Pátroclo é um herói sem biografia. Quando o vemos só o vemos para melhor vermos Aquiles. Teve mulher e filhos? Um cão que fosse?
Sabemos que amou Aquiles, o protegeu em vida e o assombrou depois da morte. Amou-o desinteressadamente. Amor romântico porventura, insinuam agora as leituras de revisão da matéria dada.
Aquiles amou-o também. Distraidamente. Dolorosamente só quando o soube morto: rojou-se pelo chão, cravou as mãos na terra que espalhou depois pelos cabelos, enquanto lhe corriam grossas lágrimas pelo rosto – são sempre grossas as lágrimas do herói clássico. As escravas choraram com ele e o clamor chegou ao céu, a Tétis, a deusa sua mãe. Porque Aquiles era divino e é mais fácil ser-se herói quando se é divino. Pátroclo era apenas herói de ser herói, por pura virtude, pura areté, essa virtude que Homero vê como sobre-humana, como me ensina a Paideia, minha grande educadora.
Há em Pátroclo uma resignada consciência do destino trágico. Como se soubesse que a única pincelada biográfica que lhe conhecemos – ter morto cobardemente, em criança, um amigo que com ele jogava aos dados – mais ou tarde ou mais cedo viria borrar a tela em que a sua madura areté se fixou. Pátroclo sabe que é um herói homérico inserido num ciclo vicioso de vingança. E que ele é ou vai ser, mais tarde ou mais cedo, o bouc emissaire de um desfile de morte e impiedade. Esse momento trágico, a morte de Pátroclo, é o prelúdio para que, como uma orquestra sinfónica, Aquiles possa atacar a seguir com som e fúria.
Antes, o destino concede a Pátroclo o seu momento de volúpia. Entrou na tenda de Aquiles a chorar como uma menina (não sou eu, mas Aquiles quem o diz), aterrado com a mortandade que os gregos sofriam e a que Aquiles, ressentido com Agamémnon, continuava indiferente.
Aquiles ordena-lhe então que vista o seu escudo, o escudo em que Hefesto pintou céu, terra, mar, o fogo que tudo consome, o “sol infatigável”, as estrelas e a lua, as cidades mais belas, as bodas, as festas e as celebrações dos humanos. Essa faiscante visão harmónica do universo – concepção épica de Homero – fará, por si só, tremer o adversário.
Homero que fora abundante e eufórico quando noutro canto descrevera a vasta couraça é, agora que Pátroclo a vai vestir, sucinto à beira da escassez:
“O guerreiro não esperou segunda ordem e começou a vestir a resistente couraça. Colocou, depois, as cabeleiras, que prendeu às pernas com fivelas de prata. Lançou aos ombros a espada de bronze com incrustações de prata e sobraçou o imenso escudo. Pôs o capacete de bronze, bem modelado e sólido, tendo no alto um penacho de crina, que por si só bastava para infundir pavor ao adversário, na cabeça.”
Mas nós podemos adivinhar o frémito que Pátroclo se autorizou ao vestir as armas do amigo. Um pingo de divindade caiu-lhe e deslizou sobre o peito. Talvez tenha fechado levemente os olhos e sonhado, fugaz, a vida e a biografia que nunca teve: uma casa, filhos, o vinho espesso e doce que se bebe à lareira, o rumor das palavras de um filósofo que se convidou nessa noite. Um segundo apenas, o arrepio e o deleite de um segundo. Lá fora, a batalha esperava-o urgente, o fio da espada de um troiano sedento do seu sangue.
Recebêmo-lo hoje,a carne ainda retalhada, neste cemitério que é a Página Negra
Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 20 de Agosto
Meu Caro Donald, deves-nos uma. A nós, portugueses. Um dia destes, passamos por Washington, pagas-nos uma bica curta e está feito. Isso de desatares a comprar a Gronelândia, fingindo que é originalidade americana, sem dizeres que nos estavas a imitar, tem de acabar. Bem sabes que, à conta da ocupação espanhola, os holandeses nos sacaram o Brasil. Corridos os Filipes, fomo-nos aos holandeses e demos-lhes uns valentes enxertos de porrada, mas cansados de guerra acabámos por lhes comprar o Nordeste pelo que hoje seriam quase 550 milhões de euros. Ainda nem pátria tinhas, foi no século XVII, Donald. Vê se pagas direitos de autor!
Estudei o assunto por todos os ângulos possíveis e imaginários, mas a verdade é que a girafa é o único vertebrado que não boceja. Bocejam cães e gatos, quando alguém ao pé de mim boceja, bocejo logo eu – já levo uma média de quatro mil bocejos por anos, com tendência para um inusitado crescimento, agora,
Bocejam pássaros e peixinhos, até a esquiva serpente abre a boca sem pedir licença. A girafa não. É preciso ser muito cabeça no ar para se passar o dia a mastigar folhas sensaboronas e julgar que isso é que é uma vida excitante.
P.s. – Não juro pela cientificidade da coisa, mas com o que aí vai de fake news também tenho direito, não?
Titulado “Sognando l’Oceano”, a reportagem diz que a Bolívia, após uma guerra de 25 anos com o Chile, em 1904, assinou um tratado de paz que isolou o país do mar.
A Bolívia é, como o cozido das furnas, uma panela rodeada de terra por todos os lados. Querem mais angústia e razões para desamor patriótico? Mas os andinos. que “huelen a sangre y a gloria”, não se impressionam. Até hoje, a Bolívia mantém a Marinha como um ramo das forças armadas. Com aprumo, 5 mil marinheiros compõem a Força Naval da Marinha.
Exercitam-se na nobre arte da sua guerra no Lago Titicaca (nem o cacafónico nome os desmotiva), esperando que os 75 quilómetros de Chile que os separam do imenso Pacífico sejam um dia vencidos. Como diz um dos almirantes: “Se a Bolívia não chegar um dia ao mar, o mar chegará um dia à Bolívia”.
Para o nosso olhar cínico, europeu e sem pátria, são só marujos de cabotagem. Eles, crentes e poéticos, na impossibilidade de terem um navio escola, construíram uma escola em forma de navio e treinam-se com garbo, comemorando a 23 de Março o Dia do Mar com cujas ondas, sal e espuma sonham há 105 anos. A Bolívia é o único destino de sonho.
Lembrei-me de que Jean Seberg, em Bonjour Tristesse, é Cécile, e a Cécile cabe dizer uma das mais inesquecíveis réplicas que consigo repetir de cor: “It’s getting out of control. I just wish I were a lot older or a lot younger.”
E eis o que espero do Verão, entrar nele muito mais velho a ver se saio dele muito mais novo.
Às vezes, gosta-se por causa do que se vê. Outras, gosta-se por causa do que se sente. De Bonjour Tristesse (1958), o filme mais a cores de que me lembro, gosto do que vejo e gosto do que sinto. O filme, dirigido por Otto Preminger, é de 1958. A mim parece-me mais fresco do que o leite vigor do dia. Jean Seberg, a protagonista, tem muita culpa. A beleza dela é tão luminosa que cega.
E o guarda-roupa dá vida a um morto: blusas leves, calções que oscilam entre o curto e o muito curto, fatos de banho vermelhos, amarelos e azuis que lhe fazem fina a cintura, cabelo dourado quase rapado, vestido preto preso ao pescoço por uma gola tão pequenina. Tudo se passa dentro duma campânula chamada Verão. Faz calor (e ainda não se falava do aquecimento global). Passa uma brisa. Um frémito faz estremecer os corpos sentados à beira da noite. É Agosto e só me apetece mar. O banho nu da meia-noite.
As quatro mãos que vão ver no vídeo pertencem, de forma mais ou menos aleatória, a Chico e Harpo Marx. Os tratos dados ao piano, à la John Cage de vaudeville, tiveram lugar em 1941, num filme chamado Big Store. Gostaria de declarar, com ar solene, que o divertimento é a coisa mais séria do mundo. Devia, por isso, ser a mais bem paga.
ps– video muito bem lembrado por amigo meu. Thanks god-inho.
Há um século, andava eu por um blog que era um cemitério de boa gente morta, escrevi este post que pretendia fazer um mínimo de justiça, justiça que julgo ser-lhe devida, ao papel do cristianismo nos fundamentos da nossa cultura e civilização.
Não creio que o tema seja mais do que um dos gostos anacrónicos e saudosistas com que ocasionalmente envergonho o sanitário mundo em que vivemos. Atendendo à magnitude do tópico, segue-se um lençol que tentei encurtar o mais que pude para não aborrecer muito os meus pacientíssimos leitores.
Começo copiando os manuais de antropologia: as religiões são criações, não dos deuses, mas do homem, cujo indeclarado e primeiro objectivo foi a gestão da violência imanente às sociedades humanas. As religiões não são um movimento obscurantista, mas sim uma criação que amplia o imaginário humano (é delas que nasce a estética, a ética) e funda comportamentos que se inserem numa lógica evolucionista. Parte da sobrevivência dos seres humanos passou e foi garantida pelas religiões. O movimento a que hoje assistimos, de ansiosa procura de transcendência cabe inteiro no paradigma de busca das melhores soluções para a nossa sobrevivência: o mundo contemporâneo, na aparência tão tecnológico e científico, é desvairadamente religioso, por mais bizarras e ridículas que sejam as suas “fés”, e essa parece ser uma escolha de equilíbrio individual e colectivo.
O cristianismo foi, ao surgir, uma revolução. Moisés descera da Montanha com a tábua de leis numa mão e a outra a apagar o fogo que se pegara à túnica e lhe começava a aquecer as partes baixas. Exigia-nos que não matássemos, não roubássemos, não praticássemos adultério. Tudo isto, que já vai contra a “natureza” humana e que, com o monoteísmo, fez o distinguo do judaísmo, é violentamente acelerado por Jesus, o Cristo, quando nos pede para amarmos o próximo como a nós mesmos. Foi noutra Montanha, e com um Sermão, que este galileu de 30 anos, talvez depois de ter bebido ou mastigado erva daninha, propôs: a) que perdoássemos aos que nos fazem mal (vá lá!); b) que déssemos a outra face (convenhamos, já dói um bocadinho); c) e, o que é estarrecedor, amássemos não apenas os nossos amigos (e algumas amigas bem o merecem) mas que amássemos os nossos inimigos.
Para usarmos uma linguagem que deixaria o filho do carpinteiro de cara à banda, no Sermão da Montanha anuncia-se a realização de um “eu” que deve abnegar de “si mesmo” por amor à transcendência. E está a propor-se que, pela aprendizagem do amor ao inimigo (ainda que sejam os nossos carrascos) se interrompa e elimine, pela primeira vez na História, o ciclo da vingança que fundara o mundo como existia.
Cristo dá, a seguir, com o seu exemplo, o segundo passo. As sociedades, até aí, fundavam-se num acto sacrificial exterior ao seu seio – sacrificar o outro, sacrificar um culpado – como forma de apaziguamento da violência da comunidade, sacrifícios que perpetuavam o ciclo de ressentimento e vingança. Cristo, ao oferecer-se inocente ao sacrifício (ou nas palavras da doutrina, Deus ao oferecer o seu Filho), quebra aquele ciclo e funda uma religião baseada na misericórdia, dispensando as vítimas dos actos sacrificiais e detendo o ciclo de vingança. O mundo em que vivemos nasceu nesse gesto revolucionário, o do perdão do outro: “Perdoa-lhes Pai porque não sabem o que fazem”. (Já agora, a Santíssima Trindade é uma fórmula deliciosa para desestruturar o mito edipiano, e antecipar o complexo homónimo que faria a fortuna de Freud, ao incorporar numa só pessoa o pai autoritário e o filho em revolta, pela gratia de um terceiro, o espírito, que garante a mediação do conflito).
Com base neste gesto fundador a(s) Igreja(s) Cristã(s) praticaram e popularizaram uma doutrina da caridade que leva a fazer o bem ao outro sem que essa forma de amor (a “caritas”) exija vínculos familiares, eróticos ou tribais, estabelecendo e firmando a insubstituibilidade do outro.
No plano histórico, as igrejas cristãs criaram (com hospícios, hospitais, asilos, orfanatos) as bases práticas que o Estado Social há-de vir a institucionalizar.
Inicia-se também um processo de democratização: no que eram então as humildes igrejas cristãs, a comunidade reunia-se sem distinção de classe, a mesma lei universal de um só Deus sujeitando todos os membros. Tinham um objectivo: erradicar o pecado (o mal) através da associação de todos como comunidade. Veja-se por exemplo esta recomendação, no caso de na igreja entrar um pobre ou estrangeiro sem recursos: “… e tu bispo, procurarás de todo o coração arranjar-lhe um lugar, mesmo que tu próprio tenhas de te sentar no chão.” Isto é, o mundo deve ao cristianismo a centralidade da pessoa humana, a valorização do trabalho e condenação da preguiça, o conceito de solidariedade.
Mas a construção das nações soberanas tem de fazer também uma vénia ao cristianismo que foi o intermediário do Direito Romano, bem como da moralidade e instituições greco-romanas, fazendo-as adoptar pelos nossos ancestrais. Tem graça: hoje fala-se de uma ideia de soberania absoluta da nação e do risco da sua perda na Europa, mas se olharmos para a História verificamos que a soberania instigada e legitimada pela Igreja Cristã foi no começo, e continuou longamente, limitada por uma jurisdição eclesiástica transnacional (Deus acima do soberano), papel que agora, secularmente, é ocupado pelo direito internacional, ou por instituições planetárias como a ONU, ou pela UE (às vezes só pela encantadora sereia que é Angela Merkel) à dimensão europeia.
A herança do cristianismo assume formas inesperadas e, por vezes, radicalizadas. Na sua componente mais utópica, por exemplo, o marxismo é um espelho em fogo, radicalizado, do cristianismo. A vontade de justiça social é uma réplica messiânica e a concretização de uma sociedade sem classes, de igualdade e superação da necessidade, espelha a edénica abundância perdida, a que cristãmente voltaremos após a salvação.
Aliás, o cristianismo foi um vigoroso impulsionador do racionalismo. A uma sociedade que, herdada do Império Romano, era, nas suas práticas, astrológica e mágica, o cristianismo respondeu, em particular na Idade Média, desenvolvendo um racionalismo (Agostinho, Aquino) que a filosofia moderna, a partir de Descartes, recebeu, mastigou e engordou até ao colesterol que nos aflige. Esse racionalismo foi, igualmente, a base para o desenvolvimento científico que deve ao cristianismo o ambiente (de que o escândalo de Galileu faz parte) para o seu estabelecimento, vindo em muitos casos os praticantes directamente do clero.
Ao cristianismo devemos, e mais ou menos por esta ordem, o fundamento antropológico que nos retirou do ciclo de sacrifício e vingança, a centralidade da pessoa humana, a solidariedade e o estado social, a aceitação da instância transnacional para limitar a soberania do Estado, o racionalismo como base para o desenvolvimento da ciência. “Ensinamos às nossas crianças que deixámos de perseguir as feiticeiras porque a ciência se impôs ao homem. Ora, o que aconteceu foi o contrário: a ciência impôs-se ao homem porque, por razões morais, religiosas, deixámos de perseguir as feiticeiras.”
Já nem falo, por ser provavelmente a mais pacífica das desculpas, mesmo para jacobinos exaltados que gostariam de transformar todas as catedrais em discotecas techno, do que ao cristianismo deve a arte ocidental, ou o que por arte universalmente entendemos.
E o que é, a meu ver, mais extraordinário, devemos ao cristianismo as bases para a secularização e laicidade: a democratização referida e a separação da igreja do estado (de César e de Deus), com o estímulo à criação de nações soberanas foram passos essenciais, num movimento que, ao privatizar a lei religiosa (e por isso Jesus sofreu a perseguição da autoridade religiosa judaica) inicia um processo que culmina na emergência do ateísmo cuja substância e “invenção” estão contidas no próprio cristianismo, essa estranha religião que começa, no seu acto fundador, pela “morte de Deus”.
Terminei. Mas faço declaração de interesses em dois pontos:
Não professo qualquer tipo de religião desde os 18 anos de idade e estou, céptico, chato e sem graça, bem longe de cegar a caminho de Damasco Por maioria de razão não me anima nenhum proselitismo e estou consciente do longo rol de malfeitorias e crimes que, a ferro e fogo, em nome do cristianismo, e tantas vezes a partir das suas igrejas, foram cometidos. Em causa, aqui, apenas os fundamentos.
O que escrevi, eventualmente mal digerido e mal explicado, pode ser encontrado em prosa decente e argumentação lógica em textos de George Steiner, Gianni Vattimo, René Girard, Roger Scruton, entre outros, uns cristãos, outros coisa nenhuma. As asneiras que tenha escrito são, obviamente, da minha inteira responsabilidade.
Em 2050 haverá já 6 milhões de pessoas com 100 anos de idade, contra as 340 mil que, entre os que estão em cadeiras de rodas, os que saltam como papoilas em aldeias chinesas e os sensatamente acamados, estão ainda hoje a dar sinal de si. Estes dados constam de um estudo da revista médica britânica Lancet e eu quando um médico fala meto logo a pistola no coldre.
Acredito e não tenho dúvidas: vamos ter de viver duas vezes para aguentarmos a chatice dos 105 e 110 anos. É preciso começar já a pensar esse mundo geriátrico. Reformas laborais precisam-se. Imagino que se trabalhará dos 25 aos 45, com reforma até aos 65. Regresso ao mundo do trabalho nessa altura, com nova carga de trabalho até aos 85 e reforma definitiva a seguir. Os casamentos só serão autorizados a maiores de 35 anos, estabelecendo-se o seu máximo prazo de validade em 25 anos. Em todo o caso, aos 65 anos serão extintos todos os relacionamentos existentes, desfazendo-se com brandymel ou licor beirão os sinais de adictividade que possam existir, e exigindo-se um brand new start (em português, um recomeço limpinho) aos então maduros cidadãos.
Um conselho careta aqui deste mundo adolescente: cuidado com as escolhas, afinal you only live twice.