Dá-me o teu sofrimento

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Lou Salomé com Paul Rée e Nietzsche, em sugestiva encenação

Andava ele a matar Deus quando a conheceu. E nem foi ele que a descobriu, mas um Espírito Santo de orelha, o seu amigo Paul Rée. Adiante hei de falar eu da afrontosa trindade que juntos incarnaram. Agora apresento-os: ele é o filósofo Friedrich Nietzsche e ela é Lou Salomé, russa-alemã, romancista, poeta, filósofa, mais tarde psicanalista.

Lou Salomé foi uma fulgurante antecipação do século XXI no final do século XIX. A 13 de Maio de 1882, andava a Virgem Maria de agência em agência a ver se marcava viagem para Fátima, Rée e Lou encontraram-se com Nietzsche na Basílica de São Pedro, em Roma. A meia beleza tão moderna dela, que uns grandes olhos incendiavam, deixou Nietzsche de boca aberta. Eis o que disse: “De que estrelas caíste para nos encontrarmos agora aqui, tu e eu?” Lou esfaqueou-lhe logo a veia lírica: “Vim só de Zurique!”

Reparem, isto é tudo gente que estava em Itália, exilados, inquietos, gente com agulhas no rabo e na alma, acolhendo-se, em Sorrento, ao salão literário da prussiana Malwida von Meysenburg, livre pensadora, mulher que exerceu e gozou direitos antes que lhos reconhecessem. Foi lá que a total independência de Lou deu de caras com Rée. Logo lhe pediu que viesse viver com ela. E, ao esbarrar em Nietzsche, disse-lhe que onde cabiam dois muito mais felizes seriam três.

O triangular escândalo, concebido por uma mulher de 22 anos, cegou o plácido olhar burguês do tempo. Só que cegava também o grande olho boémio: Lou rivalizava em virgindade com Nossa Senhora. Em Sorrento, e sei do que falo, o azul mediterrânico a fundir-se no cítrico aroma a laranjas, Lou explicou a Rée e depois a Nietzsche que era de irmãos espirituais o amor dela. Ambos lhe propuseram casamento, o que Lou rejeitou com fúria amazónica: ofereceu-lhes o fogo da alma e o gelo do corpo. Defendia a sua virgindade como Joana d’Arc defendeu a França, única forma de garantir a plenitude intelectual, criadora, poética. Lou rejeitava o casamento, a monogamia, o masculino teleologofalicismo (bem sei, até dói!). Atormentado, Nietzsche já não sabia como amá-la. Lou esclareceu-o em verso: “Se já não tens mais felicidade para dar, dá-me então o teu sofrimento…” Não admira que Nietzsche tenha degolado o Senhor omnipotente.

Não obstante, aos 26 anos, Lou casou-se. O marido, um orientalista arménio, Andréas, experimentou a mesma exacta ardente paixão fria que congelou Rée e Nietzsche. Se me permitem uma nota de menor elevação direi, e é verdade, que teve filhos da criada. Uma das filhas seria a herdeira de Lou.

Só aos 30 anos, com um político, Georg Ledebour, Lou conheceu as delícias e os tormentos da carne. Lou cedeu o gelo do corpo. Mas só aos 36, com um jovem poeta, Lou se fundiu, carne e espírito, tocando a unidade primordial, essa mínima centelha de divindade que todos buscamos. Esse poeta, René Maria Rilke, entregou-lhe os sonhos e o vigor dos 22 anos. Ela acolheu-o, rejeitou mais um pedido de casamento, mudou-lhe o nome para Rainer, levou-o num périplo espiritual a conhecer a Rússia e Tolstoi. Lou mandou-o embora quatro anos depois.

Os homens abandonados por Lou davam à luz um livro nove meses depois. Nietzsche e Rilke confirmam: um escreveu “Assim Falava Zaratustra”, o outro “O Livro das Horas”.

Lou Andréas Salomé, já no século XX, ainda inquietaria Freud, a primeira mulher a entrar no círculo psicanalítico de Viena. Casada com Andreas até ao fim da vida, deixou-se morrer dias depois da Gestapo lhe confiscar a biblioteca, tão cheia de “autores judeus”.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

O cavalinho lusitano

Portugal foi à Suécia ganhar por 3-2 apurando-se para o Campeonato do Mundo no Brasil. O que Ronaldo fez nesse jogo deixou a perfeição vermelha de ciúmes. Eu escrevi, logo, o texto que se segue, no velho Escrever é Triste. Garanto-vos, foi o meu texto mais lido de sempre nesse velho blogue. Trago-o para aqui, a pedido, para ficar adormecido na Página Negra. 

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Foram três movi­men­tos geo­mé­tri­cos, até a bola come­çar a cor­rer à frente dele. De quem? Da seta, do cava­li­nho Ronaldo.

Pri­meiro movimento

A defesa por­tu­guesa recu­pera a bola que vai parar aos pés de Mei­re­les. Junto à linha da grande área, Mei­re­les, três sue­cos a 10 metros, recreia-se um pouco – faz pas­sar a bola do pé esquerdo para a coxa direita, controla-a com um ligeiro toque e fá-la rolar na relva, um quarto sueco a ten­tar cair-lhe em cima vindo do lado esquerdo. Os olhos de Mei­re­les estão no sueco, mas o seu pé direito ignora-o olim­pi­ca­mente e coloca o esfé­rico quase 40 metros à frente, no grande círculo.

Segundo movi­mento

Nani, de cos­tas para o meio-campo adver­sá­rio, ofe­rece o peito a essa bola de Mei­re­les e tabela para Mou­ti­nho. De peito para peito. E eu acho que não, que foi de cora­ção para cora­ção. Repa­rem, Mou­ti­nho é um tipo pequeno, mas faz dessa adver­si­dade uma van­ta­gem, um cen­tro de gra­vi­dade ina­ba­lá­vel. Recebe a bola no peito e deixa-a cair à sua frente. Tenho a cer­teza, jura­ria sobre a Bíblia, sobre a Cons­ti­tui­ção até, que Mou­ti­nho não se mexe, nada em Mou­ti­nho se mexe.

Ter­ceiro movimento

A bola, que veio do peito de Nani, beija o peito de Mou­ti­nho. Desce, aninha-se, com von­tade pró­pria, no pé direito do pequeno médio – a bola ama o pé direito de Mou­ti­nho, afaga-o um segundo e deixa-o, toma a ini­ci­a­tiva de se ir embora (bola empre­en­de­dora), como quem muito cedo, dema­si­ado cedo, se des­pede, e des­liza, num movi­mento elíp­tico de 20 metros, desviando-se ligei­ra­mente para a direita, equi­dis­tante dos dois cen­trais sue­cos, cien­ti­fi­ca­mente colo­ca­dos, mas huma­na­mente per­di­dos. E tal­vez nada venha a acon­te­cer por­que há um outro sueco, o late­ral esquerdo, Ols­son, que vem desembestado.

Clí­max

Ols­son corre como uma velo­ci­dade viking: ele quer e a bola tem de ser dele. Seria, se pela direita, roubando-lhe o inte­rior do rel­vado, não sur­gisse uma seta. A seta, camisa ver­me­lha, sete nas cos­tas, con­quista o espaço, toca a bola com o pé direito, puxando-a para o cen­tro em direc­ção à área, corre com a ale­gria de um gara­nhão a três por jogo, trote pri­meiro, galope depois, um segundo toque na bola ainda com o pé direito, para fechar o que qual­quer pro­fes­sor sabe que é uma dia­go­nal. Olha­mos e parece que a seta, o cava­li­nho, Ronaldo, vai a fugir à baliza. Está entre três sue­cos, três ama­re­las damas de com­pa­nhia, e tem pela frente o temor e o tre­mor de um verde guarda-redes kierk­gar­di­ano. E é quando o rigor de uma recta ali­nha já Ronaldo pelo poste direito da baliza sueca que a parte inte­rior do seu pé esquerdo, mus­cu­lada e ner­vosa pata de cava­li­nho lusi­tano, aplica, como numa mesa de sno­o­ker, uma tacada quase suave que pro­jecta a bola para o canto esquerdo das redes. Um arco suave, de uma infi­nita doçura, tão perto e tão longe dos dedos do Isaks­son, o guar­dião, dedos tão esti­ca­dos e mais angus­ti­a­dos do que o rosto da figura n’ “O Grito” de Munch.

A bola bei­jou as redes, Ronaldo corre para além da linha final com a ele­gân­cia de um mata­dor, olé. E Por­tu­gal inteiro acaba de bei­jar o céu. O pri­meiro beijo. Bas­ta­ria. Mas quem um beijo beija, beija logo mais dois ou três.

Três museus

Cunhal
Cunhal tal como a polícia de Salazar o fotografou

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 12 de Setembro

Para tomar a bica curta com o passado e saber quem somos, precisamos de três museus. No Museu dos Descobrimentos veremos como abrimos o mundo à glória da primeira globalização, glória que teve, é certo, o seu cortejo de Adamastores. No Museu Salazar veríamos o chefe de 40 anos da ditadura que nos reverteu a um casulo de mesquinha vigilância pidesca e criou um país proteccionista atrasado e anti-capitalista. No Museu Cunhal estaria o heróico combatente da ditadura, que no olho de Salazar viu o doloroso cisco da PIDE, mas no olho da sua URSS não viu a trágica viga dos campos de concentração. Três museus. Têm é de ser museus.

A arte e o crime

A-Rainy-Day-in-New-York

Bica tirada no CM, 4.ª feira, dia 11 de Setembro

Os portugueses vão ver. Os americanos não. “Um Dia de Chuva em Nova Iorque”, último filme de Woody Allen, estreia em Portugal, em Outubro. Na verdade, estreia em todo o mundo menos numa América neo-macarthista, refém da histeria de acusações que fazem mais lei do que a lei. Acusado de abusar da filha adoptiva, filha da sua ex-mulher Mia Farrow, Allen foi investigado e ilibado por dois juízes em estados americanos diferentes.

Mas acima da culpa ou inocência dos criadores, está a absoluta liberdade das obras de arte. O poeta Rimbaud traficou escravas. O pintor Caravaggio matou. Porém, as suas obras são e serão faróis da humanidade.

Eusé­bio da Silva Fer­reira, meu Deus

Eusébio da Silva Ferreira morreu a 5 de Janeiro de 2014. Fará seis anos, daqui a  três meses. Eu é que não consigo esperar e quero já deixar aqui o texto que escrevi mal soube da sua morte. Já o publiquei até num livro. Mas tem de ficar aqui, aconchegado, nesta Página Negra.

Eusébio

Se Eusé­bio mor­reu hoje, como dizem as infa­ti­gá­veis notí­cias, mor­reu hoje o que res­tava dos meus anos 60 e o que res­tava de Por­tu­gal ter sido um império.

E embora mor­rendo hoje, como dizem as indes­men­tí­veis notí­cias, as cores do mito – esse belo negro da sua pele, esse ver­me­lho vivo da sua cami­sola – não dei­xa­rão nunca mor­rer Eusé­bio. E nem é pre­ciso dizer aqui a pala­vra Ben­fica, por­que a pala­vra Eusé­bio e a pala­vra Ben­fica beijam-se, fundem-se, são uma com­bi­na­ção amo­rosa de que a gra­má­tica tem ciúmes.

Eusé­bio era feito da mesma terra ver­me­lha dos heróis. A força de per­nas de um Hér­cu­les, veloz como Ulis­ses, o joe­lho onde Aqui­les tinha o cal­ca­nhar. Há romance, mis­té­rio e aven­tura em toda a sua vida. Vejam como, da cidade colo­nial de Lou­renço Mar­ques, o tra­zem para Lisboa.

Numa noite de tró­pi­cos, um jipe leva-o à porta do avião. Clan­des­tino quase. E em Lis­boa escondem-no da bruxa má. Tudo por­que Eusé­bio, per­so­ni­fi­ca­ção da bon­dade, fez o que um filho deve fazer, a von­tade à sua mãe. O clube onde jogava que­ria mandá-lo à expe­ri­ên­cia para outro clube. Mas a mãe, como todas as mães, deci­diu pela von­tade do filho: recu­sar vir à expe­ri­ên­cia por­que, como todos os ver­da­dei­ros humil­des, Eusé­bio sabia o que valia.

E o que valia Eusé­bio? Outros dirão muito melhor do que eu. Eu conto-vos só as minhas per­ple­xi­da­des. Eu nunca con­se­guia saber se era o seu pé esquerdo, se o seu pé direito que chu­tava. Por­que, em boa ver­dade, não era ele que chu­tava. A velo­ci­dade rema­tava por ele. E já estou a men­tir ou a enganar-me, por­que, em boa ver­dade, foi com Eusé­bio que a velo­ci­dade apren­deu a jogar à bola. Num tempo em que os car­ros tinham qua­tro velo­ci­da­des, Eusé­bio já tinha a sexta.

Dei­xem deliciar-me ver­go­nho­sa­mente no vício das minhas recor­da­ções. Estou a vê-lo, em Ams­ter­dão, ali­nhado com Águas, Coluna, Simões, antes da final com o Real Madrid come­çar. Está per­fi­lado, a cara­pi­nha cor­tada quase rente, a cabeça redonda de menino, pre­ci­o­sa­mente dese­nhada e bonita, a pele negra bri­lhante, nobre, afri­cana. E era, menino de Moçam­bi­que, o melhor joga­dor por­tu­guês. E eu tenho muito orgu­lho em que o melhor joga­dor por­tu­guês seja um afri­cano, raio de um ex-império que nem um depu­tado negro con­se­gue ter.

Nesse jogo, mar­cou dois golos, os dois, juram-me, e eu não teria tan­tas cer­te­zas, com o pé direito. Pus­kas, Gento e o semi-deus que era Di Ste­fano caí­ram aos seus pés. Eusé­bio, herói com­pas­sivo, foi ao chão bus­car a cami­sola de Di Ste­fano. Pediu-lha, a esse semi-deus aba­tido. Di Ste­fano deu-lha, con­so­lado por aquele pedido de menino, e Eusé­bio guardou-a, por­que Eusé­bio é o guar­dião de todos os símbolos.

Eusé­bio foi o pri­meiro fute­bo­lista a jus­ti­fi­car os 110 metros de com­pri­mento de um campo de fute­bol. Se não fos­sem já essas as medi­das, o campo teria de ser esti­cado. Eusé­bio comia com ale­gria metros de relva. Eusé­bio era um bicho dos gran­des espa­ços, uma pan­tera que que­ria savana. Foi com ele que o fute­bol des­co­briu que a África existia.

Cor­ria em linha recta ou em elipse, fazendo meias-luas, rápi­das mudan­ças de direc­ção, rein­ven­tando a velo­ci­dade, baixando-a, subindo-a. Percebia-se assim, final­mente, por que razão um campo de fute­bol deve ter 75 metros de lar­gura, uma área de 8250 metros qua­dra­dos. Cor­ria e nas per­nas dele cor­ria a pala­vra Ben­fica. Mas tam­bém a pala­vra Portugal.

Foi em 1966, não dou novi­dade nenhuma a nin­guém. Mas vejam outra vez as cores do mito a pin­tar Eusé­bio. Houve um sor­teio dos núme­ros das cami­so­las. Saiu-lhe o 11, ao peque­nino e mara­vi­lhoso Simões o 13. Simões que­ria jogar com o seu habi­tual 11 e, com a ver­dade, deu a volta a Eusé­bio: “Já viste o que é, se joga­res com o 13 e fores, como vais ser, o melhor mar­ca­dor e o melhor joga­dor do mundo?” E foi, com esse número que devia ser fatí­dico, com esse número da fei­ti­ceira Circe, o melhor mar­ca­dor, o melhor joga­dor, o Melhor. As cores do mito, os núme­ros do mito, escolhem-no, querem-no como filho dilecto.

Vi o segundo golo dele ao Bra­sil num filme exi­bido no cinema Impé­rio, em Luanda. Uma obra de arte gigan­tesca em que potên­cia e explo­são se enla­çam. Um golo que ajo­e­lhou o Bra­sil, esse impé­rio romano do fute­bol. De novo e sem­pre as cores do mito: com esse golo, aos pés ala­dos de Eusé­bio, caía Pelé, uma lança espe­tada no flanco.

No jogo com a Coreia do Norte, Eusé­bio car­re­gou, como Hér­cu­les, o mundo aos ombros. Ainda nem a meio da pri­meira parte íamos e a Coreia, aba­lando a ordem do céu e terra, de mares e ares, ganhava por três a zero. Eusé­bio recons­ti­tuiu minu­ci­o­sa­mente a ordem do mundo, todo o uni­verso. Agar­rou nos des­tro­ços e com per­se­ve­rança jun­tou as par­tes. Cor­reu, dri­blou, foi atin­gido vio­len­ta­mente, mas triun­fou. Qua­tro golos foram os tra­ba­lhos de Eusé­bio nessa tarde de gló­ria que aca­ba­ria, dias depois, nas lágri­mas de Wem­bley, momento mais bonito, mais lírico ou ele­gíaco do que qual­quer vitó­ria. Lágri­mas de Eusé­bio que a cami­sola de Por­tu­gal reco­lhe e esconde. Nenhum outro gesto, outras lágri­mas, pode­rão ser tes­te­mu­nho de mais amor.

Mor­reu hoje Eusé­bio da Silva Fer­reira, meu Deus.

Eusebio
Eusébio tem capela cá em casa

 

O tempo perdido

dor e glória

Bica Curta servida no CM, 3.ª, dia 10 de Setembro

O ovo de madeira que a mãe de Almodóvar usa para cerzir meias é igual ao que vi na mão de minha mãe. São iguais os ovos de madeira que os filhos viram na mão das mães de famílias pobres ou remediadas. O que é bonito no cinema é ele restituir-nos o tempo perdido, o velho cheiro da bica, o amor que a vida nos fez esquecer. “Dor e Glória”, o filme de Almodóvar, está carregado de passado: tão bonita a cena das mulheres a lavar roupa na ribeira.

O de Tarantino, “Era Uma vez em Hollywood”, também. No corpo, silêncio e vagar de Brad Pitt recuperamos o orgulho de termos sido rapazes, do nosso desembaraço viril, o orgulho de sermos homens.

Três livros para um mundo em brasa

Por um mero acaso, sou também o editor da Guerra e Paz. Nessa qualidade, escrevi aos leitores dessa editora. Mas destes três livros quero que os leitores da Página Negra sejam leitores também.

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Um editor escreve aos leitores

Venham comigo até à minha infância. Vamos brincar ao lobo mau.
Cantemos a lengalenga:

Brincando na serra enquanto o lobo não vem,
qu’é qu’ o lobo ’tá fazer?

Responde o menino que faz de lobo:

O lobo ’tá ler um livro!

Oh, que antigo deve ser este lobo, que ainda lê livros. Nem é, de certeza, um lobo mau, por mais que, na sua natureza, esteja a vontade de comer a Capuchinho Vermelho. A bem dizer, já nem há lobos maus nem capuchinhos vermelhos, e ler livros começa a ser tão anacrónico como brincar ao giroflé flé flá.

Nesta rentrée de Setembro de 2019, último ano dos anos 10 do século xxi, o século em que morrerei, não gostava que morresse o livro. Devo ao livro, lobo mau que devorei com olhos tão curiosos como os da Capuchinho Vermelho, exaltações e euforias apaixonadíssimas, estremecimentos de alma com que nem São João da Cruz ou Santa Teresa d’Ávila sonharam.

Mas, enquanto o lobo não vem, deixem-me dizer o que foi mesmo o livro na minha fraca vida. O livro foi o fruto do conhecimento que, sem culpa de Eva, eu mordi com vontade. Eu vivia num mundo de descuidada inocência e, por ter comido esse fruto do conhecimento (é mentira que seja uma maçã), fui expulso do Paraíso.

Abençoada expulsão. Quem quer viver no Paraíso sem lobos maus, sem capuchinhos vermelhos, sem Evas que mordam a mesma fruta, um Paraíso onde nem ao giroflé flé flá se possa brincar?

O livro é a saudade e a consciência do Paraíso no maravilhoso mundo-lobo-mau de pecado e vida. Nesta rentrée de 2019, são esses os livros que gostaria de vos trazer. E escolho três exemplos, os melhores exemplos de fruto do conhecimento que vos quero dar a provar antes do Natal.

Um chama-se Quem É Fascista. O autor é um historiador italiano, Emilio Gentile. O fascismo é um lobo mau do século xx. No século xxi, outros lobos maus vieram brincar nas nossas globalizadas serras. O que Emilio Gentile explica é que não se devem confundir estes lobos maus, chamem-se Orbán, Trump, Bolsonaro ou Salvini, com o lobo mau fascista. Se queremos que não comam a Capuchinho Vermelho, temos de saber que lobo mau é o lobo mau fascista evitando repetir o erro dos partidos comunistas dos anos 20 que chamavam até fascistas a antifascistas que não fossem do partido. E que bem, com que inteligência, este livro tudo nos explica e guia.

Outro livro desta rentrée tem por título Alterações Climáticas – O Que Sabemos, o Que Não Sabemos. Escreveu-o a cientista americana Judith A. Curry, que há 40 anos estuda os lobos maus e bons que são os ciclones, os furacões, os vulcões e o tremendo gelo dos pólos. Judith A. Curry não vem aos gritos. É mesmo contra a gritaria de “vem aí o lobo, vem aí o lobo”, que Judith A. Curry está. Judith serve-se da ciência e diz-nos que só conhecendo – e conhecer é também reconhecer as incertezas – saberemos as razões pelas quais aqueceram as nossas desoladas serras, que já tão poucos lobos têm. Contra os alarmismos catastrofistas, a cientista Curry, uma Eva que só se quer alimentar do fruto do conhecimento, mostra-nos, neste livro, que não sabemos quanto e como o planeta aquecerá, e que afirmar o comportamento humano como razão dominante do aquecimento é uma simplificação imposta por políticos, que está por provar cientificamente. O consenso forçado é um lobo mau que nos quer impor uma única maneira de andarmos nas serras deste nosso mundo em brasa.

Um, dois, três, macaquinho português, que bonito que é o meu terceiro livro. Chama-se Assim Nasceu Uma Língua, levando como subtítulo Sobre as Origens do Português. Escreveu-o um linguista admirável, Fernando Venâncio, percorrendo, como um lobo feliz e livre, as mais longínquas serras do Norte, onde, lobo galego, a língua portuguesa nasceu. Livro encantador e livre, nele se defende a maravilhosa diversidade da língua, dispensando a imposição de uma reaccionária unidade, num claro chumbo a esse famigerado lobo mau que é o Acordo Ortográfico de 1990, “devaneio inútil e dispendioso” de uma unificação de que o mundo real – que é haver Brasis, Angolas e Portugais, e neles povos – se ri, irrevogável e irreversível.

Eis o milagre dos livros, esses lobos em vias de extinção. Recusam-nos as certezas pantanosas. Inquietam-nos, põem-nos à caça, atentos e exigentes. Parece um mundo antigo e, não obstante, como estes três livros-lobos tão bem mostram, é só de futuro que estamos a falar.

Manuel S. Fonseca
editor da Guerra e Paz

Servidões, Herberto Helder

Texto escrito no dia 15 de Junho de 2013, poucos dias depois da saída deste penúltimo livro de Herberto Helder. A quente. Sem rede.

Servidões

 

Sem­pre houve morte na poe­sia dele, nunca tanta como em “Ser­vi­dões”. Em 10 pági­nas de inclas­si­fi­cá­vel prosa, a que se somam outras 98 com 73 poe­mas, escreve-se um homem e a sua morte.

As dez pági­nas de prosa, esses pas­sos em volta antes da con­vulsa cor­rida dos poe­mas, são insis­tente e desa­fi­a­do­ra­mente auto­bi­o­grá­fi­cas. E, não obs­tante, estão aquém e além da bio­gra­fia. “Ser­vi­dões”, o livro que Her­berto Hel­der publi­cou em Maio de 2013, dois anos antes da sua morte, começa na infân­cia, num relato de perda de ino­cên­cia que nos pre­para para a via-sacra de esta­ções em que o poeta encara, com natu­ra­li­dade, que a morte esteja agora, sobe­rana e apa­ren­te­mente sem pressa, a observá-lo. Morte fera e benigna, farta de saber que a presa não lhe fugirá. Que me lem­bre, só um resig­nado e estóico poema de Lar­kin, “Aubade”, nos tinha dado, da morte, esse tão sereno, certo e seguro olhar. Em Her­berto, como o car­teiro de Lar­kin, um arma­zém espera pelo corpo que há-de che­gar num saco um pouco maior do que o seu tamanho.

Ser­vi­dões” é uma auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia não for des­file de acon­te­ci­men­tos. Auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia puder ser a visu­a­li­za­ção e ver­ba­li­za­ção simul­tâ­nea do mundo e dos pro­ces­sos que um corpo usa para perceber, receber e rea­gir a esse mundo.

Na maior parte da arte con­tem­po­râ­nea o mundo é vazio. Se não o mundo, a repre­sen­ta­ção dele. O mundo da poe­sia – e da prosa – de Her­berto Hel­der é um mundo ple­tó­rico, cheio de ani­mais, medos e ale­grias pri­mi­ti­vas, as gran­des coro­las dos giras­sóis, basal­tos, mêns­truo e espumas.

Povo­a­dís­simo de coi­sas, ani­mais e pes­soas, “Ser­vi­dões”, como a “Poe­sia Toda” de mais de 50 anos que a pre­cede, é o livro de uma escrita à pro­cura da radi­cal ver­dade do humano e, como há muito tempo se dizia, da sua con­di­ção. No poema de aber­tura (ou se pre­fe­ri­rem na prosa de aber­tura) o poeta estende um porco sel­va­gem na mesa da cozi­nha, ani­mal que o poema logo reta­lha a cute­los e faca­lhões. Fecha­mos os olhos – na poe­sia de Her­berto Hel­der fecha­mos mui­tas vezes os olhos – e res­pi­ra­mos, abas das nari­nas bem aber­tas: há um odor a bar­bá­rie, um sau­doso odor a san­gue e bar­bá­rie em que nos reco­nhe­ce­mos e, por voca­ção ani­mal, nos revol­ve­mos. É um cheiro que vem da infân­cia, dessa nossa obs­cura, per­dida e funda infân­cia. Cheiro da cru­el­dade orgâ­nica de um miúdo que, sem nojo, mexe no que da vida é vis­ce­ral. Um cheiro de um entu­si­asmo des­con­tro­lado, o mesmo de uma “cri­ança de cabeça zoo­ló­gica” que des­co­bre a calei­dos­có­pica e ale­a­tó­ria magia.

É ape­nas um livro, pala­vras, a intrin­cada ari­dez da gra­má­tica, que usa explo­si­va­mente a orto­gra­fia que, agora, mangas-de-alpaca jul­gam pertencer-lhes. Só que, como desde “O Amor em Visita”, e como na melhor poe­sia que já se escre­veu, de Vil­lon a Rim­baud, de Rilke a René Char, de Yeats a Dylan Tho­mas, em “Ser­vi­dões”, a riqueza ver­bal, as sur­pre­sas semân­ti­cas, uma certa pro­di­ga­li­dade meta­fó­rica e meto­ní­mica, meta­bo­li­zam as emo­ções, rein­ven­tam e redi­men­si­o­nam o real. A pala­vra carne é mais do que a pala­vra carne e os ver­sos enchem-se de incon­ti­dos cinco litros de san­gue, dez metros de san­gue, de mães lou­cas que nunca dei­xa­ram de habi­tar a obra de Her­berto, de um orva­lho que pre­nun­cia a última manhã. A abe­ce­dá­ria poe­sia assalta o real, confundindo-se e não se con­fun­dindo com ele,.

Enquanto espera a noite, a amarga noite, que há-de vir e há-de des­fa­zer, a memó­ria con­ti­nua a fazer o seu tra­ba­lho e estende-se na cama a sau­dade da pequena puta dei­tada. E as pala­vras de Her­berto, que em pó, poeira, poa­lha ali­te­ram a morte, abrem-se à fêmea oferecendo-lhe outra, dife­rente, bila­bial ali­te­ra­ção: branca, brusca, brava, encar­nada. Só Sena e Drum­mond aflo­ra­ram assim, em abe­ce­dá­ria lín­gua por­tu­guesa, a carne tré­mula, essa carne em que “eu sei quanto depressa morro”.

Nos ver­sos ou na prosa de Her­berto Hel­der cami­nha­mos entre ritos mági­cos e bár­ba­ros. Como se toda a his­tó­ria do humano fosse um poema, “Ser­vi­dões” é o cálice de uma tra­di­ção. Um cálice de sacri­fí­cio san­grento e de êxtase, de uma longa insó­nia de tabu e incesto. Saí­mos de um tor­por antro­po­ló­gico. Os poe­mas de “Ser­vi­dões” con­tam his­tó­rias. Remo­tas e actu­ais. His­tó­rias ances­trais em que as árvo­res devo­ram cadá­ve­res ou a his­tó­ria de um poeta con­tem­po­râ­neo, órfão de Rim­baud, a quem ape­nas sobra a mise­ri­cór­dia de um tiro na cabeça. Há, houve sem­pre, uma África a insinuar-se na poe­sia de Her­berto. Neste seu livro, escuta-se a lenda afro-carnívora, a soli­dão majes­tá­tica do imbon­deiro na inter­mi­ná­vel estepe. Pressente-se o elo­gio de uma certa per­sis­tên­cia vege­tal e, com a escas­sez de um haiku, as folhas de uma welwits­chia escon­dem “no deserto entre as for­na­lhas” uma japo­nesa gota de orvalho.

Ser­vi­dões” é tam­bém um livro à pro­cura da radi­cal ver­dade do poema e do poeta. Poema e poeta sabem que dis­cor­rer sobre o mundo, sobre a sua ordem, é menos do que nomear. Esse conhe­ci­mento con­fere vozes dís­pa­res e ambas se escre­vem neste livro: uma leveza his­trió­nica, uma angús­tia monás­tica. Tal­vez a alma não exista, mas esse obs­curo fré­mito que nos chega a fazer pen­sar que a alma existe, está, menos do que nome­ado, na peque­nina frac­tura ou ferida que separa o gesto cómico do mes­tre Zen que tan­tas vezes é o poema, e a reli­gada e lúcida tor­rente ver­bal, “cor­dão de san­gue à volta do pes­coço”, que sufoca poema, poeta e leitor.

A escrita de Her­berto foi sem­pre devo­ra­dora de tudo, da carne, cama e mundo. Em “Ser­vi­dões” apodera-se dela, por vezes, uma sere­ni­dade romana. Escrevem-se mais deva­gar os poe­mas. Mas as anti­gas explo­sões, a ver­ti­gem ver­bal de “A Máquina Lírica” ou “Antro­po­fa­gias” regres­sam ainda, nuas, cruas, sexu­ais, lumi­no­sas, nos 32 ver­sos que, irmãos huma­nos que depois de mim vive­reis, invo­cam Vil­lon, ou quando, na página 97 e seguin­tes, tomado por uma dor faulk­ne­ri­ana, no mais orgás­tico e xamâ­nico momento deste livro, o poema se entrega a um con­solo de antes o inferno do que nada, para se cer­rar no mais belo post scrip­tum que já se ofe­re­ceu à lín­gua por­tu­guesa: “meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcan­çado.

Este é o poeta, o que deva­gar tomou o poema em suas mãos e, dando gra­ças, o repar­tiu dizendo: tomai, e lede todos, fazei isto em memó­ria de mim.