Grandes cenas do cinema: The Searchers

A primeira vez que nos encontrámos, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, este filme entrou pela minha vida dentro. Trouxe com ele, por junto, um vale de lágrimas, uma aflição de amor e medo, a certeza de que, pelo que via na cara e no corpo a desabar de John Wayne, ainda tinha muito ou quase tudo a perder por praticamente ainda nada ter eu perdido, a não ser a pátria angolana que eu julgava ser a minha.
Hoje, quando me encontro com
The Searchers é já a minha vida e dois amores perdidos, a minha Guerra da Secessão, que leva os nomes de Bénard (ou só João) e de Cintra Ferreira (ou só Manel). Nem The Searchers, nem John Ford esperariam que eu metesse entre Wayne e Natalie, entre pioneiros e índios, estes dois, João e Manel, cavaleiros vigilantes, Ulisses perdidos numa viagem que também me espera. Tenho neste filme os meus cinéfilos mortos.

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THE SEARCHERS (1956), de John Ford (A desaparecida)
cena de resgate de Natalie Wood por John Wayne

Vamos agora falar daquele que é, com mais cem outros filmes, o mais belo filme da história do cinema. Chama-se The Searchers (A Desaparecida). Se quisermos dizer as coisas de uma forma simples, é um western e realizou-o John Ford. Godard, no estado de incontrolada exaltação estética que é o seu estado natural, comparou-o à Odisseia de Homero.  A mim parece-me uma pura tragédia grega. O filme começa e adivinhamos uma história de amor proibido e nunca consumado de John Wayne pela cunhada. Mal percebemos isso e logo um ataque dos índios mata a família toda, menos Debbie, a menina mais nova, o anjo da família que os índios raptam. John Wayne, que é neste filme, um tipo raivoso, cheio de ressentimento, vai dedicar os anos que se seguem a perseguir os índios e a tentar localizar a sobrinha desaparecida.

Vai com ele um meio-sobrinho e meio índio, meio-irmão de Debbie. A este meio-índio move-o a vontade heróica de resgatar a meia-irmã. Mas ele sabe que John Wayne leva às costas um alforge de ódio e de preconceito e só quer encontrar Debbie para a matar, poupando-a, quer ao opróbrio da vida com os índios, quer à vergonha que seria voltar a trazê-la para o meio dos brancos, depois da perda da inocência com os selvagens.

Poucas vezes o cinema filmou um olhar tão carregado de maldade, como o dos olhos maus e impiedosos de John Wayne. Vamos ver a cena em que eles atacam o acampamento índio e encontram Debbie que é Natalie Wood.

Este movimento, o do homem que agarra e ergue em peso uma jovem mulher e a levanta aos céus, para depois a segurar contra o peito, é um gesto que nos resgata de todo o preconceito, de toda a amargura e ressentimento. Quando a voz cansada e grave do John Wayne diz aquele manso, “let’s go home, Debbie”, por mais desgraçada que seja a caverna onde estamos, por mais desérticas que sejam, como estas, as montanhas onde somos peregrinos, desiludidos e vencidos, todos acreditamos que também nós voltaremos um dia a casa, aos braços de quem nos ame e proteja.

John Wayne, herói sem lar que o espere, Ulisses sem Ítaca coisíssima nenhuma, redime-se num dos mais belos planos da história do cinema, momento epifânico em que erguendo Nathalie Wood, contra o azul e as nuvens dos céus, a perdoa. Ou quem sabe, talvez tenha sido esse prodigioso e humaníssimo medo que vemos nos olhos de Natalie Wood a fazê-lo desistir de ser o anjo negro da vingança que vinha preparado para cortar a garganta juvenil. É impossível ver esta cena e não sentirmos a nossa garganta de espectador a afligir-se, a torturar-se, a comover-se.

Há uns bons anos, a visitar a Capela Sistina com a Antónia Fonseca, no meio de turistas de mil línguas, extasiados com o tecto pintado por Miguel Ângelo, ouvimos um miúdo dizer a outro, num sonoro português: “Eh pá, fixe, a cena do ET, a cena da criação.” Eu vejo esta cena de John Ford e só posso dizer, “Ah, meu Deus, fixe, a cena de John Wayne, a cena da redenção.”

A primeira vez que vi Paris

Escrevi este texto há quase um século, desde que os séculos passaram, tão rápidos, a ter dez anos. Retirei-lhe uma vírgula e acrescentei-lhe duas, que eu e as vírgulas temos um  pacto de infidelidade e hostilidade: ou nos seguram ou nos trucidamos. Nada mais mudei e julgo que, até ao fim da vida, odor de napalm que se acentua a cada manhã, nada mais mudarei.
Eis as minhas cidades: Paris é a cidade a que eu devia ter chegado logo depois de ter feito 18 anos, com o primeiro passaporte que a PIDE me autorizou. Nova Iorque é a cidade em que viveria quando, aos 30 anos, atingi a idade mental de 21. Mas tenho com a letra «L» uma insólita e inexplicável relação amorosa. Luanda será para sempre a minha cidade de infância e adolescência, a minha alegria e a minha dolorosa e insubstituível nostalgia;  o Lobito é esse breve e fulgurante luxo subversivo e transgressor dos dois anos mais prodigiosos da minha vida, guerra e militância como se a vida fosse, e era, um filme; Lisboa é a cidade que, por eu não ser capaz de tomar conta dela, tomou conta de mim, a quem devo a coragem de passar a adulto, o amor, ser quem sou, a devoção a uma casa, ao trabalho e às empresas, a esses amigos nascidos, não do ócio, mas da partilha de obrigações e dos sonhos em que sabemos começarem as responsabilidades. E agora, metam-se comigo no avião e vamos que Paris está à espera.   

Paris

A primeira vez que vi Paris: olhos rasos de água, claro. Tinha acabado de tirar os olhos de Lisboa e começava a ver o que na vida tinha para conquistar.

O avião sobrevoou a cidade e vi, lá de cima, o Sena apertado à esquerda e à direita, como vi a Torre Eifel a levantar-se, com estatura cartesiana, uma espécie de “cogito” urbano como não há em mais lado nenhum, a não ser em Nova Iorque onde os franceses plantaram, como “ersatz”, a Estátua da Liberdade.

Sei bem que a França não está na moda. Na moda tem estado, e julgo que ainda está, dizer que os franceses são arrogantes e os parisienses insuportáveis. Mas nesse dia, em que pela primeira vez vi Paris com olhar cândido e souci de connaissance, encontrei o meu par.

A minha França começara, quase por acaso, quando (terá sido em 1962?) o meu pai trouxe, do porto de Luanda, uns discos abandonados, 45 rpm, de Jean Ferrat, um crooner (ou um poeta-autor?) que me fez ouvir a estranha música de uma das mais belas línguas que conheço. Depois, um bom bocado depois, sozinho ou com ajudas, peguei de frente e de cernelha, os poetas, de Rimbaud a Éluard, de Baudelaire a René Char.

Antes, a França já me tinha sido passe-partout para atravessar a alegre tristeza da adolescência. Foi o meu yé-yé, com o Michel Polnareff da poupée qui fait non, foi o meu sonho do baile de sábado à noite em que Sylvie Vartan era la plus belle pour aller danser. Eu, que vivia em África, delirava com o Tour de France em que Jacques Anquetil invariavelmente esmagava Raymond Poulidor, o mais injustiçado dos ciclistas.

A primeira vez que vi Paris, deixei-me ficar. Tinha um quarto esconso, no último andar de um qualquer número da Rue du Bac, em pleno 6eme, entre a rue de Grenelle e o boulevard Saint Germain. Margem esquerda, a que me ficou no coração, mas a que hoje, aprendida a lição de Truffaut, sou infidelíssimo. Descobri, da Opéra à Madeleine, de Pigalle a Montmartre, a sensualidade marginal da direita, a que me entrego com volúpia baudelairiana.

Não sei se a França de que continuo a gostar, por tanto a ter antes amado, ainda existe. Era, essa França de que primeiro gostei, a mesma França com que Hollywood sonhou quando fez “An American in Paris” ou “The Last Time I Saw Paris”. Elegante, generosa e cosmopolita. Luminosa e vã. Tenho a vaidade de pensar que lhe devo a minha educação sentimental.

Grandes cenas do cinema: o vestido de Marilyn

Já está tudo explicado nas cenas anteriores. Foi na Gulbenkian e blá, blá, blá, escolhi as dez cenas mais marcantes de sempre na história do cinema. E o que seria o cinema e a sua História sem a dimensão erótica?

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SEVEN YEAR ITCH (1956), de Billy Wilder (O Pecado Mora ao Lado)
cena do vestido de Marilyn a esvoçar na boca do Metro

No final dos anos 50, ou já em plenos anos 60 do século passado, um dos mais vibrantes, plenos e inteligentes amantes que o cinema teve, François Truffaut, definiu exemplarmente a sétima arte. Disse ele: “O cinema é fazer coisas belas a belas mulheres.”

Não sei se a definição resiste à milimétrica luta para que a política de género hoje nos empurra, mas um dos extraordinários milagres do cinema reside no amor à primeira vista que a câmara de filmar tem por um certo tipo de animais, mulheres ou homens. Queiram ou não os produtores ou os realizadores, no século e picos da sua existência, são tremendas e devastadoras as paixões que a câmara teve por sereias, unicórnios, centauros ou sílfides, como Greta Garbo, Gary Cooper, Louise Brooks, Marlene Dietrich, Gene Tierney, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Ava Gardner, James Dean, Montgomery Clift ou Marlon Brando, Sophia Loren ou Claudia Cardinale, Alain Delon, Jean Seberg ou Anna Karina.

Mas há um desses animais, um animal camaleónico, para usar a expressão de Truman Capote, que trouxe um sopro venusiano à história do cinema. No filme dela que escolhi, tudo se passa em Nova Iorque, num tórrido Verão. Um homem não pôde (ou não quis) ir de férias com a mulher e o filho e descobre, com assombro, o assombrosamente bela, e deliciosamente ingénua, que é a esplêndida jovem vizinha do lado. Leva-a ao cinema e nós vamos agora vê-los já a voltar a casa, num passeio que o homem tenta tornar displicente, sem saber como mexer as pernas e os braços.

Quando a actriz que acabámos de ver, de saias esvoaçantes, Marilyn Monroe, filmou esta cena, havia 5 mil pessoas aos gritos no passeio em frente. Esse pasmoso e imparável grito erótico foi um dos mais fortes elementos constitutivos do cinema.

Billy Wilder é um admirável realizador, Seven Year Itch é uma bela comédia, mas esta cena só está aqui, colada às minhas dez melhores cenas de sempre, para que Marilyn aqui esteja. Há uma atracção, um desejo, um rumor vulcânico que Marilyn fez passar pela mente e pelo corpo de milhões de mulheres e homens. É um rumor inexplicável. Poderia vir aqui dizer que é uma conjugação de certas formas físicas e de carácter, uma certa angulação do rosto, uma soberba elevação do seio, a lábil circularidade da anca, a ingenuidade do olhar, uma inocente abertura dos lábios, um estremecido riso infantil, a cega volumetria das nádegas. O que não sabemos é como todo esse poderoso e incendiário magma se juntou no ser mitológico a que chamamos Marilyn Monroe.

Incompreendida, por vezes detestada pelos realizadores, tecnicamente tão incompetente que tinha, como teve, neste caso, de repetir dezenas de vezes as takes, Marilyn era mais forte do que tudo isso, mais forte do que os desastres da sua vida pessoal, mais forte do que alguns maus filmes que fez.

E para termos a certeza de que as coi­sas não são nunca o que parecem, deixem-me dizer uma coisa:

Para soprar o ves­tido, Wil­der mon­tou um gigan­tesco ven­ti­la­dor por baixo. Houve uma valente cena de sopa­pos entre o pes­soal da pro­du­ção para se deci­dir quem ia lá abaixo, às catacumbas do metro, ligar e des­li­gar o ven­ti­la­dor, dedo no inter­rup­tor, olhos apon­ta­dos ao paraíso.

As coi­sas nunca são o que pare­cem. Uma lufada de ar fresco pode muito bem incen­diar o mundo. E, já agora, o vestido que Marilyn usava foi vendido, há 4 anos, por 4,6 milhões de dólares.

Rei Jesus, o mais heterodoxo dos romances

Graves

Para dizer o mínimo, Rei Jesus, da autoria de Robert Graves, é um romance controverso. Alguns, mais eufóricos, dirão que é dos mais controverso dos romances do século XX. Outros, mais exaltados, invocarão o direito (a obrigação até) de o considerar uma blasfémia.

O Jesus de Graves é-nos apresentado como o herdeiro autêntico do reino de Israel, tanto pela lei hebraica, como pela lei de Israel. O Jesus do romance tinha, por nascimento, legitimidade para reclamar o trono. E era assim por que a natividade de Jesus, filho de Maria, mas não do Espírito Santo e, uma vez mais, também não de José, nada tem que ver, no romance de Graves, com o mistério, com a versão mística, que a teologia católica consagrou. A tese da Virgem Mãe é liminarmente rejeitada por Graves que retrata Jesus como poeta, sage e um confessado inimigo das mulheres, que acaba, por fim e por ironia, adoptado como herói delas, o que outro livro muito mais recente, feminista até, Jésus, l’homme qui préférait les femmes, de Christine Pedotti, parece confirmar.

Heterodoxo como já se percebeu, publicado em 1946, o romance semi-histórico provocou incómodos vários e dizem que Churchill adorava o livro, mas teve publicamente de se reservar nos cumprimentos a Graves. É claro que passaram os anos 40, 50, 60 e até o 25 de Abril e o romance de Graves nunca foi editado em Portugal. Foi preciso esperar pelo século XXI e editou-o a Guerra e Paz, com tradução brilhante de Rui Santana Brito, que entretanto já nos deixou para, talvez, se encontrar com Graves.

Atrevo-me a dizer que o tão pagão Ricardo Reis, contagiado pelas incursões mitológicas de Robert Graves, era bem, capaz de gostar muito deste romance. E Fernando Pessoa também, se levarmos a sério o gnosticismo de que se reclamava. Nem Ricardo Reis, que não sabemos quando morreu, por não sabermos também quando nasceu, nem Fernando Pessoa,  que estava a começar a ressuscitar quando Graves o escreveu, em 46, leram este romance ultrajante, que não é, em absoluto, um romance religioso.

Uma nota prosaica do editor da obra, para terminar em aflição e beleza. O livro custou um dinheirão à editora (são 539 páginas aventurosas), o que é uma rematada loucura, quando toda a gente nos diz, e é mais do que sabido, não haver leitores para o maravilhoso destas “escavações bíblicas”. A verdade é que, editado em Novembro de 2007, o livro teve duas edições e a segunda capa, azul, sem figuração, faz justiça ao romance. Esgotado, há dois mil felizardos que o têm em casa.

Ernst Jünger, o intelectual guerreiro

Ernst
Tenente na I Guerra

Deixem-me falar de uma espécie relativamente rara de intelectual, o intelectual guerreiro. E começo já por requerer o extremo favor de ninguém confundir a nomenclatura com meninos guerreiros, meninos de oiro ou afins.

Um exemplo meritório e controverso dessa categoria de intelectuais foi, no século XX, o escritor Ernst Jünger. Militar durante a I Grande Guerra, Jünger cantou, sem condescendência, a glória e a brutalidade da guerra, em “In Stahlgewittern” (“Tormentas de Aço”).

Capitão das tropas alemãs, na II Guerra, conviveu e terá protegido Picasso e Cocteau, durante a Ocupação, em Paris, insofismável prova da sua francofilia. Foi soldado, botânico, zoólogo, entomologista e poeta. Do mal que lhe conheço a obra – dois romances, “Sobre as Falésias de Mármore” e “Eumeswil“, e alguns ensaios -, elejo “Eumeswil”, um romance em que uma anarquizante liberdade individual persiste, servindo qualquer forma de poder: “A igualização e o culto das ideias colectivas não excluem o poder do individuo. Pelo contrário: nele se concentra o ideal das multidões como no foco de um espelho côncavo”. É o que escreve Jünger, mais adiante dizendo: “Não fracassamos pelos nossos sonhos, mas sim por não termos sonhado o suficiente”.

Defensor de uma revolução conservadora durante a República de Weimar, seria acusado de simpatias nazis, apesar das distâncias que sempre guardou, recusando-se a entrar no partido. Walter Benjamin acusa-o de ser um executante fascista da guerra de classes. Mas Jünger não só recusa colaborar com os nazis, como se demite da liga de antigos combatentes a que pertencia, quando dela são afastados camaradas seus judeus. Detestava Hitler, e nos seus “Diários” manifesta desprezo pelos nazis e vergonha pelas estrelas amarelas pregadas às roupas dos judeus. Ao vê-las, depois, diz ele, “fico enojado a olhar para os uniformes, as divisas douradas, as condecoração, as armas, coisas cujo brilho eu tanto amava”.

Jünger está também associado ao atentado contra Hitler (cujo plano conheceria), e é o exemplo de um espírito livre, suficientemente equidistante dos poderes para poder garantir a sua an-arquia pessoal: “Cortejar as boas graças: também isto é uma arte. A expressão deve ter sido inventada por alguém que teve a mesma sorte da raposa com as uvas”.

Se eu não levasse a vida vergonhosa que levo, já teria lido mais e talvez tivesse a coragem de vos dizer que “Sobre as Falésias de Mármore” é bem capaz de ser uma extraordinária alegoria da barbárie nazi. Seria até capaz de relatar as razões da admiração que Miterrand lhe tinha e do escândalo que se estampou na cara da Alemanha intelectual quando, em 1982, lhe atribuíram o prémio Goethe. Morreu com 102 anos, a um mês dos 103 – aos 100 convertera-se ao catolicismo.

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Com Mitterrand, que muito o admirava

A moral não toca piano

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Chucho e Bebo Valdés

A moral em arte não risca. Bebo Valdés, que, se vivo, teria hoje 100 anos, foi grande nos anos dourados da música cubana. Nas décadas de 40 e 50, Bebo tocou rumbas, danzón e mambo. De vez quando, cruzou ritmos afro-cubanos com o jazz, o que fez dele um deus no mais lendário dos cabarets, o Tropicana, que acabou por dirigir.

Bebo Valdés é neto de escravos. Aos 17 anos, veio estudar música em Havana, ganhando a vida a descascar batatas. Cantava (o que eu, para meter um toque pessoal nisto, jamais poderia ter feito) e tocava maracas (tão fácil que talvez eu pudesse ter tentado). Foi grande entre os grandes e ensinou Nat King Cole a cantar em espanhol.

Depois chegou Fidel. E vieram com ele os seus barbudos. Para Bebo o ritmo mudara. Um dia, tinha um dos seus músicos à espera, à porta de casa, com fuzil revolucionário ao ombro, explicando-lhe, em compasso binário simples, que quem não é por nós é contra nós. Bebo tinha pai, mãe, mulher e cinco filhos. Foi comprar uma caixa de fósforos ao México e nunca mais voltou a Cuba. A mulher ainda soube que ele se ia embora. Aos filhos nem disse adeus. Um pai destes não se recomenda a ninguém.

Do México viajou para Estocolmo, onde viveu três décadas. Três esquecidas décadas a tocar em hotéis. Ressuscitou nos anos 90, quando Paquito D’ Riviera lhe editou o cd “Bebo Rides Again”. Por causa desse cd, “El Caballón”, como era conhecido o seu metro e oitenta e quatro, voltou a respirar pelas mãos. E que bem que Bebo respira quando as mãos dele tocam piano. Bebo, o homem que abandonou mulher e filhos, voltou a ser uma estrela da música mundial, com direito a um documentário, “Old Man Bebo”. Mesmo sem o ter visto, considero-o já uma obra-prima (ganhou prémios nos festivais de Tribeca e Barcelona).

Chucho Valdés é filho de Bebo. Tinha 19 anos quando o pai o deixou a ele, à mãe, aos avós e aos irmãos. Acompanhara o pai para todo o lado e chegara a pianista na orquestra dele. Em 1960, ninguém disse a Chucho que o pai ia partir. Nem ao aeroporto o levaram. Quando descobriu, jurou à mãe que nunca a abandonaria. Cuidou dela e dos irmãos e converteu-se no maior pianista de Cuba.

Tocou com músicos fabulosos, nunca se envolveu em política e, sobretudo, recusou fugir da ilha cercada. Hoje convidam-no para tudo. Em Montreal, tocou na igreja da Santíssima Trindade, santuário de concertistas clássicos e de um público reservado e frio. Conta ele: “Primeiro toquei «Les Feuilles Mortes» em estilo barroco e quando acabei com um prelúdio de Bach o público pôs-se em pé e começou a gritar. Então, meti tumbaos a Debussy. Faço o que me apetece.” Dizem que é o melhor pianista do mundo. Ele diz que não, que é o pai!

São os dois, como se pode ver nestes dois registos em que tocaram juntos, antes que Bebo morresse, voltando a deixar Chucho sozinho. Bebo terá sido mau pai. Chucho foi o melhor dos filhos. Está visto: a moral não toca piano.

 

Grandes cenas do cinema: Singin’ in the rain

Esta é a quarta das dez cenas mais marcantes da história do cinema que eu escolhi para apresentar no evento O Gosto dos Outros, que a Gulbenkian organizou. Já tive uma cena de melodrama, outra de comédia, outra de tragédia. Chegou a vez do glorioso musical.

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SINGIN’ IN THE RAIN, 1920, de Gene Kelly e Stanley Donen (Serenata à Chuva)
cena de Gene Kelly a dançar o tema do filme

Vamos agora dar um grande salto no tempo. Passemos para uma época em que o cinema já leva 20 anos a falar. Até já canta e dança. A humanidade e o século XX passaram pela experiência da II Guerra Mundial, que inaugurou uma nova ordem do mundo, com supremacia americana. Se pensarmos bem, o cinema foi mesmo um dos grandes estandartes dessa supremacia.

A organização do cinema americano numa poderosa indústria, com sólidos estúdios atinge, nos anos 50, o seu ponto mais alto. E o género que melhor exprimiu o mais cândido optimismo dessa década e das anteriores foi o cinema musical. Há uma tonelada de cenas que se poderiam escolher, dos grandes números musicais de Busby Berkeley aos de Vincente Minnelli, cenas com o diáfano Fred Astaire ou com o atlético Gene Kelly. Era preciso escolher, era preciso prevaricar e sair da lei, e eu escolhi, criminosamente, a favor de Gene Kelly.

OK, perguntam-me, mas pelo menos o tipo dança com a Cyd Charisse? O pior é que eu sou um criminoso incompetente. Assaltei a loja da Tiffany’s e venho de lá sem os diamantes. Na cena que escolhi, Gene Kelly dança sozinho. A Cyd Charisse nunca me perdoará.

Quando vemos um filme, todos nós praticamos uma coisa a que se chama a suspensão da descrença. Ou seja, deixamos de desconfiar e passamos a acreditar que é verdade o que estamos a ver. No caso de um musical, fazemos uma dupla suspensão da descrença. Não só acreditamos que é verdade, como achamos que a forma cantada e dançada de representar são normais elementos do quotidiano. E é por isso que, a mim, esta cena de Gene Kelly a dançar à chuva, me parece uma das mais eufóricas afirmações da gentileza humana que o cinema foi capaz de nos dar.

O nosso melhor lado, a parte bon­dosa do nosso ape­tite sexual, a galan­te­ria, uma certa gra­ci­o­si­dade iró­nica da espécie que somos, estão espelhadas aqui, nos movimentos do corpo apaixonado de Kelly, na forma como ele se casa com o cenário e com os movimentos de grua da câmara.

E seria uma cobardia, não dizer o essencial: o corpo de bailarino, o corpo de Gene Kelly não se limita a fazer, o corpo exprime. Há linguagem no corpo de Kelly, as pernas dele pensam, os pés conceptualizam. Muita treta se tem dito da falta de corpo na arte do Ocidente e do reprimido corpo judaico-cristão. Ora o corpo está aqui, vimo-lo aqui, nesta cena e é um corpo patente, potente e contente. Vêmo-lo exuberante, sem sombra de repressão ou depressão. E o grande cinema musical, que este Singing in the Rain aqui representa, é a afirmação das inúmeras e felicíssimas posições com que dois corpos podem enlaçar-se, rodar, saltar, encaixar-se.

Eu acredito que há extra-terrestres e que um dia hão-de invadir isto tudo. Nesse dia, devemos pô-los a ver esta e outras cenas dos grandes filmes musicais. Se os virem, os extra-terrestres olharão para nós com misericórdia e simpatia, por descobrirem que, quando cantamos, quando dançamos, somos gentis, amáveis, escapistas, optimistas e infinitamente generosos. Seja Gene Kelly o nosso embaixador. E Cyd Charisse, está claro.

Esta é a confiança

Vou mudar mil vezes a imagem de capa do facebook desta Página Negra. Menos por inconstância, mais pelo gosto da descoberta. É irresistível ser velho e viajar, consumindo a molécula aos novos do Restelo. E também porque o nosso mundo é uma via láctea de imagens. Ternas e cruéis, líricas e provocatórias, obscenas e sacras. 

os cinco

São cinco e caminham, oferecendo-nos as costas, pés num tu cá, tu lá com uma terra que se adivinha quente. No abraço maltrapilho deles revejo a minha infância e a minha adolescência, o mesmo chão, o mesmo capim, a mesma entrega, a mesma confiança.

Esta é a confiança. A confiança, como se pode ver, sabe andar. E, por ser confiança, caminha toda para o mesmo lado.
Esta é a confiança. E, por ser confiança, põe o braço sobre o ombro, e faz do menino, homem, e de cinco meninos uma comunidade.
Quem nunca foi comunidade, oh que pena. A comunidade é dez dedos de confiança plena. É conhecer-te como conheço a palma da minha mão.
Esta é a confiança. Vai rota e parece vestida de seda.