Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Mas melhor do que tudo o que se diga deste compositor e criador da música brasileira e da velha bossa nova, melhor é mesmo ouvi-lo. Começava aqui uma revolução melodiosa.
Eram 10 horas de uma manhã do Verão de 1958. Tipos que nunca tinham visto a luz do sol e que há quatro décadas enchiam de música, fumo, lendas, as noites e as wee hours de Harlem, começaram a aparecer de todo o lado.
A ideia nasceu na revista Esquire, cujo editor era Robert Benton, futuro realizador de cinema, que se lembrou de celebrar o que ele achava ser a golden age of jazz com uma fotografia de grupo. A encomenda caiu em cima do mais improvável executor, Art Kane, que nem fotógrafo profissional era, mas a quem Benton reconhecia talento e paixão pelo jazz.
Kane era pouco mais do que um miúdo e nunca tinha feito uma fotografia profissional. Miserável, não tinha nada, nem agência, e muito menos um estúdio. Caçou com gato: decidiu fazer uma foto de rua, no certíssimo cenário, uma rua de Harlem, casa e escadaria típicas do bairro. Conta a lenda, deve ser verdade, que andou a passar palavra entre os músicos para que aparecessem a uma hora que muitos nem sabiam que existia.
Vieram 58 músicos, com todos os estilos: bebop, swing, hard-bop, big band, dixieland. Alguns deles são dos criadores mais geniais do século XX: Dizzy Gillespie, Lester Young, Thelonius Monk, Sonny Rollins, Horace Silver, Art Farmer, Art Blakey, Charlie Mingus, Gerry Mulligan, Count Basie. Arrumaram-se como agora os vemos, Count Basie sentadinho ao lado da fila de miúdos do bairro que vieram assistir à festa, Gillespie o último à direita. Mas podem saber quem é quem nesta visita guiada.
E às 10 horas da manhã, Kane, mais nervoso do que noiva virgem em noite de deixar de sê-lo, disse olha o passarinho e clicou para a posteridade. Não deu conta que Willie “the lion” Smith, pianista virtuoso, mas cansado, se tinha sentado nos degraus da porta seguinte e ficado fora do enquadramento. Com 58 soberbos músicos, menos um, Art Kane acabava de fabricar “Harlem, 1958” um dos prodígios (tão simples) da iconografia do jazz.
Elva Zona nasceu no Greenbrier County, situado no meio das montanhas Allegheny, em West Viginia. Cara redonda, nariz fino e direitinho, maçãs do rosto bem definidas, boca carnuda e uma franja a cair-lhe sobre a testa, que ela compunha de risco ao meio, não admira que tenha tido um filho aos 22 anos, em 1895. Para desassossego materno e da comunidade, sem que ninguém soubesse quem era o pai.
Um anos depois, chegou ao County um jovem vindo de nenhures, à deriva e sem passado. Erasmus (ou Edward Shue) foi trabalhar com o ferreiro local. Fazendo curta uma história curta, em Outubro de 1896 conheceram-se, apaixonaram-se e logo casaram. Contra a vontade de Mary Jane Robinson Heaster, a mãe de Zona.
A 23 de Janeiro de 1897, Erasmus, ocupadíssimo na oficina situada no cruzamento de caminhos acidentados bons para o negócio, pediu a um miúdo, Andy Jones, que lhe levasse, “se não te importas de me fazer esse favor”, um recado à mulher. Com uma confiança de século XIX, Andy foi e ao abrir a porta da casa viu, ao fundo das escadas, o corpo inanimado de Elva, as pernas bem juntinhas, braço esquerdo sobre o ventre, o direito estendido ao lado da cobiçada anca. Os abertos olhos de lua cheia a contemplar a longínqua eternidade.
O miúdo correu e todo o vale soube da morte de Elva. Edward foi o primeiro a chegar. Sozinho levou o corpo para o quarto e sozinho fez todos os preparativos – lavar, escolher roupa e voltar a vestir – para que Elva pudesse ser dignamente enterrada. Quando o Dr. Knapp chegou para examinar o cadáver, Edward (já ninguém lhe chamava então Erasmus) manteve-se firme, choroso, apaixonado, ao lado da mulher. Contou o Dr. Knapp, não sei se numa das tabernas do County, que Edward gritou furiosamente quando ele tentou observar o pescoço da falecida. Mas a morte foi declarada natural, presumindo-se relação com alegada gravidez. A voz discordante da mãe voltou a fazer-se ouvir: “Foi o diabo que a matou.”
Durante a vigília, a devoção de Edward a todos espantou, vinte quatro horas ao lado do silêncio de Elva, a aconchegar-lhe a cabeça com mais almofadas, “era assim que ela gostava de dormir”. Até que, num caixão inacabado, providenciado pelo Handley Undertaking Establishment, o funeral se fez.
Funeral feito, dúvidas não desfeitas. Pelo menos para Mrs. Heaster, a mãe. Estranhou que Edward tivesse recusado o lençol da vigília e estranhou um cheiro peculiar. Lavou-o e do lençol branco correu para a água uma cor vermelha de sangue *. A seguir, o lençol branco ficou vermelho e a água outra vez limpa. A mãe viu no bizarro acontecimento o sinal que confirmava as suas amantíssimas suspeitas. Rezou, todas as noites rezou, para que o Senhor lhe desse um sinal. À quarta noite, Elva, irradiando luz e justiça, apareceu à mãe e revelou-lhe toda a verdade.
Armada deste novo poder, Mrs. Heaster moveu céus e terra o que incluiu, é claro, o procurador local. Ciente de provável negligência, o procurador determinou a exumação do cadáver e adequada autópsia. Edward opôs à determinação todo os seus músculos de ferreiro. Inútil. O exame fez-se e o que o luminoso fantasma de Elva tinha dito à mãe foi confirmado pelo corpo corrupto: “broken neck”, disseram os médicos, apontando para a cabeça que Edward amorosamente acomodara entre almofadas.
No julgamento, a acusação preparou a mãe para nunca falar do fantasma da filha. Mas a defesa julgou que seria boa estratégia invocar o assunto, descredibilizando assim a testemunha. Mrs. Heaster juntou argúcia à sua sinceridade de mãe e a defesa apercebeu-se da armadilha e recuou. Tarde demais, o fantasma de Elva já estava de pleno direito na sala e de nada valeram as recomendações do juiz para que os jurados não considerassem ter ouvido o que de facto tinham acabado de ouvir. Dez deles declararam Edward culpado e condenaram-no à forca, os restantes a prisão perpétua.
Se agora, passados 122 anos sobre a sua morte, alguém passar pelo County, perto do cemitério onde está sepultada Elva Zona Heaster, encontrará um marco alusivo com uma inscrição simples:
“Enterrada no cemitério ao lado está Zona Heaster Shue. A sua morte em 1897 foi considerada natural até o seu espírito aparecer à sua mãe descrevendo como tinha sido morta pelo marido, Edward. A autópsia ao corpo exumado confirmou o relato da aparição. Edward, considerado culpado de assassínio, foi condenado a prisão do estado. É o único caso em que o testemunho de um fantasma condenou um assassino.”
Moral da história: não há fuga, rejeição, elegante assassínio que liberte do amor. Amor que é amor nunca acaba. Nem com morte danada. Toda a mulher amada é um fantasma.
*O precipitado vermelho que Mrs. Heaster viu no lençol era o resultado da reacção dos ácidos de ferro (com que trabalhavam os ferreiros) com o hidróxido de sódio dos sabões com que se lavavam. O estranho odor tem que ver com o ácido muriático usado na formação dos ácidos de ferro. Estes dados foram decisivos para a acusação do procurador.
De François Villon, poeta francês do século XV, não há selfies e sabe-se tão pouco. Orfão de pai, nasceu estava a cleresia a atirar a milagrosa Joana d’Arc para a fogueira. Eram maus tempos para recalcitrantes e um patrono generoso enfiou Villon na Faculdade de Paris, com o objectivo salutar de que ele, no futuro, fosse dos que queimam e não dos que ardem.
Já o conformado Villon encarreirava no consolo da vida académica, eis que o rei Charles VII, sabe-se lá se por cativação de Centeno ou desígnio de alguma troika, fecha a faculdade. A Villon deu-lhe para a boémia e no meio dela mata um padre. Motivo: saias. Umas saias que a grande História omite, saias que, ó irritante, nunca levantaremos, mas cuja fresca intimidade o jovem François e o ardiloso padre terão, sem suspeita, partilhado.
Villon, em fuga e de lábio rachado, tinha 24 anos, metade da esperança de vida de então. Mas o perdão real era mais fácil do que hoje o indulto de um Putin ou Trump. O rei perdoou-lhe no ano em que reabilitou a heróica Joana d’Arc, o mesmo ano em que os navegadores portugueses (que o mais certo era Villon olimpicamente ignorar) chegavam ao Golfo da Guiné, o que hoje, por igual ignorância e muito mais má-fé, tanto nos criticam. O perdoado Villon regressa a Paris, Natal de 1456, e logo assalta o Collège de Navarre, roubando um cofre recheado de ouro, o que lhe assegurou um fatídico futuro de crime e infâmia.
Do primeiro crime até à sua morte putativa (se algum dia morreu e não se limitou a desaparecer para garantir a eternidade), escorreram oito anos. Oito anos que a lenda preenche com um sortido de roubos e violência que culminam na sua condenação à morte por enforcamento. Estes oito anos horribilis, de 1455 a 1463, foram os anos que, começando na “Balada das Contra Verdades” e quase terminando justamente na “Balada dos Enforcados”, fizeram de François Villon o glorioso, maior e mais fulgurante poeta desse final de Idade Média, forjando, a carne e sangue, o mito do poeta maldito, o primeiro de uma raça a que Rimbaud, o nosso Luiz Pacheco, Bukowski emprestaram iconoclastia, por vezes abjecção.
Num tempo de penúria e epidemias em que os livros começavam a ser impressos em tipografia, o fugitivo Villon escreveu alguns dos poemas mais comoventes que ler se podem. Digo eu, que o li no fim dos meus exaltados 20 anos, no cenário certo, a Angola de 1975 a ferro e fogo, em livrinho comprado na ABC de Luanda.
Nos poemas de Villon, batemos de frente, boca contra boca, com o infecto esplendor do humano: o crime, a dissolução moral, um humor que roça a negra sordidez, uma angustiada e poética consciência do transitório e efémero da vida, do seu sentido, do seu destino. E, sobre ou sob tudo, as mulheres:
“Senhor, às damas mais maganas
O prémio deveria dar, feliz.
Por mais que valham Italianas
– Para a boca, só de Paris”
Foram as mulheres de Villon, “minha menina do nariz torto”, ou essas “damas do tempo longínquo” que me ensinaram a saudade dos amores do passado, ainda eu de amor mal soletrava o presente: “ah, onde estão as neves de antigamente”. Ou ainda, e desta maneira de que fiquei fiel devoto: “corpo feminino, que é tão tenro, Delicado, suave e precioso”.
Iam enforcar Villon e ele escreveu, então, o mais angustiante epitáfio da literatura. Por piedade comutaram-lhe a pena. De Villon, criminoso, infame e poeta, nada mais se soube. Tinha 31 anos e desapareceu. Ficaram, imortais, os versos. E as saudades do poeta maldito.
Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios
Kafka, nome impossível de apenas duas consoantes e uma vogal. Kafka, essa lengalenga infantil a que só um insidioso F evita a ridícula cacofonia, protagonizou paixões inimagináveis. Por muito que nos custe aceitá-lo, o autor de A Metamorfose ou de O Processo, apaixonou-se e amou à maneira dos filmes a que tanto ia, como mostra Hanns Zischler no documentário “Kafka goes to the movies”. Várias, tantas vezes. Conto uma.
De Praga a Berlim não eram dois passos, mas foi quando os deu que Kafka encontrou Felice Bauer, estenógrafa berlinense, doravante F, amiga de Max Brod, amigo do F entre kápas que por acaso era Kafka.
Também era 1912 e F e F falaram toda a noite. De olhos nos olhos só voltariam a estar juntos muito poucas vezes. O que não impediu que, de 1912 a 1914, Kafka lhe escrevesse duas a três cartas por dia. Cartas longas, de várias páginas. Pormenor de filme: F, por acaso Kafka, enviava as cartas para a empresa onde estenografava F, fintando a vigilância da mamã da nubente, indesejada leitora que se ofendia com os excessos de tanto F.
Kafka expunha, à letra e com fulgor cinematográfico, o seu dilema – e o seu dilema era o sexo. Em mais de 500 cartas, o checo F explicou à berlinense F que o coito era pouco mais do que “a punição pela felicidade de estarmos juntos”. Ora, F!
Foram noivos, os dois F, F de Felice, F de Franz – duas vezes F, duas vezes noivos. A primeira vez, até com anúncio público. F de Franz veio a Berlim, hospedando-se no Askaniche Hof, pronto para a festa que deveria ser na 2.ª feira, a seguir ao Pentecostes. Mas não foi, embora fosse já 21 de Abril de 1914. A festa converteu-se em julgamento familiar de F de Franz que rasgou o compromisso. Com a família vindicativa veio a melhor amiga de F de Felice, Grete Bloch, sem F que se veja, mas que se diz ter sido mãe de filho cujo putativo pai terá sido o nosso F entre Ka e Ka. Lúbrica vingança de F?
Estava nas cartas que F e F não se juntariam. A culpa, se culpas há em haver F em Franz e F em Felice, também foi da senhorinha Bauer, presumivelmente adivinhada pela experiente senhora Bauer sua mãe que de F já tudo sabia. Quando, pela primeira vez, F disse a F que F apaixonadamente para sempre a F queria (e para casar!), os termos da amorosa carta foram estes, exaltantes e prometedores: “Casa-te comigo e vais lamentá-lo. Não te cases comigo e hás-de lamentá-lo. Cases ou não te cases comigo e vais lamentar-te, não importa o que escolhas.”
F de Felice fugiu, claro, a muitos sete pés de tão arrebatado e apocalíptico F por ele elaborar, assim, conjugalmente, avisando-a que, juntos os F, seriam infelizes para sempre.
Nunca casaram. F sem F é de lamentar, não se desse o caso de terem ficado 511 cartas que F de Felice, apesar de sem F, guardou e publicou em Nova Iorque, e três geniais romances que, nesses anos, F de Franz letra a letra escreveu com todos os F que para os escrever eram precisos. Porque enquanto F pensou, enfim, que F em F pudessem um só F ser, escreveu A Sentença (será que se chamou assim em português, se em português foi publicado?) que a F dedicou, e a Metamorfose e o Processo?! Bem se vê o que a F, F deve, e o que nós e a literatura do mundo todo seriamos se em cada livro não houvesse o que de algum F cada F espera.
Hoje, os seguidores, amigos e leitores dos livros e dos autores da Guerra e Paz, têm um belo fim de tarde garantido e uma meia-noite excitante. Comecemos, então, pelo sunset. Ora vejam, às 18:00, na sala da UCCLA, a Sofia Cochat Osório, apresenta o seu livro de estreia na Guerra e Paz editores, O pequeno livro dos grandes heróis.
E quando começarem a bater as badaladas da meia noite, na RTP 2, a poeta Eugénia de Vasconcellos vai emergir do tão bom escuro das letras e das artes e dar início ao primeiro de dos seus 13 programas com o título Mil palavras não fazem uma árvore. Com um convidado de grande renome, o poeta, escrito, ensaísta e académico brasileiro Marco Lucchesi.
Eu, se fosse aos meus amigos, não perderia nenhum destes eventos. Vão ser coisas lindas.
Bobbitt merecia a igualdade no amor – todos merecemos
Bica curta servida no CM, 5.ª feira, dia 27 de Junho
Há um quarto de século, Lorena Bobbitt foi violada pelo marido, ex-marine que já só invadia as ociosas tascas da rua. Saciada a braguilha, o homem ressonava sem charme, sem paixão. Nem a bica curta o acordaria. Ela, numa desiludida revolta, pegou numa faca e cortou-lhe o pénis. Como louca, meteu-se no carro e, dando conta de que trazia na mão o membro decepado, atirou-o às silvas.
Passaram 26 anos. A simbólica facada de Bobbitt espelha a castração do homem contemporâneo. A culpa maior é do próprio homem, dos maridos violadores de Bobbitts, que perdem a arte de sedução, a faísca da aventura, a alegria da igualdade no amor.