Os sapatos de Olympia

 

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Quando, no Salon de 1865, Édou­ard Manet expôs a “Olym­pia” que acima se pode e deve ver, caí­ram, sem que os pari­si­en­ses sou­bes­sem o que isso era, o Carmo e a Trin­dade. Sobre o almo­fa­dado leito recosta-se uma mulher nua, flor obs­cena na ore­lha esquerda, quase omi­tido e por isso tão pre­sente, “o íntimo tosão escon­dido pela mão em leque que Olym­pia pousa fir­me­mente sobre a coxa”, como escre­veu Michel Lei­ris no melhor texto que conheço (e só conheço ínfima parte) de exal­tada aná­lise deste qua­dro de um metro e trinta por um e noventa.

É bom de ver, e os crí­ti­cos pari­si­en­ses bem o sabiam, que a “Olym­pia” de Manet, como expres­sa­mente Manet quis que fosse, era uma prima tar­dia da “Dama Des­pida” cri­ada por Tici­ano para o nobre Gui­do­baldo della Rovere e que outros e pos­te­ri­o­res pro­pri­e­tá­rios cor­re­ram a escon­der debaixo de diá­fano manto mito­ló­gico chamando-lhe “Vénus de Urbino”, com des­cul­pas de Gior­gi­one e de outras Vénus do pró­prio Tici­ano.

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Sobre a “dama des­pida” de Tici­ano caem direi­ti­nhas duas hipó­te­ses: a de ela, dama, ser um modelo que o pin­tor pagou ou a de ser a pró­pria mulher de Gui­do­baldo II, duque de Came­rino e depois tam­bém de Urbino. O duque enco­men­dou este qua­dro para o colo­car na sua câmara con­ju­gal, cele­brando assim um ero­tismo que teria lugar den­tro de por­tas, o que parece afas­tar a pos­si­bi­li­dade de ser a “dama des­pida” uma cor­tesã que lhe pro­pi­ci­asse favores.

Na pin­tura de Tici­ano, vejo a mesma pose que Manet reto­ma­ria, por­ven­tura ainda mais ofe­re­cida, nenhuma fita de veludo negro a enfei­tar o pes­coço des­pido, os iguais e fru­ta­dos seios, a dife­rença (e que dife­rença) da mão esquerda se dei­xar cair dedi­lhante e apre­ci­a­tiva sobre (quase den­tro) o dou­rado tosão que mais tarde Manet faria “Olym­pia” escon­der atrás da mão firme. Nin­guém, na Veneza de 1538, se revol­tou como na segunda metade do século XIX se indig­na­ria essa Paris que já vira, um século antes, a fra­ter­nal e igua­li­tá­ria Revo­lu­ção e estava à beira, um lus­tro depois, de ver a ainda mais revo­lu­ci­o­ná­ria Comuna. Olha­mos para estes dois qua­dros e vemos que é quase a mesma cama, os mes­mos alvos len­çóis, as mes­mas ser­vi­çais que as con­tin­gên­cias de época redu­zi­ram a uma e afri­cana, o cão fel­pudo agora trans­for­mado, a pedido de Bau­de­laire, em gato negro de olhos fais­can­tes. Ou será gata?

O que é que, então, fez a revolta dos infor­ma­dos crí­ti­cos pari­si­en­ses? O quarto em que Manet fechou “Olym­pia”, sem essa linha de fuga exte­rior que nos tran­qui­liza em Tici­ano? O corpo mais pro­saico, tão con­tem­po­râ­neo, do modelo de Manet? Ou só, e como lon­ga­mente Michel Lei­ris expli­cou, a fita de veludo negro que enfeita o pes­coço de Olym­pia? Ou os sapa­tos que Olym­pia teima em não descalçar?

A rapariga loura, de olhos tão mansos e líricos

Quando eu escrevi esta crónica, ainda lá vivia José Eduardo dos Santos. Sei quem lá vive hoje, mas não sei onde vive José Eduardo dos Santos. Uma coisa é o que se sabe, outra coisa é o rumor das recordações, das velhas lembranças, a afagar o lobo temporal medial, sei lá se o hipocampo. Esta é, está bem de ver, uma crónica epicurista.

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Summer of 42

Agora vive lá José Eduardo dos Santos. Ou ali tão perto. Era uma das casas do quilómetro 14, em que me aboletava para festas e praia. Já longe de Luanda, Morro da Luz na colina à esquerda de quem ia em direcção ao sul, sol e sal. Em frente à casa, o areal e o mar imóvel, não mais do que um rumor de seda nas noites desse Verão, que fervia, tropical, de Dezembro a Abril. Não sei se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42, filme da mulher casada que ensina a um adolescente o amor adulto, salivado, terno e nu. Foi talvez em 1970 e julgo que não haveria então, no mundo, ninguém que tivesse mais de 17 anos.  

Eu não era só muito novo. Estava interiormente cheio dessa estrondosa timidez de rapaz que se sublimava em jogos de futebol, sonhos de revolução e a alarvidade juvenil de vinte imperiais numa só noite. Dancei com ela, com os 16 ou 17 anos dela, sem saber quem era. O cabelo louro podia ser de uma francesinha de Estrasburgo, os olhos tão mansos e líricos como os da miúda de calções de outro inesquecível Verão, o de Bonjour Tristesse. Não sei, aliás, se foi nesse ano que vi no cinema o Summer of 42.

Estava habituado a dançar colado, sofregamente colado, primeiro o roço de uma contra outra perna, depois o braço a distrair-se num seio e, numa lógica afirmação das leis da natureza, logo a dar-se, irremediável, o perfeito e irrespirável encaixe de tudo o que era convexo e côncavo.

Mas ali, onde agora vive, ou tão perto, José Eduardo dos Santos, nessa noite que eu começava então a saber que era colonial, dancei-a ou dançou-me ela de outra maneira. Havia nela uma insustentável leveza loura, um delicado aroma mais metafísico do que Ambush ou Channel. Ela tocava-me só de vez em quando, como se fosse um afago de tule, embora chegasse a parecer fogo. E, coisa que eu sempre me proibira, ela falava. Eu era então muito novo e a palavra, esse mágico dom da velhice, era-me alheia.

A translúcida rapariga loura trouxe-me à varanda de madeira tosca, lá dentro a vaga luz do gerador, cá fora a estendida, imensa escuridão da noite, vigiada por uma tropa de estrelas – nunca vi tantas estrelas como as estrelas que vi no Morro da Luz.

Eu queria dizer-lhe “os teus olhos” ou “a tua boca” e morria-me a coragem num silêncio torpe. As palavras dela vinham devagar, sem peso, pousar em mim. Pousavam-me nos cabelos, na testa, nos ouvidos, indecifrável arrepio na pele nua dos meus braços.

“Não seriam mosquitos?”, perguntou-me depois o meu amigo Manuel Ramos, que tinha casa mais adiante, no Km 36. “Não eram, Manel.” Imobilizava-me a louca paixão de me ver assim, patético, cercado pelas palavras que a levíssima rapariga loura acendia como se fossem cigarros para queimar a noite do km 14, ali tão perto da que viria a ser a casa de José Eduardo dos Santos. E, no meu silêncio, a insustentável rapariga loura desfez-se, leve e aromática, dentro da noite que eu já sabia ser colonial.

Talvez tenha sido em 1970, e talvez eu ainda não tivesse visto no cinema o Summer of 42.

A orelha de Van Gogh

Entrego-vos a orelha de Van Gogh. Foi a minha segunda crónica para o Jornal de Negócios – Vidas de Perigo, Vidas Sem Castigo. Depois desta, já fui, com o Jornal de Negócios, tentar vender  a Torre Eiffel a Paris, crónica publicada na passada 6ª feira e que podem já ler aqui. Mas o meu conselho é que comprem, a cada 6ª, o jornal em papel. É outra largueza, outras vistas, a começar pelas ilustrações de José Tiny, a quem digo obrigado.

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A orelha de Van Gogh

Dizemos «irrevogável» e já mal nos lembramos de Paulo Portas. Esquecido e escasso, o adjectivo de género duplo regressou, rabo entre as pernas, à morna sonsice do dicionário. Tivesse Paulo Portas, como Van Gogh, cortado uma orelha e outro dicionário cantaria. Mas quem é que hoje se atreve a cortar uma orelha? Ouçam Mário Centeno e António Costa: “Cortamos meia orelha cada um se não crescermos 2% acima da média europeia!” Pois sim, quem cortou uma orelha foi Van Gogh. A 23 de Dezembro de 1888, fechando um ano de euforia e desespero.

Na casa amarela de Arles onde morava, em França, sobre o Mediterrâneo, vivia também outro pintor, Paul Gauguin. Van Gogh convidara-o para o que imaginava vir a ser um cenáculo de artistas capaz de pintar a manta e reinventar o mundo. Os primeiros tempos de convívio dos dois lembram o romântico ménage à trois socialista, a que Catarina, Jerónimo e Costa emprestaram mais o corpo do que a alma. Faltavam duas noites para o Natal, e talvez estivessem a regressar do bordel da rue du Bout d’Arles, nº1 – e já estou, de novo, a falar de Gauguin e Van Gogh. Olhem para eles: gritam, numa exaltação eléctrica. Gauguin, Catarina e Jerónimo afirmam o primado da fantasia na pintura. Van Gogh e Costa juram por uma realista fidelidade às coisas tais como são. Já arde na casa o lume das palavras mais revolucionárias, mais reaccionárias, e nenhum se cala.

Gauguin fez o que Catarina e Jerónimo não podem fazer, saiu porta fora e enfiou-se num quarto da primeira pensão que encontrou. Sozinho, na casa amarela, Van Gogh, que aspirava a tudo, menos a maiorias absolutas, tocado a absinto, numa alucinação galopante e irrevogável, cortou a orelha. Não o lóbulo ou um pedacinho da parte superior, mas a orelha inteira.

Van Gogh tem na mão a irremediável orelha. Embrulha-a num pano de linho, que logo o sangue tinge. Caminha, da Place Lamartine, onde fica a sua casa amarela, até à casa de tolerância no nº 1, rue du Bout d’ Arles. Bate à porta e pede que chamem Rachel, que hoje sabemos ser Gabrielle. Ela não tem mais de 18 anos, uma bela cara camponesa, rosadas maçãs do rosto. Van Gogh dá-lhe o delicado e tintado pano e diz: «Aqui tens… em memória de mim.» Rachel, ou Gabrielle – e que interessa, se era a inocência em pessoa –, abre o pano, vê o que vê e desmaia.

Gabrielle era da casa, mas, sabe-se hoje, não era uma das meninas da casa. Casou e teve filhos. Um ano antes, mordera-a um baboso cão raivoso. Queimaram-lhe a ferida com um ferro em brasa e levaram-na a Paris, tinha Pasteur acabado de inventar a vacina contra a raiva. A família pagou a pipa de massa que não tinha e Gabrielle teve de ir trabalhar como criada, no lupanar, e também no café em que o obsessivo Van Gogh sempre se sentava à mesma mesa. 

Disputavam-na Gauguin e Van Gogh? Mais do que por uma guerrilha estética, terá sido por causa da saudável beleza dela que os dois se zangaram? Nenhum de nós, nestes tempos de tão civil razoabilidade, porá as mãos no fogo pelo caso. Mas pô-las Van Gogh, que já antes, na Holanda, se apaixonara por uma prima, viúva recente, e quando os pais dela o proibiram de a ver, pôs a mão na chama de uma lamparina, pronto a arder se não a chamassem. Na Bélgica dera toda a sua roupa aos pobres. O anjo em dor era a paixão de Van Gogh. E Gabrielle, tão jovem, de beleza tão boa, obrigada a correr de limpeza em limpeza, do café ao bordel, era o anjo caído de quem Van Gogh quis, no acto de desespero de uma noite negra, ser o Cristo: «Aqui tens… em memória de mim.»

Publicado no Jornal de Negócios

Meus Kambas: Diogo Leote

Esta é a varanda em que recebo as visitas dos  amigos. Quem visita a Página Negra já está careca de saber: entra-se pela porta da cozinha e, um copo em cima da mesa, conversa-se ao ar livre, na varanda. Mesmo no Inverno, esta varanda é um sítio aprazível, sobretudo se tivermos a sorte de apanhar com a visita do Diogo Leote, meu kamba expansivo e genuíno. Nunca sabe é donde é que ele vem – se de um concerto rock ou pop, se de um filme no cinema Ideal, Cinemateca ou Nimas, se  de um lançamento avant-garde ou do Estádio da Luz (em liguagem carinhosa, a Catedral).
O ecletismo do Diogo é o ecletismo mais bonito que eu conheço, porque é de amor a tudo. O Diogo tem, em todas as disciplinas da cultura e do espectáculo, mil concubinas. Sussurra-lhes ao ouvido, uma leve carícia no braço nu, um beijo no lóbulo da orelha, a todas trata com tão amorosa gentileza que um tipo fica a roer-se de inveja, um atómo de despeito a pôr-nos a língua em brasa. Eis o Diogo Leote, meu kamba. Dele, até o Pai Natal é amigo.

May the Force Be With Them
Diogo Leote

 

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“Dizem que Rovaniemi na Lapónia é a sua residência oficial”. Estava lançado o mote para a celebração do Natal em família. Não contando com o autonomeado mestre-de-cerimónias (isto embora lhe faltassem atributos para se assumir como o MC que os juniores reclamavam), estavam ali vinte e duas cabeças pensantes, dos seis aos setenta e quatro anos de idade. Os mais jovens, sequiosos de levar à prática os seus instintos competitivos, os graúdos com uma vontade quase envergonhada de pôr à prova supostos conhecimentos adquiridos em toda uma vida adulta de livros, jornais e noticiários. Ou talvez tudo se resumisse à mais elementar das questões existenciais: de um lado, jovens a querem passar por velhos, do outro “cotas” a fazerem de jovens, uns com uma senha de acesso livre a um mundo ainda proibido, outros embebidos num entusiasmo juvenil desamarrado das censuras prévias que a idade se autoimpõe. Todos de igual para igual, unidos na convergência de interesses que permitiram a mediana das idades (aí pelos 30 anos) e um sorteio na organização das equipas orientado pela representatividade das diversas faixas etárias.

“Natal em espanhol, francês e inglês”. Eis que um dos adolescentes, enquanto se engasga com a pronúncia de uma das derivações linguísticas da palavra, toma consciência, rejubilante de euforia, de quão universal pode ser a mensagem das festividades natalícias. Mas não está só. Logo de seguida, “o pai de Luke Skywalker e da Princesa Leia” e “o único na Aldeia gaulesa que não pode tomar a poção mágica” arrancam das mais imberbes das vozes, duas delas no sexto Natal apenas, um orgulhoso “eu sei” que, quase que vou jurar, tingem de uma vergonha não confessada um ou outro dos mais idosos. Segundo consta, até o Pai Natal, lá em cima, já na sua viagem de regresso, terá sido obrigado a travar a fundo a marcha das suas renas para agradecer a todos os que, cá em baixo, continuam a permitir-lhe a sã convivência com os universos de Lucas, Goscinny/Uderzo e Walt Disney.

O jogo prossegue sem que ninguém desarme. Sucedem-se epifanias, abrem-se horizontes, reencontram-se amores perdidos, descobrem-se paixões. À “escritora que ninguém sabe quem é” respondeu um dos machos presentes, certamente inquietado pelo chamamento do mais feminino dos mistérios, com páginas e páginas, logo no dia seguinte, de leitura voraz da Amiga Genial da Senhora Ferrante. Outro, desconsolado por ter não ter dado o devido valor em vida a uma outra senhora de voz sofrida, que “cantou a reabilitação numa casa de vinhos antes de morrer”, adormece nessa noite a ouvir a pobre da Amy Winehouse. Um outro ainda, subitamente alertado para os perigos que espreitam atrás da ignorância crescente que desperta a pergunta “num Estado de Direito, quais são os três poderes sempre separados?”, volta a ler Montesquieu com a sofreguidão de quem teme não poder voltar a fazê-lo. À lembrança do “ano do último campeonato do Sporting”, vê-se escorrer uma lágrima furtiva. Um sopro de alívio faz-se ouvir quando o MC pede à sala que se identifiquem “as 3 instituições da Troika que tomaram conta de Portugal entre 2011 e 2014”. E, ao anúncio do “casal que no cinema estava de olhos bem fechados e que acabou separado”, pressente-se alguém a tremer de nervosismo – logo desfeito pela forma hábil como um sorriso fintou a polémica dissimulada na pergunta seguinte, formulada através de uma expressão tão delicada (estavam crianças a participar e não havia salas de acesso reservado) como “onde podemos ver as pilinhas do Robert em Portugal?”.

As respostas dão lugar a reações desencontradas, ali uma explosão de alegria equiparável a um golo de levantar o estádio, acolá a frustração de uma palavra debaixo da língua que se deixou fugir, mais além um sentimento de injustiça pela álea própria de um jogo que também é de sorte e azar, noutra banda ainda a sensação do dever cumprido, ou de superação de expetativas, de quem sente estar a ser testado por outros. Mas, por mais diversas que sejam as reações, em momento algum, ao longo das cerca de duas horas e meia de jogo, se vislumbra o mais leve sentimento de indiferença ou de apatia, ou se evidencia qualquer sinal de cansaço ou monotonia. A razão para o empolgamento parece bem simples de decifrar: são vinte e três cabeças, dos seis aos setenta e quatro anos de idade, todos unidas por laços de sangue ou afinidade, e imbuídas do mais puro prazer de entretenimento de um quizz.

O mestre-de-cerimónias, no entanto, consegue ver mais do que isso. Num curto vislumbre, vê, ali mesmo, a solução para todas as desavenças familiares e para todas as incompreensões da gap generation, o antídoto para os problemas crónicos do abandono ou desinteresse escolar, numa palavra, o elixir miraculoso para a ausência ou défice de comunicação do mundo moderno. Iluminado pela extraordinária revelação, o mestre-de-cerimónias quer anunciar, primeiro aos presentes, depois ao mundo inteiro, o poder transformador do conhecimento e da palavra. Tem consigo pelo menos vinte e dois apóstolos dispostos a espalhar a boa nova.

Tem? Teria, não fosse o Mestre-Cerimónias ter acordado do sono retemperador que só a noite de Natal é capaz. Acordou para o mundo, hèlas. De um mundo sem apóstolos, sem o Pai Natal e sem os super-heróis que, umas horas antes, no quizz de faz-de-conta familiar, fizeram de vinte e três irmãos, pais, filhos, avó e netos, genros, noras e primos, um universo particular. Ficou a ilusão, cogitou o falso mestre, já sem cerimónia nenhuma. A ilusão do exemplo de motivação e inspiração de um simples jogo de encantar, feito do saber das coisas passadas, da sua marca no presente e, quem sabe, da sua capacidade de influenciar o futuro. Quem sabe no próximo Natal o deixariam voltar a arrastar uns quantos primos no faz-de-conta. E talvez, em anos vindouros, mais e mais primos e famílias o acompanhassem pelo mundo fora. Ou não. A dar ouvidos ao mundo, dizem que cada vez mais perigoso, não é de pôr de lado a possibilidade de a atividade dos mestres-de-cerimónia, assim como a de todos os que os inspiram – escritores, músicos, atores, cineastas, dramaturgos, artistas em geral -, acabar proibida para dar lugar a uma única e universal ficção, com um guião pré-determinado. Uma ficção que, nesses tempos negros que aí virão, se confundirá com a própria verdade. Mas isso é o que se diz por aí. O Mestre-Cerimónias não vai em conversas. Prefere continuar a acreditar no Pai Natal, com pelo menos outras vinte e duas almas. May The Force Be With Them.

Bica Curta

 

bica curta

 

Mudei de vida em 2019, como já o cineasta Paulo Rocha nos avisava com o título de um belo filme seu protagonizado por Maria Barroso. Aceitei o desafio que o Octávio Ribeiro me lançou para escrever no Negócios e no Correio da Manhã.
Em boa verdade foi este último o grande desafio. Para o Negócios escrevo uma crónica com o tamanho a que estou habituado. O bico de obra era escrever à 3ª, 4ª e 5ª para o CM o que bem se pode chamar uma micro-crónica. Nunca mais de 640 caracteres, ou seja, duas a três frases. Como se conta uma história, como se desenvolve uma ideia e se chega a uma conclusão em três mirradas frases?
Eis a minha apresentação e a primeira semana. A cada 6ª. feira deixarei aqui a semana anterior 

 

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Bica Curta
5ª feira, 3/1/2019

Ui, quem é este?
Bom dia. Sou novo aqui. Se não se importam, virei a este café, à 3ª, 4ª e 5ª. Como me estão a tirar as medidas, confirmo: sem chapéu, tenho um metro e sessenta e quatro, e muita boa vontade.

Apresento-me. Casado, uma filha. Sou editor. De livros. Fiz televisão e filmes. Tenho uma certa idade, mas mal se nota. Apanhei o fim do império na longínqua Angola. Fui católico, mas não papa-hóstias. Aos 20 anos, era maoista, versão tropical; agora, entre direita e esquerda, tem dias. Gosto do Marcelo e não sou contra os políticos. A minha devoção? A Eusébio, imparável deus da minha infância. Como quero a bica? Curta, sim! Mas escaldada.

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Bica Curta
3ª feira, 8/1/2019

Então e os beijos?
Hoje, a altura média do homem português é de um metro e setenta e três, o das mulheres menos 10 cm. Num século, o homem português cresceu quase 14 cm. Isso significa que eu, com o meu metro e sessenta e quatro, sou um anacronismo histórico. Ou seja, sou um tipo do século XIX que veio aqui tomar uma bica curta.

Mas o que mais me preocupa é a mulher portuguesa. Crescendo embora 12,5 cm num século, nesta escala de progressão, estará cada vez mais distante do homem, numa óbvia descriminação de género, que me indigna. Para não falar de posições mais arriscadas, e os beijos? Como nos beijaremos daqui a um século? Cada beijo uma hérnia?

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Bica Curta
4ª feira, 9/1/2019

Parece que são parvos
Os suíços devem ser parvos. A mim é que não me apanham a beber bicas curtas na Suíça. Há dias, ou há meses, sei lá bem, foram a votos e rejeitaram que as quatro semanas de férias pagas que já recebem passassem a seis. E rejeitaram também que se estabelecesse uma regra para limitar o salário dos patrões a doze vezes o salário mais baixo da empresa. Pior, três quartos dos suíços votaram contra a criação de um salário mínimo universal. Raio de país de queijos e relógios de cuco.

Dizem eles que isso aumentaria os custos do trabalho e diminuiria a potente capacidade de exportação do país. Eh pá, há gente que não gosta de viver bem.

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Bica Curta
5ª feira, 10/1/2019

Um sabor a Putin
Não sei se Putin vale uma bica curta. Mas antes de falar de Putin, falo da minha mãe, que já está no céu, e de lá me perdoa ainda mais do que na terra me perdoava. Aos cinco anos, a minha mãe deu-me o primeiro café. De cevada. Associo o sabor à bomba atómica que me assombrou a infância. Vivíamos no medo e excitação da guerra nuclear. Era um jogo de faz de conta, inócuo como esse café de meninos.

Mas agora Putin tem misseis nucleares hipersónicos. Indetectáveis. Indetectáveis e ininterceptáveis. Disse-o, a avisar Trump, bebia eu uma bica curta. Voltou-me à boca o atómico sabor a medo da infância. Ah, caneco, já não tem é a mesma inocência.

Publicado no CM, Correio da Manhã

Os meus sapatos não são os sapatos de Van Gogh

Foi há cinco anos. Despedi-me destes sapatos. Ainda hoje os meus pés morrem de saudades deles. Tombaram exangues. Os cemitérios dos sapatos não são como os dos humanos. Estes continuam insubstituíveis.

sapatos

Não vol­ta­rei a cal­çar estes sapa­tos. Os meus pés e estes sapa­tos têm uma rela­ção de quase 20 anos. A pala­vra rela­ção tem, neste caso, abso­luta e plena apli­ca­ção. Foi um entra e sai diá­rio — em cer­tos momen­tos, e não neces­sa­ri­a­mente só no começo da rela­ção, um entra e sai de várias vezes ao dia. Bem sei que eram sapa­tos de ata­ca­do­res mas, com a fami­li­a­ri­dade, já os meus pés neles entra­vam de luva. Para que conste, nunca foi pre­ciso calçadeira

Estão ali, aban­do­na­dos, uma deses­pe­rada ele­gân­cia, um bri­lho que dis­farça a velhice. Admito, é natu­ral, que lhes digam: “olha nem parece a idade que têm”. Mas abriu-se uma ines­pe­rada fenda, late­ral, mínima, o sufi­ci­ente para que o dedo min­di­nho do pé esquerdo pro­teste des­cri­mi­na­ção e risco. Tam­bém esse dedo min­di­nho requer interioridade, escu­ri­dão e um con­forto de veludo. O meu dedo min­di­nho entrava no seu sapato como quem entra numa sala de cinema. Agora, peque­nís­simo ras­gão no couro, vê de den­tro para fora, ina­cei­tá­vel expo­si­ção da sua inti­mi­dade. O que um dedo, mesmo min­di­nho, faz den­tro de um sapato, é para ficar den­tro do sapato.

Há outros sapa­tos mais famo­sos, mas a his­tó­ria dos meus pés e deste par de sapa­tos é uma his­tó­ria de feli­ci­dade. Dir-me-ão que todas as his­tó­rias de pés feli­zes são iguais, e que os pés infe­li­zes, esses sim, são infe­li­zes cada um à sua maneira. Mas nem mesmo neste momento amargo de des­pe­dida, estes meus sapa­tos se que­rem tols­toi­a­nos ou se resig­nam ao fata­lismo do par de sapa­tos de Van Gogh, a que Hei­deg­ger e Der­rida apli­ca­ram meto­do­lo­gia desconstrucionista.

Ao con­trá­rio do que Der­rida disse das botas cam­po­ne­sas de Van Gogh, os meus sapa­tos são mesmo um par de sapa­tos. Só um tem uma ligeira fis­sura. Podia, tal­vez, cal­çar o sapato direito e cami­nhar ao pé coxi­nho. Pois sim, que é como quem diz, pois não — recu­sa­ram separar-se. O ainda intacto sapato direito, anti-desconstrucionista, assu­miu como sua a fis­sura que só existe no esquerdo. Reformam-se, ou melhor, descalçam-se os dois. Fiéis, dei­xam agora, jun­tos, de cami­nhar, tão uni­dos como uni­dos esta­vam quando pisa­vam ligei­ros, engra­xa­dos, couro negro a bri­lhar ao sol, ou intré­pi­dos a mar­char sob a chuva. A estes nem a morte os separa.

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O meu baile de debutante

Há dois anos andava eu a esfalfar-me para alugar uma casaca, camisa e laço branco que me autorizasse a entrar na Ópera de Viena, para assistir ao mais afamado baile de debutantes desta nossa velha Europa. Digo eu, que nisto não tenho certezas nenhumas. Que um tipo inimputável como eu se meta nestas coisas, está muito certo; mas que me convidem é que eu nunca hei-de perceber. E agora, entrem nesta valsa.

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Baile na Ópera
Manuel S. Fonseca

O imperador Francisco José tinha duas pernas. Não é fácil saber de que gostam as pernas de um imperador. Mas não ouso atirar-lhe às pernas a mesma acusação que me atrevo a cravar na sua mão direita. A mão de Francisco José era uma mão relutante. Já as pernas imperiais tinham dançado dezenas de bailes e ainda a sua mão direita hesitava assinar o decreto que a boa sociedade de Viena lhe pedia.

Vou já dizer ao que venho, mas mesmo antes de dizer seja o que for, é preciso proclamar um princípio ab ovo: Viena gosta de dançar. Deixemos o imperador Francisco José de pernas amarradas, enquanto damos corda às nossas para uma breve viagem no tempo. Em 1814, a Europa estava como a Europa há-de estar daqui a cinco anos – basta que tudo corra mal e já se sabe que tudo o que pode correr mal acaba mesmo por correr mal. Ou seja, tal como hoje, em 1814, a Europa estava de pantanas. Napoleão, afamado corso com gosto pela artilharia, fizera um inter-rail avant la lettre, ou uma espécie de Erasmus militar, bombardeando, em estágios semestrais, a extrema Rússia, a Prússia de dignos bigodes, a alva Polónia e o coração da Europa que era o império austro-húngaro. Fora, enfim, derrotado, e mau grado ainda ter vindo, como as galinhas a que minha mãe cortava o pescoço, a estrebuchar no que foi o seu último governo de Cem Dias, a Europa veio a Viena parlamentar para acabar com as guerras de Napoleão e com as guerras dos futuros Napoleões – entenda-se, sempre que a Europa queira ser Europa terá de vir a Viena parlamentar!

Um Congresso reuniu as potências, a Rússia, a Prússia e, entalada entre as duas, a Polónia, mais a Áustria, a manhosa Inglaterra e a depauperada França e não vos maço com a lista dos países satélites que vieram para ouvir e calar. O que fizeram os congressistas? Dançaram. Houve bailes todos os dias para todos os gostos. Bailes de cerimónia e, sobretudo, como convém a um Congresso, bailes de máscaras. Um filme dos grandes estúdios alemães da UFA, a que Hitler apagaria o brilho e o gosto germânico pelas brumosas fantasias, recordou, no século XX, essa explosão lúdica de pernas, braços e corpos.

O filme é de 1931 e chama-se O Congresso Que Dança. É muito mais Cinderela do que histórico e político. Toma liberdades de conto de fadas e mostra a paixão do Czar, incógnito, por uma jovem austríaca que lhe oferece flores. Ao contrário das outras cabeças coroadas, o Czar obstina-se na recusa a bailes, dizendo: “Não vim a Viena para ver bailados e muito menos russos.” Não dançou de uma maneira, dançou de outra, nos ternos braços da bela e mignonne Lilian Harvey, a actriz que, e perdoem-me os hífenes, a Europa via então como a mulher-criança, o paraíso-feito-mulher, num arrebatamento avant-pedophilie que outro vienense, o pintor Egon Schiele, não desdenharia.

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Pares de pernas tão iguais e tão diferentes

E por já não haver czares a apaixonarem-se por floridas plebeias, voltemos a pôr os olhos na mão direita de Francisco José. Acaba de assinar o decreto que autoriza o que sempre rejeitara: uma soirée na esplêndida Ópera de Viena. Soirée é um termo ambíguo, que não contempla necessariamente um baile. Mas à meia-noite, na noite de 11 para 12 de Dezembro de 1877, o ardor bailarino de centenas de pernas de homens e mulheres austríacos, pares de pernas tão iguais e tão diferentes das pernas de Francisco José, venceu o preconceito e pôs a Ópera a dançar, como já se dançava, com loucura de fin-de-siècle na Ópera de Paris.

Hoje é quinta-feira, dia 23 de Fevereiro de 2017. É a última quinta-feira antes do Carnaval e da pungente quarta-feira de cinzas e eu vou a pé, a caminho da Ópera de Viena. São sete horas da tarde e da porta dos imponentes hotéis, do Bristol, do Sacher, desabrocham mulheres-crianças, musas de branco, lolitas que, mais do que o paraíso-feito-mulher, diria serem uma doce tortura-que-se-fará-mulher. Saem à rua e julgam ter os pés no chão, mas enganam-se. Transportam nelas uma alegria que as faz levitar. Sorriem para toda a gente, para mim também, e o sorriso delas, tão branco e primordial, desarma nuclearmente o mundo. Como se a inocência voltasse a ser possível. Há uma onda de luxo, de dinheiro resplandecente, a caminhar da rua pedonal Kärntner para o Opernring, uma vaga de perfume que sai do Sacher Hotel para dar os cinco passos que o separam da entrada da Ópera.

Sinto que devo já esta explicação aos meus leitores: estas miúdas vêm debutar. Musas ou nereides, chamam-se Franziska, Sabine, Hanna ou mesmo Eva e hoje, na vida delas, vai ser o primeiro dia em que à luz chamarão luz e à noite chamarão noite. Vão ter a sua noite de luz, o dia primeiro. E eu pensava que não, mas falando com elas descobri que afinal sabem: debutando, continuam uma tradição que é maior do que elas, o rito de passagem de meninas a mulheres.

Volto brevemente às pernas de Francisco José, imperador da Áustria e rei da Hungria, Croácia e Boémia. Com um ultimato à Sérvia, fora ele a começar a I Grande Guerra, um baile de metralha e gás mostarda com milhões de mortos, uma carnificina dançante. Abalado, calvo e velho, o imperador sente um derradeiro esticão nas pernas a 21 de Novembro de 1916, e é a última coisa que as suas pernas sentem. Rígido, o império aguenta-se de pé mais dois anos. Depois, uma burguesia industriosa, respondendo à crise da derrota na I Guerra e ao desmembramento do Império, substitui a velha ordem e proclama a república.

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Uma prodigiosa alquimia criada por Johann Strauss

A Áustria não deixou, porém, de dançar – bem vos avisei, a Áustria adora dançar. Em 1921, apenas três anos depois do Império, pernas republicanas dançavam valsas, quadrilhas e polcas na vasta sala da Ópera, como antes as tinham dançado as pernas aristocráticas. E, em 1935, sob o alto patrocínio da decidida mão e robustas pernas do Chanceler Federal, tem lugar, com as actuais características e com este nome, o primeiro Baile da Ópera de Viena, com a apresentação à sociedade de uma centena de meninas que, em poucas horas, uma prodigiosa alquimia desenvolvida por Johann Strauss transforma em mulheres.

Estou em Viena e também eu vou debutar. Enganei a fome com uma apressada garrafa de água e um par de inevitáveis salsichas, um dos 2.500 pares de salsichas que o baile comeu. Trago vestida, saiba-se, a melhor e mais cara camisa que já vesti na vida. Descobri que, de tão fanadíssima, não vinha na mala a velha camisa de cerimónia que tenho desde os primeiros Globos de Ouro. Fui comprar uma no Sir Anthony, men’s best adress, dizem eles seguros do que dizem, o que a minha carteira amargamente comprovou. Recorrendo ao meu melhor inglês, bem sugeri something less expensive, língua-de-trapos que foi recebida com um sorriso complacente e um of course not, um “claro que não” acompanhado de conversa consoladora, em que o magnânimo funcionário de Sir Anthony me revelou compras de clientes meia hora antes de o baile, com contas caladas, que essas sim fariam do homo economicus que eu sou um homo galacticus, seja lá o que isso possa ser.

Entrei agora na sala da Ópera e não há ninguém nos camarotes. Somos só umas 20 pessoas na sala a que retiraram a plateia e abriram o palco para a transformar num imenso salão de baile, e meti conversa com Valentin, neto de bascos de uma aldeia encostada a Biarritz, segunda geração na Áustria. Conta-me que já é a quarta vez que cobre o Baile da Ópera para a ORF, a televisão austríaca. Explica-me o alinhamento do espectáculo, os hinos da Áustria e da Europa primeiro, depois a entrada das debutantes com os padrinhos, o ballet, as interpretações do cantor que este ano será Jonas Kaufmann, tenor alemão. Valentin é novo mas, sem menosprezar a ascendência basca, é um austríaco orgulhoso e jura-me que o baile é muito mais do que um evento cor-de-rosa ou uma festa. Acredita no cerimonial, no valor simbólico, atrevo-me eu a dizer, e na comunhão plena das cinco mil pessoas que ali se vão juntar. Quando o mestre-cerimónias gritar “E agora todos valsam!” também ele irá dançar com a namorada que há-de chegar.

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A libertadora beleza de um decote

Nada do que Valentin disse me preparou para o que a seguir aconteceu. Uma hora e quarenta minutos antes de serem declaradas abertas as hostilidades o salão está cheio. Uma pequena multidão alinha-se e esfrega-se atrás de uma corda vermelha que uns pajens ou escudeiros operáticos seguram. A sala da Ópera de Viena parece o Mar Vermelho dos Dez Mandamentos, de Cecil B DeMille, na cena em que Moisés separa as águas. É entre essas duas alterosas barreiras humanas que o espectáculo vai ter lugar. Não cabe mais ninguém e as minhas costas convivem com o peito ameno de duas gentis japonesas. Nem eu podendo dar um passo à frente, nem elas podendo recuar um passo atrás, não tenho a certeza de que, bem contadas as nuances, as jovens japonesas não fossem três. Vieram com dois jovens austríacos que, no ano anterior, tinham, eles mesmos, debutado, se assim se pode dizer de um rapaz. Gabam-se da experiência com uma excitação e uma alacridade de meninas. E se primeiro me apetece passar-lhes uma reprimenda viril, ouvindo as reacções deliciosamente musicais das macias japonesas, só me resta invejá-los. Explicam às deslumbradas jovens do país do haiku e de Mizoguchi a tensão e a exigência das coreografias e dizem-lhes que houve mesmo um dos rapazes que desmaiou.

Não chegou o venerando imperador do Japão, mas chegou o Presidente da República da Áustria. A sala ouve o hino de pé, os camarotes iluminados, mil e trezentas garrafas de champagne patrioticamente recolhidas nos frapés, casacas e condecorações tão orgulhosamente erguidas como o comovente peito feminino assoma da beleza viva desses libertadores decotes que, santa paciência, Deus não abençoa mais do que eu. Sem decote, Christine Lagarde, a patroa do FMI, está no camarote à minha frente e olha, como eu, para esta sala que, de pé, ouve o hino da Europa. Claro que é sobretudo uma festa, mas também se vê logo que há, nesta sala, um pouco mais do que uma festa. Há aqui uma forma de vida, a que afluem tradição, o gosto do êxito e do bem-estar, um habituado convívio com a riqueza e com os prazeres sem sobressalto a que gerações de revoltados Rimbauds chamaram simplesmente burgueses.

Muito perto passa o Danúbio, estrada vertebral da Europa Central, que atravessa ou se roça por treze países, desde que irrompe na Floresta Negra até que, em delta, se afoga no Mar Negro. É o Danúbio que está, afinal, na sala da Ópera, o antiquíssimo poder das suas águas, fonte de vida, da humilde fertilidade da agricultura às fulgurantes indústrias, parteiro de aldeias e da sumptuosa arquitectura das cidades. Um rio é o pai das Musas, se é que a voz de Johann Strauss tem alguma autoridade e os meu leitores me deixam pedir-lhe ajuda.

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A palpitação rubra de quem experimenta a felicidade

Há cento e oitenta meninas que entram na sala, de puríssimo branco, tules, sedas e organdi, luvas de manga longa. Tiaras de diamantes na cabeça. Brincos de pérolas. Vêm como um rio, apresentar-se à sociedade. Estão a dois passos de mim e trazem nas caras a palpitação rubra de quem está a experimentar a felicidade. Umas fecham quase os olhos, outras seguram neles a lágrima centrípeta que nunca deixarão cair. Karin, por exemplo, é igual a uma moça de Matosinhos, rosada, cabelo negro, mais farta do que magra, pujança a que os 18 anos de hoje dão graça e que os anos futuros converterão em peso. Tem a pele fresca, de um verniz cristalino, mas os nervos, a ansiada tortura de num só dia passar a ser mulher, puseram-lhe nas costas nuas duas borbulhas vermelhas e púberes, que a maquilhagem tenta disfarçar e os meus dedos podiam, se esticasse a mão, afagar para as acalmar. Se ela precisasse… Mas não precisa. Karin e as outras debutantes entregam-se agora, com precisão, mas não de relógio suíço, a uma coreografia. Os pares delas, os rapazes, ajoelham-se numa cortesia de cavaleiros medievais. Recitam-lhes com o corpo cantigas de amor, uma rosa de prata na mão. E elas hão-de responder-lhes, depois, com igual vénia, o corpo em forma de cantiga de amigo, as costas da mão oferecidas ao primeiro beijo. A sala não resiste a esta delicadeza, quase pueril, e vem abaixo com o maior aplauso da noite, a que logo responde a valsa de Strauss, o Danúbio Azul. Os neurofisiólogos vieram há pouco garantir que, estimulado pela música, um feto de 6 meses já dança. Os 180 pares de debutantes, que estão na sala da Ópera de Viena, ao contrário do Imperador Francisco José de pernas relutantes, ainda eram fetos e já dançavam. Dançam e vê-se que pensam com o corpo, braços e pernas, peito e ventre. Como se a música, que os pés deles elegantemente pisam, tivesse sido a sua primeira linguagem.

Dançam o Danúbio Azul e já nada os separa da multidão que assiste, dos pais e das mães que dos camarotes os comem com os olhos, do Presidente da República que os acolheu, dos 71 anos da actriz Goldie Hawn que veio fazer companhia ao milionário Richard Lugner – por 500 mil euros, se cobrar o que o ano passado cobrou Kim Kardashian. E que interessa a moeda vil! Uma valsa levou os jovens pares de uma margem à outra do rio. A sociedade já os recebeu e o mestre-cerimónias grita então, “Alles Walzer”, os cordões vermelhos desaparecem e todos valsam. Mais de um terço dos cinco mil cento e cinquenta convidados, mil pares pelo menos, evoluem no chão da sala da ópera de Viena. A dança, essa liturgia de júbilo, esse prelúdio que arrasta os corpos, adormecendo-lhes a violência para neles acordar a vontade de fusão, toma conta de Viena. Era capaz de jurar que já vos tinha dito isto: Viena adora dançar.

Os editores são um zero à esquerda

lolita

Zero. À esquerda. O que sabem editores, perguntaria Camilo se andasse para aqui a escrever na blogosfera. Basta fazer uma passagem aleatória pela ava­li­a­ções dos edi­to­res no momento da publi­ca­ção de ori­gi­nais.

“Lolita”, de Vladimir Nabokov, por exemplo. Reparem, foi recu­sado por vários edi­to­res que lhe deram sonoramente com os pés. Como, nou­tro tempo e por outros edi­to­res, foi recu­sado o “Pride and Pre­ju­dice” de Jane Aus­ten. Pior (ou melhor?): houve 22 edi­to­res que recu­sa­ram o “Dubli­ners” de James Joyce. Mesmo o con­sen­sual “War of the Worlds”, de H. G. Wel­les, levou uma redonda nega de um redondo edi­tor. E a editora Har­court Brace (de San Diego, Nova Ior­que e Orlando), desdenhou o “The Cat­cher in the Rye”, de J.D.Salinger, que have­ria de fazer a feli­ci­dade de outra editora, a Lit­tle, Brown, de Bos­ton e Nova Ior­que.

Digo isto e sei que exagero. É fácil ati­rar pedras aos edi­to­res, que cos­tu­mam ser pre­sos por ter cão e por não ter cão. Mas lembrem-se do vexame por que pas­sou uma pres­ti­gi­ada revista lite­rá­ria (e conto como me con­ta­ram) a que um cínico enviou um poema de e. e. cum­mings, cui­da­do­sa­mente rees­crito de trás para a frente: o comité da revista deu-lhe o pri­meiro pré­mio do seu con­curso para a elei­ção de novos talen­tos. Mal por mal e nunca fiando, antes o mau feito de uma escar­rado não.