As raízes

Cristo
Cristo, Diego Velazquez

Há um século, andava eu por um blog que era um cemitério de boa gente morta, escrevi este post que pretendia fazer um mínimo de justiça, justiça que julgo ser-lhe devida, ao papel do cristianismo nos fundamentos da nossa cultura e civilização.

Não creio que o tema seja mais do que um dos gostos anacrónicos e saudosistas com que ocasionalmente envergonho o sanitário mundo em que vivemos. Atendendo à magnitude do tópico, segue-se um lençol que tentei encurtar o mais que pude para não aborrecer muito os meus pacientíssimos leitores.

Começo copiando os manuais de antropologia: as religiões são criações, não dos deuses, mas do homem, cujo indeclarado e primeiro objectivo foi a gestão da violência imanente às sociedades humanas. As religiões não são um movimento obscurantista, mas sim uma criação que amplia o imaginário humano (é delas que nasce a estética, a ética) e funda comportamentos que se inserem numa lógica evolucionista. Parte da sobrevivência dos seres humanos passou e foi garantida pelas religiões. O movimento a que hoje assistimos, de ansiosa procura de transcendência cabe inteiro no paradigma de busca das melhores soluções para a nossa sobrevivência: o mundo contemporâneo, na aparência tão tecnológico e científico, é desvairadamente religioso, por mais bizarras e ridículas que sejam as suas “fés”, e essa parece ser uma escolha de equilíbrio individual e colectivo.

O cristianismo foi, ao surgir, uma revolução. Moisés descera da Montanha com a tábua de leis numa mão e a outra a apagar o fogo que se pegara à túnica e lhe começava a aquecer as partes baixas. Exigia-nos que não matássemos, não roubássemos, não praticássemos adultério. Tudo isto, que já vai contra a “natureza” humana e que, com o monoteísmo, fez o distinguo do judaísmo, é violentamente acelerado por Jesus, o Cristo, quando nos pede para amarmos o próximo como a nós mesmos. Foi noutra Montanha, e com um Sermão, que este galileu de 30 anos, talvez depois de ter bebido ou mastigado erva daninha, propôs: a) que perdoássemos aos que nos fazem mal (vá lá!); b) que déssemos a outra face (convenhamos, já dói um bocadinho); c) e, o que é estarrecedor, amássemos não apenas os nossos amigos (e algumas amigas bem o merecem) mas que amássemos os nossos inimigos.

Para usarmos uma linguagem que deixaria o filho do carpinteiro de cara à banda, no Sermão da Montanha anuncia-se a realização de um “eu” que deve abnegar de “si mesmo” por amor à transcendência. E está a propor-se que, pela aprendizagem do amor ao inimigo (ainda que sejam os nossos carrascos) se interrompa e elimine, pela primeira vez na História, o ciclo da vingança que fundara o mundo como existia.

Cristo dá, a seguir, com o seu exemplo, o segundo passo. As sociedades, até aí, fundavam-se num acto sacrificial exterior ao seu seio – sacrificar o outro, sacrificar um culpado – como forma de apaziguamento da violência da comunidade, sacrifícios que perpetuavam o ciclo de ressentimento e vingança. Cristo, ao oferecer-se inocente ao sacrifício (ou nas palavras da doutrina, Deus ao oferecer o seu Filho), quebra aquele ciclo e funda uma religião baseada na misericórdia, dispensando as vítimas dos actos sacrificiais e detendo o ciclo de vingança. O mundo em que vivemos nasceu nesse gesto revolucionário, o do perdão do outro: “Perdoa-lhes Pai porque não sabem o que fazem”. (Já agora, a Santíssima Trindade é uma fórmula deliciosa para desestruturar o mito edipiano, e antecipar o complexo homónimo que faria a fortuna de Freud, ao incorporar numa só pessoa o pai autoritário e o filho em revolta, pela gratia de um terceiro, o espírito, que garante a mediação do conflito).

Com base neste gesto fundador a(s) Igreja(s) Cristã(s) praticaram e popularizaram uma doutrina da caridade que leva a fazer o bem ao outro sem que essa forma de amor (a “caritas”) exija vínculos familiares, eróticos ou tribais, estabelecendo e firmando a insubstituibilidade do outro.

No plano histórico, as igrejas cristãs criaram (com hospícios, hospitais, asilos, orfanatos) as bases práticas que o Estado Social há-de vir a institucionalizar.

Inicia-se também um processo de democratização: no que eram então as humildes igrejas cristãs, a comunidade reunia-se sem distinção de classe, a mesma lei universal de um só Deus sujeitando todos os membros. Tinham um objectivo:  erradicar o pecado (o mal) através da associação de todos como comunidade. Veja-se por exemplo esta recomendação, no caso de na igreja entrar um pobre ou estrangeiro sem recursos: “… e tu bispo, procurarás de todo o coração arranjar-lhe um lugar, mesmo que tu próprio tenhas de te sentar no chão.” Isto é, o mundo deve ao cristianismo a centralidade da pessoa humana, a valorização do trabalho e condenação da preguiça, o conceito de solidariedade.

Mas a construção das nações soberanas tem de fazer também uma vénia ao cristianismo que foi o intermediário do Direito Romano, bem como da moralidade e instituições greco-romanas, fazendo-as adoptar pelos nossos ancestrais. Tem graça: hoje fala-se de uma ideia de soberania absoluta da nação e do risco da sua perda na Europa, mas se olharmos para a História verificamos que a soberania instigada e legitimada pela Igreja Cristã foi no começo, e continuou longamente, limitada por uma jurisdição eclesiástica transnacional (Deus acima do soberano), papel que agora, secularmente, é ocupado pelo direito internacional, ou por instituições planetárias como a ONU, ou pela UE (às vezes só pela encantadora sereia que é Angela Merkel) à dimensão europeia.

A herança do cristianismo assume formas inesperadas e, por vezes, radicalizadas. Na sua componente mais utópica, por exemplo, o marxismo é um espelho em fogo, radicalizado, do cristianismo. A vontade de justiça social é uma réplica messiânica e a concretização de uma sociedade sem classes, de igualdade e superação da necessidade, espelha a edénica abundância perdida, a que cristãmente voltaremos após a salvação.

Aliás, o cristianismo foi um vigoroso impulsionador do racionalismo. A uma sociedade que, herdada do Império Romano, era, nas suas práticas, astrológica e mágica, o cristianismo respondeu, em particular na Idade Média, desenvolvendo um racionalismo (Agostinho, Aquino) que a filosofia moderna, a partir de Descartes, recebeu, mastigou e engordou até ao colesterol que nos aflige. Esse racionalismo foi, igualmente, a base para o desenvolvimento científico que deve ao cristianismo o ambiente (de que o escândalo de Galileu faz parte) para o seu estabelecimento, vindo em muitos casos os praticantes directamente do clero.

Ao cristianismo devemos, e mais ou menos por esta ordem, o fundamento antropológico que nos retirou do ciclo de sacrifício e vingança, a centralidade da pessoa humana, a solidariedade e o estado social, a aceitação da instância transnacional para limitar a soberania do Estado, o racionalismo como base para o desenvolvimento da ciência. “Ensinamos às nossas crianças que deixámos de perseguir as feiticeiras porque a ciência se impôs ao homem. Ora, o que aconteceu foi o contrário: a ciência impôs-se ao homem porque, por razões morais, religiosas, deixámos de perseguir as feiticeiras.

Já nem falo, por ser provavelmente a mais pacífica das desculpas, mesmo para jacobinos exaltados que gostariam de transformar todas as catedrais em discotecas techno, do que ao cristianismo deve a arte ocidental, ou o que por arte universalmente entendemos.

E o que é, a meu ver, mais extraordinário, devemos ao cristianismo as bases para a secularização e laicidade: a democratização referida e a separação da igreja do estado (de César e de Deus), com o estímulo à criação de nações soberanas foram passos essenciais, num movimento que, ao privatizar a lei religiosa (e por isso Jesus sofreu a perseguição da autoridade religiosa judaica) inicia um processo que culmina na emergência do ateísmo cuja substância e “invenção” estão contidas no próprio cristianismo, essa estranha religião que começa, no seu acto fundador, pela “morte de Deus”.

Terminei. Mas faço declaração de interesses em dois pontos:

  1. Não professo qualquer tipo de religião desde os 18 anos de idade e estou, céptico, chato e sem graça, bem longe de cegar a caminho de Damasco Por maioria de razão não me anima nenhum proselitismo e estou consciente do longo rol de malfeitorias e crimes que, a ferro e fogo, em nome do cristianismo, e tantas vezes a partir das suas igrejas, foram cometidos. Em causa, aqui, apenas os fundamentos.
  2. O que escrevi, eventualmente mal digerido e mal explicado, pode ser encontrado em prosa decente e argumentação lógica em textos de George Steiner, Gianni Vattimo, René Girard, Roger Scruton, entre outros, uns cristãos, outros coisa nenhuma. As asneiras que tenha escrito são, obviamente, da minha inteira responsabilidade.

Vamos todos viver cem anos

old people

Em 2050 haverá já 6 milhões de pessoas com 100 anos de idade, contra as 340 mil que, entre os que estão em cadeiras de rodas, os que saltam como papoilas em aldeias chinesas  e os sensatamente acamados, estão ainda hoje a dar sinal de si. Estes dados constam de um estudo da revista médica britânica Lancet e eu quando um médico fala meto logo a pistola no coldre.

Acredito e não tenho dúvidas: vamos ter de viver duas vezes para aguentarmos a chatice dos 105 e 110 anos. É preciso começar já a pensar esse mundo geriátrico. Reformas laborais precisam-se. Imagino que se trabalhará dos 25 aos 45, com reforma até aos 65. Regresso ao mundo do trabalho nessa altura, com nova carga de trabalho até aos 85 e reforma definitiva a seguir. Os casamentos só serão autorizados a maiores de 35 anos, estabelecendo-se o seu máximo prazo de validade em 25 anos. Em todo o caso, aos 65 anos serão extintos todos os relacionamentos existentes, desfazendo-se com brandymel ou licor beirão os sinais de adictividade que possam existir, e exigindo-se um brand new start (em português, um recomeço limpinho) aos então maduros cidadãos.

Um conselho careta aqui deste mundo adolescente: cuidado com as escolhas, afinal you only live twice.

Também o Verão se esvai

Lullaby. Gostava que ouvissem.  O meu norueguês já teve melhores dias, mas se bem percebi este lamento de Solveig, roubado a Grieg, ao seu Peer Gynt, as palavras em português seriam aproximadamente estas:

“Passa o Inverno, desaparece a Primavera
desaparece a Primavera.
Também o Verão se esvai e o ano depois,
o ano depois.
Uma coisa sei certa, hás-de voltar
hás-de voltar.
E como te prometi, estarei à tua espera
estarei à tua espera.

Deus te ajude pelos caminhos que corres sozinha
que corres sozinha.
Deus te dê a Sua força quando ajoelhares ao seu trono
quando ajoelhares ao seu trono.
Se agora estás no céu e esperas por mim
No céu por mim
No céu nos encontraremos, meu amor, e nada nos separará
Nada nos separará!”

Não posso nem ver-te

ExecutionofWilliamKemmler.jpg

Cortou-a em pedaços. Com um machado. William Kemmler era atarracado e tão bêbado como pai e mãe, imigrantes alemães, a quem o pesado álcool abreviou a escassa vida. A 29 de Março de 1888, num bairro da lata de Buffalo, no estado de Nova Iorque, Kemmler acordou com aquela ressaca bolsonara e estado de espírito trumpiano de não posso nem ver-te, quanto mais ouvir-te.

Matilda Ziegler, a mulher que vivia com ele em afrontosa maridança, deve ter-lhe dito bom dia. Kemmler viu tudo em vermelho sangue à frente. Acusou-a de o andar a roubar e de planear dar de frosques com um amiguinho dos dois. Ainda o berreiro estava entre a boca dele e os ouvidos dela, já Kemmler tinha na mão um machado e ponto final parágrafo na vida de Matilda. Citando os versos que Jimmi Hendrix deixou a seu lado, quando morreu, “A história da vida é mais rápida do que um piscar de olhos, a história do amor é um olá e adeus, até ao nosso reencontro”.

Pelo crime e bárbara sangria, o estado de Nova Iorque condenou Kemmler à morte. Mas foi agraciado com um bónus: estrearia a cadeira eléctrica, nova forma asséptica e indolor de entregar ao Senhor dos Infernos os energúmenos deste mundo.

A 6 de Agosto de 1890, às cinco da manhã, os guardas acordam Kemmler. Todos nos lembramos que o germânico Kemmler é atarracado, intratável, quase incapaz de escrever e ler, dividido entre a língua inglesa e a alemã, bebida dos pais. Mas vejam a graciosa doçura com que acorda. Lava-se, põe uma gravata, ataca com apetite e maneiras o abundante pequeno-almoço.

Milagre da transfiguração, a presença da morte, da morte iminente, confere ao assassino uma calma elegíaca. A mão que manejava o brutal machado segura, agora, a mais delicada chávena de chá da prisão de Auburn. Tão límpido como o céu lá fora, Kemmler ironiza com o nervosismo dos carrascos e inclina com brandura a cabeça para que lhe façam a careca onde vão colar os eléctrodos. E caminha para a cadeira.

O real pescoço a caminho da guilhotina, Maria Antonieta pisou um pé ao seu carrasco e mesmo nós, republicanos, ainda temos nos ouvidos o seu inefável sussurro: “Pardonnez moi, monsieur!” Kemmler não foi menos do que Maria Antonieta. Às testemunhas disse as penúltimas palavras: “Gentlemen, desejo a todos muita sorte neste mundo. Penso que vou para um bom lugar. Os jornais têm badalado montes de coisas, mas não foi bem assim. É tudo o que quero dizer.”

Senta-se na cadeira eléctrica. Põe-lhe os eléctrodos na cabeça e é ele que ajuda: “mais para baixo, mais para baixo.” Com uma tesoura fazem-lhe um corte na roupa nova e atrapalham-se a pôr outro eléctrodo, o que faz renascer a Maria Antonieta que agora mora nele: “Com tempo, sem pressas, façam tudo bem, vejam se está tudo como deve ser.” Ao seu lado, o director da prisão, Charles Durston, aperta-lhe as correias sobre os braços e com a humaníssima ternura que toda a tragédia suscita, diz-lhe baixinho: “Não vai doer, vou estar contigo o tempo todo.” Kemmler diz então as verdadeiras últimas palavras: “Temos o tempo todo.”

O que se passou depois quase faz da guilhotina francesa um acto de cortesia. A corrente disparou, o corpo do condenado arqueou-se e os médicos declararam-no morto até verem que não. Estava ainda vivo, um ronco subterrâneo a vir-lhe das entranhas. Duplicou-se a voltagem e grelharam-no com uma bruta descarga. Rebentaram as veias debaixo da pele e o odor a carne queimada fez desmaiar testemunhas. Oito minutos de vergonha e carnificina durou a primeira morte por cadeira eléctrica.

Publicado na minha coluna, “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Dennis Hopper em tons de azul

Hopper
O belo Hopper a saber que é belo

Dá-se o caso de Dennis Hopper já ter chorado para mim. Para mim, mim, mesmo mim. Julgo que a coisa se passou há 28 anos, por volta do dia 1 de Junho e, em letra de forma, está tudo na Revista do Expresso de 8 de Junho de 1991, pgs. 85 a 87, numa entrevista que fiz a meias com o João Lopes. (Confesso, Hopper chorou metade para mim, a outra metade para o João Lopes – ou vice-versa)

Dennis Hopper tinha vindo a Portugal, convidado pelo Festival de Tróia, e dignou-se falar connosco. Apareceu-nos fresco, cheiro de Eternity, duche tomado há menos de 10 minutos, e os mais lindos olhos azuis que a face da terra já viu. (Sei bem que estou a falar de um homem, tal como de um homem, Gary Cooper, João Bénard um dia escreveu que era o mais bonito homem que a Criação teria gerado, e eu acredito e isso sossega-me). Dennis Hopper, dizia eu, trouxe os lindos olhos azul-turquesa e fê-los acompanhar por um displicente fato de seda (ou seria seda e linho) tão azul, tão turquesa, tão brilhante como os olhos dele.

Hopper azul
o fatinho azul de linho

Esmagou-nos com amabilidade, respondeu a tudo, e era tão pouco o que by the book tínhamos para lhe perguntar. E foi quando, blá, blá, blá, bad guys para a frente e actor do Método para trás, quisemos saber como é que se sentia por ter de ir procurar dentro de si mesmo e das suas experiências íntimas o mal , o “bad”, dos bad guys que representava. Hopper olhou-nos incrédulo e desatou no mais fingido pranto que nós, crédulos entrevistadores, poderíamos esperar: “Oh, oh, oh, I feel so bad”. Segundos terríveis de espera, doce incredulidade, e os olhos azuis turquesa de Hopper, brilhando mais do que o sol de Junho da península de Setúbal, voltaram a rir-se: “C’mon, not that bad. It’s all right!

It’s all right” foi um raio de luz que vindo dos olhos de Hopper me aqueceu e iluminou. Na altura, andava eu a deslambuzar-me de Barthes e a tentar fundamentalizar-me em meia dúzia de críticos norte-americanos, do Village Voice à pesporrência da Film Comment, e vinha-me um tipo de 55 anos, e com um simples “all right, ok” resumia tudo, fazia-me compreender e aceitar.

Hopper, a seguir, disse o que lhe apeteceu. Disse, por exemplo, que o so bad Frank Booth de Veludo Azul é um papel de comédia, mesmo que David Lynch (“ele é um escuteiro-chefe, sabem”) não o consiga perceber, e que o verdadeiro e único mau que sentiu mau (“o único papel catártico da minha carreira”) foi quando foi Paris Trout, do filme homónimo, em que contracenou com Barbara Hershey e Ed Harris (eram, digo agora eu, os três soberbos, num filme convulsivo e demente). Desviou um bocadinho a conversa para nos contar que poderia muito bem ter escrito um livro com o título “Seis Drogas e como as Usar para Representar” em que narrasse a viagem de bate fundo, muito fundo, com que se entreteve durante alguns anos. Lembro-me de Hopper contar que tinha em casa, espalhadas pelo chão, telas de Warhol e outros astros da pop art e que tripavam em cima delas, até darem cabo dos quadros ou lhos roubarem.

Falou, claro, de Easy Rider. Mas do que se lembrava muito bem era do gosto pelo risco que desenvolveu depois. Foi à universidade, a Huston, fazer uma demonstração aos estudantes. Fez um círculo com cargas de dinamite e pôs-se em pé no exacto centro desse círculo. Explodiu as cargas sem se mexer, nem pestanejar, saindo incólume da experiência. Antes tinha-nos explicado que um cineasta era como um construtor de capelas da Renascença. O título da entrevista fazia-lhe justiça: “Um psicopata de veludo”.

Hopper_Liz
do afago de Liz Taylor é que ele não disse nada

Ecologia e astrologia

Michael_Shellenberger

Bica Curta servida no CM , 5.ª feira, dia 15 de Agosto

Michael Shellenberger é um herói ambientalista, vencedor do Green Book Award. Sem papas na língua disse o que pensa do conceito de pegada ambiental: valor científico zero, igualzinho ao da astrologia ou da ideia de que a Terra é plana. Mais, disse que muitos activistas, em que se inclui a menina sueca Greta Thurnberg, só pretendem aterrorizar e deprimir o povo com soluções que levam à pobreza. Por motivação política e ataque à economia e à economia capitalista. São mais moralistas do que ambientalistas.

Michael defende o nuclear limpo, o ataque aos problemas por meios tecnológicos e o uso sustentado da natureza. Vale a bica curta.

Uma bandeira

josé afonso

É que tenho mesmo muita pena. Mas porque é que esta canção de José Afonso não foi a bandeira da minha geração? Porque raio é que fomos atrás do Dylan e dos ventos que ele soprava. Porque é que a voz clara deste José não foi a nossa imbatível referência estética? Referência universal estética e não referência parcial e política.

Também lá estive e lembro-me das “praias do mar” em “manhãs claras”. Acendemos fogueiras e fomos, noite fora, até romper o primeiro raio da madrugada. Isso devia ter sido um programa de vida, muito mais do que um ocasional estandarte político. Bem antes de haver Abril, que esses anos, de 70 a 73, tinham só 11 meses e moiras encantadas. Esta canção, o José desta canção é mais do que um programa político. É a proclamação de um programa de vida, fusão cósmica com a natureza e com o sonho.

 

O ar que comeremos

Solar-Foods-makes-protein

Bica Curta servida no CM , 4.ª feira, dia 14 de Agosto

A boca que qualquer pai mandava ao filho recalcitrante “Ah, não estudas? E quando fores grande alimentas-te do ar, não é?” perdeu o sentido. A Solar Foods, usando tecnologia da NASA, transformou o simples ar que respiramos em comida: um pó chamado solein. Não sabe a bica curta, sabe a farinha de trigo e tem células proteicas de laboratório. O solein é CO2, água e electricidade renovável, é amicíssimo do ambiente, dispensa a agricultura. Pode produzir-se às toneladas e alimentar milhões de seres humanos. A criação é de engenheiros finlandeses e chega às lojas em 2021.

Aviso a filhos recalcitrantes: estes engenheiros estudaram!