A primeira vez que vi Paris

Escrevi este texto há quase um século, desde que os séculos passaram, tão rápidos, a ter dez anos. Retirei-lhe uma vírgula e acrescentei-lhe duas, que eu e as vírgulas temos um  pacto de infidelidade e hostilidade: ou nos seguram ou nos trucidamos. Nada mais mudei e julgo que, até ao fim da vida, odor de napalm que se acentua a cada manhã, nada mais mudarei.
Eis as minhas cidades: Paris é a cidade a que eu devia ter chegado logo depois de ter feito 18 anos, com o primeiro passaporte que a PIDE me autorizou. Nova Iorque é a cidade em que viveria quando, aos 30 anos, atingi a idade mental de 21. Mas tenho com a letra «L» uma insólita e inexplicável relação amorosa. Luanda será para sempre a minha cidade de infância e adolescência, a minha alegria e a minha dolorosa e insubstituível nostalgia;  o Lobito é esse breve e fulgurante luxo subversivo e transgressor dos dois anos mais prodigiosos da minha vida, guerra e militância como se a vida fosse, e era, um filme; Lisboa é a cidade que, por eu não ser capaz de tomar conta dela, tomou conta de mim, a quem devo a coragem de passar a adulto, o amor, ser quem sou, a devoção a uma casa, ao trabalho e às empresas, a esses amigos nascidos, não do ócio, mas da partilha de obrigações e dos sonhos em que sabemos começarem as responsabilidades. E agora, metam-se comigo no avião e vamos que Paris está à espera.   

Paris

A primeira vez que vi Paris: olhos rasos de água, claro. Tinha acabado de tirar os olhos de Lisboa e começava a ver o que na vida tinha para conquistar.

O avião sobrevoou a cidade e vi, lá de cima, o Sena apertado à esquerda e à direita, como vi a Torre Eifel a levantar-se, com estatura cartesiana, uma espécie de “cogito” urbano como não há em mais lado nenhum, a não ser em Nova Iorque onde os franceses plantaram, como “ersatz”, a Estátua da Liberdade.

Sei bem que a França não está na moda. Na moda tem estado, e julgo que ainda está, dizer que os franceses são arrogantes e os parisienses insuportáveis. Mas nesse dia, em que pela primeira vez vi Paris com olhar cândido e souci de connaissance, encontrei o meu par.

A minha França começara, quase por acaso, quando (terá sido em 1962?) o meu pai trouxe, do porto de Luanda, uns discos abandonados, 45 rpm, de Jean Ferrat, um crooner (ou um poeta-autor?) que me fez ouvir a estranha música de uma das mais belas línguas que conheço. Depois, um bom bocado depois, sozinho ou com ajudas, peguei de frente e de cernelha, os poetas, de Rimbaud a Éluard, de Baudelaire a René Char.

Antes, a França já me tinha sido passe-partout para atravessar a alegre tristeza da adolescência. Foi o meu yé-yé, com o Michel Polnareff da poupée qui fait non, foi o meu sonho do baile de sábado à noite em que Sylvie Vartan era la plus belle pour aller danser. Eu, que vivia em África, delirava com o Tour de France em que Jacques Anquetil invariavelmente esmagava Raymond Poulidor, o mais injustiçado dos ciclistas.

A primeira vez que vi Paris, deixei-me ficar. Tinha um quarto esconso, no último andar de um qualquer número da Rue du Bac, em pleno 6eme, entre a rue de Grenelle e o boulevard Saint Germain. Margem esquerda, a que me ficou no coração, mas a que hoje, aprendida a lição de Truffaut, sou infidelíssimo. Descobri, da Opéra à Madeleine, de Pigalle a Montmartre, a sensualidade marginal da direita, a que me entrego com volúpia baudelairiana.

Não sei se a França de que continuo a gostar, por tanto a ter antes amado, ainda existe. Era, essa França de que primeiro gostei, a mesma França com que Hollywood sonhou quando fez “An American in Paris” ou “The Last Time I Saw Paris”. Elegante, generosa e cosmopolita. Luminosa e vã. Tenho a vaidade de pensar que lhe devo a minha educação sentimental.

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