque o mundo rural desapareceu, mas porque se tem destruído a memória e ocultado a espessura da História. Uma das razões para ler é também a vontade de libertação, a expressão de um inconformismo que não aceita ficar encarcerado dentro dos limites do vocabulário básico.»

Já estivemos mais longe dos grunhidos monossilábicos como forma dominante de expressão oral. Não falta também por aí quem gostasse de os ver como matriz dominante da nossa escrita.

diccion

 

O que é a escrita?

Tenho obsessões. Por exemplo, este livro:

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Eu andava com um pé nos 17 e outro nos 18 quando comprei, na livraria da ABC, na baixa de Luanda, a “Idade de Homem”, de Michel Leiris. Hoje, não há já um português que se dê ao trabalho de ler um francês como este. Era Luanda, sobrava tempo e li as 222 páginas. Deixaram marcas. O livro de Leiris, poeta, surrealista, mas sobretudo etnólogo e amigo do Georges Bataille de “L’Erotisme”, era um livro de exposição pessoal. O autor oferecia de si mesmo um retrato implacável, arriscando por vezes uma auto-flagelação que ainda hoje me faz pensar se o verdadeiro rito de passagem para a viril idade não é a lúcida capacidade de nos auto-examinarmos e, com calculada injustiça, nos desvalorizarmos ao ponto de um certo escárnio.

É com esse exercício cruel que Leiris começa o livro, fazendo a sua descrição física: “…detesto ver-me de repente num espelho porque, não estando preparado para isso, acho-me sempre de uma fealdade humilhante”. Picasso, que era amigo dele, leu e disse-lhe com todas as letras: “Votre pire (ou meilleur) ennemi n’aurait pas fait mieux !” Outro pintor, outro amigo, Bacon, confirmou-o com este retrato que não mostra o que pintor via, mas o que Leiris catastroficamente era.

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O retrato de Francis Bacon

O propósito de Michel Leiris era o de desvendar como “a partir do caos miraculoso da infância se chega à ordem cruel da idade de homem”. Queria fazê-lo, afirmou, dizendo toda a verdade, um pouco mais até do que a irrisória verdade. Foi a primeira vez que vi, ou li, a literatura como uma forma de exposição pessoal. O que, dito nestes lamentáveis termos, é a mesma coisa do que estar calado: Leiris jogava um jogo de alto risco e oferecia-se cristicamente: tomai e comei todos, este é o meu corpo. Ou, como o autor explicava, era esta a única forma de introduzir numa obra literária um risco aproximado à ameaça do corno do touro que os homens de lantejoulas enfrentam na arena. Escreves, arriscas-te — mostras-te na exterior e interior dimensão que, a um tempo, o lírico retrato de Bacon exibe.  

Esta visão “da literatura como uma forma de tauromaquia” fascinou-me sem remédio. Ou se escrevia para nos pormos em causa, correndo-se o risco do equilibrista no circo, ou não valia a pena, o que me liquidou qualquer veleidade lírica ou outros arroubos sinfónico-literários.

Mas será possível escrevermos e descrevermo-nos da forma desapiedada que Leiris propunha? Basta lê-lo para perceber que os segredos, os mitos (tão tocantes, o de Lucrécia, a mulher que se mata, e o de Judite, a mulher que mata), a encenação teatralizada são, mais do que os factos verdadeiros, a matéria da “Idade de Homem”. Neste livro catártico, onde Leiris percorre família, mulheres, masturbação, sadismo, sagrado e suicídio, para mencionar apenas alguns dos temas da sua vida, acabamos por descobrir que, por mais verdade que se queira pôr no retrato falado de nós, só conseguimos dizer-nos e contar-nos por símbolos, por mitos e por alegorias. O romance é o fio de Ariana do romance “autêntico” que quero (Leiris queria) tornar comunicável a outro. Romance é o que põe a nu o coração.

Para que conste, aqui fica a ficha do livro: “L’Age d’Homme” foi publicado em 1939, a pedido de Georges Bataille para uma colecção erótica. A edição portuguesa surgiu em 1971, na Editorial Estampa e a tradução (excelente prosa) é de Maria Helena e Manuel Gusmão.

Curiosidade final, Leiris, no exemplar do livro que deu à mãe, assinou uma dedicatória reveladora: “À minha querida mamã, que vai ler neste livro coisas que talvez lhe sejam penosas, mas que compreenderá, estou seguro, que são apenas injustiças de infância, que em nada comprometem a ternura da idade adulta. Michel

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O retrato de Marc Trivier

Quem inventou Deus?

Um mérito, pelo menos, não se pode recusar à humanidade. Criámos Deus. Melhor, um cortejo interminável de deuses. Não é coisa pouca. E, ao contrário do que alguns pensam, essa foi uma ideia brilhante, inventiva, nada obscurantista. Ajudou-nos muito termos criado Deus.

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A deusa que antecedeu Bündchen

Deus é a pin­tada prova da vai­dade humana. Os gre­gos inven­ta­ram deu­ses, os ban­tus deram à luz Nzambi e os esqui­mós afo­ga­ram no Árctico uma deusa gélida. Os aus­tra­li­a­nos têm des­culpa: quem inventa o boo­me­rang não pre­cisa de inven­tar raio e tro­vão de mais coisa nenhuma.

Os nos­sos dinos­sáu­ri­cos avós inven­ta­ram deu­ses para a guerra e o amor, comér­cio e oce­a­nos. Um avô judeu achou que devia fun­dir essa mul­ti­dão celeste num só Deus que pode e sabe tudo, está em todo o lado e, por estra­nho que pareça sabendo-se que saiu de cabeça humana, é infi­ni­ta­mente bom.

Orgu­lhoso com tão per­feita inven­ção, o homem não resis­tiu à vai­dade de trans­for­mar a coisa cri­ada em Cri­a­dor. Por não saber donde vinha, o homem fez-se filho dos deu­ses que inven­tara. Como se Deus fosse um Bot­ti­celli ou Miche­lan­gelo e nós saís­se­mos das Suas mãos fei­tos Vénus (sim, no caso da bra­si­leira Bünd­chen) ou David (errado, no meu por­tu­gue­sís­simo caso).

Tão pura vai­dade arran­jou uma valente carga de tra­ba­lhos. Sobre­tudo a Deus. Para satis­fa­zer a vai­dade de ter­mos um Pai dono do Uni­verso, aban­do­ná­mos Deus à soli­dão da trans­cen­dên­cia, à eterna cha­tice de motor imó­vel. Coi­tado de Deus, tão sozi­nho, tão con­cep­tual, sem­pre um milé­simo de segundo atrás do Big Bang!

Esse Deus – ouço-o gemer de angús­tia – está nos fil­mes do sueco Berg­man. É uma pre­sença muito pare­cida com o frio que nos passa pela espi­nha: rosto his­té­rico, corpo psi­có­tico. O ver­me­lho, cor de “Lágri­mas e Sus­pi­ros”, é um reflexo da gló­ria imu­tá­vel e incom­pre­en­sí­vel desse Deus dos fior­des. Em “Atra­vés do Espe­lho”, “Luz de Inverno” e “O Silên­cio”, Berg­man pintou-o aus­tero, devo­rado por um mutismo rígido e inco­lor, extre­mando o que o dina­marquês Dreyer pre­pa­rara em “A Pala­vra” e “O Dia da Ira”.

Os fil­mes lute­ra­nos de Berg­man figu­ram Deus como uma ara­nha. Nos fil­mes do cató­lico Paso­lini (cató­lico da hete­ro­do­xia mar­xista que dis­pensa bap­tismo mas não o acto de con­tri­ção), Deus passa de ara­nha a Terence Stamp. No “Teo­rema”, que se devia mos­trar nas aulas de mate­má­tica, Stamp instala-se numa casa de famí­lia e, num pro­cesso a que nos tem­pos da revo­lu­ção ango­lana se cha­ma­ria de enga­ja­mento sexual, traça, um a um, os mem­bros da famí­lia, da cri­ada ao pai, pas­sando pela mãe, filho e filha. Com estilo e meta­fí­sica, não pou­pando gera­ções nem clas­ses, Paso­lini fil­mou a carne a ven­cer, com van­ta­gem e êxtase, o espírito.

Agar­ra­dos à mãe­zi­nha (e a Freud), os ame­ri­ca­nos nunca acei­ta­riam a ambí­gua poli­va­lên­cia paso­li­ni­ana. Por nin­guém ser pau para toda obra, Bob Fosse e Spi­el­berg fize­ram de Deus uma mulher. Mulher com ape­ti­tes e mere­ce­dora de ape­ti­tes em “All That Jazz”. Diá­fana e gen­til no “Always” de Spi­el­berg. Se, como Spi­el­berg sugere, Deus se parece com Audrey Hep­burn, palpita-me que a teo­lo­gia vol­tará a ser uma dis­ci­plina popular.

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Audrey Hepburn com Richard Dreyfus em Always

Bem-aventurados os que bebem

 

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Jesus Cristo, do alto da montanha, desfiou as Bem-aventuranças. Não disse, «bem-aventurados os que bebem», mas recomendaria mais tarde, num momento crítico, diga-se, o pão e o vinho.

Eu, embora antigo, não conheci Jesus Cristo. Conheci, porém, John Huston. Já vinha numa cadeira de rodas, momento crítico portanto, que cada um carrega às costas a cruz que lhe calha ou a cruz que pode. Nesse encontro, garrafinha de oxigénio ao seu lado, John Huston disse e o insatisfeito olhar dele confirmou: «Se, com o que sei hoje, pudesse voltar atrás, mudaria uma coisa na minha vida: teria bebido muito menos whisky e muito mais vinho tinto.»

Eis o que tenho para vos dizer: a lei seca foi um retrocesso civilizacional. Desensinou a beber, se me autorizam o neologismo. O bêbado, boca zurrapada, a transpirar álcool pelos olhos e atrás das orelhas, é um dos maus resultados da lei seca. Não me entendam mal, não troco uma gloriosa bebedeira por uma pipa de moralismo.

Não conheço o actor Michael Caine e só vi Peter O’Toole em pessoa uma vez. Mas, em 1959, eles estavam juntos, em Londres, a representar no Royal Court.  Foram, digamos, jantar depois da peça. Voltavam à cena no dia seguinte, domingo, às 8. Entraram numa tasca de Leicester Square, coisa mal frequentada por malta rija, tipos que hoje, em Lisboa, fariam a felicidade da estiva. Veio a noite e depois o dia. Acordou-os, sabe Deus onde, uma rapariga desconhecida, estavam deitados na mesma cama, vestidos como na noite de sábado, mas muito mais amarrotados. A moça disse: estamos nos arredores de Londres. Não sabiam o que tinham feito e como tinham chegado ali. «É melhor não sabermos», terá respondido Michael Caine. O’Toole olhou para o relógio e viu que eram cinco da tarde. «Cinco da tarde de domingo – disse – ainda chegamos a tempo, a peça é só às 8.» A rapariga interrompeu-o: «Sim, só que hoje já é segunda-feira.»

Há um incógnito, absconso domingo em falta na vida de Caine e O’Toole. Voltaram ao teatro e passaram pela tasca. Na porta ou na montra, não sei bem, estava colado um cartaz: «Entrada interdita a Michael Caine e Peter O’Toole.»

Eis o que tenho para vos dizer, a lei seca foi um retrocesso civilizacional, mas eu prefiro um só copo de Quinta do Vale Meão à bebedeira homérica. O bêbado homérico perde-se dentro de si mesmo. Eu gosto da vida porque me disseram que davam bolos e um dos meus bolos é o degustado copo de duas Tourigas e uma Tinta Roriz. O bêbado é a anti-pessoa, diria o cronista Nelson Rodrigues. E eu digo, a boca que bebe o tinto Chryseia, bebe como quem beija. E é essa boca, esse copo, esse divino licor, que aqui louvo, com a voz de John Huston. Ou com a voz crucificada de Jesus Cristo: «Tomai e bebei todos.»

O Hitler em nós

 Voltei às minhas velhas notas do tempo da Cinemateca e, às ordens e por despacho do Cineclube de Viseu e da revista Argumento, reescrevi um texto que tinha ficado perdido no tempo. Deu-me gozo. Mudei adjectivos, criei subtítulos, redimi alguns parágrafos, acrescentei outros – até Merkel foi para aqui chamada. Pior ainda, revi boa parte do filme. Fiquei com pena de não ter revisto tudo.

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Somos todos marionetas?

Hitler, um filme da Alemanha, filme realizado por Hans-Jürgen Syberberg, em 1977, é o quê? Sim, é um filme de sete horas, extravagância que não casa com as programações de cinematecas, festivais e cineclubes contemporâneos. Ou será que não casa, sobretudo, com o apressado e instantâneo Homem contemporâneo – e deixem-me vir já armado de maiúscula, para que neste H caibam homens e mulheres e o mais que de géneros se convoque e legitime.

Será Hitler uma evocação fascinada de terríveis fantasmas do passado? Um libelo contra a moral e a estética do mundo contemporâneo? Um relato, simultaneamente em tom hagiográfico e de farsa, à volta da vida do homem de anacrónico bigode que presidiu ao terceiro Reich? Ou será uma invocação e uma diatribe contra o cinema e a sua história? Talvez seja, e confirmá-lo-ia Angela Merkel, se o tivesse visto, a devassa do inconsciente colectivo da Alemanha. São muitas perguntas e eu diria, em três prosaicas linhas, que é o fim de uma trilogia (de que os outros painéis são Ludwig, Requiem para Um Rei Virgem e Karl May) cobrindo a história da nação alemã – e, logo, a da Europa – desde a industrialização no século passado até às sequelas, que chegam aos nossos dias, da queda do terceiro Reich.

Um filme em inflação cósmica
Tudo isto, e um fausto de símbolos e bandeiras, sobreposições, alegorias e fantasmas, é Hitler, filme de Hans-Jürgen Syberberg, ainda que a simples soma das facetas referidas, contraditórias e até paradoxais, seja insuficiente para designar o que, na sua globalidade, o filme efectivamente é. Hitler, um filme da Alemanha é uma suma em forma de oratória, articulando a história, o cinema, o teatro, as ideologias, e sobretudo esse fundo mítico e irracional que parece ser a fonte da nossa ansiedade e dos nossos medos, mas também a mola fulcral da nossa acção. Tudo cabe num filme, se o filme, como o universo, for passível de inflação cósmica.

E eis que Hitler vira as costas ao universo para ser só cinema. Hitler é o filme colagem em que se inscreve a memória ritualizada do cinema no cinema: perante um Hitler na tribuna do seu estádio, a uma velocidade de Jesse Owens, desfilam fantasmas, a naïveté de Méliès, a montagem de Eisenstein, a megalomania de Stroheim, a ascética culpa de Lang, a multidão da Riefenstahl, o servilismo funcional de Veit Harlan, o barroco prestidigitador de Orson Welles, o rigorismo de Stanley Kubrick, o rosto da Garbo, o sonho de Mary Pickford, os artefactos chaplinescos, alguma inocente magia circense, em que Ophüls e Lola Montés estão presente de parte inteira.

hitler

Os cúmplices de Hitler
Lembro-me do que me lembro, diria João Bénard da Costa, e eu lembro-me de ter ido jantar com ele e com Syberberg ao Gambrinus, nesse tempo em que os restaurantes em Portugal não tinham estrelas Michelin e ainda à refeição se falava de Brecht, esse alemão dividido ao meio por um muro. Foi Syberberg que o chamou, a Brecht, à toalha da mesa, e o colou ao seu filme, invocando a distância – a celebrada distanciação brechtiana, aqui carregada em ombros por um negríssimo humor, artifício e marionetas. Deixo Syberberg explicar: «Brecht, por exemplo, em determinado momento das suas obras introduz uma canção: detém a história e um dos personagens avança até ao público e canta, para depois prosseguir a história. Penso que este ponto especial da história em que o personagem sai dela para dizer coisas, expondo pensamentos do autor e recolhendo ideias da audiência, para continuar a seguir, é muito interessante, porque é como uma encruzilhada de ideias.»

Volto atrás, macaquinho de imitação desse corso-ricorso joyceano que Syberberg está sempre a tirar da manga ou do seu houdinesco chapéu mágico: a ideia de filme-colagem tem em Hitler uma ressonância mais profunda, a da colagem (e não se trata, entenda-se, da projecção) entre o espectador e o tema. O que incendeia o filme de Syberberg não é a personagem de um Hitler histórico, assepticamente apresentado. O que é avassalador e nos fere é que nós estamos também no filme e somos nós que retocamos a personagem de Hitler e lhe damos a última demão. A imagem de Hitler que Syberberg quer construir só se revela quando nós a completamos, nela nos reconhecendo, deixando ver – aflitivo espelho, aflitivo reflexo – o Hitler em nós, a escondida herança que ele nos deixou e que infiltra e impregna os nossos sentimentos, a nossa moral, as nossas instituições, a nossa arte, as nossas democracias.

Será legítima, ideológica e politicamente, a colagem de Hitler ao espectador que somos? Será legítima a “acusação épica de cumplicidade”, como lhe chamou Alberto Moravia? Somos ainda herdeiros, ainda mais agora, com este populismo palpitante que, à direita e à esquerda, se levanta em estandartes que se reclamam do povo e da boca do povo? Somos ainda os cúmplices, como nos acusa o céptico Moravia, filiado na nascente cultura da queixa, que o indefectível apreço moraviano pela alienação e pela incomunicabilidade já anunciavam?

Justiça estética
Não consigo, por não saber, responder. Mas se as emoções são uma resposta, ao ver o filme de Syberberg sinto que aquela colagem é esteticamente justa. Liminarmente justa. E talvez radique na “justiça estética” de Hitler, um filme da Alemanha o seu maior escândalo.

Donde vem a “justiça estética” do filme de Syberberg? Em meu entender, a sua principal fonte é Brecht. Na sua distância, na sua ironia (tantas vezes tintada do sarcasmo), na articulação histórica que segue simultaneamente um princípio de causalidade e um princípio dialéctico (refiro-me à pluralidade das “camadas do real” que Syberberg convoca), Hitler, um filme da Alemanha representa a concreção das premissas teóricas de Brecht numa grande obra de arte. O escândalo de Hitler, um filme da Alemanha talvez decorra, afinal, do facto de, tendo sido apontado como “um filme nazi”, ele ser, num improvável encontro paradoxal de beaux esprits, os de Syberberg, Wagner e Brecht, a maior, e quem sabe se não a única, grande obra de arte de raiz brechtiana já criada.

E ao espectador que fui, das várias vezes que vi o filme, não restam dúvidas, inspirado embora numa estética brechtiana, Hitler, um filme da Alemanha, por muito que nele pesem as referências (ou mesmo citações) teatrais, musicais, literárias e, por que não, circenses, tem como sua forma última e soberana o cinema.

Sob o signo do cinema, desde o monólogo inicial no “Black Maria”, o primeiro estúdio de Edison – a que Syberberg, ou alguém por ele, chama no filme “o estúdio negro da nossa imaginação” – desde as sucessivas interpretações de Hitler, (Frankenstein, Charlot), desde o monólogo que retoma o premonitório julgamento da personagem de Peter Lorre no M de Fritz Lang, até ao violento libelo contra Hollywood, contra os “seus Hitlers”, chamem-se Hayes ou McCarthy, Hitler, um filme da Alemanha, assombrado pela música de Wagner, é uma obra sobre a ascensão do cinema neste século, sobre a sua essência cósmica, a primordial lux in tenebris, terminando com o desejo de “projecção no buraco negro do futuro”.

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Syberberg, o realizador.

Questionário de Proust

Foi assim como assim, como quem não quer a coisa, mas submeteram-me ao Questionário de Proust, assim chamado por terem ganho fama as genuínas respostas que o celebrado autor lhe deu. Respondi.

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1.O que é para si a felicidade absoluta?
R- Estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor
2.Qual considera ser o seu maior feito? 
R- É só meio: a minha filha; a outra metade do feito é da minha mulher.
3.Qual a sua maior extravagância? 
R- Ter conseguido atrasar um voo na placa do aeroporto de Nice jurando ao telemóvel que estava mesmo a chegar vindo de Saint Tropez.
4.Que palavra ou frase mais utiliza? 
R- Komé que é, meu kamba?
5.Qual o traço principal do seu carácter? 
R- Uma certa bonomia.
6.O seu pior defeito? 
R- Levar muito a mal quando levo a mal.
7.Qual a sua maior mágoa?
R- Ter desaparecido o bairro colonial de Luanda da minha adolescência. Seria injusto, prenhe de conflitos e descriminação, mas era tão exaltante nas suas misturas de cheiros, de culturas e de ideais.
8.Qual o seu maior sonho? 
R- Conversar um dia com um ressuscitado Joseph Conrad. Ele pode vir com o fato imaculado de Lord Jim.
9.Qual o dia mais feliz da sua vida? 
R- O 10 de Junho de 1977, estava Jorge de Sena a discursar, no Dia de Portugal. Nem era bem o que eu ouvia, era mais a mão que estava na minha mão.
10.Qual a sua máxima preferida? 
R- A da Ordem da Jarreteira: Honni soit qui mal y pense
11.Onde (e como) gostaria de viver? 
R- Vizinho de Paul Gauguin nas ilhas dos Mares do Sul
12.Qual a sua cor preferida? 
R-  Vermelho, rojo, red, rouge, rosso.
13.Qual a sua flor preferida? 
R- Rosas.
14.O animal que mais simpatia lhe merece?
R- Águia. Que liberdade! (faço notar que é o único ponto de exclamação das minhas 30 respostas)
15.Que compositores prefere? 
R- Quase todos, mas agora apetecia-me ouvir Pachelbel. O Canon.
16.Pintores de eleição? 
R- Picasso. É tão simples.
17.Quais são os seus escritores favoritos?
R- Pelo amor dele a outros mil escritores que também amo, Jorge Luis Borges.
18.Quais os poetas da sua eleição? 
R- Larkin e Herberto. Ou talvez Herberto e Larkin. Olhe. Não sei bem.
19.O que mais aprecia nos seus amigos? 
R- A torrencial generosidade de serem meus amigos.
20.Quais são os seus heróis? 
R- O meu pai, pela bondade; a minha mãe, pela inteligência discreta.
21.Quais são os seus heróis predilectos na ficção?
R- O odioso Ethan, que John Wayne incarna em The Searchers. Por ser uma figura de redenção.
22.Qual a sua personagem histórica favorita?
R- Churchill: não fez revoluções, louvado seja Deus.
23.E qual é a sua personagem favorita na vida real?
R- Já morreram: o senhor Alberto e o senhor Gil, funcionários da Cinemateca no tempo de João Bénard. Incarnavam a vida como ela era. A pensar neles há um véu de nostalgia que me tapa com pudor os olhos.
24.Que qualidade(s) mais aprecia num homem? 
R- A sensibilidade.
25.E numa mulher? 
R- Um grão de virilidade.
26.Que dom da natureza gostaria de possuir? 
R- O da cíclica reincarnação.
27.Qual é para si a maior virtude? 
R- Uma indolência inteligente e produtiva.
28.Como gostaria de morrer? 
R- Ainda vivo.
29.Se pudesse escolher como regressar, quem gostaria de ser? 
R- Alguém que gostasse de estar sentado num fim de tarde de Verão a beber um fino gelado e a comer um prato de jinguba.
30.Qual é o seu lema de vida? 
R- Ama e faz o que quiseres.