Noutro dia, um amigo meu ficou sem travões no carro. Vinha da Estados Unidos da América em direcção a Entrecampos e não teve remédio senão ir raspando com o popó na divisória central para perder velocidade e não atropelar ninguém. Um anjo ou a própria Virgem Maria, que já por cá não aparecia desde 1917, puseram-lhe a mão por baixo e o carro acabou por parar como se desejava. O que ninguém deseja é que a economia americana trave de repente. Mas a economia americana está, dizem-me, em desaceleração e em guerra com a chinesa, que por sua vez começa a ficar toldada por um nevoeiro que se adensa.
Aqui, nesta velha Europa, as velhas e relhas receitas populistas assombram e escurecem o chuvoso reino Unido, com o malfadado Brexit, mas também a mediterrânica Itália. Em França, Macron continua encandeado pelos reflexos dos coletes amarelos, enquanto a Alemanha se auto-suspendeu politicamente, tal como o espectador de cinema (mas este por melhores razões) suspende a descrença quando entra na sala. Com estas sombras e este crescente rumor de fundo é preciso ter-se descaramento para se entrar optimista em 2019. Eu sou um desses descarados e tolos optimistas.
Gostava muito que viessem. Há neste livro, carregado de fantasmas e de sofrimento, um sinal de redenção. Venham, a sessão de lançamento não será soturna e crua. Na próxima 5ª feira, nas salas de Âmbito Cultural do El Corte Inglês, às 18:30 de Lisboa, há-de haver amor, esperança e uma réstia da velha utopia, desse desejo de empatia com a humanidade que moveu a minha geração quando tínhamos 20 anos.
Venham ouvir o Manuel Ennes Ferreira e venham ouvir o meu autor, Carlos Taveira, que eu conheci candengue, no Lobito de 1975, e que hoje tem mais do que a minha idade, tanto viveu ou o obrigaram a viver. Venham. Apresenta-se um livro de prisão. Dessas prisões que não queremos para os nossos filhos, nem para os filhos dos outros. Está tudo num livro que se lê como um romance: com sentimento, angústia por vezes, um triste sorriso redentor outras vezes. É preciso ter-se sofrido muito para se poder ter tanta humanidade, eis o que vos quero dizer. E que capa tão bonita, tão simples, o Ilídio Vasco deu ao livro do Piri. Abram-no e virem a página, porque é preciso virar a página, como podem ler na página desse livro que, editor deste livro, abaixo vos deixo.
Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso Carlos Taveira (Piri)
Do Zezinho das Pilhas tenho menos referências, aparecia ocasionalmente, era discreto, não gostava de se mostrar. Vem-me à memória a figura de um individuo taciturno, com cara de poucos amigos.
Aliás, não os devia ter. Era mais especializado e não utilizava os fios eléctricos como chicote, à maneira de Inácio. Dava-lhes a utilização para a qual tinham sido concebidos: ligava uma das extremidades a uma caixa alimentada por tomada de corrente eléctrica e conectava a outra a um preso. Espero que tenha o sono povoado de pesadelos…
Foram centenas os infelizes a sofrer nas mãos dessa gente imprestável. Muitos deles conservarão para sempre as cicatrizes dos cigarros apagados no corpo, dos nomes gravados a cacos de garrafa, das queimaduras dos eléctrodos, das chicotadas a fio eléctrico.
Vários foram os métodos empregados para brutalizar os presos. Para lá dos referidos acima, quem passou pelo nguelelo nunca o esquecerá: duas hastes de madeira sólida, uma de cada lado da cabeça, atadas nas extremidades de maneira a encerrá-la (a cabeça) num torno. À medida que os nós eram cerrados, a pressão craniana acentuava-se.
Outra prática prezada pelos detectores de mentiras consistia em amarrar os braços com cordas molhadas. Iam apertando o abraço à medida que secavam. Uma variante consistia em passar essas amarras à volta da cabeça, à altura dos maxilares.
Alguém com espírito de iniciativa, e fazendo prova de originalidade, enroscou uma pesada mola nos cabelos da vítima – que utilizava aquele tipo de penteado afro conhecido nos anos 70 como «à Jimmy» – e puxou-a violentamente, arrancando cabelos e pedaços de pele do couro cabeludo.
Enfim, em qualquer bom livro da especialidade, encontrarão outras técnicas. Foram quase todas utilizadas pela DISA.
As noites eram regularmente apunhaladas pelos gritos dos torturados. Lembro-me de um desses infelizes gritando a plenos pulmões:
– Matem-me, prefiro que me matem, mas não me façam isso.
Não sei o que lhe faziam, não consigo nem quero imaginar, mas vimo-lo no dia seguinte deitado no corredor. Atirado ao deus-dará, como um fardo, corpo coberto de chagas, escorria-lhe sangue dos olhos. Quando a minha mórbida curiosidade me levou a espreitar pelo postigo, vi uma agente baixar-se, levantar-lhe uma perna e deixá-la cair, inerte, soltando uma gargalhada divertida. O torturado nem um gemido soltou, parecia ter passado o limiar da dor. Nunca soube o seu nome, nunca mais o vi.
Em vez de vir aqui, à varanda com porta para a cozinha a que dei o nome de Meus Kambas, a Eugénia de Vasconcellos foi à Gulbenkian. Deu-lhe a tosse. A ela e a meia sala. Está a Brufens.
O Meus Kambas é que não perde pele demora. Depois da visita do Pedro Correia, daqui a poucos dias tem a visita do António Eça de Queiroz. Preparem-se.
igor levit, foto de gregor hohenberg
Quem vai ao mar perde o lugar Eugénia de Vasconcellos
Gulbenkian. Igor Levit. Eu como o diabo gosta. Entupida de antibióticos, mais Symbicort, Brufen, enfim, de um tudo: a alegria das farmácias. Sala quase cheia. E isto é um mistério gulbenkiano: são mil as vezes em que não se consegue um raio de um bilhete, dois lugares consecutivos então… é coisa da ordem dos milagres ou de uma previdência incompatível com o mundo, mas aceitamos, e entre milagres e previdências, vamos. E chegamos e zás, lugares vagos. E não é um nem são dois.
De quem são aquelas cadeiras? Vendem-nas? Licitam-nas? Posso ficar com uma e pregar-lhe uma tabuleta nos costados a dizer Eugénia de Vasconcellos?
Na verdade, isto até seria em benefício da própria Gulbenkian: daqui a um monte de anos, quando eu estiver a escrever noutro multiverso qualquer, neste, um diligente funcionário desta bela instituição poderia dizer: esta era a cadeira de EV, poeta tão extraordinária que para ser perfeita só lhe faltava a modéstia; é que não nos deslargava, nem durante a semana nem no dia do Senhor: era café, era Almedina, era jardim, era piano, orquestra, violino, ópera… vá, ao menos nas conferências era um calhar, quer dizer, vinha quando lhe calhava ao gosto e sentava-se onde calhava que só era esquisita no Grande Auditório – toda a gente sabe que os guias falam exactamente comme ça.
Quando era pequena e até ser grande, tudo se passava no cinema que era teatro. Lá, ia para a frisa. Era um descanso. Bem. Havia as precedências: tias velhas, primos mais velhos e depois, ao fim, os mais novos. Nunca havia dramas salvo quando havia ópera e não se dava a multiplicação das cadeiras que eram seis nem das sessões que em regra eram duas. Só nervos! Mas desperdício de cadeiras, não.
Hoje a sala portou-se malzinho. Telemóveis a tocar, três. Dois na primeira parte, um, na segunda. Tossicava-se aqui e respondia uma tosse cavernosa ali. É Janeiro. Uma senhora foi tão mas tão mal olhada e ssshhh ssssh durante um ataque de tosse que se levantou e saiu a meio da primeira parte. Se tivessem pedras… Regressou na segunda.
Confesso, também tossi. Só uma vez. O grande ataque de tosse do finzinho da primeira parte, fui eu. Azarucho, não conseguia respirar. Não saí. Paciência que eu também a tive e durante duas horas ininterruptas. Sim. Até no intervalo.
O senhor catarrento nas minhas costas, comentou tudo em directo. Tudo. Tossia. Comentava. Mas era um tossidor transazonal-fumador o que, como toda a gente sabe, é outro estatuto – permite insultar senhoras tossidoras sazonais não fumadoras, por exemplo. Não se calou. O tempo todo que o raio do homem gostava de se ouvir e, pior, já era um bom bocado surdo. Olha para isto, com a mão esquerda quando isto foi transcrito para as duas mãos por laialailai e ontem no Mezzo, sim porque eu é Mezzo e Bravo e laialailai. E mais do mesmo, que vergonha, não tem vergonha, nem têm vergonha, trazem gente desta que escolhe isto com tanta peça bonita que Schumann tem e laialailai. Sssssh… esta devia ir tossir lá para fora.
– Não fui eu, ó comentador tússico do inferno, cala-te lá bicho do ouvido que foi o meu alter ego que está sentado nesta cadeira vazia aqui ao lado!
Que quadro é que eu levaria para uma ilha deserta? A ter de roubar um quadro, só mesmo um, para me acompanhar na solidão da mais recôndita e nua das ilhas, escolhia esta Crucificação, que Matthias Grünewald começou a pintar em 1512.
Duas mulheres, dois homens e o cordeiro de Deus (o que tira os pecados do mundo?) rodeiam um agónico Cristo que os especialistas dizem estar morto. Mentem: pressinto haver nele um indelével rasto de vida. Este homem gigantesco, cujo peso torturado faz ranger o madeiro que o sustenta, desequilibra todas as linhas, nega os mais básicos princípios da boa composição. Um morto já não se cansa a romper assim as convenções de painéis e altares. “Quem me dera estar morto” diz o ar que lhe enche o peito e recorta as costelas; “quem me dera estar morto” diz o esforçado encosto do joelho esquerdo, diz o vigor com que o rei judeu na cruz ainda eleva os ombros. As mãos dele, garras impoderosas, confirmam um último alento.
Este quadro não é belo. Só é belo de nele não haver beleza nenhuma. Só é belo pela veemência com que, militante, protesta as dores do Cristo salvador. Protegida por invisíveis alarmes (e, de certeza, com escutas) na antiga igreja que agora é o Museu de Unterlinden, em Colmar, há nesta Crucificação um excesso patético de que as mãos do Cristo flagelado são a mais retorcida e desmesurada representação.
Abaixo deste Cristo que o sofrimento faz gigantesco, todas as outras figuras encolhem e se encolhem. O crescimento – ser esticado – dói muito ao Cristo pregado aos dois barrotes de madeira; mas é também, até mais, terrivelmente dolorosa a violenta compressão de Maria, Madalena, João e, no outro lado, do Baptista. Tive, e julgo que todos tivemos, sonhos adolescentes de ver quartos, mesas, cadeiras gigantescas, de quase infinita grandeza e sonhos de tudo ver em inenarráveis paisagens liliputianas, de figuras miniaturais. Ambos são sonhos penosos, acompanhados da mesma tontura que faz a rejuvenescida Madonna de Grünewald tombar nos braços do apóstolo dilecto.
Ou que faz a entrançada angústia das mãos de Maria Madalena.
Nenhuma imaginação interpretativa. No quadro, nesta Crucifixão em que já a noite cai e um rio de indiferentes águas corre imutável em fundo, sobre a mão quase acusatória do Baptista, a cujos pés o cordeiro segura uma cruz simbólica e simbólico verte no cálice o sangue da salvação, há uma legenda que diz literal: “Illum opertet crescere, me autem minui”. É preciso que ele cresça e que eu diminua. Matthias, que não se chamava Grünewald, não deixou a ignorantes mentes alheias como a minha, o direito a falsos testemunhos, fixando ad aeternum a verdade do seu portentoso retábulo.
Este seria o meu quadro roubado. Mas como é que se rouba de um retábulo a madeira de um painel de dois metros e sessenta e nove de altura por três metros e sete de largura?
A certas horas da noite a morte seduz e assusta-nos. Mas há convites a que não se pode ceder sem uma boa luta. Mesmo que o sonoro convite seja dito em “g” de gentle, consoante que o meu Aurélio diz ser fricativa palatoalveolar quando precede a vogal “e”, como é o caso neste poema de Dylan Thomas.
Gosto do ritmo, das rimas e do trovão de érres que se repete em “Rage, rage against the dying of the light”.
Entre a doçura e a fúria, Thomas terá escrito este poema, inundado de vogais abertas, quando o pai adoeceu gravemente. Só o publicou depois dele ter morrido.
Vale a pena ouvi-lo na pessoalíssima voz (tão teatral) do poeta galês.
E se não tivesse havido já três visitas a Meus Kambas, esta não seria a quarta, diria, se fizesse contas, Monsieur Jacques de La Palisse. É, portanto, a quarta vez que entramos na varanda pequenina com porta para a cozinha, onde recebo os amigos. Hoje, senta-se comigo o Pedro Correia, jornalista e autor, figura tutelar do Delito de Opinião, e uma figura que muito ajudou a fazer a blogosfera portuguesa, dotando-a de espírito de diálogo e convivialidade, esses dois imprescindíveis sinais de civilização.
É uma honra tê-lo aqui. E é um prazer ler este seu As Palavras em Vias de Extinção.
As palavras em vias de extinção Pedro Correia
Temos a mania de mudar o que está certo. Penso nisto ao ver alteradas, em sucessivos lançamentos editoriais, antigas designações de obras-primas da ficção literária vertidas para o nosso idioma: O Monte dos Vendavais derivou primeiro para O Monte dos Ventos Uivantes e depois para O Alto dos Vendavais; a Cabra-Cega, de Roger Vailland, tornou-se Jogo Curioso (alguém estará convencido de que se adequa assim à semântica portuguesa o Drôle de Jeu original?); o Catcher in the Rye, de Salinger, passou a intitular-se À Espera no Centeio, abandonando-se Uma Agulha no Palheiro, feliz título concebido na anterior tradução, de João Palma-Ferreira.
Anda agora por aí uma recente versão de Três Homens num Bote, divertido romance de Jerome K. Jerome com este nome consagrado há décadas em português. O novo tradutor e o novo editor optaram por outro título: Três Homens num Barco. O que de algum modo confirma a intensa compressão vocabular que a língua portuguesa vai sofrendo, com a definitiva eliminação de milhares de palavras subitamente tornadas imprestáveis nesta era das mensagens instantâneas, quando até já há quem escreva “romances” por telemóvel. Se bote e barco são sinónimos, mas o segundo termo se reveste de um teor mais impreciso e sem o relance humorístico que num bote para três já se insinua, porquê rejeitar a designação já consagrada? Não custa adivinhar: a outra é de apreensão mais fácil.
Assim vamos comunicando de forma cada vez mais esquemática, prestando culto ao literalismo despido de ironia e despovoado de metáforas, com um naipe de palavras cada vez mais reduzido, o que produz reflexos óbvios no pensamento e na própria cidadania. Vocábulos rudimentares conduzem fatalmente a raciocínios esquemáticos, cada vez mais distantes da complexidade e da sofisticação que só um domínio alargado das variações semânticas induz. Daí à visão do mundo e da vida a branco e negro, numa dicotomia simplista que favorece os demagogos de todos os matizes, vai um curto passo.
«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário curto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alerta-nos Mário de Carvalho no seu excelente manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, justamente galardoado em 2015 com o Prémio P.E.N. Clube para melhor ensaio. E o escritor concretiza, indo ao cerne da questão: «Se hoje muitos jovens não conseguem perceber um provérbio, isso acontece não somente porque o mundo rural desapareceu, mas porque se tem destruído a memória e ocultado a espessura da História. Uma das razões para ler é também a vontade de libertação, a expressão de um inconformismo que não aceita ficar encarcerado dentro dos limites do vocabulário básico.»
Já estivemos mais longe dos grunhidos monossilábicos como forma dominante de expressão oral. Não falta também por aí quem gostasse de os ver como matriz dominante da nossa escrita.
Eu andava com um pé nos 17 e outro nos 18 quando comprei, na livraria da ABC, na baixa de Luanda, a “Idade de Homem”, de Michel Leiris. Hoje, não há já um português que se dê ao trabalho de ler um francês como este. Era Luanda, sobrava tempo e li as 222 páginas. Deixaram marcas. O livro de Leiris, poeta, surrealista, mas sobretudo etnólogo e amigo do Georges Bataille de “L’Erotisme”, era um livro de exposição pessoal. O autor oferecia de si mesmo um retrato implacável, arriscando por vezes uma auto-flagelação que ainda hoje me faz pensar se o verdadeiro rito de passagem para a viril idade não é a lúcida capacidade de nos auto-examinarmos e, com calculada injustiça, nos desvalorizarmos ao ponto de um certo escárnio.
É com esse exercício cruel que Leiris começa o livro, fazendo a sua descrição física: “…detesto ver-me de repente num espelho porque, não estando preparado para isso, acho-me sempre de uma fealdade humilhante”. Picasso, que era amigo dele, leu e disse-lhe com todas as letras: “Votre pire (ou meilleur) ennemi n’aurait pas fait mieux !” Outro pintor, outro amigo, Bacon, confirmou-o com este retrato que não mostra o que pintor via, mas o que Leiris catastroficamente era.
O retrato de Francis Bacon
O propósito de Michel Leiris era o de desvendar como “a partir do caos miraculoso da infância se chega à ordem cruel da idade de homem”. Queria fazê-lo, afirmou, dizendo toda a verdade, um pouco mais até do que a irrisória verdade. Foi a primeira vez que vi, ou li, a literatura como uma forma de exposição pessoal. O que, dito nestes lamentáveis termos, é a mesma coisa do que estar calado: Leiris jogava um jogo de alto risco e oferecia-se cristicamente: tomai e comei todos, este é o meu corpo. Ou, como o autor explicava, era esta a única forma de introduzir numa obra literária um risco aproximado à ameaça do corno do touro que os homens de lantejoulas enfrentam na arena. Escreves, arriscas-te — mostras-te na exterior e interior dimensão que, a um tempo, o lírico retrato de Bacon exibe.
Esta visão “da literatura como uma forma de tauromaquia” fascinou-me sem remédio. Ou se escrevia para nos pormos em causa, correndo-se o risco do equilibrista no circo, ou não valia a pena, o que me liquidou qualquer veleidade lírica ou outros arroubos sinfónico-literários.
Mas será possível escrevermos e descrevermo-nos da forma desapiedada que Leiris propunha? Basta lê-lo para perceber que os segredos, os mitos (tão tocantes, o de Lucrécia, a mulher que se mata, e o de Judite, a mulher que mata), a encenação teatralizada são, mais do que os factos verdadeiros, a matéria da “Idade de Homem”. Neste livro catártico, onde Leiris percorre família, mulheres, masturbação, sadismo, sagrado e suicídio, para mencionar apenas alguns dos temas da sua vida, acabamos por descobrir que, por mais verdade que se queira pôr no retrato falado de nós, só conseguimos dizer-nos e contar-nos por símbolos, por mitos e por alegorias. O romance é o fio de Ariana do romance “autêntico” que quero (Leiris queria) tornar comunicável a outro. Romance é o que põe a nu o coração.
Para que conste, aqui fica a ficha do livro: “L’Age d’Homme” foi publicado em 1939, a pedido de Georges Bataille para uma colecção erótica. A edição portuguesa surgiu em 1971, na Editorial Estampa e a tradução (excelente prosa) é de Maria Helena e Manuel Gusmão.
Curiosidade final, Leiris, no exemplar do livro que deu à mãe, assinou uma dedicatória reveladora: “À minha querida mamã, que vai ler neste livro coisas que talvez lhe sejam penosas, mas que compreenderá, estou seguro, que são apenas injustiças de infância, que em nada comprometem a ternura da idade adulta. Michel”
Um mérito, pelo menos, não se pode recusar à humanidade. Criámos Deus. Melhor, um cortejo interminável de deuses. Não é coisa pouca. E, ao contrário do que alguns pensam, essa foi uma ideia brilhante, inventiva, nada obscurantista. Ajudou-nos muito termos criado Deus.
A deusa que antecedeu Bündchen
Deus é a pintada prova da vaidade humana. Os gregos inventaram deuses, os bantus deram à luz Nzambi e os esquimós afogaram no Árctico uma deusa gélida. Os australianos têm desculpa: quem inventa o boomerang não precisa de inventar raio e trovão de mais coisa nenhuma.
Os nossos dinossáuricos avós inventaram deuses para a guerra e o amor, comércio e oceanos. Um avô judeu achou que devia fundir essa multidão celeste num só Deus que pode e sabe tudo, está em todo o lado e, por estranho que pareça sabendo-se que saiu de cabeça humana, é infinitamente bom.
Orgulhoso com tão perfeita invenção, o homem não resistiu à vaidade de transformar a coisa criada em Criador. Por não saber donde vinha, o homem fez-se filho dos deuses que inventara. Como se Deus fosse um Botticelli ou Michelangelo e nós saíssemos das Suas mãos feitos Vénus (sim, no caso da brasileira Bündchen) ou David (errado, no meu portuguesíssimo caso).
Tão pura vaidade arranjou uma valente carga de trabalhos. Sobretudo a Deus. Para satisfazer a vaidade de termos um Pai dono do Universo, abandonámos Deus à solidão da transcendência, à eterna chatice de motor imóvel. Coitado de Deus, tão sozinho, tão conceptual, sempre um milésimo de segundo atrás do Big Bang!
Esse Deus – ouço-o gemer de angústia – está nos filmes do sueco Bergman. É uma presença muito parecida com o frio que nos passa pela espinha: rosto histérico, corpo psicótico. O vermelho, cor de “Lágrimas e Suspiros”, é um reflexo da glória imutável e incompreensível desse Deus dos fiordes. Em “Através do Espelho”, “Luz de Inverno” e “O Silêncio”, Bergman pintou-o austero, devorado por um mutismo rígido e incolor, extremando o que o dinamarquês Dreyer preparara em “A Palavra” e “O Dia da Ira”.
Os filmes luteranos de Bergman figuram Deus como uma aranha. Nos filmes do católico Pasolini (católico da heterodoxia marxista que dispensa baptismo mas não o acto de contrição), Deus passa de aranha a Terence Stamp. No “Teorema”, que se devia mostrar nas aulas de matemática, Stamp instala-se numa casa de família e, num processo a que nos tempos da revolução angolana se chamaria de engajamento sexual, traça, um a um, os membros da família, da criada ao pai, passando pela mãe, filho e filha. Com estilo e metafísica, não poupando gerações nem classes, Pasolini filmou a carne a vencer, com vantagem e êxtase, o espírito.
Agarrados à mãezinha (e a Freud), os americanos nunca aceitariam a ambígua polivalência pasoliniana. Por ninguém ser pau para toda obra, Bob Fosse e Spielberg fizeram de Deus uma mulher. Mulher com apetites e merecedora de apetites em “All That Jazz”. Diáfana e gentil no “Always” de Spielberg. Se, como Spielberg sugere, Deus se parece com Audrey Hepburn, palpita-me que a teologia voltará a ser uma disciplina popular.