Fazer cavalinhos

cavalinhos

 

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 12 de Junho

Todo nu. E perdoem a redundância: estar nu é estar todo nu. Ora, o motard que no 10 de Junho fez a Avenida da Liberdade, apesar do capacete vermelho e havaianas, estava mais do que nu. O capacete, as havaianas, a moto que montava sublinhavam a sua nudez alegre, confiante. Tripulava uma moto e fez cavalinhos na ampla avenida, como um menino com a primeira bicicleta.

Não nos fará mal nenhum, ir beber a bica curta despindo o escudo formal do fatinho, o sarro das convenções, o atafulhado sobretudo da nossa importância. Eis o que nos faz falta: voltar à nudez essencial e vir fazer cavalinhos na avenida da liberdade das nossas vidas.

Em louvor do Panteão

the-searchers
The Searchers

Já me disseram que bem podemos meter o cânone de Harold Bloom no sítio que todos sabem. Virá uma tarde, àquela melancólica hora em que tomba lento no horizonte o crepúsculo dos deuses, e alguém me dirá que posso também meter no mesmo sítio os velhos filmes de Ford, a começar pelo “The Searchers”, os velhos Lubitsch, a acabar na “Ninotchka”, os velhos Hitchcock, começando e acabando no “North by Northwest”.

E Jesus me valha se eu em verdade, em verdade não vos disser, que anda alguma gentinha a confundir o cu com as calças. A confusão é velha, tem mudado muito de calças, mas pouco de cu. Os maiúsculos Grandes Livros e Grandes Filmes já não são a fonte de conhecimento necessária para este tempo, dizem. Quando eu, em Luanda, vinha a pé do Liceu Salvador Correia até casa, os quedes brancos enfiados em areais cor de acácias, já havia uns velhos corvos a crocitar a morte do saber burguês. Anunciavam o homem novo, com filosofia dicotómica e vermelha. Era uma filosofia sedutora, na sua simplicidade de bons e maus, mas mesmo quando andei de punhinho no ar e pequeno livro a substituir-me o bilhar de bolso, houve sempre um ponto inegociável: os velhos livros e filmes eram o panteão vivo a que sempre voltava.

A confusão crítica era e é a de reduzir esses grandes livros e filmes a repositórios ideológicos ou filosóficos. Ora, o cu marxizante, neo-realista, que assim os criticava, voltou agora na forma de cu ressentido, de género, etnicizante. Reduz tudo, cu e calças, a um saber ideológico, teórico-político. Escapa-lhe a humaníssima experiência estética: a ideologia nunca soube o que fazer com a ficção, com a indisciplina da emoção.

Os livros que Bloom elegeu, os filmes de Ford, Hawks, Renoir, Ozu, Dreyer, não são filosofia. São prodigiosos trabalhos de imaginação que geram emoções. Oferecem-nos acções e sentimentos que acordam em nós um músculo adormecido e rimam com as nossas vidas. Alguém nos terá amado da forma clandestina como a cunhada ama John Wayne, em “The Searchers”. Um dia partiremos, como Wayne, e enquanto desaparecemos no deserto que nos engole, uma porta há-de fechar-se, e nessa casa ficarão os que amámos e nos amaram, um velho casaco militar, a mesa a que não voltaremos. Não há cu ideológico que substitua tanta pena, saudade e dor.

Filho de três pais

fecundação

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 11 de Junho

Nasceu um bebé grego filho de duas mães e um pai, primeiro bebé europeu com três pais. Uma equipa médica espanhola e grega repetiu o que os médicos americanos tinham feito no México. A uma mãe com problemas que iria legar ao seu filho, retirou-se o ovócito a que se extraíram os cromossomas maus, digamos assim, substituindo-os pelos bons de outra mulher. O ovócito composto foi fecundado pelo esperma do pai, nascendo um bebé com o ADN dos três.

Um dia tomarei a delirante bica com um filho de seis pais: o dador de esperma, as duas mulheres que dão o ovócito perfeito, a barriga de aluguer e os papás babados que encomendaram o filho.

Noites de ponta e mola

faca

A morte de Abel, Tintoretto

A ponta e mola brilhou numa noite dos meus 14 anos. Voltei a vê-la em “The Outsiders” e “Rumble Fish” de Francis Coppola, filmes que depois me mostraram o espectáculo da morte a que aos 14 anos não assisti. Mas conto.

barriga
espetou-lhe na barriga uma faca darwiniana

A faca enterrou-se na carne macia e jovem. Subiu, cega e oblíqua, da bar­riga para o estô­mago. Eu morava dois quarteirões adiante e estas coisas acon­te­ce­ram em Luanda. Foi a primeira vez que a palavra morte apagou um rosto do resto dos dias da minha vida.

Como o Matt Dillon de “The Outsiders”, o V era mais velho do que eu. Dois anos, um mundo de difer­ença. Mas fazíamos junto, a pé (às vezes com o Videira, o mais célebre contínuo do liceu), o caminho do Sal­vador Cor­reia até ao Cin­ema Império, pas­sando pela Sagrada Família, o descam­pado em frente ao Hos­pi­tal Mil­i­tar, um inóspito car­reiro até ao Liceu Fem­i­nino e, à frente, atrav­es­sando a D. João II, o cin­ema Império, com a defesa civil ao lado, as mora­dias alin­hadas entre as tra­seiras do cin­ema e a Estrada de Catete.

Tudo terá acontecido para que Coppola viesse um dia a filmar, em “Outsiders”, com liberdade poética, a cena em que Johnny, quase uma criança, mata um miúdo do bando inimigo, salvando Ponyboy, o melhor amigo. Nessa noite que ainda não sabia ser a última, V andava também em bando – sem­pre em bando. Julgaram sur­preen­der um ladrão. Lará­pio só, não ladrão de colarinho e off-shores como hoje se con­hecem. Era um miúdo do musseque, ani­mado pela vontade de risco, pelo orgulho de deam­bu­lar no bairro branco. Vinha em rito de ini­ci­ação. A inútil e essencial cor­agem adolescente.

Como Ponyboy e Johnny, o miúdo do musseque, sentindo o cerco, pas­sou a acos­sado. Imag­ino que tenha ficado ani­mal encol­hido entre muro e sebe, leopardo atento, a res­pi­ração a fer­ver, mús­cu­los ten­sos até doer, pronto para ser invisível e lutar. Matar, se fosse pre­ciso. As som­bras bran­cas cor­riam, sem que nen­huma o visse. Imag­ino que V o tenha apan­hado de sur­presa, num tempo sem som, igual a uma ton­tura, o mesmo tempo insonoro que Coppola mostrou em “Rumble Fish”.

Mais apto, mais rápido, o miúdo, jovem máquina de luta de musseque, espetou-lhe na bar­riga uma facada dar­wini­ana. De baixo para cima, irremediável. E correu, flecha entre as árvores, perdendo-se na anónima meia-noite dos trópi­cos. Voltou a casa, aos seus, à adormecida mãe na esteira. Respiração a mil, mas de coração livre e sobrevivente. No chão do bairro branco ficara estendido o menino de outra mãe.

Soube no dia seguinte: mataram o V, o V morreu. No cemitério – éramos um bando, sem­pre um bando – não con­seguíamos chorar. Ríamos ner­vosa­mente. Digo, então, que a primeira vez que vi a morte me ri ner­vosa­mente, tão ner­vosa­mente como me ri quando, pela primeira vez, sangue em alvoroço, me apaixonei.

Em “Rumble Fish”, Rusty James (Matt Dillon) leva uma sova homérica num beco. Vemos o corpo separar-se do corpo. o segundo corpo, um corpo flutuante, hesita ainda, com pena do frio vulto de que saiu e jaz em terra, mas já com vontade de descobrir celestiais nuvens de aventura e desconhecido. Em “Rumble Fish” o corpo dá um pontapé à morte e volta ao corpo térreo, original. Em Luanda, em vez do apelo de lutas, namoros, farras de sábado, uma bebedeira na Ilha, o corpo flutuante de V escolheu o desconhecido. Escolheu harpas e arcanjos, ou esse rumor cósmico que é som e não é som e que torna toda a metafísica inútil.

rusty
o corpo flutuante hesita ainda

Noites Brancas, Dostoievski

noites brancas

Podia ser o Tejo, se Dos­toi­evski conhe­cesse o Tejo, ou qua­tro noi­tes a espalhar-se sobre o Sena, como o cine­asta Robert Bres­son as fil­mou. Mas os solu­ços vêm do meio da noite branca que o Neva atravessa.

São de uma estra­nha cru­el­dade os homens rus­sos; sonha­do­res os de São Peters­burgo, sobre­tudo quando aos vinte e seis anos já, russa e fatal­mente, falha­ram a vida. A este, pobre fun­ci­o­ná­rio público, devastam-lhe sen­ti­men­tal­mente os ouvi­dos, os solu­ços de uma amo­rosa jovem orfã que vive com a avó cega. Da orfan­dade e cegueira fez Cha­plin o lirismo cómico de “City Lights”. Tam­bém aqui, logo na pri­meira linha de Dos­toi­evski, a noite de São Peters­burgo é de luzes, mara­vi­lhosa – “uma daque­las noi­tes como só a nossa juven­tude conhe­ceu, caro lei­tor. O fir­ma­mento estava tão cheio de estre­las e tão calmo, que, ao olhá-lo, os homens faziam invo­lun­ta­ri­a­mente a si mes­mos esta per­gunta: — Podem exis­tir maus sob um céu tão belo?

Há uma mulher que chora sobre um rio e um homem que, por vê-la, se comove e inqui­eta. Segue-a. Mais dez pági­nas e já ele se arran­cou da sua timi­dez e lhe fala. Ela entregou-lhe o braço, um aperto terno da mão e a pro­messa de um segredo para a noite seguinte. Uma con­di­ção: não se apai­xone por mim.

Não me aperte tanto as mãos, dir-lhe-á ela, na segunda noite, e conta-lhe o segredo. Ama outro homem. E o homem que ela ama, ama-a tam­bém. Par­tiu para Mos­covo. Pro­cura os meios que o tor­nem digno desse amor. Vol­tará um dia. Por ela. Um ano e nem uma carta. Mas vol­tou agora, sabe ela. Voltou há três dias, três dias em que não a pro­cu­rou. Três dias que são a causa dos aba­fa­dos solu­ços da pri­meira noite. E chora de novo, como se tivesse per­dido a espe­rança de toda a feli­ci­dade. O sonha­dor, cheio de von­tade que fosse para ele a doçura de tan­tas lágri­mas, diz-lhe “não chore, escreva-lhe” e já ima­gina, para o outro, a carta que que­re­ria que ela lhe escrevesse.

Ela virá na ter­ceira noite. Con­tente com a ami­zade dele. Feliz, a fin­gir que ele não se apai­xo­nou por ela. Espe­ram, às onze, que o amado apa­reça res­pon­dendo ao apelo da carta. Mas não vem e ela consola-se com “Amo-o a si por não se ter apai­xo­nado por mim”. E num incon­tro­lado excesso pla­tó­nico: “ Por­que não é ele você? Pre­fe­ria. Mas é a ele que amo.

E vol­tam a quarta noite, na página 66 desta novela que a Edi­to­rial Inqué­rito, há décadas, ven­dia a 3 escu­dos, com tra­du­ção de José Mari­nho. Tal­vez o amado não tenha rece­bido a carta. Toda a ausên­cia é uma humi­lha­ção. Nas­tenka soluça. Qua­tro noi­tes de solu­ços. E o sonha­dor não aguenta: as lágri­mas dela excitam-lhe o cora­ção, tumultuam-lhe a alma. Ama-a e diz-lhe que a ama.

Se na pri­meira noite os solu­ços dela o como­ve­ram, agora a pai­xão dele comove-a a ela. Diz-lhe que o outro não a merece e, embora ainda o ame, já é a este sonha­dor de qua­tro noi­tes que quer dar a mão. Prometem-se, vão entregar-se e, de repente, a mão dela estre­mece na dele.

– Nas­tenka! – disse uma voz por detrás de nós. – Nas­tenka!
Meu Deus! Que grito! Como ela se sepa­rou de mim…

O riso de Agustina

Agustina-Bessa-Luís

Este texto foi publicado no Jornal de Letras há dois anos. Junto-o aqui aos textos de adeus a Agustina

Fui editor de três livros e um texto inédito da senhora Dona Agustina. Mas o que é ser editor de Agustina Bessa Luís? É, digo eu, estar sentado, olhos colados aos vivos olhos dela, os ouvidos presos à sua voz, que me parecia então, uma voz macia, de inflexões irónicas a roçar o infantil, exactamente o que, hoje, me continua a parecer sempre que a volto a ouvir num velho programa de rádio ou de televisão.

Foi essa voz que me respondeu quando lhe pedi que escrevesse sobre a pintura de Paula Rego, para um livro que eu imaginava um incêndio. Nesse livro, jurava eu, o leitor iria arder na reprodução da pintura de uma e na pólvora da escrita de outra. O livro, “As Meninas”, mas que também se poderia ter chamado “As Feiticeiras”, chegou às livrarias em Março de 2001.

O culto de Agustina herdei-o de Antónia Fonseca, minha mulher, que me levou além da “Sibila”, esse lugar sobrenatural que enfeitiça e paralisa os leitores preguiçosos como eu. E o culto de Agustina mitificou-se com o que muitas vezes me contava João Bénard da Costa. Tudo se passou nos pastosos anos da ditadura, que foram o limbo da inocente Agustina. Ela, mulher pequena, com todos os sinais de ser dotada de dons sobrenaturais, não era de uns, nem era de outros. Uns e outros queriam ter valores políticos seguros e queriam que as artes fossem formas ancilares de um jurado ideal político. Mas havia uma revista, “O Tempo e o Modo”, onde João Bénard pontificava, caldo de um catolicismo progressista balizado pelas bondosas sete saias do Papa João XXIII e, também, embrião de uma esquerda não totalitária. A revista defendia os heterodoxos, gente de difícil classificação, que ia de Jorge de Sena a Ruben A. e a Sophia, passando ou chegando a Agustina. O João contou-me: as clandestinas esquerdas partidárias que se roçavam pela revista, indignavam-se com o louvor e defesa que nela se fazia de Agustina. As esquerdas, mesmo uma figura como Mário Soares, eram então, na primeira metade dos anos 60, adeptos do combate neo-realista, e era esse pântano de conformismo estético que era tido como revolução. Agustina não servia, nem era servida, à mesa dos partidos.

Vamos ao futuro. E o futuro continua a ser a escrita de Agustina. O desaustinado texto que Agustina escreveu sobre Paula Rego é, para mim, o melhor texto que um escritor português escreveu sobre um artista de outras artes. Agustina, à pintura de Paula, chama-lhe escrita e diz que essa “escrita” já estava pronta e acabada nas grutas de Lascaux e nas abóbadas de Altamira. Agustina escreve e decifra ou inventa segredos: o de Paula é o de ser obediente e aceitar o terror.

Lembro-me da primeira conversa ao vivo. Agustina recebeu-nos a chá das cinco na sua casa da travessa que saía da Buenos Aires, em Lisboa. Ficou para mais tarde o Gólgota, no Porto. Fiz-lhe uma proposta que ela não poderia recusar, riu-se, conspirou, falou de Saramago, de Israel, de Eugénio e de Manoel de Oliveira e disse que sim.

Dir-me-ia que sim tantas vezes como Pedro negou Cristo. Escreveu para o “Cântico dos Cânticos”, numa Bíblia, que editei em caixa de acrílico. Esse intróito de Agustina não é bem de apascentar açucenas e muito menos de amenos eflúvios erótico-dominicais. É um texto de camas, poder, ciúmes e traições. Qual metafísica! Um dia alguém tem de falar da radical materialidade de Agustina, que o título desse texto – “Um tijolo quente na cama” – descaradamente denuncia.

Ofereceu-me, depois, a sua autobiografia, a que ela aceitou que eu chamasse “O Livro de Agustina”, desde que conservasse como subtítulo “A Lei do Grupo”, seu título de primeira escolha. E, a um passo da doença a levar pela mão para o exótico jardim de rosas, cuja entrada temos medo de profanar, ainda me escreveu XII Óperas, de Viriato a Salazar, passando por D. João II, D. Sebastião ou Afonso Costa, num livro a que chamou “Fama e Segredo na História de Portugal”.

De Agustina guardo três livros e o maravilhoso riso. Um dia, depois da apresentação da autobiografia, deixara eu o carro, no Fórum Almada, colado a um poste do estacionamento, Agustina, a entrar, ficou presa, na estreita abertura que o poste concedia à porta. É que nem para trás, nem para a frente. Onde qualquer pessoa se irritaria, Agustina não conseguia parar as gargalhadas. Eu e o poeta Gil Carvalho, então meu sócio editorial, queríamos ajudar e dissemos-lhe: “Senhora Dona Agustina, temos de a segurar pelas pernas!” Genuinamente divertida, Agustina respondeu: “Puxem-me pelas pernas, rapazes.”

A biografia da solidão

Há pouco comecei a ouvir a can­sada  voz de Dolo­res Duran. Descobri que da voz e da vida dela se derrama a bio­gra­fia da solidão.

As vas­sou­ri­nhas var­rem os pra­tos e tam­bo­res da bate­ria, mas não var­rem as lágri­mas e a retó­rica mag­ní­fica do sofri­mento. Será que nós, e falo com os homens, chegamos a com­pre­en­der o que Dolo­res canta. Nos nossos des­me­di­dos deva­neios épicos de homens, a forma como Dolo­res canta as pala­vras que ela mesma escre­veu, é uma his­te­ria irreal, um ensan­guen­tado folhe­tim. É pre­ciso que uma mulher cante e outra mulher ouça. Dolo­res Duran namo­rou os homens. Não dor­miu com todos, mas dor­miu com mui­tos. Dor­miu até, por­que amou, um gar­çon de caba­ret. Mas quando que­ria que lhe ouvis­sem as novas can­ções, cantava-as às ami­gas. Foi ao tele­fone que can­tou “ai a soli­dão vai aca­bar comigo” a Maysa.

Maysa con­tou que ouviu e já não con­se­guiu vol­tar a falar. Cho­rou o dobro, o tri­plo do que os ver­sos de Dolo­res pare­ciam pedir, sufo­cada, estra­nha, ciente da infe­ri­o­ri­dade e da supe­ri­o­ri­dade de quem tem o segredo do romantismo.

Tom Jobim, Vini­cius, os homens, os artis­tas, os que “sabem o que fazem e o que dizem” che­ga­riam, mui­tas lágri­mas depois, à car­reira de Dolo­res. Que solidão.