Um tiro feliz e cobarde

 

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O verdadeiro Kid

A quem é que Tennessee Williams terá chamado uma “sweetly vicious old lady”? É conversa de escritor. Deveria, por isso, ter como alvo outro escritor. A pérfida citação visava, creio não estar errado, um escritor rival, Truman Capote. Seria uma forma pérfida de se tratarem (ou destratarem) se o estilo, o ritmo da frase, o subtexto (ah, pois) não concedessem inescrutável transcendência a tamanho bofetão. Confesso, se os termos forem sempre estes, alguma respeitável paixão pela infâmia.

E agora que já preambulei, entro directo na matéria: os meus livros.

Há um livro de patíbulos e de piratas que a misericórdia divina cedo me colocou nas mãos e de que serei eterno e desvairado leitor. Escreveu-o, em  estilo deliberadamente barroco, um escritor cego, de Buenos Aires.

Nesse livro, a que o autor chamou “História Universal da Infâmia”, o meu maior motivo de deleite é um pequeno conto de que é herói Billy the Kid, o assassino desinteressado.

Um tiro feliz e cobarde catapultou-o para a fama. Billy disparou, coberto por uma barreira de homens temerosos, contra El Diego, um odioso mexicano que entrara no saloon gritando as boas noites a todos os gringos filhos de uma cadela que estavam a beber.

Billy morreu, pouco mais do que uma criança, aos vinte e um anos, o exacto número de mortos que, “sem contar os mexicanos”, como escreveu Borges, devia à justiça dos homens. Liquidou-o, sem glória nem ódio, o xerife Pat Garrett, seu amigo.

Em Fort Summers, sentado e meio-escondido numa arcada obscura, Garrett disparou, antes de lhe fazer qualquer pergunta, acertando-lhe em cheio na barriga. Ao fim de horas de agonia, Billy the Kid morreu – os habitantes da small town fecharam-se em casa, cortinas corridas até que, e nem uma mosca se ouvia, exalasse o último e assassino suspiro. Depois, em Fort Summers e arredores os precários habitantes exibiram-lhe longamente e com ferocidade o cadáver. E Jorge Luis Borges, o escritor cego que é seu autor, com desditada ironia conclui: “Ao quarto dia enterraram-no com júbilo”.

Do que é que eu gosto – e gosto despudoradamente – nesta história? Do puro prazer narrativo com que Borges a trata, convite para a lermos como se fossemos a velhinha docemente viciosa, que era o que Tennessee Williams chamava a Truman Capote.

Sem falsos moralismos, nem desculpas, quinze vezes levada ao cinema (a penúltima foi no “I’m Not There”, onde é uma das personae de Bob Dylan; o último, “The Kid”, com Dane DeHaan e Ethan Hawke a fingirem de Kid e Pat) a história de Billy the Kid converte o abominável em sublime. O que, se estivéssemos a ler as notícias do dia ou a consumir telejornais, nos pareceria apenas torpe e hediondo, ganha na literatura (por vezes nos filmes e tantas vezes nas canções) a grandeza piedosa e épica da lenda.

Violada na ONU

 

Phyllis

Bica Curta servida no CM na 3ª feira, dia 26 de Junho

Phyllis Chesler foi violada na ONU. Proeminente feminista, buscou apoio no seu movimento e contou à líder, Gloria Steinem. Empurraram-na para o silêncio. O violador era diplomata da Serra Leoa e mulher branca não acusa homem negro: o labéu do racismo mancharia o feminismo. Só as mulheres negras beberam a bica com ela.

O feminismo caiu na armadilha de outro racismo. É anti-semita e camufla o sofrimento das mulheres islâmicas. Recomendaram a Phyllis a mordaça. O feminismo ocidental só luta se o adversário for branco, de preferência de direita. Cala-se se o caso mete minorias étnicas. É cobarde, diz Phyllis, sua heróica militante.

Nelson Rodrigues, a cujos pecados me confesso

 

 

Nelson
Aos 13 anos, Nel­son come­çou a escre­ver repor­ta­gens poli­ci­ais no jor­nal de que seu pai era direc­tor

Voltar a este texto é, para mim, como rezar pai-nossos e avé-marias quando era adolescente. Rezava-os, consolado pela remissão dos pecados a que, assim, podia voltar com redobrado vigor e de alma limpa. Eu pecador a Nelson Rodrigues me confesso.
O texto sofreu, como sofriam esses pecados, refinamentos perversos. Anda a ser escrito desde que me estreei na blogosfera e até pelo velho Expresso já passou. Esta é a versão longa.

Nelson, Rodrigues, O Anjo Pornográfico
por Manuel S. Fonseca

 “Ou a mulher é fria ou morde. Sem den­tada não há amor possível.”

Estava no meio de um almoço e entre gene­ra­li­za­ções eu disse que gos­tava de ser um escri­tor. “Batata!” rea­gi­ram os ami­gos com comi­se­ra­ção. Não é um escri­tor quem quer. Só é um escri­tor quem a bio­gra­fia ajuda.

Dou o exem­plo do per­nam­bu­cano Nel­son Rodri­gues. Bio­gra­fi­ca­mente ele vai ser sem­pre cari­oca, prova ululante que só depois de viver­mos muito é que devía­mos deci­dir onde nas­cer. Para o que conta, para ser um escri­tor, Nel­son nas­ceu no Rio, viveu cari­oca e cari­oca morreu.

É só o começo. Um escri­tor inventa. Nel­son inven­tou o moderno tea­tro bra­si­leiro ao escre­ver a peça Ves­tido de Noiva e ainda teve tempo para inven­tar, com seu irmão, jor­na­lista des­por­tivo, o derby de futebol do Rio, o Fla-Flu que ainda hoje, da campa onde se enerva, ele deve ver com muito dis­tor­cida pai­xão pó de arroz, fluminense portanto, já que, como jurava Nelson, “a morte não exime nin­guém de seus deve­res clu­bís­ti­cos”.

Mas não é isto o que quero dizer. A bio­gra­fia tem de dar certo muito cedo. Nel­son tinha catorze irmãos. Ter catorze irmãos, esta sim, é já uma asser­ção bíblica, um arran­que lite­rá­rio. No Rio foram morar na Rua Ale­gre, e só o nome da rua é um facto bio­grá­fico de indis­far­çá­vel volú­pia. Nel­son era menino, pou­cos anos. Os vizinhos, naquele tempo, eram uma família. Mas um dia, a vizi­nha do lado, dona Cari­dade, entrou sem bons-dias pela casa de Nel­si­nho e decla­rou à mãe de catorze des­cen­den­tes: “Todos os seus filhos podem fre­quen­tar a minha casa, dona Esther. Menos o Nel­son.” O que Dona Cari­dade disse a seguir, é dito por quem sabe que está já a sub­si­diar uma voca­ção lite­rá­ria: vira Nel­son aos bei­jos em cima dos três ani­nhos de sua filha Odé­lia. Não em pé ou de lado; em cima. E acrescentou um sublinhado pormenor, em movi­mento. Qual­quer um dirá: imaginem o que vai ser este Rodrigues sabendo-se que, sem nunca se ter posto em cima, Fer­nando Pes­soa é quem é.

Pre­nún­cio da tra­gé­dia cari­oca de que Nel­son faria a sua dra­ma­tur­gia, foi a redac­ção com que o futuro cronista assom­brou a pro­fes­sora e uma inteira escola primária. O menino escre­veu uma his­tó­ria de adul­té­rio. Con­tou, na sua infantil redacção, como um marido, com pressa de cha­mar “meu anjo” à esposa amada, chega mais cedo a casa e a sur­pre­ende nua, esten­dida de ofe­re­cida na cama, enquanto um vulto, inso­lente mas só um vulto, sal­tava viril­mente pela janela para a madru­gada indi­fe­rente e cálida. Sem per­der um milí­me­tro de tanto amor, faca cega na mão, o marido mata a mulher e tomba ajo­e­lhado aos pés da cama, a pedir-lhe “perdoa-me por me traí­res”. Estava em jogo uma bio­gra­fia: a escola não dei­xou que nin­guém lesse a redacção do menino, mas concedeu-lhe um pré­mio, pre­ve­nindo gló­ria futura.

Aos 13 anos, Nel­son come­çou a escre­ver repor­ta­gens poli­ci­ais no jor­nal de que seu pai era direc­tor. Num dia de Natal, final dos anos 20 do século que pas­sou, com falta de assunto para pri­meira página, o pai e outros três irmãos mais velhos, todos jor­na­lis­tas, deci­di­ram que a maté­ria de aber­tura seria o des­quite de um casal de pública cele­bri­dade. (Já havia jetset e “famosos” no Rio de Janeiro dos anos 20.) No dia seguinte, a dama visada avan­çou com toda a sua ofensa pela redac­ção. Não encon­trando o patri­arca, viu Roberto, o irmão mais velho, e puxou o gati­lho do revól­ver novi­nho da com­pra dessa manhã. Não sei se, antecipando o estilo de Nelson, ela terá dito: “Tome o seu pre­sente de Natal!” À frente dos olhos de Nel­son, a tra­gé­dia cari­oca consumou-se: o irmão mor­reu e o pai ago­ni­za­ria 67 dias depois, con­su­mido pela dor e por uma trom­bose cere­bral. Nesse dia, Nel­son só que­ria uma coisa: mor­rer. Ferida bio­grá­fica, nunca mais sarou.

Mesmo sabendo que não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, Nel­son Rodri­gues amou. No começo, com a matu­ri­dade dos 14 anos e numa lógica ina­ta­cá­vel, apaixonava-se por actri­zes e dor­mia com pros­ti­tu­tas. Eram amo­res de bei­jos e solu­ços. A bai­la­rina argen­tina de olhos azuis, a estu­dante de Copa­ca­bana, a pro­fes­sora de Ipa­nema. Divi­diu com o irmão Jof­fre a pai­xão por outra bai­la­rina, Eros Volú­sia – vejam: com nomes e fac­tos bio­grá­fi­cos des­tes é fácil ser-se escritor.

Já a Rua Ale­gre lhe tinha dado ajuda em maté­ria sen­ti­men­tal. Nel­son sem­pre lem­brava o sujeito de bigo­di­nho (pode ser que não tivesse, diria ele se aqui estivesse) que a mulher xin­gava à vista do bairro todo. Uma humi­lha­ção mul­ti­pli­cada, de anos. Um dia o sujei­ti­nho débil desa­mar­rou a culpa e, tam­bém na rua, bem no meio dela, bateu. De cinto, até. A vizi­nhança cor­reu para o espec­tá­culo: “bate mais, bate mais” pediam as mulhe­res. E ele bateu com a eufo­ria de um anjo ressentido, até se can­sar. Não foi só o mulhe­rio que aplau­diu. Ela, sofrida e orgu­lhosa, atirou-se-lhe aos pés e desa­tou a beijá-lo. “Toda mulher gosta de apa­nhar” filo­so­fou o ado­les­cente Nelson.

Sexo e morte, sublime e sór­dido – que outra coisa é que pode ser uma bio­gra­fia? Casou. Um dia, regres­sando ao jor­nal o Globo, depois de cura no sana­tó­rio, disseram-lhe: “Tem uma mulher na redac­ção, 19 anos, mora­dora do Está­cio e dura na queda”. “Pode dei­xar, está no papo” disse logo o des­lei­xado e indo­lente Nel­son. Era Elza, meia-siciliana, com uma famí­lia que a Nel­son nem vê-lo, numa rejei­ção que põe logo uma man­cha de honra numa bio­gra­fia. Casaram-se clan­des­ti­nos, no horá­rio de tra­ba­lho, come­mo­rando a torradas e café com leite, e jurando que noite de núp­cias só com o casa­mento reli­gi­oso. Cum­pri­ram. Des­ca­sa­riam muito mais tarde. Depois de outros dois casa­men­tos dele, vol­ta­ram a casar. Quando Nel­son mor­reu, Elza, ainda em vida, colo­cou como lhe pro­me­tera, o nome na lápide ao lado do nome dele, logo debaixo da ins­cri­ção: “Uni­dos para além da vida e da morte. É só.” Por­que, como toda a sua obra reclama, amor que acaba não era amor.

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“Pode dei­xar, está no papo” disse logo o des­lei­xado e indo­lente Nel­sonsira um título

Podia con­ti­nuar: a bio­gra­fia de Nel­son Rodri­gues é inul­tra­pas­sá­vel de copi­osa. Angustia-me uma pequena dúvida: foi mesmo a bio­gra­fia que o obri­gou a ser o escri­tor que é, cri­ando um ima­gi­ná­rio de sexo punido e puni­tivo, trai­ção, incesto, cru­eza, sen­ti­men­tos torturados, ou é por ser o escri­tor que é, que Nel­son Rodri­gues teve esta bio­gra­fia exces­siva, auto-paródica, isenta de tédio e tão ter­ri­vel­mente cheia de quotidiano?! Mas parece que não é bem assim e há mui­tas reservas…

Sim, mas há quem ponha reser­vas a Nel­son, segredam-me. Por patri­o­tismo lin­guís­tico, rejeito a mínima reserva, aviso já. Nenhuma reserva a Nel­son Rodri­gues é per­mi­tida, auto­ri­zada, mesmo a título de omis­são pre­sente ou inten­ção futura! A mínima reserva a Nelson é pecado mortal.

Reserva polí­tica? Atire a pri­meira pedra o que sou­ber resol­ver o dilema de quem era amigo de gene­rais e pai de guer­ri­lheiro.

Reserva artística? O tea­tro, coisa e tal? Mas vejam e quem não viu por­que não pode, leia que foi o que eu fiz, o “Álbum de Famí­lia”! Oh, o fim do 2º acto com Gui­lherme dis­pa­rando o revól­ver sobre a irmã Glo­ri­nha – duas vezes, meus ami­gos, duas vezes – com ciú­mes do pai. E leiam a “Engra­ça­di­nha!” e as cró­ni­cas. Des­me­su­rado, injusto, con­tra­di­tó­rio, isso tudo e mais o que seja, o autor cari­oca foi sobre­tudo alguém que reve­lou — antes do tempo — algu­mas arma­di­lhas do pen­sa­mento então domi­nante (se me per­mi­tem des­taco dois dos mai­o­res equí­vo­cos do pen­sa­mento político-mediático da altura, Sar­tre e Dom Hél­der da Câmara, que ele tra­tou como duas bes­tas qua­dra­das). Aben­ço­a­da­mente incor­recto nessa maté­ria, Nel­son foi cor­rec­tís­simo a escre­ver sobre o tumulto das rela­ções fami­li­a­res e amo­ro­sas. Adi­vi­nhou tudo: o dead end da classe média, o inferno dos trau­mas fami­li­a­res, o fim de um mundo base­ado na len­ti­dão dos “bon­des que não che­gam nunca”.

Foi ele mesmo que disse: “O artista tem que ser génio para alguns e imbe­cil para outros. Se puder ser imbe­cil para todos, melhor ainda.” Seja­mos unâ­ni­mes e con­ce­da­mos a Nel­son o esta­tuto de “melhor ainda” que é o que faz dele um dos mai­o­res pro­sa­do­res da lín­gua por­tu­guesa do século XX. Não se me ponham a olhar para os lírios do campo: olhem mas é para cada uma das fra­ses dele e delirem com a adjec­ti­vada jus­tiça que as molda, rindo-se das subs­tan­ti­vas injus­ti­ças que por­ven­tura con­te­nham. Ah, o que ainda hoje, sau­dosa, a lín­gua chora por ter per­dido a desar­vo­rada exci­ta­ção e afro­di­síaca sur­presa de um amante assim. Faz-lhe muita falta um homem lá em casa. À língua.

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a desar­vo­rada exci­ta­ção e afro­di­síaca sur­presa de um amante assim

Mil palavras não fazem uma árvore

Mil palavras

Vem aí um programa de televisão que começa logo por nos sobressaltar com o título: Mil palavras não fazem uma árvore. Eu tenho, é claro, de fazer declaração de interesses: a autora do programa é minha autora na Guerra e Paz editores.
É já na próxima 5.ª feira, na RTP 2, à meia-noite em ponto. A Eugénia de Vasconcellos fará nesse dia a primeira de 13 entrevistas a personalidades ligadas à cultura portuguesa.
Falamos na 5.ª  para combinarmos ver juntos.

Vénus em larga escala

Quando escrevi o que aqui escrevi sobre Manet e Ticiano, devia ter feito justiça ao modelo inicial, à primeira representação numa tela de larga escala (um metro e oito por um e setenta e cinco) de uma Vénus em total e abençoada nudez. Pintada por Giorgione, pintor que se funde coma Veneza do seu tempo.

Vénus
Vénus adormecida

Antes de Ticiano (que terá finalizado o quadro por morte de Giorgione), por mais que a mão tape, ou porque tanto a mão tapa, o que esta adormecida Vénus reclama é o nosso olhar. Mesmo que feche os olhos ou, por isso, fecha os olhos.

É Vénus, mas de Veneza, duma cidade rica, católica e insolente. Ainda é Vénus, como poderia ser a Virgem se a Virgem pudesse ser pintada nua. Ainda é Vénus mas já é o corpo de uma mulher. Ticiano, levando-a para o interior da casa, deitando-a no leito conjugal como dama despida, completou essa lavagem do olhar.

Mas sem Veneza, sem a sensualidade e liberdade de Veneza, “cidade das mil e uma noites do catolicismo” como Sollers a chamou, não teríamos aqueles olhos fechados, aquela Vénus adormecida. Madame de Pompadour terá perguntado a Casanova, numa noite de Paris, “Você, vem lá de baixo, não é?”. E Casanova, gentil “Veneza não é lá em baixo, é lá em cima, Madame!”
Venetian-school-of-art

A alegria epiléptica

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Cadil­lac of the skies

É afro­di­síaca mesmo que quem a sinta não saiba quem raio seja Afro­dite. Falo da grande ale­gria, daquela que já não cabe no corpo, dessa ale­gria que nos estre­mece, enche e esvazia os pul­mões. A ale­gria con­vulsa.

Ima­gi­nem um campo de pri­si­o­nei­ros. Jim, um miúdo inglês, cres­ceu ali, meio-protegido, meio-abusado, por dois cor­ré­cios ame­ri­ca­nos. Cres­ceu entre o des­dém e a humi­lha­ção dos guar­das japo­ne­ses.

O campo de pri­si­o­nei­ros já é o deserto de toda ale­gria. Mas o campo de pri­si­o­nei­ros que sofre o ata­que da nossa pró­pria avi­a­ção é o pan­de­mó­nio dos sen­ti­men­tos, a lágrima de san­gue que trans­borda do cálice. Só o Pai que sabe­mos tem a cru­el­dade de dar esse cálice a um Filho.

É o que acon­tece em “Empire of the Sun”, filme de Ste­ven Spi­el­berg. Há um ata­que aliado. Um Chris­tian Bale novi­nho, o actor que dá corpo a Jim, corre eufó­rico para o telhado meio-destruído de uma das cons­tru­ções do campo de con­cen­tra­ção.

Lá em cima, salta, abraça-se a si mesmo, treme de exci­ta­ção, res­pira forte para não sufocar e explode num grito e num riso epi­lép­ti­cos. O mundo suspende-se, o movi­mento quase pára para dei­xar voar a beleza fan­tás­tica de um avião de fogo e morte.

O pin­dé­rico ingle­si­nho sobre­vi­vente berra: “P-51 Cadil­lac of the skies”. Vénus quando era vir­gem, Deus nosso senhor, a ino­mi­ná­vel Beleza, não seriam sau­da­dos com mais exaltação e exul­ta­ção. Jimmy salta de cos­tas, salta de frente, enquanto as bom­bas rebentam com tudo à sua volta. “P-51 Cadil­lac of the skies”, ó ale­gria de um catano: o fogo, a morte, a des­trui­ção, sabem-lhe a vitó­ria. O avião dos seus sonhos, que os seus dedos quase tocam fisi­ca­mente, arrasa de vez o mundo em escom­bros onde sobre­vive. Tudo morre, mas tudo morre para que ele renasça.

A ale­gria con­vulsa, epi­lép­tica, é pri­vi­lé­gio de cri­ança. Tem de ser inau­gu­ral. Lembro-me da minha pri­meira vez, dos sin­to­mas e do devas­ta­dor ata­que. Conto.

mar
o infi­nito len­çol oscilante

A pri­meira vez que eu vi mesmo o mar foi já no meio do Oce­ano Atlân­tico. De Angola, o meu pai cha­mava os meus 5 anos e lá iam eles agar­ra­dos à saia da minha mãe e a toque de caixa da minha irmã. O pouca-terra, pouca-terra, numa tarde de ver­me­lhís­si­mas cerejas, trouxera-nos da Beira fria, farta e feia. Em Lis­boa, Cais da Rocha, tínha­mos entrado no Vera Cruz, então sofis­ti­cado tran­sa­tlân­tico. Des­ce­mos logo ao cama­rote e quando vol­tá­mos a subir – no dia seguinte? –cercava-nos um vasto tapete ondu­lado, de um azul inú­til e livre. Flu­tuá­va­mos num infi­nito len­çol osci­lante: Hou­dini tinha escondido a terra.

Os pul­mões não me cabiam no peito de con­ten­tes; em riso e lágri­mas até pelos olhos os pul­mões me saíam. Dizem que é a ple­ni­tude. Gos­tava de me lem­brar melhor, se era igual o azul de céu e mar, se havia vento, quase nenhu­mas nuvens, e se can­ta­vam sereias ou sonhava já contigo.

Gangsters

bugsy

 

A 21 de Março de 1992 escrevi, no Expresso, esta cronologia para acompanhar a estreia de três gangsters movies. Houve uma coisa que, na altura, me impressionou: em todos os filmes – The Mobsters, Billy Bathgate e Bugsy – os gangsters primavam pela elegância. Vestiam-se bem e uns tipos que se vestem bem merecem, acho eu, algum crédito. Olhem, merecem que se lhes faça a folha, que foi exactamente o que eu lhes fiz.
E hoje, a continuarmos a cronologia, a quem teríamos de fazer a folha?

Os dias dos gangs
Manuel S. Fonseca

1920
A 17 de Janeiro, a Constituição americana declara ilegal o consumo ou o fabrico de bebidas alcoólicas. Os bandos criminosos, que detinham já o controlo do jogo ilegal e da prostituição, chamaram ao decreto música para os seus finos ouvidos. Estavam garantidos anos de vacas gordas. A aura do gangster, com estilo de vida faustoso, pairando com displicência acima da Lei, ia atingir extremos nunca sonhados. De Roaring Twenties, de Raoul Walsh, a Some Like it Hot, de Billy Wilder, o tema da Proibição constitui-se também como um maná cinematográfico, susceptível de um leque variado de tratamento, da tragédia à comédia.

1921
Johnny Torrio, patrão do maior bando de Chicago, contrata um pistoleiro de Nova Iorque. Duas cicatrizes paralelas, na cara, justificam a alcunha: «Scarface». De seu nome Al Capone, este homem nascera em Castel Amaro, perto de Roma, em 1895. Quatro anos depois de chegar a Chicago, já era o patrão do crime organizado na cidade, controlando também o tráfico ilegal de bebidas alcoólicas em todo o país. «Sou um benfeitor público», respondia ele à polícia que o elegeu como Inimigo Público nº 1. Revelou sempre total consciência da sua imagem pública, afirmando mesmo que fora consultado sobre o guião final de Scarface (32), de Howard Hawks, cuja personagem principal, interpretada por Paul Muni, se baseia na sua vida. Little Caesar (30), de Mervyn LeRoy, é outro dos grandes filmes de gangsters, em que o protagonista, incarnado por Edward G. Robinson, foi modelado em parte na sua biografia. Al Capone (59), de Richard Wilson, permitiu a Rod Steiger uma convincente interpretação da figura lendária desse gangster que morreu em casa, na cama, após oito anos de doença contraída em outros tantos anos passados na prisão, cumprindo pena aplicada por evasão fiscal. Outros Capone foram Neville Brand, Barry Sullivan, Jason Robards e Robert De Niro, respectivamente em The Scarface Mob (58), de Phil Karlson, The Gangster (47), de Gordon Wiles The St. Valentine’s Day Massacre (68), de Roger Corman e The Untouchables (87), de Brian De Palma.

1926
Hymie Weiss, o patrão dos «gangs» do Norte de Chicago, é abatido numa florista, em operação concebida por Al Capone. A personalidade de Weiss, um tipo de grande coragem física e dado a fúrias repentinas, serviu a William Wellman para esboçar a personagem principal de Public Enemy (31), interpretada por James Cagney.

1930
Estreia de Street of Chance, de John Cromwell, inspirado na vida e nos feitos de Amold Rothstein, um dos grandes patrões do crime organizado de Nova Iorque. Rothstein foi assassinado em 28. O cinema voltaria a tratá-lo em The Big Bankroll (59) e em King of the Roaring Twenties.

1934
Na noite de 22 de Julho, à saída do cinema Biograph, na Avenida Lincoln, de Chicago, John Dillinger foi abatido pelo FBI. Tinha acabado de ver Manhattan Melodrama, um filme de Woody van Dyke. A sua namorada, a famosa «lady in red» (que um filme como este título ficcionaria em 79), traíra-o, e Marvin Purvis, um obstinado detective do FBI, montara-lhe a armadilha fatal. No ano anterior, Dillinger roubara mais de 250 mil dólares. Meses antes da sua morte conseguira evadir-se da prisão de alta segurança, em Crown Point, utilizando os miolos (reputadamente excelentes) e uma pistola falsa. O Código Hays proibiu qualquer filme sobre Dillinger, tão forte era a sua aura mítica. Há, todavia, alusões breves em Public Hero no 1 (35). Mais próximo dos factos estava High Sierra (41), de Raoul Walsh, cujo herói, interpretado por Humphrey Bogart, se inspirava em Dillinger. Em 45, o recuo histórico autorizou já a saída de um filme-B intitulado Dillinger e, em 64, Young Dillinger retoma a biografia do gangster. Mas foi John Millius, com o seu Dillinger (73), e com a preciosa ajuda do actor Warren Oates, quem melhor lhe traçou a biografia. Outros Dillinger apareceram em filmes como The FBI Story (59), de Mervyn LeRoy, e Baby Face Nelson (57), de Don Siegel.

1935
História de amor com gangsters? Houve pelo menos uma paixão de arromba, a que «Big Jim» Colosimo, um gangster de Chicago, teve por Dale Winter, uma cantora (de dia na igreja, à noite no cabaret de Colosimo) com aspirações a diva de ópera. A paixão acabou em casamento. O enlace foi visto no «bas-fond» como um sinal de fraqueza de Colosimo, sinal reforçado pelas tentativas de «Big Jim» se tomar respeitável. Foi assassinado. Love Me Forever, de Victor Schertzinger, adaptou ao cinema essa história.

1939
Abe Reles, confessa ter levado a cabo vários assassínios, encomendados para um grupo ao serviço dos grandes gangs. O grupo passou a ser conhecido na América por «Murder Incorporated». Seguindo as indicações de Reles, o FBI descobre numa vala 56 corpos, mas Reles afiança ter «despachado» mais de 130. The Enforcer (51), com Bogart, e Murder Inc. (61), com Stuart Whitman, ficcionam a existência desse «serviço».

1942
O gangster Albert Dekker é convidado para vedeta de Yokel Boy, um filme sobre a sua própria vida.

1943
Depois do rapto, por um «gang», do filho do aviador Charles Lindbergh, que acabaria por ser assassinado, o Congresso deu carta branca a J. Edgar Hoover, o patrão do FBI, para um ataque ao crime organizado. Em poucos meses, Hoover eliminou grande parte das estruturas dos «gangs». O código Hays, em Hollywood, interditou também, nessa altura, os filmes sobre Dillinger ou outros bandidos, o que retirou publicidade e brilho à lenda desses gangsters.

1947
Em The Gangster, Gordon Wiles chama pela primeira vez «syndicate» à organização que reunia estrategicamente a Mafia italiana e judia de Nova Iorque. Era do domínio público que esse comité integrava criminosos como Joe Adonis, Willy e Solly Moretti, Albert Anastasia e Anthony «Tony Bender» Strollo. Os seus encontros tinham lugar no Duke’s Restaurant, junto a Palisades Park.

1952
O Governo americano reconhece a existência do «sindicato do crime», num relatório do Senador Estes Kefauver.

1957
Don Siegel serve-se de Mickey Rooney para fazer um retrato de adolescente retardado ao gangster Baby Face Nelson, no filme homónimo. Em 73, no Dillinger, de John Millius, a subida honra de fazer o papel desse gangster paranóico coube a Richard Dreyfuss.

1958
Roger Corman dá um pontapé nos factos e diverte as plateias dos «drive-in» com a biografia de «Machine Gun» Kelly, na comédia negra com o mesmo nome.

1959
Pretty Boy Floyd, realizado por Herbert J. Leder, é uma desinspirada versão da vida de Charles «Pretty Boy» Floyd, gangster que as canções de Woody Guthrie fizeram passar por um lavrador do Oklahoma forçado a entregar-se ao crime pela brutalidade da polícia. Floyd foi companheiro de Dillinger e de «Machine Gun» Kelly, surgindo, por isso, como personagem dos filmes que são dedicados a estes criminosos.

1961
Vic Morrow surge no papel de Dutch Schultz em Portrait of a Mobster, de Joseph Pevney. Segunda figura desse filme era outro gangster, Legs Diamond, interpretado por Ray Danton, o mesmo actor que fora já Legs no filme biográfico The Rise and Fall of Legs Diamond, dirigido por Budd Boetticher, e no qual Dutch Schultz era, por sua vez, segunda figura. Em Mad Dog Coll (61) e no Cotton Club (84), de Coppola, a personagem de Dutch Schultz volta a aparecer.

1967
The St. Valentine’s Day Massacre, de Roger Corman, aborda um episódio crucial da guerra entre os bandos de Chicago, que terminaria com a vitória total de Capone. Numa manhã do Inverno de 29, seis homens do bando de «Bugs» Moran, que dominava o lado Norte da cidade, foram abatidos a sangue-frio, contra a parede de uma garagem, por assassinos disfarçados de polícias e mandados por Capone. O «clássico» de Corman concentra-se no episódio, mas antes já outros filmes tinham utilizado essa famosa cena, a começar no Scarface, de Howard Hawks, até à citação cómica no Some Like it Hot, de Billy Wilder.

1968
Bonnie & Clyde, de Arthur Penn, propõe uma versão sublime da vida e tempo do famoso casal de gangsters. Clyde Barrow nasceu no Texas, em 1910, tendo descoberto bem antes dos vinte anos a sua vocação de criminoso. Os vizinhos contavam que, rapazinho ainda, Clyde fora apanhado a torturar animais, género partir uma asa a um pássaro e desatar a rir. Ou seja, a sua imagem real, sádico de personalidade e intelectualmente embrutecido, não corresponde minimamente à lenda cinematográfica que Fritz Lang, em You Only Live Once (37), evocou, através de personagem de ficção com um percurso semelhante, apresentado, juntamente com uma figura aparentada a Bonnie, como paradigma do par rebelde, cercado por um ambiente social hostil. A mesma lenda persiste em Gun Crazy (49), de Joseph Lewis. The Bonnie Parker Story (58), de William Witney, é, como o título indica, uma biografia directa, reportando-se mais objectivamente aos factos.

1969
Roger Corman retrata, em Bloody Mama, o gang constituído por «Ma» Barker (numa notável interpretação de Shelley Winters) e pelos seus quatro filhos. O bando tornou-se famoso nos anos 20, com assaltos a bancos em zonas rurais. A primeira baixa, ocorreu em 1927, com o suicídio (ou morte por ferimentos em assalto) de Herman. Arthur, outro dos filhos foi condenado a prisão prepétua, em 1928; LIoyd, o terceiro irmão, apanhou 25 anos de cadeia, por essa altura, Fred, o quarto irmão, reorganizou o bando com a mãe, o amante dela e o pistoleiro «Creppy» Karpis. Na sequência do rapto de um banqueiro, a polícia federal cercou-os e abateu-os, após quatro horas de tiroteio, numa casa de férias, em Lake Weir, Florida. Queen of the Mob (40), Guns Don’t Argue (55) e Ma Barker’s Killer Brod (60), já tinham biografado «Ma» Barker.

1972
É o ano de The Godfather, de Francis Coppola. A figura de Vito Corleone, interpretada por Marlon Brando, não corresponde a nenhuma personagem real específica. Diz-se ser uma amálgama de vários patrões da Mafia. Todavia, há uma figura histórica, a do chefe mafioso Carlo Gambino, um dos grandes gangsters do pós-guerra, que terá emprestado os traços biográficos essenciais ao protagonista do filme.

1973
Francesco Rosi conta, em Lucky Luciano, a «vida e obra» desse gangster, quase tão famoso como Capone. Gian Maria Volontè foi o intérprete. Antes, em 64, Cesar Romero fora o primeiro «Lucky» Luciano do cinema. Outro célebre intérprete, antes da recente vaga de filmes de gangsters destes anos 90, foi Joe Dalessandro, em The Cotton Club (84), de Francis Coppola. Luciano, à boa maneira de Capone, também não se foi desta para melhor de morte macaca: morreu velho, na cama, de ataque de coração.

1983
Scarface, de Brian De Palma, retoma a figura de Tony Camonte, a personagem de ficção com que Hawks, no filme original, disfarçara a biografia de Capone. AI Pacino deu corpo à figura do gangster. O filme reavivou o interesse pelo «gangster film» na indústria americana.

1984
The Cotton Club, de Francis Coppola, é uma festa de gangsters autênticos. Um dos mais comoventes retratos é o de Owney Madden (interpretado por Bob Hoskins), o dono do clube onde se reúnem figuras como Lucky Luciano e Dutch Schultz. Madden, apesar das cores simpáticas com que Coppola o pinta, aos 17 anos era já conhecido por «Owney the Killer».

1992
Estreiam sucessivamente Mobsters, Billy Bathgate e Bugsy. São os gangsters vistos pelos anos 90: Lucky Luciano, Bugsy Siegel e Meyer Lansky surgem em edições de luxo, servidas por excepcionais fotografias e sofisticado «production design». Dustin Hoffman, Ben Kingsley, Christian Slater e Warren Beatty dão-lhes corpo e não se pode dizer que sejam, como actores, uns «nobodies». À violência, apresentada em versão «hard» — violência gráfica, como dizem os críticos americanos — soma-se a pulsão libidinosa. O que estava implícito em Bonnie & Clyde deixou, agora, de ser um tema subjacente. O sexo vai de ombro a ombro com a pistola.

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Não é ministro e quer sangue

mosca-tsc

Quer sangue. Não, não é direc­tor de jor­nal pop­u­lar, dos que se torcem e escorrem sangue. Quer sangue e não pro­grama tele­visão gen­er­al­ista. Nem min­istro, nem oposição  populista e quer sangue. Não é anjo vin­gador, mas quer sangue e tem asas. Mafar­rico, um minús­culo cen­tímetro, suga e quer sangue.

Ten­ham medo: a cor de âmbar que lhe adoça o corpo não pode escon­der a boca em forma de tubo, nem o sulco assas­sino da cabeça. É um lindo, ter­rível corpo de guerra. Voador de voos pic­a­dos, tiro à flor da pele e certeiro no alvo. Não teme, ataca de dia: frontal, vai­dosa do seu poder de fogo e sono.

Devo-lhe uma das glórias da minha vida: no meu primeiro emprego, em Luanda – 3º ofi­cial de pública função, eman­ci­pado por não ter ainda idade de homem – com­bati o inimigo, a Glossina Pal­pa­bilis (ou será a Glossina Morsitans?). Éramos a Divisão de Combate à Tripanossomíase. Gan­há­mos: em Angola, a mosca tsé-tsé, que é esse o seu nome de guerra, foi então con­sid­er­ada extinta. In illo tem­pore.

Mas já se sabe, ninguém ganha uma guerra de guer­rilha, muito menos con­tra um inimigo de asas transparentes.