Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
O insulto chega a Lisboa. Numa sessão que se antecipa memorável, um poeta, um emérito jornalista e dois autores e professores de grandes universidades europeias vão debater e dissecar os insultos. Manipulá-los, porventura, como se fossem as espadas de laser da Guerra das Estrelas.
O evento terá lugar daqui a duas semanas, na 2ª feira, dia 15 de Outubro, às 18:30 e o ringue do combate é a Fnac Chiado. Quem ficará KO?
Eis os oradores e os respectivos temas:
Fernando Jorge Antunes – O Verdadeiro Insulto é o Insulto Caluanda;
Marco Neves – A Insidiosa Geografia do Insulto;
Henrique Monteiro – Insulto Quem Me Apetece com Palavras Desconhecidas;
Fernando Venâncio – O Povo Que Baniu o Insulto.
Foi Jean-Luc que teve a culpa. Eu já amava desarvoradamente as canções de Charles Aznavour. Calções de 12 anos, ainda dar a mão a uma miúda me deixava em estado de temor e tremor, e já as canções dele me faziam estremecer de uma escondida emoção, por recear que pudesse ser um bocadinho mariquinhas.
Mas eis que Jean-Luc Godard… ah, perdão, e já me estou a espalhar na cronologia. Eis que, aos 15 anos, leio na revista Notícia, em que escrevia Herberto Helder, que Aznavour cantava em Luanda e ia com ele uma loura que era a loura, síntese, epítome, ideia platónica de todas as louras. Fora entrevistá-lo Carlos Brandão Lucas, o homem da rádio da minha vida, voz, charme, allure, que tomara a França inteira, meu futuro patrão, com que ganhei uma fortuna, sem que ele me tenha algum dia pago um angolar que fosse. E não é que, um ou dois olhares louros, que sei eu, nem eu quero saber do que não sei, envolvem-se os dois aos empurrões, um soco tropical, que o Carlos, não o Charles, jamais me quis contar. E eu percebi que aquilo eram canções de amor rijo, uma gentileza e cortesia que são a forma de disfarçadamente dizer o que não se podia, por reserva, dizer: tesão, nudez, cama, beijos húmidos, húmidos outros beijos.
Seria? Mas eis que Jean-Luc Godard – e agora sim, a cronologia está certa – saca de uma juke-box e, em Une Femme Est Une Femme, arma, com a inderramável beleza de Anna Karina e a insolência masculina de Jean-Paul Belmondo, uma longa cena de mímica, insinuações, silêncios, olhares para cima e olhares para baixo, só para se ouvir, inteirinha uma canção de Aznavour. “Tu t’laisses aller” é uma canção de amorosa recriminação, quase um apostrófico ataque à perda do desejo, ou melhor, à perda dessa auto-estima que faz com que queiramos ser belos e desejáveis aos olhos de quem queremos que nos ame. Com Godard e com esse filme de Godard, mais do que com o amado Truffaut, que também o meteu nas bandas sonoras dele, Aznavour ascendeu, aos meus olhos para-adultos, ao estatuto modernista de um James Joyce, os seus versos de café e erotismo de costureirinha a rivalizarem com os de Eliot ou Pond. Mesmo que falassem de free-jazz, música atonal, o que fosse, eu podia falar de Charles Aznavour e dessa canção que o autor-mestre do jump-cut, inquieto filósofo da montage mon beau souci, legitimara aos meus olhos míopes.
Isto bastava para justificar uma vida. Mas eis que vou um dia a casa de uma amiga parisiense, a um quarteirão de distância de Pigalle, entrada por um pátio comum, diz-me ela, num sussurro, aqui (e já não sei se, apontando, ela disse, ali) mora Charles Aznavour. Não sei se o que me ceifou a cabeça foi a memória do Emmenez-moi au bout de la terre, emmenez moi au pays des merveilles, se o vertiginoso perfume de um J’en déduis que je t’aime.
Eu já tinha isto tudo, chansons d’or, mas os deuses ou só a boémia – et pourtant – quiseram cumular-me com a graça burguesa do espectáculo. Foi o Pedro Bandeira Freire que comprou os bilhetes.Éramos quatro, a Antónia e eu, a balançarmo-nos com essa leveza de quem ama a tristeza de Veneza e de quem nada esqueceu, e fomos ver Aznavou cantar em Lisboa, sabendo que era a última vez que o veríamos. Ficou-me essa memória, Pedro, plus bleu que tes yeux, e tão azuis que os teus eram, Pedro.
Repito, o que disse um dia. Por mais estima que eu tenha pela canção francesa, e tenho muita, do que eu gosto mesmo é de Charles Aznavour. Gosto muito mais de Aznavour do que de Gilbert… oh, mas que é que isso interessa. Gosto muito mais do Charles do que de Yves… oh, deixa lá isso. Gosto muito mais dele do que do Serge …. oh, poupa-me.
Do muito que gosto de Aznavour é de ele se ter metido na minha vida. Aznavour está por cima, agora muito lá por cima, em plenitude. Já nem precisa de ser muito bom. Basta-lhe ser gentil e sem remorsos. Certo na melodia. Infalível no tempo. Assim o hei de lembrar, enquanto eu possa lembrar.
Eu não estava lá. Eu não estava lá, na noite em que fui concebido.
Sobre esta falha, sobre essa imagem que nunca vimos e que nunca veremos, sobre a falta dessa imagem que a miríade de imagens que nos cerca e sufoca não consegue fazer esquecer, Pascal Quignard fez um livro.
Chamou-lhe La Nuit Sexuelle e é um livro de imagens. Ia dizer que neste álbum deslumbrante prevalecem as imagens doutras noites, iguais porventura à noite fundadora a que dificilmente poderíamos assistir, e que, nas espessas noites que as imagens de Quignard reproduzem, julgamos escutar, tementes e trementes, repulsiva e fascinadamente, o eco da imagem que jamais se revelará aos nossos olhos… “Maintenant je désire m’engloutir dans cette nuit qui d’entrée de jeu comuniqua sa couleur à ces pages.” E, no entanto, essa “noite sensorial”, presente embora, não é, ao longo de La Nuit Sexuelle, nem avassaladora, nem sequer dominante.
Livro soberbo, nele se cruzam, maravilhosamente reproduzidos, quadros de Caravaggio e Rubens, de Leonardo e Ticiano, de Goya e Picasso, de Regnier e Van Den Hoecke. Correndo a par de um texto minimal, deliciosa e insensatamente francês (if you know what I mean), há também desenhos anónimos do sec. XV ou do séc XVII, anónimos chineses e anónimos egipcíos, há Pietás e Massacres de Inocentes, há mãos que empunham falos, há ninfas empaladas e sacríficios satúrnicos.
Quando chegamos ao fim dos 27 capítulos de La Nuit Sexuelle, depois do nosso olhar ter viajado por mais de duzentas pinturas em que habitam a nudez, o crime, o voyeurismo e a carnalidade, sabemos que toda essa visibilidade não nos revelou ainda a “cena invisível”, Mas sabemos talvez que essa “cena” está na origem da pintura, tanto mais quanto, em latim, pénis (penicillus) quer até dizer “pequeno pincel”. La Nuit Sexuelle é o livro de uma alegria negra, como negras são, literal e graficamente, as suas páginas de um couché tão suave como a pele em que, numa noite que nunca vimos, dedos se perderam, outros dedos se encontraram.
Prometo vir aqui, regularmente, dar conta dos meus gostos obsessivamente optimistas e desenvergonhadamente encantados. Calhou ser outra vez um livro. Este foi editado, com brio e farto investimento, pela Flammarion. Tem 19,5 cm de comprimento por 28 de largura. A encadernação, com sobre-capa, abriga 279 páginas gloriosas, às vezes tórridas. Custa 85€. Abençoado dinheiro.
Há um século entre o Angelus, de Millet e a Reminiscência arqueológica do Angelus de Millet, que Salvador Dali pintou. Um século é imenso e tão pouco. Quase não dá tempo para mudarem as nuvens no céu, nem para calcificarem as figuras na terra.
Também vivemos de reminiscências. Afinal, não é assim tão importante querer mudar o mundo.
Reminiscência arqueológica do Angelus de Millet, Salvador Dali, 1933
Há muitos, muitos anos, num planeta muito, muito distante chamado Terra, e havendo ainda uma instituição a que se chamava “correios, telégrafos e telefones”, um jornalista inglês mandou um telegrama ao agente de um famoso actor, Cary Grant, perguntando-lhe: “How old Cary Grant?”
Acidentalmente, e como só nesses tempos remotos acontecia, o telegrama acabou por cair nas mãos do actor. Não só não se ofendeu, como, com panache e de coração ao alto, respondeu: “Old Cary Grant fine. How you?”.
O mundo já teve graça. Depois, dizem, ficou perigoso. A mim parece-me que talvez esteja só chocho.
Hoje, neste falso Outono de 2018, hoje que Lisboa e Portugal são o acrisolado destino da Europa e do Mundo, eis que a África, a minha ideia de África e as minhas memórias de África vêm e voltam, como uma espécie de náusea feliz e dionisíaca, matizar o apolíneo cortejo de pompa e circunstância com que os “media” nos brindam. A nostalgia, na sua preguiçosa forma tropical, mordeu-me e eu deixei, deixo, deixarei sempre.
Lembro-me de que cheguei a Luanda a 29 de Junho de 1959. Dia de São Pedro. Do belo convés do Vera Cruz, e ainda antes de ver o meu pai, ausente há dois anos, a primeira coisa que me fascinou foram as barrocas vermelhas, erguendo-se contra o mar, desafiando a baía, tão selvagens como Monument Valley, que só muito mais tarde os filmes de John Ford me fariam descobrir. Nunca mais conseguirei ser de uma cidade como fui da cidade de São Paulo da Assumpção de Loanda.
Lembro-me de que a vida era doce e quente, tão genuína como o espectáculo da projecção de filmes no cinema dos padres capuchinhos, em que os espectadores tentavam alterar o curso dos westerns atirando sapatos aos “bandidos” para salvar o “rapaz” ou gritavam e assobiavam em desvairada apoteose sempre que um beijo em grande plano enchia o écran.
Lembro-me que as Bessanganas, as Senhoras do Sambizanga varriam o chão de terra em frente à sua cubata deixando-a irreprensível de limpa, numa higiene natural que só a honesta mão humana oferece. A pobreza, quando usa a vassoura, confere, ó se confere, um brilho ético ao mundo.
Lembro-me da música tão física e lembro-me – eu que construí laboriosamente a lenda de que os N’Gola Ritmos ensaiavam na minha rua, mas eram só os Ngoleiros do Ritmo – de uma noite ter bebido copos até o sol nascer num grupo em que estava o Elias Diá Kimuezo.
E lembro-me, no Liceu Nacional Salvador Correia, de beber livremente Coca-Cola pelas garrafas que depois imortalizariam Andy Warhol e de ter lido dezenas de livros proibidos porque o pai de um dos meus melhores amigos era inspector da Pide e dava a ler ao filho, e ele a mim, os livros que eram proibidos aos outros.
Prezo tanto mais estas memórias quanto elas não têm já qualquer substância. São Paulo da Assumpção de Loanda é hoje outra cidade e aquela África outra África. Como nas ficções labirínticas de Borges, quem sabe se essa África não foi apenas um sonho (pesadelo para outros) e nesse sonho eu fui só coisa sonhada.
Convido-vos a virem comigo ao WC feminino da Cinemateca Portuguesa
ai, mizoguchi
Mas afinal, onde está a arte? Projectava-se o “Je Vous Salue Marie” na Cinemateca. No gigantesco portão da rua uma multidão de integristas tentava rebentar as barras, como se lá dentro estivesse a arte cativa e fosse preciso libertá-la das garras do João Bénard y sus muchachos, banda mariachi que era o ódio de estimação do então famoso crítico Augusto M. Seabra, a quem mando um abraço. Jovens de piedosos 20 anos trepavam o íngreme gradeamento, tombando na calçada do passeio, quais figurantes eisensteinianos. No breu da sala esmurravam-se integristas imberbes, velhos comunistas e perplexos polícias, concorrendo em arte e beleza com as imagens blasfemas e basquetebolistas de Jean-Luc Godard. A sala tinha um hálito de Espírito Santo, mistura do cheiro imperial a coca-cola teenager com o bafo lusíada de militante bagacinho foice e martelo. Não era o pandemónio, era a arte.
um hálito de Espírito Santo
Mas afinal onde está a arte? Andava a Cinemateca enroladinha com a Gulbenkian a fazer um Ciclo do pasmoso Cinema Musical e, na salinha Félix Ribeiro, pensou-se exibir o salmo à fé punk que era “The Great Rock ‘n’ Roll Swindle”. Ora bem. Houve, como nunca houvera, uma multidão espontânea em Lisboa. Era uma multidão de cabelos arco-íris eriçados, roupas em variantes negras de negro, botas e metais. Era a multidão anti-portuguesa que cuspia. Só o mau vinho carrascão em garrafas de grosso vidro verde a ligavam ainda à pátria de Afonso Henriques. As paredes da Cinemateca abaularam-se, um leque de líquidas, semi-sólidas ou sonoras manifestações metabólicas escorreram por sofás e alcatifas. Obra e espectadores fundiam-se, centáuricos, num todo caótico e sublime, arte total que humilharia Wagner e os execráveis wagnerianos.
um salmo à fé punk
Voltei ontem à Cinemateca. Ah, chorava eu, a melancolia que desliza pelas paredes tão institucionais e académicas de hoje! E eis que, não podendo dizer quem foi, e não fui eu, alguém vem do WC do urgente sexo feminino e me segreda que, numa das escatológicas portas, delicada mão em êxtase lavrou o haiku que resgata qualquer cinzentismo, fundindo, em sublime anseio artístico, a sala, os filmes exibidos e os mais fundos desejos dos espectadores. Na porta do WC, a mulher em chamas escreveu, e eu espero que se preserve e arquive como obra de arte: “Mizoguchi lambe-me a pussy.”
Já aqui dancei. Com cândidas e vitais playmates roubadas a Hugh Heffner, com a maravilhosa gente da ex-indústria televisiva, que se finge fútil para não lhe dizer o que vai na alma. Já aqui bebi copos. Não sei se me confessei ou não e talvez me tenham feito confissões, que a mim mesmo me proíbo de lembrar. Mas sei, sobretudo, que fiz aqui um amigo.
“No hay tablao” no La Chunga, mesmo em frente ao Hotel Martinez, em Cannes, a cidade do festival de cinema, a cidade dos mercados de televisão.
Piano-bar depois da meia-noite (antes dessa redonda hora é restaurante para factícios príncipes e putativas cinderelas), com música variada e frequência unilateralmente suspeita, “no hay tablao” nem é preciso, porque nas cadeiras ou nas mesas – em todo o lado, menos no chão – jovens mulheres e homens de matura idade dançam enérgica e livremente, sempre bem acima do nível do mar.
Não me lembro de quem canta e do que se canta! Minto, minto: lembro-me da Katty Blue a cantar na materna língua francesa, e também em fluente inglês (naquelas nocturnas horas em que todo o inglês que se ouve parece saltar de Lady Macbeth para o Paraíso Perdido) e ainda (volare, volare!) num macarrónico mas doce italiano. Morena, quase um metro e setenta, olhos negros, nascida, julgo, em St.Tropez.
Não, não me lembro: invento! Ao ponto de me atrever a jurar que Katty Blue tinha a elegância ainda não anoréxica dos 60 quilos!
No La Chunga, até às 5 da manhã, dança-se. Em homenagem, creio, a Micaela Flores Amaya, cigana andaluza, bailarina, que os pais fizeram nascer em Marselha e, de Picasso a Ava Gardner, conquistou os grandes do mundo, conhecida e amada como La Chunga. Essa, ela, cujos “pies descalzos” – tendo abandonado aos 21 anos o flamenco por ter casado e sido mãe – mais tarde “volvieron a pisar anoche el tablao del Café de Chinitas”.
Gostaria de pensar que o La Chunga foi dela, ou foi criado por amor a ela. E gostaria ainda de acreditar que a homónima peça de Vargas Llosa, protagonizada pela proprietária de um bar no Perú, se inspirou na andaluza bailarina e nesta sexy espelunca do 24 da rue Latour-Maubourg que, perpendicular, desagua na Croisette.
A verdadeira bailarina e a fictícia peça de Llosa são porventura coincidências. Ou são apenas reflexo de um (meu) desiderato descabelado e optimista. Pouco importa. Das minhas noites no La Chunga guardo a inocência dum prazer em primeiro grau. Não precisam – aquelas cendradas noites – de caução. Basta-lhes essa intensa e infantil alegria de, cantando mal e dançando pior, terem firmado electivas afinidades.
No La Chunga, mesmo quando é de pinguins que se fala, nas cadeiras ou em cima das mesas, dança-se sempre, limpidamente, acima do nível do mar.