O que eu gosto disto. Eu quero. Eu não sei o que quero. Eu quero tudo. Eu já não quero nada. Eu quero que se lixe: je suis pris de nostalgie… dis-moi que tu m’a aimé jadis.
Esta jovem mulher, de quem, se Godard não fosse já o fantasma de Godard, como eu já começo a ser o fantasma de mim mesmo, faria uma Anna Karina congolesa, é uma belíssima, irónica, sofrida, suavemente triste cantora belga. Canta maravilhosamente. Para mim, claro. Só para mim.
Escrevi esta carta a Jean Seberg. Há quase onze anos que estou à espera de resposta. Vieram bater-me à porta dizendo que ela me tinha mandado um filme. Fui a correr. Tropecei, arrastei-me pelo asfalto, mas entrei na cheia sala de cinema. Vi, frame a frame, o filme e vi bem que não era dela. Nem era ela.
Estão fechados os correios do céu, é o que é. No paraíso como neste purgatório que é a terra.
O cheiro a nazi empestava Paris. Era o desembestado ano de 1943 e da mão do poeta Paul Éluard nascera um poema, “Liberdade, escrevo o teu nome”, cuja fragância tricolor fez dele um alvo. Dizia: “Sobre os campos, sobre os horizontes /sobre as asas das aves / sobre os moinhos de sombras, / escrevo o teu nome”. Ele a sua amada, Nusch, passaram à clandestinidade: “Creio que somos forçados a ir uma temporada para o campo”, anunciou com desprendido humor.
Foram esconder-se em Lozère, no Sul de França. Não propriamente na aldeia, mas num hospital psiquiátrico, o asilo de Saint-Alban-sur-Limagnole. O director, o Dr. Lucien Bonnafé, velho amigo dos surrealistas, tinha uma visão inovadora da psiquiatria, apóstolo da psicoterapia institucional, que ligava o hospital à aldeia. Os internados abriam-se ao exterior, trabalhavam nos jardins do asilo, desenvolviam talentos artísticos. Ao mesmo tempo, Bonnafé, acolhia clandestinos, protegendo-os sob a propícia capa da loucura. A Éluard e Nusch deu-lhes outra identidade, Eugène e Marie Grindel, diagnosticando ao poeta uma conveniente nevrose ligeira. Como Éluard, havia clandestinos que enchiam uma ala e a fusão com os loucos legítimos era perfeita. Um dos clandestinos, um médico judeu, inimigo da discrição, passeava-se pelos corredores gritando: “Eu não sou doido, eu sou judeu. Os doidos vão ser perseguidos, mas eu sou judeu.”
Os meses que Éluard viveu no asilo foram gloriosos. Ali, entre alucinados, catatónicos e dementes, Éluard confessa: “Trabalhei como um louco, se posso usar esta forma de falar”. Continua a escrever para a Resistência – os ingleses chegam a lançar de paraquedas papel para que a tipografia clandestina possa funcionar. Impressionado pelos rostos em ruínas dos pacientes, Éluard escreve as “Lembranças da Casa dos Loucos”, em que canta as ondas de amargura daqueles corpos, a face talhada em madeira dessa mulher que oferece aos ratos as carícias do fim da sua velhice.
Eu tinha 16 anos e não estava na poética clandestinidade de Éluard. Mas no meu bairro de Luanda, na Vila Alice, debruçada sobre a Estrada de Catete, havia uma casa de loucos. A tropa portuguesa alojara ali os cacimbados da guerra. Durante um ou dois anos, o meu bando de amigos e eu vínhamos aos sábados ou domingos de manhã conversar com eles. Lembro-me que vínhamos de bicicletas, salvo eu que, num gesto pingarelho contra o elitismo da bicicleta, usava uns heterodoxos patins. Portanto, vinha eu nuns patins antifascistas e os meus saudosos avilos nas bicicletas de alta estirpe e ficávamos do lado de fora da alta barreira de arame a conversar com os loucos da tropa.
Depressa fizemos triunfar as nossas ideias de “psicoterapia institucional”, emulando o então desconhecido Dr. Bonnafé de Éluard: abriram-nos as portas e passámos a ser internos. Descobrimos, claro, um Napoleão e um Jesus Cristo, mas descobrimos sobretudo o prazer das conversas, umas vezes singelas, outras bizarras: muito cacimbo, medo e, em vez das sombras dos moinhos de Éluard, as sombras e os relâmpagos da nossa guerra tropical.
Faltava o passo seguinte: pô-los a trabalhar. Desafiámos os malucos da tropa para um jogo de futebol num pelado improvisado que ficava entre o beco da minha Alberto Correia e o largo Camilo Pessanha. Meio bairro veio comer o pó desse trumuno. Já não me lembro do resultado, mas acho – se o suor, os esfolanços dos joelhos e os abraços contam –, que ganhámos todos. Mesmo as nossas espantadas famílias, que a seguir lhes deram o jantar.
Publicado em “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” no Jornal de Negócios
Conheci mal ou coisa nenhuma Vasco Pulido Valente. E conheci-o muito bem por tê-lo conhecido e só pelos olhos de João Bénard da Costa. Lembro aos milhares de rapazes e raparigas que descobriram a História do Cinema na Cinemateca Portuguesa, que a Cinemateca, como a conhecemos, autónoma, com salas e programação próprias, foi uma criação de Vasco Pulido Valente , quando foi Secretário de Estado da Cultura do governo de direita ou centro-direita da AD.
Vasco Pulido Valente, então, no final da década de 70, criou a Cinemateca Portuguesa conciliando a tradição e a inovação. Manteve Manuel Félix Ribeiro, cuja carolice e obstinação tinham permitido criar e conservar o Arquivo de Filmes (com milhares de títulos) e rasgou horizontes nomeando João Bénard da Costa para a programação, no que seria a mais exaltante e bem conseguida divulgação e fruição de obras de arte por novas gerações que Portugal viveu em décadas.
Sou parte interessada – integrei essa aventura ao lado de João Bénard – e tenho orgulho nessa ideia de que a divulgação das artes é (ou devia ser) acima de tudo um estado de emoção e erotização, como durante vinte e picos anos o foi com Bénard, e só por isso, por termos tido um governante que nisso acreditou, já Vasco Pulido Valente mereceria a vénia e o sentido apreço das milhares de pessoas que riram, choraram, se exaltaram e meteram o dedinho no sublime nas sessões da Cinemateca.
Mas sucede que Vasco Pulido Valente a tudo isso acrescenta um gosto de análise e de escrita que pisa na transgressão e salta para os braços da iconoclastia, num atropelo dos nossos brandos costumes que, até ver, já leva décadas de irrepetível na Imprensa portuguesa.
Vasco Pulido Valente foi o nosso melhor cronista das últimas décadas. Uma frase escrita por Vasco Pulido Valente vale – valia – longas e bem ou mal intencionadas prosas dos inteligentes … e já me perdi e só queria dizer que muitíssimo mais valia um artigo de Vasco Pulido Valente, mesmo que ele não tivesse razão nenhuma, do que o certíssimo artigo ou crónica do mais pintado. Cirúrgico, implacável, chocante, insurrecional, desconcertante: quem é que, podendo tomar drogas destas, quer saber do sossego virtuoso do confessionário.
Eis uma das maiores falhas da minha vida: convidei Vasco Pulido Valente e João Bénard para um jantar no Gambrinus. Queria que eles escrevessem juntos um livro para a Guerra e Paz editores. Locupletámo-nos, regámos a vinhos do Douro, a cigarros e a whiskies um jantar pantagruélico. O João exaltava-se com a ideia e esbarrava no muro de betão que era o cepticismo do Vasco. Até que eu ousei e levantei a voz e expliquei as minhas sublimes razões e o Vasco aceitou. Foi o meu centésimo de segundo de glória. Na manhã seguinte, uma colega editora telefonou-me a dizer que havia um compromisso incontornável: vetavam a pequenina infidelidade contratual que seria esse livro.
Voltámos a ver-nos numa festa de aniversário do João Bénard e era com o João, que fora director dele no antiquíssimo O Tempo e o Modo, que Vasco Pulido Valente adoçava, sorria, ria e ganhava bons modos de menino ao pé do pai. Pelos olhos de João Bénard, olhos de pai ou irmão mais velho, aprendi a ver com encanto fraternal, sempre deliciosamente justificadas, as tropelias, maldades ou judiarias a que política e irresistivelmente Vasco Pulido Valente se entregava. Os céus que se preparem: livre da lei da morte, o que lá em cima o ateu Vasco Pulido Valente fará às saias de Deus e às asas dos anjos não há de ser flor que se cheire. Bem haja, Vasco Pulido Valente.
Há duas semanas eram estes os ingentes temas que me afligiam. Bebi com eles as Bicas Curtas no CM, a 11, 12 e 13 de Fevereiro
A solidão, segundo Caspar David Friedrich
Tragédia em dois actos
A forma como a China lidou com o coronavírus é uma tragédia em dois actos. Primeiro, a negação que silenciou o Dr. Li Wenliang, celebrado como herói depois de morto, mas antes preso e obrigado a declarar que cometera actos ilegais, espalhando rumores falsos.
O segundo acto, dramático, é o de tentar comprar os infectados que se escondem. Na província de Fangxian, as autoridades pagam mil yuans aos doentes que se apresentem nos hospitais. Premeiam também a delação: todo o cidadão que reporte a existência de outro cidadão com febre recebe 500 yuans. A China compra, agora, o tempo que a obstinada negação fez perder.
Dono do mundo
Trump é um bom bode expiatório. Põe-se a jeito e gosta. Mas a América de Trump vem de trás. O muro contra o México começou com Bush e Clinton e continuou com Obama. Trump, como Lenine, até gostava de os apagar da fotografia.
Com Trump a América tira o rabinho do fogo do Médio Oriente? Mas foi Obama o primeiro a sair de combate. Voltar as costas à Europa foi o suave desejo de Obama que Trump exacerbou. Isolacionismo e forte economia: hoje, nenhum país do mundo consegue viver sem os dólares americanos. Se quiser, a América estrangula qualquer nação privando-a daquelas notas verdes em que se lê In God we trust. Com ou sem drones.
Somos uns gajos sós
A liberdade descapotável que veio com a revolução sexual deu cabo de nós. Estou a falar dos homens, está claro. O amor significava antes o sacrifício a um certo compromisso com a família. Com a revolução sexual, caramba, nascemos para ser selvagens, sempre a abrir, com o cortejo de mil divórcios e nós a vemo-las passar.
Foi-se a velha família. Dizem os sociólogos que perderam as crianças, mais sozinhas, sem a garrulice de avós, tios e primos. Mas o homem também. O homem de hoje é um gajo só: perdeu a constância da doce companhia feminina e perdeu os laços de companheirismo que o atavam aos outros homens da velha e grande família.
Agora que não só os automóveis estão em extinção, como é anacrónica a ideia de um ser humano guiar um carro, lembrei-me de uma velha crónica sobre automóveis e sexo, cujo maior defeito era não falar do mais onanista dos filmes automobilísticos já feito.
Falo de “Drive”, realizado por Nicholas Winding Refn, belíssimo filme a cavalgar a obra-prima, todo feito à mão por Ryan Gosling.
A forma como conduzimos um carro é reveladora do modo como aceleramos na cama. É científico, asseguram-me. Ou seja, conduzir um carro é, vá lá, sexo metafórico. A ser assim, nos filmes, a devassidão começou com “Bullit”, em 1968, nas ruas de San Francisco, entre um Ford Mustang GT e um Dodge Charger 440 R/T.
No Dodge, dois homens patibulares. Ao volante do Mustang, Steve McQueen. Os carros circulam, suaves, mais longe do que perto, numa valsa de engate. A música embala, com o rumor duma batida nervosa em fundo. Os patibulares percebem-se seguidos, McQueen é o perseguidor. De repente, plano de pormenor no interior dum carro: um cinto de segurança aperta-se. Num tempo em que mal havia cintos de segurança e ninguém os apertava, era um indício de obscenidade.
A partir daí é à descarada: dois carros em cio. A geografia de San Francisco, montanha russa, favorece a orgia. Há acelerações súbitas que fazem explodir os motores, um tampão que salta, as quatro rodas no ar, suspensões que se esmagam contra o asfalto. Ai, ui, de pneus e aço. Nenhuma palavra ou som humano, como se apenas a intensa combustão das máquinas contasse.
E saem da cidade. Na estrada, aparece-lhes uma moto de frente, e sabe-se como as relações apaixonadas se dão mal com a presença de terceiros. O Mustang morde a poeira e conhece o ciúme do despiste. Volta vingativo, e vê-se na mão dos perseguidos a promessa orgástica duma caçadeira negra. Os carros estão lado a lado, num vaivém de bater um contra o outro. Ombro a ombro, pela frente, por trás, um toque de quadris. Dois, três tiros dos perseguidos não chegam para evitar o violento espasmo de ancas que o Mustang de McQueen lhes dá: o Dodge voa pelos ares, embate violento contra uma bomba de gasolina e explode em vermelho de fogo, clímax que até a pé, quanto mais de carro, todos perseguimos.
Foi a “primeira vez”. Até hoje, já vimos muito mais. No “Duel”, de Spielberg, há um camião, que devia ter vergonha naquele corpanzil, em assédio, abuso e castigo a uma viaturazinha, flor da estrada. Um carro perverso tira dos carris um comboio, em “French Connection”. Num claro caso de S&M, uma “pick-up” humilha e faz afocinhar um caça F-35, no último “Die Hard”.
Sinal dos tempos, no “Tomorrow Never Dies”, Bond já não toca, nem com um dedo, no volante. Deitado no banco traseiro do BMW 750i, controla, no ecrã de um pré ipad, choques promíscuos com carros voluptuosos. No fim, salta mesmo do carro que faz voar do alto de um arranha-céus, levando-o, por controlo remoto, a espetar-se, em espectáculo contra-natura, numa montra da Avis rent-a-car. Foi o plano mais rentável de toda a história do cinema. Afinal, mesmo motorizado e a ipad, o sexo rende sempre.
De que outra coisa pode ter morrido ele que não fosse de saudades de seu pai? Sérgio Bittencourt morreu aos 38 anos, não muito depois de ter composto “Naquela Mesa”, canção que brota como hera, alindando a gloriosa coluna da morte de Jacob do Bandolim, seu pai. Artur, meu pai, também tocava bandolim. Artur, como o polaco Jacob, que foi desaguar nas felizes águas do Rio de Janeiro, também imigrou, da aldeia beirã de Vale de Madeira para esse oceano de adobe e doce brisa de catinga e mandioca que era a pobreza esplendorosa do Sambizanga. Os ouvidos de Jacob regalaram-se a chorões e rodas de choro, os do beirão Artur a semba e merengues.
Ora, não é de nada disso que a minha incompetência quer falar. Quero só falar do que os meus ouvidos ouvem. “Naquela Mesa” foi cantada por uma legião de brasileiros que choram o lugar vazio do pai: juntem-lhes a minha alma lusíada que se desfaz na alma com que eles a cantam, seja a alma de Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves ou Zeca Pagodinho. Mas onde os meus pobres sentidos fecham os olhos e batem de cabeça nas altas janelas da lembrança, é quando a canta Zélia Duncan, acompanhada por Hamilton de Holanda ao bandolim e Nilze de Carvalho à viola. Zelia canta “… naquela mesa tá faltando ele / e a saudade dele tá doendo em mim” e tudo se atrapalha no meu afogado corpo, mãos pelos pés, o descomandado coração, olhos que anunciam chuva tropical. Que outra canção pode, como a canção de ausência do pai, fazer com que nos transformemos em peregrinos perdidos no deserto desconhecido de nós mesmos?
E vejam, um americano encontrou-se. Ainda não sopravam os ventos da I Grande Guerra e Ernie Burnett já ganhava a vida na América a compor canções. A sua mulher escrevia as letras. Criaram “Melancholy” e logo vem o raio do divórcio. Mas a Burnett não o largava a melancolia e voltou ao tema. Aprimorou-se e compôs “My Melancholy Baby”, a que um letrista popular, George A. Norton, deu as palavras. Foi um êxito. E vem a Guerra: o corpo artístico de Burnett bateu nas trincheiras e rigores de França. Um ataque de artilharia alemã pulveriza a sua posição. Recolhem os sobreviventes e Burnett é um deles. Está comatoso e sem a chapa de identificação, a que os americanos chamam, com humor canino, “dog tag”. No hospital de campanha recupera, mas fica em avançado estado de amnésia e sem que ninguém saiba quem é.
Pior, a sua chapa de identidade foi apanhada, solta, junto aos mortos. Dão-no como morto ou desaparecido. Morrera, parecia, o autor de uma canção que, no futuro, Judy Garland, Dean Martin, Sinatra, agora Michael Bubblé cantariam.
Ora, não sendo bem um Natal dos Hospitais, facto era que os americanos cuidavam dos seus combatentes em perda. Ao hospital onde estava o despardalado Burnett veio um pianista. Tocava para sublimar a tragédia acre de cada um, allegro e morfina para os sentimentos. O pianista viu na lista dos mortos o nome de Burnett. Disse aos homens estendidos nas camas da enfermaria quem era e que o ia homenagear. Desata a tocar “My Melancholy Baby”. Está o pianista a cantar os versos “afasta os teus medos/ sorri e não chores” e o anónimo e amnésico Burnett levanta-se da cama, aos gritos, “Esta canção é minha, esta canção é minha”, recuperando a memória e redescobrindo-se inteiro, nome, músico, reparando a ausência de si mesmo.
Décadas depois, a interpretação de um trio de génios, Charlie Parker no sax, Thelonius Monk ao piano, Dizzie Gillespie no trompete, faria dessa canção uma folha de veludo para os ouvidos de Deus.
Publicado em “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios
Estas foram as bicas curtas que bebi com os leitores do CM na primeira semana de Fevereiro, nos dias 4, 5 e 6.
Na 3.ª feira, feira da ladra
Precariedade populista
Do meio-dia à meia-noite, andam militantes identitários a gritar racismo na praça pública e a rasgar vestes em defesa das minorias, chantageando o cidadão comum, tentando meter-lhe na cabeça mais culpas do que as trovejadas por um possesso monge medieval para ameaçar com as profundas do inferno o cristão de carne fraca.
Salvem-se desses falsos profetas! As minorias precisam de se integrar, os seus filhos de estudar, de ser cientistas, professores, empresários, exercer direitos e assumir deveres. Têm de pertencer ao projecto comum que é ser-se português. Fujam à precariedade de ser carne para canhão da militância populista.
Na 4.ª é de estar alerta
No fim, a miséria
Na Europa, o populismo de direita usa mentiras e enormidades incendiárias que dramatizam traços minoritários da realidade. Lançam baboseiras catastrofistas sobre a imigração, a criminalidade e insegurança, explorando os nossos medos mais viscerais. A direita democrática tem tido a coragem de fazer o cordão sanitário.
Está a esquerda democrática pronta a fazer o cordão sanitário a um populismo de esquerda – Livre ou BE – que contrabandeia para Portugal as baboseiras do discurso identitário que faz das minorias étnicas reféns, explorando os seus medos ancestrais? Extrema esquerda ou direita são gémeas: onde triunfam, geram miséria.
Na 5.ª, não confirme nem desminta
Sinal vermelho
Bombaim inventou o semáforo moralista. Os automobilistas de Bombaim têm buzina leve e mão pesada. A doida cacofonia que assombra a cidade faz do condutor lisboeta um anjo. Quando é que o automobilista de Bombaim apita? Sempre. Há cem carros parados? Apita-se. Está vermelho no cruzamento? Buzina-se.
As ruas de Bombaim são as mais ruidosas do mundo. Não há tímpanos nem corações que aguentem. As autoridades criaram, por isso, um semáforo que não sai do vermelho logo que o desaustinado chinfrim atinge o volume de 85 decibéis. Quanto mais buzinas, mais esperas. O semáforo já não regula só o trânsito. Também castiga, educa e moraliza.