Sejamos homens

Agora que o ciclone, que por aqui passa, nos rouba os últimos restos de Verão, deixem-me fazer o elogio da preguiça,que tão bem nos calha nos tremendos dias de sol e mar. Aviso: leia-se devagar, ronronando em cima de cada sílaba. 

my darling clementine
A preguiça do sheriff. Henry Fonda em My Darling Clementine

Antigamente o homem era um homem. Hoje, não lhe dão sossego. O homem ideal é, agora, uma figura desaustinada, gesticulante, dinâmica, competitiva e (temo que ao dizê-lo arranque aplausos) proactiva. Um homem, isto? Já com pouco fígado e pior coração, o homem moderno não tem espaço anatómico para a preguiça, como se preguiça fosse palavrão ou vil pecado mortal.

Vim do lado de lá do equador, duma indolência que era a única resposta racional à canicular inclemência dos trópicos. À imagem e semelhança da sinuosa boa constrictor, jiboiar era o que pobres e ricos faziam depois de um repasto digno, fosse um delicado cozido à portuguesa, fosse o meu muzungué de musseque.

Aqui, na Europa, entre o ginásio e o “empowerment”, só a velocidade é afrodísiaca. Mas cansa. Cheio de vontade de parar, procurei uma bandeira que conferisse caução estética à volúpia dumas tardes sabáticas. E foi nesse interim que me lembrei de Vinicius.

Há uma canção que sempre elejo como a mais preguiçosa do hemisfério sul. Vinicius, Toquinho e Marília, em “Uma Tarde em Itapuã”, cantam a nobreza duma vadiagem que não tem tamanho. A cada verso, a cada nota, perpassa uma brisa epicurista, temperada por generosos goles de cachaça de rolha. Entre amor e mar, coqueirais e braços morenos, desenha-se o sereno espaço em que um homem deveria, sem pressa, ser homem.

Pensava eu… Até ouvir esse acumen da inacção que se chama “Avarandado”. A letra (curta) é do ocioso Caetano. Mas quem lhe deu sentido foi o zombie João Gilberto. Enquanto na canção de Vinicius havia orquestra, percussão e violinos, João canta arrastado, com voz agónica, sustentado só no pré-coma do seu violão. É uma canção de palmas enluaradas e moças recostadas. Tudo está tão quieto, parado, cada palmeira na estrada, que a gente tem medo de se mexer. Experimentem cantar: até o sol adormece e se deita.

Sejamos homens e deixemo-nos ir por esse lânguido caminho de moleza e preguiça que vai dar no mar. Começa ali o avarandado do amanhecer.

ah, se não puxarem pelo som, nem ouvem, que a voz de João Gilberto não está para se cansar e fica-lhe na garganta.

Pode filmar-se a poesia?

splendor
Natalie Wood

Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Deixem-me tentar.

Invento que, em “Atonement”, a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: “… se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros.” A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir.

Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Natalie Wood em “Splendor in the Grass”. No poema, as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de “Perfect World”, de Clint Eastwood.

Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de “Bonjour Tristesse”, se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.

Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:

“Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
Pelo orvalho parado da noite.”

Já vi estes versos no cinema: homens a correr “pelo orvalho parado da noite”. Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no “Target”, de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, “Man Hunt”, irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.

Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de “Os Passos em Volta”. “Polícia” é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, “a criatura mais só da terra”, num sítio onde “as putas e os chuis eram mais do que as mães”. Leio e penso: já vi!

Mas onde é que já vi dois amantes nus a atravessar, a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Foi num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no “They Live by Night” de Nicholas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger leu e se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: num filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, uma francesa de Lyon.

O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes que os dois nascessem, no poema destes primeiros versos:

“As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.”

O cinema arde quando é dito assim.

they live by night
They live by night

O futuro é o passado a expandir-se

eternidad
a eternidade de Borges

Julgamos saber que não podemos banhar-nos duas vezes nas mesmas águas do rio que passa, da mesma forma que fingimos ignorar que só há um caminho que é e não pode não ser, pois o que não é e é forçoso que não exista é um caminho impensável. Ao imparável rio que flui e à esplêndida e imóvel eternidade une-os a mesma substância física, o mesmo mistério metafísico: a natureza do tempo.
O tempo corre, o tempo foge. Há essa ideia de que o tempo se dirige para a frente e nos leva para o futuro. Temo — e o plotinano primeiro capítulo da Historia de la Eternidad, de Jorge Luis Borges, instiga a suspeita – que seja outro o movimento do tempo, que seja mais nostálgica e heterodoxa a natureza desse fluxo.
Agora que todos nos interrogamos sobre o futuro da Europa, sobre o futuro das democracias e sobre o futuro do planeta, passo ligeiro, e em branco, pelas razões cívicas que a todos nos atormentam e imagino que não há mesmo futuro. Desgraçadamente, acolho a ideia com insensato optimismo.
O beijo que te dou, o generoso decote com que te insinuas, a fúria que te faz explodir em soluços, são actos que têm um só sentido: consolidar o passado. Não há futuro. O presente, se é que o presente chega a ter densidade ontológica, serve apenas para actualizar ferreamente o tempo que foi e que, por ter sido, não pode não ser. O sonhado e mitológico amanhã que canta é, ainda e outra vez, uma forma subtil de o passado se expandir, como se expande a tinta que tinge de vermelho, numa prosaica máquina de lavar, a branca camisola de lã.
O futuro? Que lástima! Encosto-me à móvel e milenar ombreira do tempo que corre e foge. Só vejo, e consola-me, a firme e progressiva expansão do passado, belíssimo labirinto que desemboca na eternidade.

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o tempo de Salvador Dali

O enfarte de miocárdio

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Um comboio de 1920: Wayne e O’Hara

Mas quem é que hoje ainda apanha um comboio? Eu sou do tempo em que até se apanhavam comboios para 1920. John Wayne apanhou um desses belíssimos cangalhos ronronantes e desembarcou em Inisfree. Foi a mando de John Ford e o comboio chegou com três descomprometidas horas de atraso.
Bem sei que é um filme e se chama “The Quiet Man”. E o que interessaria que houvesse filmes, se não fosse para nos restituir, a brilhar como olhos de tigre na noite escura da realidade, a chama e os fumos do sonho?
Há uma coisa que me confunde na ubiquidade de Deus. Não sei se ele é o mais transumante dos nómadas, se é o mais arreigado dos sedentários. Mas é nos sítios perdidos do mundo, que podemos ainda encontrar esse Deus de cascos equinos, cabra montesa a pastar montes.
Em Corvos, por exemplo. Se nalgum lado parasse, pararia aqui o comboio de Inisfree, de John Ford. E, nesse Alentejo, desviado umbigo de Deus, há um restaurante que leva o esforçado nome “A Paragem”. Escuso de dizer que comeriam ali os anjos se Deus ou Rabelais os agraciasse com o pecado da gula. Foi lá um grupo de alienígenas meus amigos. A patroa, com uma alacridade de Inisfree, gritou-lhes que eram muitos, não podia atendê-los: “Estou cá sozinha, até o meu vizinho, veio ajudar-me ao balcão.” E, depois, numa explicação consoladora, disse: “Os meus empregados foram todos à Festa do Avante.” Bem se vê, os empregados de “A Paragem” meteram-se, como se meteria o dono da estalagem de Inisfree, num comboio de 1920.
Desse mesmo comboio desceram, em Mértola, quatro viúvas quadricolores em fim de sexagenato, vestidas, mesmo no inclemente meio-dia de um domingo de Setembro, com os vestidos, folhos e colares de ir à missa, que devem ter ido buscar ao falecido guarda-roupa da minha querida mãe. Vinham de visita turística ao alcantilado castelo e o incendiado meio-dia pedia água fresca, fosse a um camelo, a mim, também a elas. O fru-fru das sedas não camuflava o guerrilheiro suor das axilas, a perlada testa. Onde seria mais fresco, ficar na esplanada ou ir para a sombra interior do café, perguntaram ao empregado? Era uma pergunta de 1920. Ora o empregado, nem era de comboios, nem tinha ido à Festa do Avante. Eis a ecológica resposta: “Se é para evitarem o enfarte de miocárdio, é melhor irem lá para dentro.”

The Quiet Man
Não havia enfarte de miocárdio nos comboios de 1920., pois não?

Publicado no Expresso

 

A prodigiosa verdade da mentira

Don quijote
Desenho de Picasso

A vida não tem a mínima graça. Não me venham cantar a virtude da verdade; pelo amor da santa, não me façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias nos jornais e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue – pior, água chilra.

Quem paga bem é a mentirosa ficção; só a mentira tem imaginação para proclamar o sublime. Viajei por montes e planícies, fui aos bares mais escusos das mais escuras noites, e nada, nem um cavaleiro andante. Don Quixote e Sancho Pança sim, proclamam incansáveis, nas intermináveis páginas de um livro, em múltiplas e intraduzíveis línguas, a superioridade de um idealismo que resiste ao ridículo.

Quero lá saber da vida, os verdadeiros heróis são de papel. Ninguém, nenhuma polícia, nem mesmo o cortejo de um milhão de detectives de carne e osso, se aproximará, debilmente que seja, da rigorosa capacidade dedutiva do britânico Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot, de imprestável nacionalidade belga.

Dizem-me que há seres dúplices, camaleónicos, mas na vida topam-se à légua. Só uma imaginação poética e em transe mediúnico teria sido capaz de criar o corpo desdobrável e prodigioso que é, ao mesmo tempo, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Querem provas: leiam o livro, vejam os filmes.

E digo-vos: mesmo nos momentos mais trágicos, quando só a sobrevivência conta, a honesta e nostálgica ficção canta mais alto. Durante a II Grande Guerra, de um lado e do outro da trincheira, a mesma fabulosa mulher, Lili Marleen, assombrava os corações dos soldados alemães e dos soldados aliados. Era só um nome, duas palavras a fechar uma estrofe. Nunca ninguém a viu, essa rapariga que cantaria, imaginava-se, debaixo de um desmaiado candeeiro, mas todos, durante aquela guerra, a cantaram e perdidamente a amaram.

Não há um recanto da nossa vida, em que a ficção não se intrometa e, despudorada, triunfe. O enigmático Édipo, mete-se entre o filho que somos e os pais que temos. Lolita, a decotada ninfa, atormenta-nos a maturidade. Othello vem todas as noites instilar um obtuso ciúme na almofada em que afundamos as nossas insónias.

Donde vem este exército de fantasmas, esta legião de incorpóreas aventuras? Às vezes acredito que cada um de nós é como um rei de mil e uma noites a quem, de madrugada em madrugada, uma Scheherazade surpreende com lendas e histórias, com poemas e canções. Com tão boa ficção, que préstimo pode ter a vida?

Paul Emile Detouche Scheherazade
Paul Emile Destouches, Sheherezade

O meu passaporte

passaporte

 

Há anos que milhões de europeus podem viajar livremente de Portugal à Estónia, da Finlândia à Grécia. Schengen alastrou-se a um território de cerca de 4,4 milhões de quilómetros quadrados. Liberdade e expansão que, sem rebuço ou hesitação, saúdo.

Mas tenho no bolso, encostado ao coração, o meu passaporte e continuo a mentir-lhe, não me atrevendo a dar-lhe a notícia. Não é do pé para a mão que se liquida uma relação de décadas.

A primeira vez que pedi o passaporte, fui explicar, em Luanda, a um agente da PIDE as razões dessa minha vontade desvairada. Devo tê-lo comovido com tanta ânsia de cosmopolitismo.

A primeira vez que me carimbaram o passaporte, na única vez que, adulto, chorei ao ver uma cidade, foi em Paris, ao pôr um descuidado pezinho em França.

A primeira vez que passei a cortina de ferro e o meu passaporte teve, ali, debaixo das minhas constrangidas barbas, um despudorado affaire, dançando a valsa nas mãos do sinistro agente de uma já anémica ditadura do proletariado, foi em Budapeste, a meia dúzia de passos do Danúbio.

Olho agora com alguma tristeza para este meu velho e cansado companheiro. Vou mentir-lhe quando amanhã for a Roma, ou a seguir a Copenhaga. Jamais lhe direi que é agora expendable, à pala de um acordo feito numa parola aldeia luxemburguesa. Nem sequer o posso consolar contando-lhe as vezes em que tive gélidos arrepios só de pensar, ao dar de caras com palavrões como Alfândega, Aduana, Customs, não o ter ali, colado ao meu peito.

Mas tenho de ganhar coragem, convidá-lo para um copo, fazer com ele o luto das falecidas fronteiras, carimbos, vistos, e sobretudo, quando ele me perguntar “What about us?” recordar-lhe que apesar de tudo, “Old buddy, we’ll always have America”.

Este não é o calcanhar de Aquiles

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Com a devida vénia à amada e venerada BTV,  roubei a imagem que nos deixa ver um centésimo do que, de facto, se passou no Estádio da Luz, no clássico Benfica versus FCP. Houve uma disputa e um corte que fez sair a bola, em balão, pela linha lateral. Rui Vitória, esse treinador tão contestado como Aquiles o foi nas duras batalhas de Tróia, viu o esférico vir pelo ar, deu um passo atrás e rodou, como o compacto e bailarino Gene Kelly rodaria, e tocou a redondinha, devolvendo-a ao relvado, com uma chulipa, um golpe de calcanhar como eu só vi no campo pelado de São Paulo, em Luanda, lá bem perto da igreja capuchinha de São Domingos, ou nos campos traseiros do Liceu Salvador Correia, em jogos nos quais o resultado era sumptuário e o que verdadeiramente movia corações e mentes era o perfume tropical do gesto hábil e da finta circense dos meus irmãos caluandas. Uatobo, uatobuéee, meu irmão.

E perdoem-me se, falando de futebol, falando do jogo, o comparei à guerra de Tróia. Fui criado na ideia de que este é o jogo por excelência, combinação de ética e de estética. Nada o aproxima da guerra, e muito menos da cruel guerra de Tróia, como aliás bem se viu: o admirável calcanhar de Rui Vitória não tem a debilidade do calcanhar de Aquiles.