O céu já não é o limite

Aeroporto-Baia-Maho-Saint-Martin

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 17 de Julho

Chineses, europeus, africanos, o que é que nos aproxima? Ouvi a resposta, tomava eu a bica curta: o que ajuda é conhecermo-nos. E conhecemo-nos cada vez mais. Em 2019, vamos bater o recorde de passageiros a viajar de avião. Mais de quatro mil e quinhentos milhões de passageiros vão saltar de país em país. Em 1970, só viajavam 300 milhões. As classes médias dos países emergentes estão a mudar céu e terra. O ano passado, só chineses foram 550 milhões a experimentar as delícias do avião, a felicidade de conhecer outros povos, línguas, culturas.

Eis um programa de combate a xenofobias e racismos: viajar e receber os que viajam.

Biblioteca transumante

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Desafiaram-me um dia a confessar quais eram os meus livros itinerantes. Por outras palavras, se eu tivesse uma biblioteca transumante, que biblioteca seria essa. E fizeram-me uma séria advertência: que não era para cá para desfiar títulos de livros de viagem. O que me era exigido é que dissesse que livros é que me acompanhariam em viagem. Esta é , portanto, a lista da minha biblioteca para viagens

Com a sorna manha que é meu timbre,  obedeço. Mas desobedeço também ao escolher, logo para abrir, um livro que baralha qualquer GPS e para que não há bússola que nos valha. É o Dictionary of Imaginary Places assinado por Alberto Manguel e Gianni Guadalupe. Gostava, por exemplo, de viajar com os visitantes da Página Negra a alguns dos prodigiosos lugares descritos com minúcia e obsessão por Manguel e Guadalupe. Estou a ver-nos entrar no “Castelo Sem Nome” que Diderot ergueu, solitário, algures na costa francesa. A assombrosa porta abre-se lenta e lemos no frontão um presságio de eternidade: “Pertenço a todos e a ninguém; antes de entrares aqui, gentil viajante, já estás aqui e aqui continuarás quando julgares sair.”

Visitaríamos também a ilha de Cyril e beberíamos gin com o capitão Kidd. Só se sabe que lá chegámos quando se vê do mar (qual?) sair um fogo do vulcão ou do céu cair densa chuva de estrelas cadentes. É tanto o fogo e a lava que só conseguimos andar guiados pelas lanternas dos únicos habitantes, crianças que vivem e morrem sem nunca envelhecer.

O meu segundo livro é The Atlas of Literature, editado por Malcolm Bradbury. A geografia pode ser a mesma, coordenadas e azimutes coincidentes, mas nem Montaigne entraria sem uma dor de alma nos cafés existencialistas de Paris, nem Sartre dormiria descansado no castelo onde pernoitava Michel Seigneur de Montaigne, Chevalier de l’Ordre du Roy et Gentil-homme ordinnaire de la Chambre. Este Atlas empurra o viajante. É um tipo de empurrão muito raro, a dois tempos: um empurrão no espaço, outro empurrão no tempo. Weimar sim, mas a dos Românticos alemães. A Londres de Shakespeare, mas logo a seguir, outro mundo, a de Dickens. E o Yorkshire selvagem das Brontë terá alguma coisa a ver, um oceano pelo meio, com a Nova Inglaterra de Emerson e Hawthorne?

Com uma risonha, luminosa epígrafe – Pour la Grande Petite Jolie Belle Beauté – Philippe Sollers começa o terceiro livro da minha Biblioteca: o Dictionnaire Amoureux de Venise. Sollers ama Veneza. Com um amor viril e seguro de si: está ali para durar e não há, do corpo de Veneza e da alma de Veneza, uma réstia que ele não visite, que ele não faça chorar de glória. Cruelmente amoroso, faz tudo isso por ordem alfabética, do A da Accademia, com o dedo direitinho logo a tocar a convulsa e materna nudez da “Tempestade” de Giorgione, ao Z de Zattere, o cais em que lua e sol se mostram juntos em perfeita simetria.

Que outros livros, ou parte deles, um conto que seja, me fazem ou fariam viajar? Dou só quatro exemplos, tão humildes de brevidade que nem chegam a ser romances. E para que teriam de ser romances se num parágrafo já inventam um mundo!

A Léah, de José Rodrigues Migués, que me obrigaria a dormir numa chambre à louer de qualquer decadente pensão de Bruxelas com cheiro a fritos e uma brasserie na esquina mais próxima.

Outra vez a Bruxelas, num quarto sobre a Gare du Nord, só por causa de Polícia, conto de Os Passos em Volta, de Herberto Helder. Desde que chovesse, chovesse sempre.

Hei-de ir a Paraíba. Gostava de ir lá, a essa extrema ponta ocidental da América, conhecer Dona Rolinha, do conto homónimo de Agostinho da Silva, essa mulher certa e perseverante no desprezo ao trabalho como forma de subsistência. Há-de estar em João Pessoa, a Dona Rolinha que uma vida inteira esperou o regresso do seu militar a que se prometera em casamento, se casamento fosse de ambos a desistência de “ganhar a vida”, voto de pobreza dos dois (quem sabe, de castidade!), e a oportunidade de ser freira sim, mas fora de um convento.

Gostava de subir o Hudson até às montanhas Kaatskills, “ramo desmembrado da grande cordilheira dos Apalaches”. Lá estaria Rip Van Winkle, rival de Dona Rolinha “na invencível aversão a toda a espécie de trabalho profícuo” e como ela sempre solícito na ajuda a um vizinho necessitado, a um viandante perdido. É ele que, portentosa criação de Washington Irving, depois de beber uma bela garrafa de genebra se vai descobrir O Homem que Dormiu Vinte Anos. Ao contrário de Ulisses, nem o seu cão o espera, nem uma impertinente Penépole tece a malha que lhe aqueça a velhice.

E se a leitura fosse como a garrafa de genebra de Rip Van Winkler e a cada livro saltássemos, num sono ou sonho, vinte anos?

O meu passaporte

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Há anos que milhões de europeus podem viajar livremente de Portugal à Estónia, da Finlândia à Grécia. Schengen alastrou-se a um território de cerca de 4,4 milhões de quilómetros quadrados. Liberdade e expansão que, sem rebuço ou hesitação, saúdo.

Mas tenho no bolso, encostado ao coração, o meu passaporte e continuo a mentir-lhe, não me atrevendo a dar-lhe a notícia. Não é do pé para a mão que se liquida uma relação de décadas.

A primeira vez que pedi o passaporte, fui explicar, em Luanda, a um agente da PIDE as razões dessa minha vontade desvairada. Devo tê-lo comovido com tanta ânsia de cosmopolitismo.

A primeira vez que me carimbaram o passaporte, na única vez que, adulto, chorei ao ver uma cidade, foi em Paris, ao pôr um descuidado pezinho em França.

A primeira vez que passei a cortina de ferro e o meu passaporte teve, ali, debaixo das minhas constrangidas barbas, um despudorado affaire, dançando a valsa nas mãos do sinistro agente de uma já anémica ditadura do proletariado, foi em Budapeste, a meia dúzia de passos do Danúbio.

Olho agora com alguma tristeza para este meu velho e cansado companheiro. Vou mentir-lhe quando amanhã for a Roma, ou a seguir a Copenhaga. Jamais lhe direi que é agora expendable, à pala de um acordo feito numa parola aldeia luxemburguesa. Nem sequer o posso consolar contando-lhe as vezes em que tive gélidos arrepios só de pensar, ao dar de caras com palavrões como Alfândega, Aduana, Customs, não o ter ali, colado ao meu peito.

Mas tenho de ganhar coragem, convidá-lo para um copo, fazer com ele o luto das falecidas fronteiras, carimbos, vistos, e sobretudo, quando ele me perguntar “What about us?” recordar-lhe que apesar de tudo, “Old buddy, we’ll always have America”.