O segredo para sermos felizes

A cena tem lugar quase no final de uma ópera de um prólogo e dois actos*. Tudo acontece no palácio Negroni, em Ferrara, durante um banquete. Momento de euforia, abandono e hedónica fruição – “não pensemos no incerto amanhã”.

No fim da ária, Lucrécia Bórgia surge à entrada para surpresa dos convivas que são todos seus inimigos. Envenenou o vinho e vem contemplar o resultado da sua vingança. Estão todos condenados. Sem remissão. A felicidade é um instante, nem um passo menos, nem um passo mais.

***

* A ópera é “Lucrezia Borgia”, de Gaetano Donizetti, com libreto inspirado no livro homónimo de Victor Hugo

O texto da ária:
Il segreto per esser felici
so per prova e l’insegno agli amici
sia sereno, sia nubilo il cielo,
ogni tempo, sia caldo, sia gelo,
scherzo e bevo, e derido gl’insani
che si dan del futuro pensier.
Non curiamo l’incerto domani,
se quest’oggi n’è dato a goder.
Profittiamo degli’anni fiorenti,
Il piacer li fa correr più lenti;
Se vecchiezza con livida faccia
Stammi a tergo e mia vita minaccia,
scherzo e bevo, e derido gl’insani
che si dan del futuro pensier.
Non curiamo l’incerto domani,
se quest’oggi n’è dato a goder. 

As negras escolhas musicais: Cara Sposa

 

Esta é, como vos explicaria, com conhecimento de causa, o meu amigo Henrique Monteiro, se a Página Negra fosse o Escrever é Triste, uma das mais sublimes árias da ópera italiana “Rinaldo”, criação do alemão Haendel, radicado em Londres e naturalizado inglês, em pleno século XVIII. Ou de como há 300 anos, pelo menos, a fusional vocação entre europeus é uma admirável constante criativa.