Não posso nem ver-te

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Cortou-a em pedaços. Com um machado. William Kemmler era atarracado e tão bêbado como pai e mãe, imigrantes alemães, a quem o pesado álcool abreviou a escassa vida. A 29 de Março de 1888, num bairro da lata de Buffalo, no estado de Nova Iorque, Kemmler acordou com aquela ressaca bolsonara e estado de espírito trumpiano de não posso nem ver-te, quanto mais ouvir-te.

Matilda Ziegler, a mulher que vivia com ele em afrontosa maridança, deve ter-lhe dito bom dia. Kemmler viu tudo em vermelho sangue à frente. Acusou-a de o andar a roubar e de planear dar de frosques com um amiguinho dos dois. Ainda o berreiro estava entre a boca dele e os ouvidos dela, já Kemmler tinha na mão um machado e ponto final parágrafo na vida de Matilda. Citando os versos que Jimmi Hendrix deixou a seu lado, quando morreu, “A história da vida é mais rápida do que um piscar de olhos, a história do amor é um olá e adeus, até ao nosso reencontro”.

Pelo crime e bárbara sangria, o estado de Nova Iorque condenou Kemmler à morte. Mas foi agraciado com um bónus: estrearia a cadeira eléctrica, nova forma asséptica e indolor de entregar ao Senhor dos Infernos os energúmenos deste mundo.

A 6 de Agosto de 1890, às cinco da manhã, os guardas acordam Kemmler. Todos nos lembramos que o germânico Kemmler é atarracado, intratável, quase incapaz de escrever e ler, dividido entre a língua inglesa e a alemã, bebida dos pais. Mas vejam a graciosa doçura com que acorda. Lava-se, põe uma gravata, ataca com apetite e maneiras o abundante pequeno-almoço.

Milagre da transfiguração, a presença da morte, da morte iminente, confere ao assassino uma calma elegíaca. A mão que manejava o brutal machado segura, agora, a mais delicada chávena de chá da prisão de Auburn. Tão límpido como o céu lá fora, Kemmler ironiza com o nervosismo dos carrascos e inclina com brandura a cabeça para que lhe façam a careca onde vão colar os eléctrodos. E caminha para a cadeira.

O real pescoço a caminho da guilhotina, Maria Antonieta pisou um pé ao seu carrasco e mesmo nós, republicanos, ainda temos nos ouvidos o seu inefável sussurro: “Pardonnez moi, monsieur!” Kemmler não foi menos do que Maria Antonieta. Às testemunhas disse as penúltimas palavras: “Gentlemen, desejo a todos muita sorte neste mundo. Penso que vou para um bom lugar. Os jornais têm badalado montes de coisas, mas não foi bem assim. É tudo o que quero dizer.”

Senta-se na cadeira eléctrica. Põe-lhe os eléctrodos na cabeça e é ele que ajuda: “mais para baixo, mais para baixo.” Com uma tesoura fazem-lhe um corte na roupa nova e atrapalham-se a pôr outro eléctrodo, o que faz renascer a Maria Antonieta que agora mora nele: “Com tempo, sem pressas, façam tudo bem, vejam se está tudo como deve ser.” Ao seu lado, o director da prisão, Charles Durston, aperta-lhe as correias sobre os braços e com a humaníssima ternura que toda a tragédia suscita, diz-lhe baixinho: “Não vai doer, vou estar contigo o tempo todo.” Kemmler diz então as verdadeiras últimas palavras: “Temos o tempo todo.”

O que se passou depois quase faz da guilhotina francesa um acto de cortesia. A corrente disparou, o corpo do condenado arqueou-se e os médicos declararam-no morto até verem que não. Estava ainda vivo, um ronco subterrâneo a vir-lhe das entranhas. Duplicou-se a voltagem e grelharam-no com uma bruta descarga. Rebentaram as veias debaixo da pele e o odor a carne queimada fez desmaiar testemunhas. Oito minutos de vergonha e carnificina durou a primeira morte por cadeira eléctrica.

Publicado na minha coluna, “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

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