Sabe a cativação

 

o-principezinho
Foi aqui que aprendi o significado de “cativar”. Queria dizer outra coisa. Aproveito para fazer publicidade. Esta é a edição da Guerra e Paz de O Principezinho. Traduzi-a eu com o meu amigo Rui Santana Brito. É a única com capa em fundo negro, em Portugal. 

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 3 de Julho

Reversões e reposições salariais foram a passadeira vermelha pela qual António Costa se passeou, geringoncial, dando petisquinhos à boca dos portugueses. Parecia emendar os cortes cruéis de Passos Coelho. Ora, já dizia o outro, a Terra move-se. E ao mover-se deixa a descoberto as catacumbas das cativações. Passos proclamava cortes na praça pública. As cativações, furtivos cortes de Centeno, cosem-se às paredes clandestinas.

Passos quis que o povo soubesse que estava em austeridade. A cativação fecha-se no gabinete e não toma a bica democrática com o povo. Cativado o açúcar, pode o povo não apreciar o sabor amargo do café.

Um agónico Jesus Cristo

Cristo túmulo

Reflexões, se assim se pode dizer, a partir da Deposição de Cristo no Túmulo, de Giambattista Tiepolo, quadro do Museu Nacional de Arte Antiga

O dia desta tela de Giambattista Tiepolo está chuvoso e agónico. Olho e vejo-o, um corpo. Está ali, desfalecido, descido da cruz, de frágil e modesta mortalidade, a carne exposta e pálida, as pernas tristemente pendentes. Eis um homem a ser metido no seu túmulo. Decido trazê-lo para aqui, sentá-lo connosco, consciente de que me vou meter em trabalhos.

Não é um morto como os outros. Volta não volta, ressuscita, o que nos vai obrigar a aturada vigilância para que não ande por aí, sempre ao laréu. E nem posso dizer que não fui avisado. Alertou-me voz amiga que ele adorava caminhar: metia-se pelo deserto, descia ao longo do rio Jordão e, com uma ousadia que mesmo ao mais ousado dos nossos políticos não lembra, conseguia andar sobre as águas.

Olho e vejo a azáfama à volta do corpo despido. Já foi muito popular, conta-me o pessoal que o tenta encaixar na arca fúnebre mal amanhada – agora, há dúvidas de identidade e já nem o nome se sabe. Biografia errática, chegaram a dá-lo nascido numa vaga cidade da Judeia, embora a família fosse da Galileia. A paternidade é duvidosa, com insinuações de inseminação artificial, de acordo com espíritos mais prosaicos. Outros, arrebatados, falam de anjos serenos e anunciadores, de um mítico sopro que semeia a vida.

Do pouco que lhe consegui saber sobre a infância, o mais credível é o testemunho de um empregado de escritório português, alcoólico nas horas vagas, que diz tê-lo visto, menino, a chapinhar nas águas (apurando futura técnica, já se vê) e a levantar as saias às raparigas. Ainda que para dizer isto, o empregado de escritório se tenha negado a si mesmo, usando outra identidade.

(Há um curioso paralelo entre a heteronímia a que, em delírio, este empregado de escritório se entregou e a ideia de que o nosso morto era uma trindade una e indivisível, segundo informação que consta de cartas encontradas em Tarso).

No primeiro acto público parecia aprontar carreira promissora, tendo surpreendido uma sedenta multidão de convidados, num casamento, em Canaã, com o primeiro tinto monocasta de que há memória. Embalado pelo sucesso, abriu olhos a cegos, ouvidos a surdos, fez coxos andarem e pôs mudos a discursar (esta última, prática perniciosa que ainda hoje infesta televisões e parlamentos).

Embora a sua actividade tenha desencadeado vibrantes e histéricas resistências sindicais, primeiro com a menina dos olhos de Jairo, depois com o filho de uma obscura viúva, e por fim com Lázaro, em Betânia, os problemas com o sistema de justiça começaram quando lhe deu para ressuscitar mortos. Puseram-lhe escutas, providência cautelar e, por fim, em sentença de lava mãos, na cabeça uma coroa ecológica e, ao corpo, morte carpinteira, de pregos e madeiro.

Olho e vejo o peito magro, as costelas marcadas na pele macilenta. É corpo de poeta. Foi o que o perdeu. Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra, bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. Devia dizer estes versos com voz de tenor, ao mesmo tempo que advogava, na mão uma pedra e uma linda mulher de rastos na poeira do caminho, uma poética do perdão, sem o triste espectáculo do ressentimento nem faca e alguidar de vingança. Só perdão entre iguais de amai-vos uns aos outros como eu vos amei.

Olho e vejo-o: a pele branca, anémica. Trago-o para aqui, para ser mais um entre nós, com a condição de que não ressuscite e não fale por parábolas. Mas pode muito bem ensinar-nos a ser humildes de espírito para que seja nosso, na terra, o reino dos céus.

 

Livro à chuva molha-se

 

3D Book Banqueiro

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 2 de Julho

Que bom é tirar o cavalinho da chuva. É tudo culpa deles. Mas eles não somos nós? Um exemplo, os governos de Sócrates, Passos Coelho, Costa são “eles” ou somos “nós”? Não fomos “nós” a dar-lhes a bica cheia do poder?

 Escrevi, há dias, que o livro está a morrer. Vieram consolar-me culpando os poderosos. Ah, caneco: “Eles!” Ora, o livro está a morrer é mesmo por “nós”. Todos. Por não lermos, por não irmos às livrarias comprá-lo. Nós mudámos e na mudança a leitura deixou de contar. Não foram “eles” que proibiram, somos “nós” que não lemos. Se achamos que perder o livro é uma catástrofe, somos “nós” que temos de parar o terramoto.

Rua ou romance?

chita

São duas mulheres. Mãe e filha, na verdade. Conversam:
«— Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?
— Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda.»
São duas mulheres. Conversam. Rua ou romance? E se é rua, é de Lisboa ou do Porto? E se é romance, é de Eça ou de Camilo?

Ouvido quente

Eyes-Wide-Shut

Das virtudes de Stanley Kubrick a menor não terá sido a sua capacidade de escolher temas musicais que desencadeavam uma turbulência emocional incontrolável. Kubrick tinha um “ouvido quente”. Ora ouçam:

Shostakovich pode agradecer a Kubrick ter-nos criado a obrigação de passarmos a ouvir com “Eyes Wide Shut” esta “Segunda Valsa” (que é o 6º andamento da Jazz Suite nº2 — Suite for Promenade Orchestra). Mesmo sem Cruise e sem a tão bela Kidman, a plenitude triunfante destes violinos é inexplicavelmente exaltante e libertadora. Paradoxo: esta suite de 8 movimentos foi composta na Rússia soviética, ou de como um violino apaixonado nos pode desembaraçar amorosamente da teia das tiranias.

 

A mesma, outra vida

Este texto não é meu. Fugiu-me da mão e constrói-se em diálogo com os leitores. Vai de vida em vida.

espiral
de erik johansson

Dou-lhe, leitor, três hipóteses.

Primeira: a vida que anda a viver já alguém a viveu antes de si.
Segunda: só vive a vida que anda a viver porque, algures, alguém, escriba sofrível que seja, a escreveu por antecipação.
Terceira: a sua vida, a que já começou e a que ainda não sabe como vai acabar, nasceu no súbito bling de uma estrela e há-de morrer na desamparada rotação de um planeta.

Olhe o leitor para o céu e deixe-me a mim começar, manso e em noite de lua nova, pelos astros. Nem convoco o magistério de astrofísicos, nem o terrífico deslumbramento de bestiário celeste. Um escritor apenas, a vida e morte de um escritor bastam. Mark Twain nasceu a 30 de Novembro de 1835. Nesse dia, na Florida em que a mãe o dava à luz, ardeu no céu a aparição do cometa Halley. Passou altíssimo o fulgurante risco luminoso e Twain entrou no mundo dos vivos.

Não tinha corrido um século e o mundo em pânico esperava nova vinda do cometa e da sua cauda de letal cianogénio. Não foi a essa histeria que Twain se rendeu, mas a uma lógica poética, a uma rima melódica. “I came in with Halley’s Comet in 1835. It is coming again next year, and I expect to go out with it.” Nem o cometa, nem Twain falharam o profético encontro. A 21 de Abril de 1910, numa irrelevante vilória de Connecticut, Twain apagava-se na terra enquanto Halley se acendia no céu.

Não lhe digo, descuidado leitor, que não viva, que não se entregue à obscena orgia que é a originalidade de cada dia, mas, peço-lhe, vigie o obscuro firmamento, a bizarra cintilação das estrelas; espreite nelas o amor, os trabalhos, cada dor, a aguda alegria da vida que leva.

Reticente aos astros, diz-me que prefere viver agora o que alguém escreveu antes. Acertada escolha, confesso-lhe. E não pense que está sozinho. Ainda os engenheiros não tinham pensado construir o Titanic quando um inglório romancista, Morgan Robertson, publicou “Futility – The Wreck of the Titan”. Em 1898, o autor imaginou um transatlântico que jamais iria ao fundo. Chamou-lhe Titan, e imaginou-o o maior gigante que mãos humanas pousaram no oceano. No obscuro romance de Robertson, numa noite de Abril, a 400 milhas da Terra Nova, à velocidade de 22,5 nós, o Titan embate num iceberg e a tragédia instala-se: o navio afunda-se e a escassez de salva-vidas condena os passageiros a salina agonia, o pedaço de atlântico a uma torpe mancha ensanguentada. Catorze anos depois, no que ilusoriamente alguns pensam ser a vida real, outro transatlântico, o Titanic, repetiu (sintagma a sintagma) a escassa e trémula trama desse ficcional antepassado; voltava a ser uma noite de Abril, nesse mesmo desterro dos mares situado a 400 milhas da Terra Nova, tão cerca da meia-noite como meia-noite era no romance, quando à velocidade de 25 nós, o Titanic rasgou um iceberg ferindo-se de morte. Nenhum dos 3.500 passageiros sabia estar a ser usado por uma mão que, hábil, reencenava as páginas adversas e esquecidas de uma novela do século anterior.

Aceito, avisado leitor, que a tépida literatura o canse e que não queira a sua vida fechada num diegético casulo de letras. A vida, a verdadeira vida, as aventuras de grandes homens são únicas e irrepetíveis e é com elas, isso sim, que o leitor desafia a pobre lógica deste texto descrente e fatalista. Já me convenceu: partilho uma chispa desse entusiasmo. O leitor sugere que eu me lembre, por exemplo, de John Fitzgerald Kennedy. Ich bin ein Berliner e sorri. Também eu, também eu, dinâmico leitor. Mas contam-me em surdina – a voz arrastada que tudo revela é a de Arthur Koestler, o deprimido autor de “O Zero e o Infinito” – que Kennedy, a vida dele, é um plágio trivial. Um plágio com o rigoroso intervalo de 100 anos. John Kennedy, nos passos essenciais da sua vida política repetiu humilde, porventura contrafeito, o que Abraham Lincoln já vivera. Lincoln é eleito congressista em 1846, JFK é-o 100 certos anos depois, em 1946. Presidente o primeiro em 1860, Kennedy imita-o em 1960. Ambos foram assassinados por sulistas. O de Lincoln, num teatro, acerta-lhe na nuca e foge para um armazém. Na nuca, acerta-lhe o de Kennedy, disparando de um armazém para sair a esconder-se no teatro que é cada sala de cinema. Ambos os assassinos seriam abatidos a tiros infames antes do julgamento.

Os assassinados Lincoln e Kennedy foram substituídos na presidência por dois sulistas, um chamado Johnson, outro chamado Johnson. O secretário de Lincoln, de apelido Kennedy, pediu-lhe pelas alminhas para não se expor indo ao teatro. A secretária de Kennedy, de apelido Lincoln, ralhou e implorou para que o jovem presidente não visitasse Dallas.

Chamam-lhe coincidências. Só a miopia ou um prosaísmo insípido se atreveriam a tão ignorante qualificação. Os passos de Kennedy são a rigorosa e premeditada repetição de outros passos. Nenhum retorno, Herr Nietzsche. São vidas que se replicam noutro ponto, noutra curva de uma espiral. Parecem cópias, talvez sejam simulacros. Vidas com o mesmo libreto, mas com variação na coreografia: às vezes um inovador guarda-roupa, outras um amargo falhanço nos adereços ou na iluminação, tentam disfarçar o que é apenas repetição, humilde repetição de um deus monista, copista medievo sem imaginação.

Não me desgosta também pensar que o intangível curso de cada vida é sempre a mesma música, mas outro andamento; allegro a primeira vez, quem nos dera que à segunda, a nossa vez, seja molto appassionato.

Harlem 1958

Harlem 1958

Eram 10 horas de uma manhã do Verão de 1958. Tipos que nunca tinham visto a luz do sol e que há quatro décadas enchiam de música, fumo, lendas, as noites e as wee hours de Harlem, começaram a aparecer de todo o lado.

A ideia nasceu na revista Esquire, cujo editor era Robert Benton, futuro realizador de cinema, que se lembrou de celebrar o que ele achava ser a golden age of jazz com uma fotografia de grupo. A encomenda caiu em cima do mais improvável executor, Art Kane, que nem fotógrafo profissional era, mas a quem Benton reconhecia talento e paixão pelo jazz.

Kane era pouco mais do que um miúdo e nunca tinha feito uma fotografia profissional. Miserável, não tinha nada, nem agência, e muito menos um estúdio. Caçou com gato: decidiu fazer uma foto de rua, no certíssimo cenário, uma rua de Harlem, casa e escadaria típicas do bairro. Conta a lenda, deve ser verdade, que andou a passar palavra entre os músicos para que aparecessem a uma hora que muitos nem sabiam que existia.

Vieram 58 músicos, com todos os estilos: bebop, swing, hard-bop, big band, dixieland. Alguns deles são dos criadores mais geniais do século XX: Dizzy Gillespie, Lester Young, Thelonius Monk, Sonny Rollins, Horace Silver, Art Farmer, Art Blakey, Charlie Mingus, Gerry Mulligan, Count Basie. Arrumaram-se como agora os vemos, Count Basie sentadinho ao lado da fila de miúdos do bairro que vieram assistir à festa, Gillespie o último à direita. Mas podem saber quem é quem nesta visita guiada.

E às 10 horas da manhã, Kane, mais nervoso do que noiva virgem em noite de deixar de sê-lo, disse olha o passarinho e clicou para a posteridade. Não deu conta que Willie “the lion” Smith, pianista virtuoso, mas cansado, se tinha sentado nos degraus da porta seguinte e ficado fora do enquadramento. Com 58 soberbos músicos, menos um, Art Kane acabava de fabricar “Harlem, 1958” um dos prodígios (tão simples) da iconografia do jazz.