Soljenitsin, dez anos

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Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e os campos de concentração soviéticos.

Salvo para algumas cabeças descabeladas e furiosas, a denúncia e a prova da barbárie nazi foram um dado adquirido desde o final da Guerra, em 1945. Não foi tão fácil denunciar a barbárie estalinista. A ideologia e a bondade idealista dos amanhãs que cantam queimavam como um ferro em brasa qualquer prova da inenarrável dor e mortandade que escapasse das sombras do socialismo científico.

Este homem, Alexander Soljenitsin com uma só palavra, Gulag, quebrou o tabu e ajudou a libertar a humanidade de um pesadelo torpe. Uma palavra e duas mil páginas foram o legado de Soljenitsin. Um legado que nos fez mais livres e, acredito, mais humanos.

As negras escolhas musicais: Cara Sposa

 

Esta é, como vos explicaria, com conhecimento de causa, o meu amigo Henrique Monteiro, se a Página Negra fosse o Escrever é Triste, uma das mais sublimes árias da ópera italiana “Rinaldo”, criação do alemão Haendel, radicado em Londres e naturalizado inglês, em pleno século XVIII. Ou de como há 300 anos, pelo menos, a fusional vocação entre europeus é uma admirável constante criativa.

Sonho e tempo, tempo e sonho

Las Viejas
Goya, Las Viejas – uma interpretação do tempo?

Talvez a vida não seja mais do que sonho, talvez a nossa pequena vida esteja cercada, apenas e só, por um redondo sono.

Prefiro pensar que, mais do que a matéria com que se constroem os sonhos, é o tempo a substância de que todos somos feitos. Um tempo irreversível e inexorável.

Podemos sonhar, pode o sono obscuro invadir-nos, o que não podemos é negar o tempo. Negá-lo é negarmo-nos.

Por vezes é lícito trocar Shakespeare por Borges.

We are such stuff
As dreams are made on; and our little life
Is rounded with a sleep.
(Nós somos essas coisas
de que são feitos os sonhos; e a nossa pequena vida
está rodeado de sono.)

Shakespeare, The Tempest

El tiempo es la sustancia de que estoy hecho.
El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río;
es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre,
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego

(O tempo é a substância de que sou feito.
O tempo é um rio que me arrebata, porém sou eu o rio;
é um tigre que me destroça, porém sou eu o tigre;
é um fogo que me consome, porém sou eu o fogo.)

Borges, Otras Inquisiciones

As negras escolhas musicais: Schubert

Lembro-me do extinto, mas pronto a reviver Escrever é Triste. E a música? Essas horas passadas à frente de um piano ou qualquer outro instrumento, sem conjugar outro verbo que não seja tocar? Não é tão triste como escrever? Prescindir de beber, correr, saltar, amar, pondo, pela música, a  vida entre parêntesis?

Esta Serenata é a tristeza em corpo de música e corpo de gente. Criação de Schubert, transcrição e tratamento de Liszt, dedos e mãos de Khatia Buniatishvili. Negra solidão, branca tristeza.

Uma solidão de Joana d’Arc

O que estava combinado é que A Página Negra devia ser, como a vida de qualquer um de nós, um repositório de passado, o choque do inescapável presente, porventura algum balbuciante desejo de futuro. Há dez anos, uma mulher belíssima, a quem o mundo se ajoelhava, desapareceu na noite de Paris. Nessa altura, e por desafio do Vítor Coelho da Silva, escrevi este texto. E não me arrependo da solidão com que tentei enchê-lo.

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Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro. Há dias, lia os jornais franceses. Os desenjoativos Monde e Figaro. Percebi que, à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada, que homenageia o czar de que herdou o nome, se vai acrescentar-se agora o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.

Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e ouro, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um homem sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro de 2008, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.

A que propósito vem o obituário, e logo subscrito por quem vos prometeu boa vizinhança e um destemperado optimismo? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos foi vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que, à noite, é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que não divide Paris. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.

A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.

Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc”. Cabe-nos a todos nós, homens, uma fatia da culpa da solidão que afogou esta mulher.

Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.

Katoucha-Niane

os livros negros da página negra

A razão pela qual não há duas sem três é só por ser certo e seguro que não há uma sem duas. Uma foi ontem – ter nascido, nas Página Negra, a secção das “negras escolhas musicais”, a segunda guardei-a para hoje: nasce a 5 de Outubro a secção dos “Livros Negros da Página Negra”.

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O que esta edição de 1974, da Emecé Editores, de Buenos Aires, que é minha desde 1980, tem sofrido nestas atabalhoadas mãos! A sobrecapa já foi à vida, a guarda da capa já se rasgou e a tela do interior da lombada está ali por um fio, a precisar de restauro urgente. Uma coisa posso jurar, este livro não sofreu nunca longos períodos de imobilidade ou de abandono em silenciosa e labiríntica biblioteca pública.

Borges

Confesso que tenho um caso com Borges. Tudo começou na longínqua Luanda, nos remotíssimos primeiros anos dos anos 70, ainda vigorava o século XX. Li dele os poemas que outro poeta, Ruy Belo, lhe verteu para a tão próxima língua portuguesa. Foi amor à primeira vista ou leitura. É livro para, um destes dias, ser visita destes livros negros.

As negras escolhas musicais (2)

E para não deixarmos o Wynton Marsalis a tocar sozinho, vamos à segunda escolha negra.

O cinema faz mais milagres do que Jesus Cristo, o que faz dele o filho favorito de Deus. No cinema pode correr-se por cima do capot dos carros e pode cantar-se na rua, que a orquestra há-de vir dos céus. Tantos, tantos milhares que até Nicholas Cage pode cantar e comover-nos. A canção é Love Me Tender, o filme é Wild at Heart, do estranho, bizarro e inexplicável David Lynch.

Um olho no cavalo, outro em Dean Martin

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O tipo era um bêbado sem remissão. Tão reles e submisso que já nem à mão lhe davam a moedinha: atiravam-lha para o escarrador do saloon. Falo de Dude, a quem os mexicanos chamavam Borrachón. E, todavia, esse trapo, que se esfregava pelas ruelas traiçoeiras de “Rio Bravo”, destila uma elegância física natural. Dentro de Dude está afinal Dean Martin.

Quem não viu “Rio Bravo”, um western de Howard Hawks, não sabe o que é o amarelo, o vermelho de duas gotas de sangue a tombar num copo de whisky, o negro alegre de uns collants de mulher, capaz de resgatar do negrume os negros de Caravaggio.

Mas, meu kambas, só vê “Rio Bravo” quem conseguir ter um olho no filme e outro no bêbado Dean Martin. Onde é que ele aprendeu, com que Godard ou Stanislavski, a fazer o que faz? E o que faz é erguer da lama um homem, dar-lhe verticalidade, pôr agilidade em braços mortos, um brilho galante e malicioso onde já só dormia um olhar baço.

Soube há pouco, disse-mo em conversa um livro de Jerry Lewis, que Dean Martin aprendeu tudo na Vila Alice, bairro de Luanda em que nunca viveu. Nessa altura, Lewis e Martin eram os melhores amigos e davam shows na América e em Las Vegas. Eram dois muadiês ricos, uns putos que podiam fazer o que lhes desse na gana. E Dean Martin, como qualquer tipo da Vila Alice, só queria ler livros aos quadradinhos. Reparem, eu não disse banda desenhada, que não quero ofender o meu amigo Dean. Eram os mesmos livros aos quadradinhos que o meu bando lia e toma lá para troca.

Dean Martin tinha até um bocadinho de vergonha e mandava comprar os seus comic books. Jerry, que então o amava, dizia-lhe que devia ir ele escolhê-los e comprá-los. Dean sorria: “Mas não te importas que os mande comprar?”

Consigo ver o sorriso desarmante de Dean Martin, porque nele tudo era desarmante: o andar, a forma de falar, de sacar do coldre o revólver, de deixar assentar o chapéu. Lia livros aos quadradinhos, esticava as pernas e bebia a ociosa e gelada cerveja. Eis a forma simples e preguiçosa de ser homem, a sua felicidade.

Morreu num dia de Natal. Las Vegas, essa ominosa e pirilâmpica florescência de brilho e néon, que tem pavor da escuridão, prestou-lhe tributo. Todas as luzes se apagaram por um minuto, calma escuridão em que Dean fechou a última página do seu livro aos quadradinhos.

Publicado no Expresso