A Princesa Nua

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Leio os jornais, sobretudo os que escorrem sangue de paixões mal-amadas, e tenho de concordar que os portugueses raptam pouco. Rapta-se desde as Sabinas. Mesmo antes, Páris raptou Helena e deu no que deu, a homérica guerra de Tróia. O melhor rapto amoroso português é nos Lusíadas: os cansados marinheiros do Gama carregam aos ombros ninfas semi-nuas. Mas, hoje, nós, os herdeiros muito mais cansados dos marinheiros de Gama, raptamos pouco. E valha-nos Deus, por amor, há tão pouca gente que nos dê vontade arrebatada de meter lá em casa.

No cinema, sim, apetece muito. Já me explicaram que é de tudo no cinema se passar no escuro e de um tipo (pardon my french) ter as mãos nos bolsos. É escuro e os grandes planos dão-nos olhos rasgados a luz, sorrisos de um marfim mais fino do que uma lâmina e aparece-nos uma turbina no lugar do coração.

Em Luanda, uma vez, no lendário N’gola Cine, cinema ao ar livre entalado no musseque, com palco para variedades e um ecrã maior do que uma baliza de Wembley, navegavam as imagens de um peplum, como depois aprendi que se chamava a filmes que metiam túnicas, mais romanas do que gregas.

Não sei se o filme era Hércules e a Rainha da Lidia ou O Filho de Spartacus. Tanto podia ser um como outro porque o herói de ambos foi Steeve Reeves, Mister Universo, montanha de músculos no tempo em que os músculos faziam de um homem um deus. A plateia africana, em que se aconchegava este rapaz branco e os amigos mulatos, uivava como um cachorro feliz, língua de fora aos cometimentos épicos.

Mas houve um momento de calma e apareceu uma princesa. Com as aias. Caminha até à fímbria do mar, um plano americano mostra-lhe as pernas nuas e peças de roupa desamparadas caem-lhe aos pés. A túnica, digo eu, e já me estou a arrepiar. No plano seguinte, por mal que conhecêssemos a gramática cinematográfica ou pelo tanto que escondiam a princesa, bem sabíamos que estava nua, um plano picado a mostrar-lhe os alvos e carnudos ombros, a cara inteira linda nos sete metros de tela e o mar a cobrir o resto, linha de água a coincidir com o nível mais baixo do ecrã. Uma perceptível, sôfrega embriaguez correu pelas cadeiras. Um mais velho, um africaníssimo kota, levantou a sua refinada sensibilidade e correu pela plateia, saltou ao palco e atirou-se contra o ecrã a tentar em urgente desespero olhar para baixo da linha de água a ver se via à princesa o redondo e macio pecado. O alívio tomou conta da plateia. Risos, gritos, bonés pelo ar: “Mais velho à toa, mais velho à toa, o mais velho é salaiko!” E ríamos nele o que, uns segundos antes, gemíamos em surdina.

Uma princesa banhava-se nua em águas mediterrânicas e uma estrepitosa plateia africana saudava o patético mas sincero raptor da nudez dela. E agora invento que só podia ser a Sylva Koscina, a Sylva Koscina de olhos em azul eastmancolor e peito generoso mas não materno. Por estranho que pareça é por causa desse azul, desses ombros e desse mar que acho que vale a pena amar o cinema. Azul, ombros e mar que fazem um “mais velho” levantar-se e, movido a adolescente fé erótica, querer que lhe dê o ecrã o que a vida lhe tira ou talvez nunca lhe tenha dado.

4 thoughts on “A Princesa Nua”

  1. pois garanto-lhe que já vi acontecer coisa semelhante com uma imagem de écran mas sem princesa nua e nem sexo. E cota algum. Mas hilariante na mesma.

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  2. Eu vi esse filme nos anos 60, trazido por cine-ambulante, lá na terra que não tinha sala de cinema mas o salão dos bombeiros. Este por acaso vi no salão da Casa do Povo porque tinha uma parede maior e dava para o cinemascope. Filmes que vi e me lembro nessa pré história do cinema na aldeia: Mulher Marcada com James Cagney e Bette Davis, Anna de Alberto Lattuada, O Direito de Nascer e Filhos de Ninguém, de fazer chorar as pedras da calçada. Mas o primeiro filme que vi no Brasil foi Andrócles e o Leão com 6 ou 7 anos Nunca me esqueci mas não voltei a ver; também vi uma coboiada mas não fixei o nome, era dos anos 50. metia comboios e ataque dos índios, ainda não consegui descortinar o título e autoria.

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