Sentados, à beira da noite

bonjour

Lembrei-me de que Jean Seberg, em Bonjour Tristesse, é Cécile, e a Cécile cabe dizer uma das mais inesquecíveis réplicas que consigo repetir de cor: “It’s getting out of control. I just wish I were a lot older or a lot younger.”

E eis o que espero do Verão, entrar nele muito mais velho a ver se saio dele muito mais novo.

B_tristesse

Às vezes, gosta-se por causa do que se vê. Outras, gosta-se por causa do que se sente. De Bonjour Tristesse (1958), o filme mais a cores de que me lembro, gosto do que vejo e gosto do que sinto. O filme, dirigido por Otto Preminger, é de 1958. A mim parece-me mais fresco do que o leite vigor do dia. Jean Seberg, a protagonista, tem muita culpa. A beleza dela é tão luminosa que cega.

E o guarda-roupa dá vida a um morto: blusas leves, calções que oscilam entre o curto e o muito curto, fatos de banho vermelhos, amarelos e azuis que lhe fazem fina a cintura, cabelo dourado quase rapado, vestido preto preso ao pescoço por uma gola tão pequenina. Tudo se passa dentro duma campânula chamada Verão. Faz calor (e ainda não se falava do aquecimento global). Passa uma brisa. Um frémito faz estremecer os corpos sentados à beira da noite. É Agosto e só me apetece mar. O banho nu da meia-noite.

red

 

Um livro vermelho (outro)

red
A singela capa do livro

Parece que os espertos do marketing dizem que quando não se consegue fazer uma coisa boa, faça-se pelo menos grande. E se não se consegue grande, faça-se vermelha. Graças a Deus. (Que, se existir, é de certeza bom, grande e vermelho, acrescento.)

Este meu lindo livro (e de vez em quando dá-me para falar deles) junta, nos seus 15,5 por 22 centímetros de envergadura, que, para o que é, não é grande, duas qualidades: é bom e é vermelho.

“Red”, escrito por Stéphanie Busuttil-César, é uma pequena jóia para os olhos. Capa dura revestida a tecido, é vermelho por todos os lados por onde se olhe. Na capa vermelha tem gravadas, em baixo relevo, as letras RED, a vermelho, e a vermelho foi pintada a superfície exterior das folhas do miolo. Não é um livro, é a perfeita capela celebratória da mais bela e convulsiva das cores.

Abre-se e tem pouco mais de 10 e convictas páginas para nos dizer o que nosso cérebro nos diz sempre que vemos uma coisa vermelha: “Agarra essa coisa, agarra-a depressa, mesmo que ainda não saibas para que serve, agarra-a porque é vermelha.” A partir daí e até à página 300, o livro é um festival de imagens reproduzidas num papel creme, de 150 gramas. Pintura, fotografias, é uma generosa e vermelha iconografia que atravessa os tempos, a geografia e os géneros.

Gosto tanto que não consigo dizer mais nada. Prefiro mostrar-vos três, apenas três das mais gloriosas expressões de que, vermelho, o vermelho é capaz.

Sandy
Esta imagem da americana Sandy Skoglund
é um portento de luxo, erotismo e teatralização.
Christo
Valley Curtain é uma soberba intervenção de Christo.
Megalómana, sumptuosa, gloriosa explosão
do vermelho no rosto da paisagem.
Claude
Claude Lêveque imaginou esta instalação.
Tem toda a razão