Charles Aznavour

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Foi Jean-Luc que teve a culpa. Eu já amava desarvoradamente as canções de Charles Aznavour. Calções de 12 anos, ainda dar a mão a uma miúda me deixava em estado de temor e tremor, e já as canções dele me faziam estremecer de uma escondida emoção, por recear que pudesse ser um bocadinho mariquinhas.

Mas eis que Jean-Luc Godard… ah, perdão, e já me estou a espalhar na cronologia. Eis que, aos 15 anos, leio na revista Notícia, em que escrevia Herberto Helder, que Aznavour cantava em Luanda e ia com ele uma loura que era a loura, síntese, epítome, ideia platónica de todas as louras. Fora entrevistá-lo Carlos Brandão Lucas, o homem da rádio da minha vida, voz, charme, allure, que tomara a França inteira, meu futuro patrão, com que ganhei uma fortuna, sem que ele me tenha algum dia pago um angolar que fosse. E não é que, um ou dois olhares louros, que sei eu, nem eu quero saber do que não sei, envolvem-se os dois aos empurrões, um soco tropical, que o Carlos, não o Charles, jamais me quis contar. E eu percebi que aquilo eram canções de amor rijo, uma gentileza e cortesia que são a forma de disfarçadamente dizer o que não se podia, por reserva, dizer: tesão, nudez, cama, beijos húmidos, húmidos outros beijos.

Seria? Mas eis que Jean-Luc Godard – e agora sim, a cronologia está certa – saca de uma juke-box e, em Une Femme Est Une Femme, arma, com a inderramável beleza de Anna Karina e a insolência masculina de Jean-Paul Belmondo, uma longa cena de mímica, insinuações, silêncios, olhares para cima e olhares para baixo, só para se ouvir, inteirinha uma canção de Aznavour. “Tu t’laisses aller” é uma canção de amorosa recriminação, quase um apostrófico ataque à perda do desejo, ou melhor, à perda dessa auto-estima que faz com que queiramos ser belos e desejáveis aos olhos de quem queremos que nos ame. Com Godard e com esse filme de Godard, mais do que com o amado Truffaut, que também o meteu nas bandas sonoras dele, Aznavour ascendeu, aos meus olhos para-adultos, ao estatuto modernista de um James Joyce, os seus versos de café e erotismo de costureirinha a rivalizarem com os de Eliot ou Pond. Mesmo que falassem de free-jazz, música atonal, o que fosse, eu podia falar de Charles Aznavour e dessa canção que o autor-mestre do jump-cut, inquieto filósofo da montage mon beau souci, legitimara aos meus olhos míopes.

Isto bastava para justificar uma vida. Mas eis que vou um dia a casa de uma amiga parisiense, a um quarteirão de distância de Pigalle, entrada por um pátio comum, diz-me ela, num sussurro, aqui (e já não sei se, apontando, ela disse, ali) mora Charles Aznavour. Não sei se o que me ceifou a cabeça foi a memória do Emmenez-moi au bout de la terre, emmenez moi au pays des merveilles, se o vertiginoso perfume de um J’en déduis que je t’aime.

Eu já tinha isto tudo, chansons d’or, mas os deuses ou só a boémia – et pourtant – quiseram cumular-me com a graça burguesa do espectáculo. Foi o Pedro Bandeira Freire que comprou os bilhetes.Éramos quatro, a Antónia e eu, a balançarmo-nos com essa leveza de quem ama a tristeza de Veneza e de quem nada esqueceu, e fomos ver Aznavou cantar em Lisboa, sabendo que era a última vez que o veríamos. Ficou-me essa memória, Pedro, plus bleu que tes yeux, e tão azuis que os teus eram, Pedro.

Repito, o que disse um dia. Por mais estima que eu tenha pela canção francesa, e tenho muita, do que eu gosto mesmo é de Charles Aznavour. Gosto muito mais de Aznavour do que de Gilbert… oh, mas que é que isso interessa. Gosto muito mais do Charles do que de Yves… oh, deixa lá isso. Gosto muito mais dele do que do Serge …. oh,  poupa-me.

Do muito que gosto de Aznavour é de ele se ter metido na minha vida. Aznavour está por cima, agora muito lá por cima, em plenitude. Já nem precisa de ser muito bom. Basta-lhe ser gentil e sem remorsos. Certo na melodia. Infalível no tempo. Assim o hei de lembrar, enquanto eu possa lembrar.

Adeus, António Escudeiro

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O António à direita, ao lado do Pedro Bandeira Freire. Eu, na ponta esquerda, com o Fernando Lopes ao pé. Com a devida vénia, foto do Correio da Manhã

Fui há pouco dizer adeus ao António Escudeiro, no Alto de São João. Ficarei com esta imagem, o António era uma coluna de fumo cor de África, que saía da chaminé do crematório. Uma coluna breve, que se confundiu com o tremendo calor das 14 horas deste penúltimo domingo de Setembro. Uma brisa levíssima, sopro da boca de Deus, e o fumo dissipou-se, ágil e breve.

Não sei para onde foi o fumo do António. Talvez tenha ido direitinho a esse terminal dos CFB, Caminho de Ferro de Benguela, no cais ferroviário do Lobito, que o António amava ainda mais do que eu. Foi ali que lhe aconteceu a despedida emocional da África a que nunca deixou de pertencer. Fora lá filmar uma cena do seu documentário de memórias. Quando entrou no gabinete do director, descobriu que a fotografia do pai, que fora director colonial dos CFB, estava na parede, acima do director angolano. «O seu pai marcou a história dos CFB, foi ele que permitiu que houvesse maquinistas negros», foi o que o António, comovido, ouviu da boca do director angolano. Depois, nova surpresa: tinham preparado a carruagem nobre e tinham-lhe reservado assento no lugar de honra que noutros tempo fora o do seu pai. O António chorava por dentro, tentando não dar parte de fraco por fora. Sentou-se e o comboio nunca mais partia. Pensou que seriam as burocracias angolanas, esses inenarráveis atrasos aprendidos com os portugueses e exponenciados pelo laissez faire tropical. Até que o chefe de cais lhe vem bater à janela e diz: «Senhor Director, só posso mandar partir o comboio se me der ordem, era assim quando o seu pai estava a bordo, é assim consigo.» Os olhos do António converteram-se num rio.

Hoje, no cais do Alto de São João, partiste, igualzinho a essas locomotivas que cruzavam Angola, do porto do Lobito direitas ao grande coração mineral de África. Dos rapazes do nosso grupo jantarista de Tróia já tinham partido, uns de barco, outros de avião, o Pedro Bandeira Freire, o Alface, o Dinis Machado. Andamos por cá o José Navarro, o António Mendes Lopes, o António Setúbal e eu. As raparigas resistem melhor: só se foi embora a Dulce, tantas eram as saudades do Dinis, e estão cá a Antónia, que ia quase sempre, a Gina Frazão, a Cristina e a Manuel Carona que vinham por vezes.

Morávamos na mesma rua e tínhamos ponto de encontro nos cinema do El Corte Inglès. Não nos voltaremos a cruzar e não te ouvirei dizer, «Pá, a crónica desta semana do Expresso não era má de todo.» Adeus, António.