
Que céu é este? Céu de terra ou céu de mar? De que Titanic é o passadiço de arcos de ferro? E as nuvens, última pincelada de pôr do sol, anunciam bonança ou tormenta?
Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!

Que céu é este? Céu de terra ou céu de mar? De que Titanic é o passadiço de arcos de ferro? E as nuvens, última pincelada de pôr do sol, anunciam bonança ou tormenta?
Ah, vou confessar-vos que o meu melhor sonho era ir aqui com os meus melhores amigos e cantar, assobiar, bater palmas com esta gente que está ali em êxtase no vídeo, enfim, soprarmos nas mesmas cornetas.
Espanta-me o terrível erro em que tanta gente teima. Como é que não perceberam que a alegria, a maior alegria, é fazer sempre a mesma coisa? Pode haver alguma coisa melhor do que cantar sempre a mesma canção? Já viram o sereno aroma que se evola (ó meu Deus, eu disse mesmo evola?) dos mesmo versos repetidos anos a fio, sem a angústia de palavras novas de que podemos não nos recordar?
Do que gosto é de saber que queremos todos cantar as mesmas canções, seguir o mesmo ritual de assobios, aplausos nos pontos certos, nos pontos que todos sabem, num coro que afina e desafina por unanimidade.
Este é um dos inenarráveis prazeres do Verão londrino, a Última Noite, Last Night of the Proms. Sabe bem entrar nessa multidão uníssona, cantar debaixo da brisa de uma única bandeira, que são mil bandeiras. A alegria é cantar mil vezes o “Rule Britannia”; a alegria é a ausência de surpresas.

É já dia 27 que vai a leilão esta bíblica Judite, a cortar o pescoço ao general assírio Holofernes. Viúva, a judia Judite, para salvar a sua cidade, Betúlia, cercada pelos assírios, seduz o general inimigo, embebeda-o e, com um golpe de espada, decapita-o. Regressa, depois, a Betúlia com a cabeça, que os judeus exibem às tropas adversárias, vencendo-as.
O quadro, descoberto há poucos anos, tem sido objecto de controvérsia. No dia 27, será leiloado como um Caravaggio genuíno. A base do leilão é de 30 milhões de euros, mas espera-se que ele acabe comprado por 100 a 120 milhões.
Caravaggio pintara, alguns anos antes, julga-se uma tela com esse mesmo tema, a viúva Judite de branco e ao centro. Na pintura a leilão, Judite está à direita e veste-se de negro.
Quero avisar já os leiloeiros, em Toulouse, que não licitarei. O valor está ligeiramente acima das minhas possibilidades, como largamente acima das minhas possibilidades está dizer se este “Judite e Holofernes” é ou não autoria do mais apaixonantes dos pintores ou se é de um discípulo franco-flamengo, Louis Finson. A olhar para o negro de uma e de outra das duas belíssima telas, gostaria de acreditar que a mão de Caravaggio, pincel como uma espada, pintou as duas.


Devem ser as tantas da manhã. Esta mulher de cabelo apanhado, rosto limpo, sopra palavras com uma vibração suave, dolente, alguns riscos de rouquidão. E há homens escondidos na noite: sopram à volta dela, perto e longe dela.
Balouçam, ligeiros, os brincos nos lóbulos da mulher que sopra. Na boca dela desenha-se, fine and mellow, a doçura nocturna, perdida, de um sorriso. A maravilhosa ironia do seu olhar.
São estas as palavras que a boca de Billie Holliday sopra. Escreveu-as ela também.

Bem sei que é de Cole Porter. Bastaria para que fosse História. E há canções de que gostamos por terem sido História. Tê-la cantado Ella Fitzgerald só a faz ainda mais História.
Perdoem-me se penso e me atrevo a dizer que K. D. Lang arrancou “So in Love” da História e fez contemporânea a paixão que Porter louvou em 1948. Pouco interessa que o céu se encha de estrelas: é negríssima noite o que sai da voz de Lang. Quem aqui ama, ama com absoluta consciência de amar sozinho. Não é uma separação que se chora, é lúcida memória num oceano de solidão o que sai da boca desta mulher .

Era mais fácil falar das pernas de Angie Dickinson, mas vou obrigar-me a só olhar para o cinturão, coldre e colt de John Wayne. Sei do que falo, xerife foi a primeira coisa que fui na vida, revólver à cintura, uma longa cana de mamoeiro a fazer de Winchester. Também fui índio e bandido, mas xerife era a minha devoção, meio John Wayne, meio Buck Jones, insofismável semi atestado da minha caretice infantil.
O cinturão de Wayne, de que não tiro os olhos, atravessa em lento bamboleio o “Rio Bravo”, que Howard Hawks filmou, em 1959, a fechar a década em que um vivíssimo amarelo, mais amarelo do que o “Cristo Amarelo”, de Gauguin, se derramava nos melhores westerns. Amarelíssima era a camisa de Joan Crawford em “Johnny Guitar” e do mesmo glorioso amarelo era a blusa de Feathers, personagem de Angie Dickinson que, em “Rio Bravo”, mostra os negros collants a Wayne.
Mas não é dos collants e das pernas louva-as Deus de Angie Dickinson que venho falar. Se tenho palavras é para o cinturão, coldre e colt que cingem as vastas ancas de Wayne. Foi por causa desse xerife e do sólido andar dele que Hawks fez o filme.
“Rio Bravo” foi a arma de que Hawks puxou para abater Fred Zinnemann, autor do célebre “High Noon”. Medíocre, como quase todos os filmes célebres, pensou Hawks. “High Noon” tinha um xerife, Gary Cooper. Prendera um poderoso facínora e um regimento de fora-da-lei vinha atacar o acossado xerife e resgatar o seu führer ou secretário-geral. Gary Cooper ia, de porta em porta, tentando montar a sua geringonça. Todos lhe viravam as costas, até a branca e radiosa noiva, Grace Kelly.
Ouçam a zanga épica de Hawks: “Um bom xerife não vai pela cidade, como galinha tonta a pedir ajuda a toda a gente para ser salvo no fim pela noiva quaker.” Os heróis de Hawks são profissionais e estão sentados nas suas angústias: Wayne na solidão, Dean Martin na bebida, Walter Brennan na perna coxa, os 18 anos de Ricky Martin num “que-se-lixismo” inocente. Buscam a redenção individual, encontram-na no grupo, salvando a cidade cercada, num filme quase sem grandes planos.
Para xerifes diferentes, filmes diferentes: os planos de “High Noon” estão cheios de significado, os de “Rio Bravo” estão cheios de alegria; os enquadramentos de Zinnemann são a régua e esquadro, os de Hawks são uma festa de cor.

Ah, no Lloyds of London, um milhão de dólares segurava as pernas de Angie Dickinson.

Foi antes de se inventar o assalto ao banco. Era disso que, nos anos 60 e 70, se queixava a polícia francesa: Jacques Mesrine assaltava bancos antes de se inventar o assalto ao banco. Corrijo e digo à verdade, o que ainda não se inventara fora o asséptico assalto ao banco. Nem nos sonhos dos mais pervertidos havia um húmido Lehman Brothers, um BPN de perna aberta, um nuínho BES.
Jacques Mesrine era um facínora, o que anda ali troca-troca com o herói e a lenda. Teve berço mais fofinho do que o meu, pais donos de fábrica de rendinhas de luxo, que hoje aflorariam com gosto a virilha dos anjos, mesmo os da Victoria’s Secret, tivessem os anjos virilha. Os pais queriam-no nos Altos Estudos Comerciais de Paris, mas Mesrine preferiu fazer a sua discência nos altos estudos do único bairro sublingual de Paris, o Pigalle.
Quantos bancos assaltou Mesrine? De quantos tiros e mortes se fez a cauda em fogo do cometa que ele foi na galáxia do crime em França? E já voltei a mentir, sem precisar. Afinal, uma crónica não é nenhuma audição de comissão parlamentar e aqui pode-se, sem perigo, louvar e dar graxa à verdade: Mesrine mundializou o crime, levando-o da hexagonal França à Suíça, ao Québec, aos Estados Unidos, à Venezuela, de férias a Palma de Maiorca.
Eça cantou a singularidade de uma rapariga loura. Eis a singularidade deste assaltante de bancos: a recidiva. Mesmo os portugueses que não lêem estas crónicas conhecem o termo das bulas dos eufóricos anti-depressivos que lhes animam os dias. A recidiva de Mesrine é especial: não se limitava ao facto dele repetir assalto sobre assalto. Mesrine voltava ao mesmo banco e assaltava-o, de novo, no dia seguinte. Talvez tivesse, como eu do peixinho, a obsessão do dinheiro fresco. Uma variante: também assaltava dois bancos de seguida, numa óbvia economia de escala, prova de que Pigalle ensina tão bem gestão, como os Altos Estudos Paris.
Mas eis o mais singular sinal particular deste bandido, que nunca foi rapariga loura, mas foi homem de mil caras, vinte perucas, bigodes, óculos de intelectual ou de boçal, tudo disfarces que ele usou para iludir o faro da polícia, deixando-a a latir. A segunda singularidade de Mesrine era a fuga. Fugiu de prisões descuidadas e de prisões de alta-segurança. Fugiu mesmo em pleno julgamento, apontando uma pistola ao juiz, fazendo-o refém.
A par do gosto que tinha por singulares raparigas louras com um passado, dignificando sem preconceito a experiência do alterne, Jacques viveu com gáudio e arte a relação com os media. Fê-los felizes, mantendo relação orgástica, em particular com o excelso e gauchista “Libération”, e servindo-se deles para atacar as hediondas condições das prisões ou anunciar uma filosofia que faria escola: “Eu não assalto velhinhos na rua. Se palmo 20 milhões a um banco, qual é o drama?”
O comissário Broussard foi o seu fiel perseguidor e um dia cercou-o em casa. Mesrine ficou sem escapatória. Parlamentaram. Quando abriu a porta à polícia Jacques estava de charuto na boca, uma taça de champagne na mão, que ofereceu ao comissário: “Broussard, prendes-me, mas com estilo!”
Voltaria a fugir. A polícia monta-lhe então uma emboscada, porta de Clignancourt, em Paris, enfiando-lhe um camião à frente do carro e fuzilando-o com 18 tiros, antes de, diz-se, fazer qualquer aviso. A mulher que ia com ele sete balas no corpo, uma num olho, sobreviveu. Quem não escapou foi o caniche que ela levava ao colo. Estava morto e pronto a enterrar o mais amado inimigo número um da França no século XX.
Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios
Os espelhos enganam, desarmam, são abomináveis, segundo Jorge Luis Borges: por causa da sua obsessiva tendência para a multiplicação. No vídeo, há um miúdo que descobre, lúdico e risonho e sem metafísica, o reflexo destes versos de Borges.
Dios ha creado las noches que se arman
de sueños y las formas del espejo
para que el hombre sienta que es reflejo
y vanidad. Por eso nos alarman.
Deus criou as noites que se armam
de sonhos e as formas do espelho
para que o homem sinta que é reflexo
e vaidade. Por isso nos alarmam.