Rei Jesus, o mais heterodoxo dos romances

Graves

Para dizer o mínimo, Rei Jesus, da autoria de Robert Graves, é um romance controverso. Alguns, mais eufóricos, dirão que é dos mais controverso dos romances do século XX. Outros, mais exaltados, invocarão o direito (a obrigação até) de o considerar uma blasfémia.

O Jesus de Graves é-nos apresentado como o herdeiro autêntico do reino de Israel, tanto pela lei hebraica, como pela lei de Israel. O Jesus do romance tinha, por nascimento, legitimidade para reclamar o trono. E era assim por que a natividade de Jesus, filho de Maria, mas não do Espírito Santo e, uma vez mais, também não de José, nada tem que ver, no romance de Graves, com o mistério, com a versão mística, que a teologia católica consagrou. A tese da Virgem Mãe é liminarmente rejeitada por Graves que retrata Jesus como poeta, sage e um confessado inimigo das mulheres, que acaba, por fim e por ironia, adoptado como herói delas, o que outro livro muito mais recente, feminista até, Jésus, l’homme qui préférait les femmes, de Christine Pedotti, parece confirmar.

Heterodoxo como já se percebeu, publicado em 1946, o romance semi-histórico provocou incómodos vários e dizem que Churchill adorava o livro, mas teve publicamente de se reservar nos cumprimentos a Graves. É claro que passaram os anos 40, 50, 60 e até o 25 de Abril e o romance de Graves nunca foi editado em Portugal. Foi preciso esperar pelo século XXI e editou-o a Guerra e Paz, com tradução brilhante de Rui Santana Brito, que entretanto já nos deixou para, talvez, se encontrar com Graves.

Atrevo-me a dizer que o tão pagão Ricardo Reis, contagiado pelas incursões mitológicas de Robert Graves, era bem, capaz de gostar muito deste romance. E Fernando Pessoa também, se levarmos a sério o gnosticismo de que se reclamava. Nem Ricardo Reis, que não sabemos quando morreu, por não sabermos também quando nasceu, nem Fernando Pessoa,  que estava a começar a ressuscitar quando Graves o escreveu, em 46, leram este romance ultrajante, que não é, em absoluto, um romance religioso.

Uma nota prosaica do editor da obra, para terminar em aflição e beleza. O livro custou um dinheirão à editora (são 539 páginas aventurosas), o que é uma rematada loucura, quando toda a gente nos diz, e é mais do que sabido, não haver leitores para o maravilhoso destas “escavações bíblicas”. A verdade é que, editado em Novembro de 2007, o livro teve duas edições e a segunda capa, azul, sem figuração, faz justiça ao romance. Esgotado, há dois mil felizardos que o têm em casa.

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