As vaias

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Caricatura do Skandalkonzert de 1913

Em 1913, o espectador selecto vaiava. Duas dessas vaias ganharam as asas da lenda e do mito. Vamos à primeira.

31 de Março de 1913, há pouco mais de 106 anos, na pacata Viena de Áustria, no Wiener Musikverein, cuja sala principal tem uma assombrosa acústica, Arnold Schoenberg dirigiu um concerto memorável. O programa começou com uma peça de Anton Webern. Seguiram-se outras peças, uma do próprio Schoenberg, até a orquestra atacar duas canções de Alban Berg sobre poemas de Peter Altenberg, que acabara de ser internado num asilo. O supremo vanguardismo da escolha, culminando com Berg, provocou uma realíssima sublevação na sala. Opositores e defensores de Schoenberg envolveram-se em cenas de pancadaria e destruição da sala. Levado a tribunal, o organizador do concerto,  Erhard Buschbeck, foi acusado de agressão a murro. Testemunhou por ele, Oscar Straus, que o defendeu declarando que o soco de que Buschbeck era acusado fora o mais harmonioso som do concerto. Ficou para a História como o Skandalkonzert.

Dois  meses depois, em Paris, a estreia da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, provocou um motim, com facções do público a atirarem tudo o que tinham à mão aos outros.

Lembrei-me destas vaias – que ecoam nas nossas cabeças como se lá tivéssemos estado – porque já nas nossas vidas de carne e osso as voltámos a ouvir. Foi no Carnegie Hall, a 18 de Janeiro de 1973. Era uma quinta-feira e o concerto começou às 8 da noite. O maestro Michael Tilson Thomas convidara o vanguardista Steve Reich a compor uma peça para um dos seus concertos. Reich, compositor contemporâneo minimalista (isto para andarmos depressa e não muito mal), ofereceu-lhe uma peça, Four Organs, que começa com maracas e é, depois, levada aos céus, num crescendo, por quatro orgãos amplificados. Rock ‘n roll dirão os leitores desta Página Negra. A selectíssima assistência do Carnegie Hall, que era tudo menos rock ‘n roll, estava estupefacta. Tossiram primeiro, Um uuuhh e dois búus depois, um berreiro desgraçado a seguir; uma senhora de arminho caminhou até ao palco, tirou um sapato e começou a bater com o salto na madeira; de um dos primeiros lugares mais caros, alguém gritou em desespero: “Está bem, eu confesso”. Os músicos, tão persistentes como as maracas, mal se ouviam, mas levaram aquele Four Organs até ao fim. Quando acabou, a um segundo de silêncio sucedeu-se um tumulto de enleados bravos e bús. Steve Reich, branco como a cal, saiu do palco sem se dar conta de que tinha conquistado a eternidade.

Just for the record, embora isso não interesse nada, acho estes 15 minutos fabulosos. Lindo: as variações são delicadíssimas, subtis surpresas numa só aparente planície de repetição.

Mais África

Mara-X-Phone-Android

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 13 de Junho

Chama-se Mara e é o primeiro telemóvel criado em África. Desenvolvido no Ruanda, vai ser produzido ali e na África do Sul. Écrã Gorilla Glass, som Dolby, processador de 8 núcleos, custa 140€. Eis o que África precisa. De iniciativa, indústria, cooperação entre nações. O empreendedor é Ashish Thakkar, indiano nascido em Londres, infância e adolescência vividas no Ruanda, como eu em Luanda. Primeiro o tirano Idi Amin, depois o genocídio expulsaram-no, mas Ashish voltou. África é a sua bica curta.

Ouço muito paleio de ressentida negritude e autenticidade identitária. Ora, a África precisa de menos queixa e muito mais empresas.

O pai de John Kennedy

Gloria & Kennedy
Gloria Swanson & Joseph Kennedy

As mãos de um católico

Sei lá se Joseph P. Kennedy gostava de cinema. Sei que nos filmes em que nós vemos sonho, ele viu ouro. Estou a falar do Kennedy pai dos Kennedys e o cinema, 1927, é o mudo dos estúdios de Hollywood dirigidos por judeus, que vendiam roupa em feiras do Relógio, da Rússia à Hungria, antes de desembarcarem na abençoada América.

A Kennedy, católico, já com sete pequeninos Kennedys, entrou-lhe no olho direito o reflexo dourado de Hollywood. Viu salas arrebatadas por drama e aventura, salas de joelhos no chão a venerar a luz e sombra de heróis e divas espelhados numa tela e percebeu: é o negócio do século! Não podia era ser percebido por tipos cuja experiência de gestão fora a de passar a ferro cem pares de calças num dia.

Kennedy vinha da Wall Street e fez entrada de leão. Convidou os dez maiores passadores de calças de Hollywood a virem falar a Harvard e fez, com os dez discursos, um livro com capa de ouro, que lhes ofereceu a seguir. Tinha-os na mão. Em quatro anos, Kennedy, o papá, inventou a verticalização dos estúdios, inundando-os de capital e assegurando o controlo da produção, distribuição e exibição.

Agora vejamos, aquele era o tempo de Gloria Swanson. Valia mais do que uma off-shore. Oito batedores de moto precediam o esplêndido carro que a levava, crianças nos passeios acenavam-lhe com bandeirinhas e flores, na sua mansão as casas de banho eram de mármore negro, as banheiras de ouro. Casara, em Paris, com o Marquis de la Falaise de la Coudraye.

“Não!”, foi o que ela disse ao contrato de um milhão de dólares com a Paramount. E metera-se a produtora dos seus filmes. Andava, agora, aos papéis. Foi ter com Kennedy, claro. Viram-se. Ele viu a mulher pequenina, um metro e cinquenta de estrelato, um anélito afrodisíaco de estremecer. Ela viu as belíssimas mãos louras dele, gestos a desenhar arabescos e dedos abertos a sublinharem um riso franco. Dali a nada, o tempo de meter o marquês francês num iate para um inteiro dia de pesca (e é, por isso, que as relações da França com a América são o que são), e as mãos dele já se escondiam nela, a boca na boca dela. Nas memórias, Swanson escreveu: “Era um cavalo selvagem a querer livrar-se das cordas, enérgico, a correr louco para ser livre.” E lembra-se do impetuoso clímax.

As contas? Vamos pedir a Joseph P. Kennedy para ver a contabilidade e passemos ao próximo episódio.

Roçar-se pelo delírio

Aí estão eles, embrulhados na mesma cama: Kennedy, o pai de todos os Kennedys, e Gloria Swanson, a maior diva dos anos 20. Kennedy despachou o marido da Swanson para um dia de pesca no alto mar e mandou Rosa, sua mulher, ter o oitavo filho em Boston, longe de Hollywood. Livres, foi uma cama diária de três anos e não lhes chegava: levaram os lençóis para o cinema.

Kennedy era já o estratega financeiro de três grandes estúdios. Ficou também à frente da produtora de Gloria. Subiu-lhe, do baixo-ventre à cabeça, a vocação de produtor. Chamou o mais heterodoxo génio de Hollywood, Eric von Stroheim, e pediu-lhe uma obra-prima para o metro e cinquenta de mulher que o fazia roçar-se pelo delírio. O que Stroheim lhes contou aterraria o mais pintado.

Vejamos, Gloria Swanson seria, no filme, uma lindíssima noviça. Mas o noivo de uma rainha iníqua e louca poria nela a cobiça dos seus olhos lúbricos. Apontar-lhe-ia para os tornozelos a dizer que lhe caíra aos pés a mais íntima peça de lingerie. Ela, humilhada e em fúria, tiraria a cobiçada peça e, escandalizando as freiras, atirava-lha à cara. O príncipe cheiraria com vagar os folhos do troféu e raptaria a dona, imiscuindo-se-lhe na desprotegida inocência. Não quereria já casar com a rainha. A funestíssima soberana descobriria, chicoteando a já pouco noviça e expulsando-a do reino. A fugitiva de Cristo desaguaria em África, a dirigir com tal estúrdia um bordel, que lhe chamariam Queen Kelly.

A esta edificante história do próprio Stroheim, chamou ele “The Swamp”, pântano, se for mal traduzido, ou lamaçal, se quisermos ser autênticos. Kennedy e Swanson chamaram-lhe pêra doce. E meteram-lhe, primeiro um, depois todos os dentes. Foi a mais mítica de todas as catástrofes da história do cinema. Um vingativo acto de Deus.

Nas filmagens, Kennedy submergiu Swanson em generosidade e galantaria. Construiu-lhe um chalé, deu-lhe casacos de arminho. O mundo deles tinha a leveza de umas farófias do meu querido e falecido senhor Armindo. Mas o filme, “Queen Kelly”, foi um desastre sublime. E Kennedy voltou a financeiro, pondo-se ao fresco da pele de produtor. Swanson, sozinha, foi ver as contas. Devia um milhão de dólares, num rol que incluía o generoso chalé e os galantes casacos de arminho.

Será extrapolar muito dizer que começou aqui um certo penchant catastrófico da família Kennedy por Hollywood?

Fazer cavalinhos

cavalinhos

 

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 12 de Junho

Todo nu. E perdoem a redundância: estar nu é estar todo nu. Ora, o motard que no 10 de Junho fez a Avenida da Liberdade, apesar do capacete vermelho e havaianas, estava mais do que nu. O capacete, as havaianas, a moto que montava sublinhavam a sua nudez alegre, confiante. Tripulava uma moto e fez cavalinhos na ampla avenida, como um menino com a primeira bicicleta.

Não nos fará mal nenhum, ir beber a bica curta despindo o escudo formal do fatinho, o sarro das convenções, o atafulhado sobretudo da nossa importância. Eis o que nos faz falta: voltar à nudez essencial e vir fazer cavalinhos na avenida da liberdade das nossas vidas.

Em louvor do Panteão

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The Searchers

Já me disseram que bem podemos meter o cânone de Harold Bloom no sítio que todos sabem. Virá uma tarde, àquela melancólica hora em que tomba lento no horizonte o crepúsculo dos deuses, e alguém me dirá que posso também meter no mesmo sítio os velhos filmes de Ford, a começar pelo “The Searchers”, os velhos Lubitsch, a acabar na “Ninotchka”, os velhos Hitchcock, começando e acabando no “North by Northwest”.

E Jesus me valha se eu em verdade, em verdade não vos disser, que anda alguma gentinha a confundir o cu com as calças. A confusão é velha, tem mudado muito de calças, mas pouco de cu. Os maiúsculos Grandes Livros e Grandes Filmes já não são a fonte de conhecimento necessária para este tempo, dizem. Quando eu, em Luanda, vinha a pé do Liceu Salvador Correia até casa, os quedes brancos enfiados em areais cor de acácias, já havia uns velhos corvos a crocitar a morte do saber burguês. Anunciavam o homem novo, com filosofia dicotómica e vermelha. Era uma filosofia sedutora, na sua simplicidade de bons e maus, mas mesmo quando andei de punhinho no ar e pequeno livro a substituir-me o bilhar de bolso, houve sempre um ponto inegociável: os velhos livros e filmes eram o panteão vivo a que sempre voltava.

A confusão crítica era e é a de reduzir esses grandes livros e filmes a repositórios ideológicos ou filosóficos. Ora, o cu marxizante, neo-realista, que assim os criticava, voltou agora na forma de cu ressentido, de género, etnicizante. Reduz tudo, cu e calças, a um saber ideológico, teórico-político. Escapa-lhe a humaníssima experiência estética: a ideologia nunca soube o que fazer com a ficção, com a indisciplina da emoção.

Os livros que Bloom elegeu, os filmes de Ford, Hawks, Renoir, Ozu, Dreyer, não são filosofia. São prodigiosos trabalhos de imaginação que geram emoções. Oferecem-nos acções e sentimentos que acordam em nós um músculo adormecido e rimam com as nossas vidas. Alguém nos terá amado da forma clandestina como a cunhada ama John Wayne, em “The Searchers”. Um dia partiremos, como Wayne, e enquanto desaparecemos no deserto que nos engole, uma porta há-de fechar-se, e nessa casa ficarão os que amámos e nos amaram, um velho casaco militar, a mesa a que não voltaremos. Não há cu ideológico que substitua tanta pena, saudade e dor.

Filho de três pais

fecundação

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 11 de Junho

Nasceu um bebé grego filho de duas mães e um pai, primeiro bebé europeu com três pais. Uma equipa médica espanhola e grega repetiu o que os médicos americanos tinham feito no México. A uma mãe com problemas que iria legar ao seu filho, retirou-se o ovócito a que se extraíram os cromossomas maus, digamos assim, substituindo-os pelos bons de outra mulher. O ovócito composto foi fecundado pelo esperma do pai, nascendo um bebé com o ADN dos três.

Um dia tomarei a delirante bica com um filho de seis pais: o dador de esperma, as duas mulheres que dão o ovócito perfeito, a barriga de aluguer e os papás babados que encomendaram o filho.

Noites de ponta e mola

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A morte de Abel, Tintoretto

A ponta e mola brilhou numa noite dos meus 14 anos. Voltei a vê-la em “The Outsiders” e “Rumble Fish” de Francis Coppola, filmes que depois me mostraram o espectáculo da morte a que aos 14 anos não assisti. Mas conto.

barriga
espetou-lhe na barriga uma faca darwiniana

A faca enterrou-se na carne macia e jovem. Subiu, cega e oblíqua, da bar­riga para o estô­mago. Eu morava dois quarteirões adiante e estas coisas acon­te­ce­ram em Luanda. Foi a primeira vez que a palavra morte apagou um rosto do resto dos dias da minha vida.

Como o Matt Dillon de “The Outsiders”, o V era mais velho do que eu. Dois anos, um mundo de difer­ença. Mas fazíamos junto, a pé (às vezes com o Videira, o mais célebre contínuo do liceu), o caminho do Sal­vador Cor­reia até ao Cin­ema Império, pas­sando pela Sagrada Família, o descam­pado em frente ao Hos­pi­tal Mil­i­tar, um inóspito car­reiro até ao Liceu Fem­i­nino e, à frente, atrav­es­sando a D. João II, o cin­ema Império, com a defesa civil ao lado, as mora­dias alin­hadas entre as tra­seiras do cin­ema e a Estrada de Catete.

Tudo terá acontecido para que Coppola viesse um dia a filmar, em “Outsiders”, com liberdade poética, a cena em que Johnny, quase uma criança, mata um miúdo do bando inimigo, salvando Ponyboy, o melhor amigo. Nessa noite que ainda não sabia ser a última, V andava também em bando – sem­pre em bando. Julgaram sur­preen­der um ladrão. Lará­pio só, não ladrão de colarinho e off-shores como hoje se con­hecem. Era um miúdo do musseque, ani­mado pela vontade de risco, pelo orgulho de deam­bu­lar no bairro branco. Vinha em rito de ini­ci­ação. A inútil e essencial cor­agem adolescente.

Como Ponyboy e Johnny, o miúdo do musseque, sentindo o cerco, pas­sou a acos­sado. Imag­ino que tenha ficado ani­mal encol­hido entre muro e sebe, leopardo atento, a res­pi­ração a fer­ver, mús­cu­los ten­sos até doer, pronto para ser invisível e lutar. Matar, se fosse pre­ciso. As som­bras bran­cas cor­riam, sem que nen­huma o visse. Imag­ino que V o tenha apan­hado de sur­presa, num tempo sem som, igual a uma ton­tura, o mesmo tempo insonoro que Coppola mostrou em “Rumble Fish”.

Mais apto, mais rápido, o miúdo, jovem máquina de luta de musseque, espetou-lhe na bar­riga uma facada dar­wini­ana. De baixo para cima, irremediável. E correu, flecha entre as árvores, perdendo-se na anónima meia-noite dos trópi­cos. Voltou a casa, aos seus, à adormecida mãe na esteira. Respiração a mil, mas de coração livre e sobrevivente. No chão do bairro branco ficara estendido o menino de outra mãe.

Soube no dia seguinte: mataram o V, o V morreu. No cemitério – éramos um bando, sem­pre um bando – não con­seguíamos chorar. Ríamos ner­vosa­mente. Digo, então, que a primeira vez que vi a morte me ri ner­vosa­mente, tão ner­vosa­mente como me ri quando, pela primeira vez, sangue em alvoroço, me apaixonei.

Em “Rumble Fish”, Rusty James (Matt Dillon) leva uma sova homérica num beco. Vemos o corpo separar-se do corpo. o segundo corpo, um corpo flutuante, hesita ainda, com pena do frio vulto de que saiu e jaz em terra, mas já com vontade de descobrir celestiais nuvens de aventura e desconhecido. Em “Rumble Fish” o corpo dá um pontapé à morte e volta ao corpo térreo, original. Em Luanda, em vez do apelo de lutas, namoros, farras de sábado, uma bebedeira na Ilha, o corpo flutuante de V escolheu o desconhecido. Escolheu harpas e arcanjos, ou esse rumor cósmico que é som e não é som e que torna toda a metafísica inútil.

rusty
o corpo flutuante hesita ainda

Noites Brancas, Dostoievski

noites brancas

Podia ser o Tejo, se Dos­toi­evski conhe­cesse o Tejo, ou qua­tro noi­tes a espalhar-se sobre o Sena, como o cine­asta Robert Bres­son as fil­mou. Mas os solu­ços vêm do meio da noite branca que o Neva atravessa.

São de uma estra­nha cru­el­dade os homens rus­sos; sonha­do­res os de São Peters­burgo, sobre­tudo quando aos vinte e seis anos já, russa e fatal­mente, falha­ram a vida. A este, pobre fun­ci­o­ná­rio público, devastam-lhe sen­ti­men­tal­mente os ouvi­dos, os solu­ços de uma amo­rosa jovem orfã que vive com a avó cega. Da orfan­dade e cegueira fez Cha­plin o lirismo cómico de “City Lights”. Tam­bém aqui, logo na pri­meira linha de Dos­toi­evski, a noite de São Peters­burgo é de luzes, mara­vi­lhosa – “uma daque­las noi­tes como só a nossa juven­tude conhe­ceu, caro lei­tor. O fir­ma­mento estava tão cheio de estre­las e tão calmo, que, ao olhá-lo, os homens faziam invo­lun­ta­ri­a­mente a si mes­mos esta per­gunta: — Podem exis­tir maus sob um céu tão belo?

Há uma mulher que chora sobre um rio e um homem que, por vê-la, se comove e inqui­eta. Segue-a. Mais dez pági­nas e já ele se arran­cou da sua timi­dez e lhe fala. Ela entregou-lhe o braço, um aperto terno da mão e a pro­messa de um segredo para a noite seguinte. Uma con­di­ção: não se apai­xone por mim.

Não me aperte tanto as mãos, dir-lhe-á ela, na segunda noite, e conta-lhe o segredo. Ama outro homem. E o homem que ela ama, ama-a tam­bém. Par­tiu para Mos­covo. Pro­cura os meios que o tor­nem digno desse amor. Vol­tará um dia. Por ela. Um ano e nem uma carta. Mas vol­tou agora, sabe ela. Voltou há três dias, três dias em que não a pro­cu­rou. Três dias que são a causa dos aba­fa­dos solu­ços da pri­meira noite. E chora de novo, como se tivesse per­dido a espe­rança de toda a feli­ci­dade. O sonha­dor, cheio de von­tade que fosse para ele a doçura de tan­tas lágri­mas, diz-lhe “não chore, escreva-lhe” e já ima­gina, para o outro, a carta que que­re­ria que ela lhe escrevesse.

Ela virá na ter­ceira noite. Con­tente com a ami­zade dele. Feliz, a fin­gir que ele não se apai­xo­nou por ela. Espe­ram, às onze, que o amado apa­reça res­pon­dendo ao apelo da carta. Mas não vem e ela consola-se com “Amo-o a si por não se ter apai­xo­nado por mim”. E num incon­tro­lado excesso pla­tó­nico: “ Por­que não é ele você? Pre­fe­ria. Mas é a ele que amo.

E vol­tam a quarta noite, na página 66 desta novela que a Edi­to­rial Inqué­rito, há décadas, ven­dia a 3 escu­dos, com tra­du­ção de José Mari­nho. Tal­vez o amado não tenha rece­bido a carta. Toda a ausên­cia é uma humi­lha­ção. Nas­tenka soluça. Qua­tro noi­tes de solu­ços. E o sonha­dor não aguenta: as lágri­mas dela excitam-lhe o cora­ção, tumultuam-lhe a alma. Ama-a e diz-lhe que a ama.

Se na pri­meira noite os solu­ços dela o como­ve­ram, agora a pai­xão dele comove-a a ela. Diz-lhe que o outro não a merece e, embora ainda o ame, já é a este sonha­dor de qua­tro noi­tes que quer dar a mão. Prometem-se, vão entregar-se e, de repente, a mão dela estre­mece na dele.

– Nas­tenka! – disse uma voz por detrás de nós. – Nas­tenka!
Meu Deus! Que grito! Como ela se sepa­rou de mim…