Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Já não sei quando, como ou quem, mas sei que um dia me perguntaram, com uma ligeira inflexão irónica de voz, se eu tinha alguma receita especial para estrelar ovos. Pois bem, por acaso até tenho e tem os seus requintes. Ponto parágrafo e aí vai ela.
Coloque uma noz de irredutível e incomparável manteiga na frigideira, a aquecer. Cá fora, separe a gema da clara – sempre fui a favor da fusão, mas há momentos em que é absolutamente necessário separar. Quando a manteiga estiver com aquele doce calor de quem já pede outro corpo fresco, deite a clara – só a clara – na frigideira e deixe fritar até que a fímbria da nimbada clara se exiba ostensivamente dourada. Nessa altura, com aquele módico de ternura que qualquer cozinha exige, e num um gesto prenhe de doçura e delicadeza, ponha a solitária gema em cima da clara, polvilhando com duas pedrinhas de sal e três singelos grãos de pimenta. Sim, o que então verá, no momento em que gema e clara se tocam, é mesmo um pas de deux da gema, antes de, rendida, se fixar na já não gelatinosa clara.
E a partir de agora mergulhe no puro artesanato: com uma colher, verta a manteiga douradinha (já castanha, se nos deixarmos de lirismos) sobre a gema. Quando a dita mostrar sinais de algum bronzeado (em boa verdade a clara estará igual ao tom de pele da Tais Araújo ou da Halle Berry e a gema assumirá a política incandescência de uma Pocahontas) retire o ovo da frigideira e sirva. Melhor, trinque: hmmm, é em momentos como este que percebemos como o sexo anda tão sobrevalorizado como a transcendência. Trinque intranscendente, obscena, pantagruelicamente. O sabor de pasto selvagem da líquida gema combina-se com o crocante da clara. O palato exulta, invadido por uma alegria animal, terrestre. Ah, os prazeres de boca.
E a estas meninas, o que as ilumina? A aristocrática luz elitista ou o farol do proletariado. (As apanhadoras de nozes de William Bourguereau
Quantas machadadas dialécticas dilaceraram já a minha vida? Leitor e admirador de um filósofo conservador inglês, Roger Scruton, preparo-me para publicar em breve “Como Ser um Conservador”, um livro que considero um hino à vida, ao amor à comunidade e à cultura que nos dá identidade, à saudável relação com a natureza, plantas e animais que nos viram nascer e vimos florir e crescer, um livro que põe a direita no sítio de racionalidade onde ela deve estar e exige à esquerda que seja capaz de pensar fora dos ferrados sapatos ideológicos que tantas vezes a tolhem.
Criticado pela esquerda, Scruton, filho de uma família trabalhista, não se livra da crítica à direita. Há, e também em Portugal, uma direita pretensamente aristocrática, tauromáquica, cega pelo nascimento, movida pelo preconceito. Para essa direita, Roger Scruton terá sempre uma falta: não nasceu bem e não pode, por isso, elevar-se a essa plataforma nefelibata a que só o nascimento nas alturas dá direito.
Riam-se, mas o motor imóvel da tese dessa arqui-direita não dá margem a discussões: Scruton tem mesmo um problema congénito. Plebeu como é, falta-lhe a elevação de vistas que só pode ter quem nasceu nas alturas. A fulgurante validade sociológica, filosófica e científica deste autêntico “motor imóvel”, emudece qualquer discussão.
Confesso que aquele impensado classista me recorda, mutatis mutandis, alguns deliciosos e gloriosos episódios dos tempos dos “amanhãs que cantam”. Coisas do meu esquinado passado esquerdista. Lembro-me de que a introdução de algum módico de racionalidade no desvario ditatorial do proletariado era sempre contrariado com essa incapacidade de “elevação de vistas” que a burguesíssima origem de classe me bloqueava e a que só os operários de todo o mundo (e os camponeses na China) poderiam alcandorar-se.
Teses, a de elitistas e proletários, justificadas, bem entendido, por um berço, o berço elitista ou o berço proletário. Ou de como as teorias da direita elitista e a marxizante visão da luta de classes são bons espíritos dispostos a alguma carnal convivialidade… A cada um a sua ficção se, bem feitas as contas, não fosse evidente que têm, ambos, uma única e mesma ficção.
Quando se comparam classes, raças, sexos, passe embora o direito que a todos assiste de escreverem as ficções que muito bem entendam, tenho para mim que há uma obrigação mínima para uma teoria ser galante e aristocrática de espírito: a de fugir à fácil muleta da generalização.
Para as ficções que cultivamos, cada um escolhe também o pathos que muito bem entende. O de Scruton quer ser elegíaco e elitista, ilegítimo no berço dirão os autênticos filhos de família. Mas a verdade é que os livros de Scruton, e também este “Como Ser Conservador” que está a chegar às livrarias, vertem o seu pensamento numa prosa irrepreensível, de um bom gosto limpo de inanidades sobranceiras.
Ainda assim, a ser-me dado escolher, nestes dias de um infindável sol de Verão que continua a aquecer o nosso estranho Outono, prefiro deixar-me levar pela interioridade estóica e desencantada que emana destes versos de W.B. Yeats. Elitismo? Ou plebeísmo?
An Irish Airman Foresees His Death I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
Um Aviador Irlandês Prevê A Sua Morte Eu sei que encontrarei o meu destino
Algures, no céu, entre as nuvens;
Não odeio aqueles que combato,
Não amo quem defendo;
O meu país é Kiltartan Cross
Os pobres de Kiltartan, o meu povo,
Desgraça, fim algum lhes trará,
Nem mais felizes os fará.
Nenhuma lei ou dever me obrigam a lutar
Nem políticos, nem o aplauso da multidão,
Um arrepio de prazer apenas
Lançou-me no tumulto entre as nuvens;
Pesei tudo, tudo me veio à mente.
Os anos a vir pareceram-me em vão,
Em vão os anos passados.
Espelho desta vida, esta morte.
O insulto chega a Lisboa. Numa sessão que se antecipa memorável, um poeta, um emérito jornalista e dois autores e professores de grandes universidades europeias vão debater e dissecar os insultos. Manipulá-los, porventura, como se fossem as espadas de laser da Guerra das Estrelas.
O evento terá lugar daqui a duas semanas, na 2ª feira, dia 15 de Outubro, às 18:30 e o ringue do combate é a Fnac Chiado. Quem ficará KO?
Eis os oradores e os respectivos temas:
Fernando Jorge Antunes – O Verdadeiro Insulto é o Insulto Caluanda;
Marco Neves – A Insidiosa Geografia do Insulto;
Henrique Monteiro – Insulto Quem Me Apetece com Palavras Desconhecidas;
Fernando Venâncio – O Povo Que Baniu o Insulto.
Foi Jean-Luc que teve a culpa. Eu já amava desarvoradamente as canções de Charles Aznavour. Calções de 12 anos, ainda dar a mão a uma miúda me deixava em estado de temor e tremor, e já as canções dele me faziam estremecer de uma escondida emoção, por recear que pudesse ser um bocadinho mariquinhas.
Mas eis que Jean-Luc Godard… ah, perdão, e já me estou a espalhar na cronologia. Eis que, aos 15 anos, leio na revista Notícia, em que escrevia Herberto Helder, que Aznavour cantava em Luanda e ia com ele uma loura que era a loura, síntese, epítome, ideia platónica de todas as louras. Fora entrevistá-lo Carlos Brandão Lucas, o homem da rádio da minha vida, voz, charme, allure, que tomara a França inteira, meu futuro patrão, com que ganhei uma fortuna, sem que ele me tenha algum dia pago um angolar que fosse. E não é que, um ou dois olhares louros, que sei eu, nem eu quero saber do que não sei, envolvem-se os dois aos empurrões, um soco tropical, que o Carlos, não o Charles, jamais me quis contar. E eu percebi que aquilo eram canções de amor rijo, uma gentileza e cortesia que são a forma de disfarçadamente dizer o que não se podia, por reserva, dizer: tesão, nudez, cama, beijos húmidos, húmidos outros beijos.
Seria? Mas eis que Jean-Luc Godard – e agora sim, a cronologia está certa – saca de uma juke-box e, em Une Femme Est Une Femme, arma, com a inderramável beleza de Anna Karina e a insolência masculina de Jean-Paul Belmondo, uma longa cena de mímica, insinuações, silêncios, olhares para cima e olhares para baixo, só para se ouvir, inteirinha uma canção de Aznavour. “Tu t’laisses aller” é uma canção de amorosa recriminação, quase um apostrófico ataque à perda do desejo, ou melhor, à perda dessa auto-estima que faz com que queiramos ser belos e desejáveis aos olhos de quem queremos que nos ame. Com Godard e com esse filme de Godard, mais do que com o amado Truffaut, que também o meteu nas bandas sonoras dele, Aznavour ascendeu, aos meus olhos para-adultos, ao estatuto modernista de um James Joyce, os seus versos de café e erotismo de costureirinha a rivalizarem com os de Eliot ou Pond. Mesmo que falassem de free-jazz, música atonal, o que fosse, eu podia falar de Charles Aznavour e dessa canção que o autor-mestre do jump-cut, inquieto filósofo da montage mon beau souci, legitimara aos meus olhos míopes.
Isto bastava para justificar uma vida. Mas eis que vou um dia a casa de uma amiga parisiense, a um quarteirão de distância de Pigalle, entrada por um pátio comum, diz-me ela, num sussurro, aqui (e já não sei se, apontando, ela disse, ali) mora Charles Aznavour. Não sei se o que me ceifou a cabeça foi a memória do Emmenez-moi au bout de la terre, emmenez moi au pays des merveilles, se o vertiginoso perfume de um J’en déduis que je t’aime.
Eu já tinha isto tudo, chansons d’or, mas os deuses ou só a boémia – et pourtant – quiseram cumular-me com a graça burguesa do espectáculo. Foi o Pedro Bandeira Freire que comprou os bilhetes.Éramos quatro, a Antónia e eu, a balançarmo-nos com essa leveza de quem ama a tristeza de Veneza e de quem nada esqueceu, e fomos ver Aznavou cantar em Lisboa, sabendo que era a última vez que o veríamos. Ficou-me essa memória, Pedro, plus bleu que tes yeux, e tão azuis que os teus eram, Pedro.
Repito, o que disse um dia. Por mais estima que eu tenha pela canção francesa, e tenho muita, do que eu gosto mesmo é de Charles Aznavour. Gosto muito mais de Aznavour do que de Gilbert… oh, mas que é que isso interessa. Gosto muito mais do Charles do que de Yves… oh, deixa lá isso. Gosto muito mais dele do que do Serge …. oh, poupa-me.
Do muito que gosto de Aznavour é de ele se ter metido na minha vida. Aznavour está por cima, agora muito lá por cima, em plenitude. Já nem precisa de ser muito bom. Basta-lhe ser gentil e sem remorsos. Certo na melodia. Infalível no tempo. Assim o hei de lembrar, enquanto eu possa lembrar.
Eu não estava lá. Eu não estava lá, na noite em que fui concebido.
Sobre esta falha, sobre essa imagem que nunca vimos e que nunca veremos, sobre a falta dessa imagem que a miríade de imagens que nos cerca e sufoca não consegue fazer esquecer, Pascal Quignard fez um livro.
Chamou-lhe La Nuit Sexuelle e é um livro de imagens. Ia dizer que neste álbum deslumbrante prevalecem as imagens doutras noites, iguais porventura à noite fundadora a que dificilmente poderíamos assistir, e que, nas espessas noites que as imagens de Quignard reproduzem, julgamos escutar, tementes e trementes, repulsiva e fascinadamente, o eco da imagem que jamais se revelará aos nossos olhos… “Maintenant je désire m’engloutir dans cette nuit qui d’entrée de jeu comuniqua sa couleur à ces pages.” E, no entanto, essa “noite sensorial”, presente embora, não é, ao longo de La Nuit Sexuelle, nem avassaladora, nem sequer dominante.
Livro soberbo, nele se cruzam, maravilhosamente reproduzidos, quadros de Caravaggio e Rubens, de Leonardo e Ticiano, de Goya e Picasso, de Regnier e Van Den Hoecke. Correndo a par de um texto minimal, deliciosa e insensatamente francês (if you know what I mean), há também desenhos anónimos do sec. XV ou do séc XVII, anónimos chineses e anónimos egipcíos, há Pietás e Massacres de Inocentes, há mãos que empunham falos, há ninfas empaladas e sacríficios satúrnicos.
Quando chegamos ao fim dos 27 capítulos de La Nuit Sexuelle, depois do nosso olhar ter viajado por mais de duzentas pinturas em que habitam a nudez, o crime, o voyeurismo e a carnalidade, sabemos que toda essa visibilidade não nos revelou ainda a “cena invisível”, Mas sabemos talvez que essa “cena” está na origem da pintura, tanto mais quanto, em latim, pénis (penicillus) quer até dizer “pequeno pincel”. La Nuit Sexuelle é o livro de uma alegria negra, como negras são, literal e graficamente, as suas páginas de um couché tão suave como a pele em que, numa noite que nunca vimos, dedos se perderam, outros dedos se encontraram.
Prometo vir aqui, regularmente, dar conta dos meus gostos obsessivamente optimistas e desenvergonhadamente encantados. Calhou ser outra vez um livro. Este foi editado, com brio e farto investimento, pela Flammarion. Tem 19,5 cm de comprimento por 28 de largura. A encadernação, com sobre-capa, abriga 279 páginas gloriosas, às vezes tórridas. Custa 85€. Abençoado dinheiro.
Há um século entre o Angelus, de Millet e a Reminiscência arqueológica do Angelus de Millet, que Salvador Dali pintou. Um século é imenso e tão pouco. Quase não dá tempo para mudarem as nuvens no céu, nem para calcificarem as figuras na terra.
Também vivemos de reminiscências. Afinal, não é assim tão importante querer mudar o mundo.
Reminiscência arqueológica do Angelus de Millet, Salvador Dali, 1933
Há muitos, muitos anos, num planeta muito, muito distante chamado Terra, e havendo ainda uma instituição a que se chamava “correios, telégrafos e telefones”, um jornalista inglês mandou um telegrama ao agente de um famoso actor, Cary Grant, perguntando-lhe: “How old Cary Grant?”
Acidentalmente, e como só nesses tempos remotos acontecia, o telegrama acabou por cair nas mãos do actor. Não só não se ofendeu, como, com panache e de coração ao alto, respondeu: “Old Cary Grant fine. How you?”.
O mundo já teve graça. Depois, dizem, ficou perigoso. A mim parece-me que talvez esteja só chocho.
Hoje, neste falso Outono de 2018, hoje que Lisboa e Portugal são o acrisolado destino da Europa e do Mundo, eis que a África, a minha ideia de África e as minhas memórias de África vêm e voltam, como uma espécie de náusea feliz e dionisíaca, matizar o apolíneo cortejo de pompa e circunstância com que os “media” nos brindam. A nostalgia, na sua preguiçosa forma tropical, mordeu-me e eu deixei, deixo, deixarei sempre.
Lembro-me de que cheguei a Luanda a 29 de Junho de 1959. Dia de São Pedro. Do belo convés do Vera Cruz, e ainda antes de ver o meu pai, ausente há dois anos, a primeira coisa que me fascinou foram as barrocas vermelhas, erguendo-se contra o mar, desafiando a baía, tão selvagens como Monument Valley, que só muito mais tarde os filmes de John Ford me fariam descobrir. Nunca mais conseguirei ser de uma cidade como fui da cidade de São Paulo da Assumpção de Loanda.
Lembro-me de que a vida era doce e quente, tão genuína como o espectáculo da projecção de filmes no cinema dos padres capuchinhos, em que os espectadores tentavam alterar o curso dos westerns atirando sapatos aos “bandidos” para salvar o “rapaz” ou gritavam e assobiavam em desvairada apoteose sempre que um beijo em grande plano enchia o écran.
Lembro-me que as Bessanganas, as Senhoras do Sambizanga varriam o chão de terra em frente à sua cubata deixando-a irreprensível de limpa, numa higiene natural que só a honesta mão humana oferece. A pobreza, quando usa a vassoura, confere, ó se confere, um brilho ético ao mundo.
Lembro-me da música tão física e lembro-me – eu que construí laboriosamente a lenda de que os N’Gola Ritmos ensaiavam na minha rua, mas eram só os Ngoleiros do Ritmo – de uma noite ter bebido copos até o sol nascer num grupo em que estava o Elias Diá Kimuezo.
E lembro-me, no Liceu Nacional Salvador Correia, de beber livremente Coca-Cola pelas garrafas que depois imortalizariam Andy Warhol e de ter lido dezenas de livros proibidos porque o pai de um dos meus melhores amigos era inspector da Pide e dava a ler ao filho, e ele a mim, os livros que eram proibidos aos outros.
Prezo tanto mais estas memórias quanto elas não têm já qualquer substância. São Paulo da Assumpção de Loanda é hoje outra cidade e aquela África outra África. Como nas ficções labirínticas de Borges, quem sabe se essa África não foi apenas um sonho (pesadelo para outros) e nesse sonho eu fui só coisa sonhada.