No sítio

Louis Armstrong

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 19 de Setembro

Ninguém foi mais paz de alma do que o cantor negro Louis Armstrong. Cem quilos de amável gordura e voz arranhada a ouro. Mas há 62 anos Louis assanhou-se. Nove miúdos negros estavam à porta de uma escola proibidos de entrar: só para brancos, diziam. Louis disse ao presidente Eisenhower: o senhor tem duas caras e não os tem no sítio se não cumprir a lei. Encostado à parede, Eisenhower mandou as tropas e os miúdos entraram na escola.

Que Louis servirá a bica curta aos políticos portugueses, mandando tê-los no sítio e fazer essa profunda e prometida reforma do Estado que, pós-troika, quer Passos, quer Costa se cortaram a cumprir.

Clima, o que sabemos, o que não sabemos

A Guerra e Paz, em estreia mundial, publica este livro de Judith Curry, uma cientista do clima com 40 anos de investigação em furacões, vulcões, climas polares e interacção ar-mar. A edição é bilingue, em português e inglês, para que, além da tradução, se possa ter acesso ao texto original.

Curry

Não vale a pena iludir a questão: não é um livro como os outros. Sou o editor e sei que, no actual quadro de pensamento único, vou comprar problemas. Mas numa coisa tenho confiança: este é um livro que está do lado da ciência, do método científico. Vamos falar mais disto nos próximos dias.

Für Elise

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Com péssima caligrafia, mas inspirada mão direita e arpejos da esquerda, Ludwig escreveu “Für Therese”. Queria, julga-se, encantar Theresa Malfatti, uma italiana mais volúvel do que o romântico Beethoven julgava. Ofereceu-lhe a partitura, o que para sermos rigorosos, as fontes históricas não confirmam. Mas confirmam que Therese não tinha Ludwig no devido apreço. Por ser ele caótico, por ser menos handsome e sedutor do que, a crer no seu talento, nós julgamos à distância.

Therese, com feminino egoísmo e razoável desdém pela posteridade, rejeitou o surdo compositor que seu pai, médico, tratava, e casou-se com von Drosdick, que era barão. Justiça poética: a caligrafia de Ludwig, de fazer dó, mal lida e em sustenido, vingou-se e riscou da sua vida a insonsa Therese, para fazer nascer inteirinha, como Atena da cabeça de Zeus, a imortal Elise que agora, como Ludwig, gostaríamos de eternamente amar:

Für Elise” é um solo de piano de Beethoven. Começa com uma irreprimível alegria (“joy”, em inglês, diz melhor o que o alemão tinha na sua surda cabeça), passa por uma atormentada dúvida e termina no mais certo e esgazeado sofrimento. Por tudo isto, que acontece em 3 minutos e 30 segundos, vale a pena amarmos, sem distinção, o obstinado Ludwig, a insípida Therese e a etérea Elise.

É o meu classic weepie favorito.

Pó-de-arroz

Fluminense

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 18 de Setembro

Jesus está com o povo. Falo de Jorge, profeta português que treina o Flamengo e o pôs a jogar como o povão brasileiro gosta, começando por proibir aos jogadores o uso de telemóveis às refeições: só depois da bica curta.

Jesus nunca treinaria o Fluminense, rival carioca, clube dos grão-finos. Há cem anos, o Flu nem jogador negro ou mulato tinha. Diz a lenda que o primeiro que jogou, entrou de rosto pintado de pó-de-arroz. É lenda, mas ainda hoje o Flu, jogadores e claque se chamam a si mesmos pó-de-arroz. Se Pelé jogasse no Flu teria de se maquilhar para jogar? Quanto estúpido preconceito os pés do jogador negro não fintaram já!

A linha de horizonte

Steven-Spielberg
O jovem Spielberga

Aos 15 anos Steven Spielberg queria ser realizador. Precisava de conselhos. Escolheu John Ford, o melhor realizador de sempre (não segundo mim que mim não conta, mas segundo Welles, Bogdanovich, Scorsese), e tentou uma entrevista. A secretária recebeu-o, dizendo-lhe que o  senhor Ford estava a almoçar e que os almoços dele eram homéricos. Spielberg esperou paciente. De repente, um furacão entrou por ali dentro, a cara coberta do baton de alguns beijos. Sem tempo para que a secretária ou o imberbe e implume candidato tivessem oportunidade para lhe dizer o que fosse.

A secretária foi lá dentro. Limpou os beijos da cara de Ford e explicou-lhe que estava ali um jovem que queria ser realizador. “Dou-lhe cinco minutos. Ele que entre”, rosnou John Ford.

Spielberg entrou. Ford mal olhou para ele e apontou para um quadro na parede: “O que vês ali?” Spielberg lançou-se numa explicação profusa. Ford atalhou: “Isso não interessa para nada. Nesta foto o que interessa é a linha de horizonte. Onde é que está?” “Em cima”, respondeu Spielberg. “E nesta?” insistiu Ford. “Em baixo” confirmou Steven. “Isso mesmo. No quadro, o que interessa é a linha de horizonte. Em cima ou em baixo. Nunca ao meio. Nunca te esqueças. Agora podes ir embora e ser realizador”.

O episódio, relatado pelo próprio, está no belíssimo documentário que o realizador Peter Bogdanovich fez em 1971 e a que, em 2006, acrescentou os testemunhos de Spielberg e Scorsese entre outros.

Se puderem deliciem-se com esse tributo amoroso. Gostem, por favor, pelo menos tanto como eu. Entretanto, Spielberg já contou, noutro lado, esta variante dessa versão.

 

Nós, o Povo

People

Bica Curta servida no CM; 3.ª feira, dia 17 de Setembro

Há 232 anos a América tomou a bica curta de olhos postos numa folha de papel que começava com as palavras “Nós, o Povo”.  Esse papel, a Constituição dos EUA, definia a forma de governo e, depois, as liberdades, justiça e direitos dos cidadãos.

Em Portugal, Nós, o Povo, vai agora a votos. A nossa democracia é nova e tenra: nem meio século sequer. E, no entanto, num mundo em que andam populismos a galope, estas são eleições em democracia formal plena. Até por isso, Nós, o Povo, merece que a cativação na calada do gabinete não seja a regra da economia.Olhos nos olhos, digam, a Nós, o Povo, que política económica vamos ter.

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votação a seguir ao 25 de Abril, foto RTP

Lou Brooks

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Fez pelo menos uma dúzia de capas da Time e da Newsweek. O NY Times passa a vida a pedir-lhe ilustrações e, o que para mim equivale a um doutoramento, durante 10 anos desenhou, para a revista Playboy, os Playboy Funnies. Nem vou mencionar a New Yorker. Lou Brooks, nascido em 1944, com 20 anos a viver em Manhattan, não é um daqueles emproados e insuportáveis politicamente correctos de festas e cocktails. Basta ser-lhe um expoente da pop culture. Da sua iconografia. Como aqui se pode ver.

Em 2010, vi que se retirara para uma quinta perto de San Francisco. Junto às vinhas. Pensei que ia só para o remanso. Mas não, é o fundador e curador deste anacrónico museu, o Museum of Forgotten Art Supplies., museu dos apetrechos esquecidos ou tornados inúteis na arte da ilustração pelo avanço dos imparáveis computadores.

Do anacrónico e maravilhoso Lou Brooks, eis o que tenho para dizer: desenha bem e, escrevendo, dá ao mesmo desenho as voltas que muito bem lhe apetece.

Lou

 Mas é só porque escreve muito bem.

Lou_B

Canção de despedida

Esta é a minha canção de despedida favorita. Porque, when the summer comes a-rollin’, tem de ser. I’ve got to ramble. Mas é a minha canção favorita porque, depois de a ouvir, já ninguém se quer ir embora: I never never gonna leave you baby.

A canção não é sequer dos Led Zeppelin. Pilharam-na, com modificações na letra, a uma folk singer berkeleyana, Anne Bredon. Andei à procura, mas não encontrei a Anne a despedir-se. Encontrei a versão da Joan Baez, igualmente pilhada, mas mais próxima do original (o que a mim não me faz gostar mais. O insuportável exibicionismo de Robert Plant vai mais com o meu gosto de despedidas e reencontros).

ps– Por honra das respectivas reputações, sublinhe-se que em segundos discos, tanto Baez como os Zeppellin acabaram por atribuir correctamente a autoria da canção à autora californiana. Ficam avisados: com uma canção destas não há mesmo ninguém que se separe.