Adeus, António Escudeiro

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O António à direita, ao lado do Pedro Bandeira Freire. Eu, na ponta esquerda, com o Fernando Lopes ao pé. Com a devida vénia, foto do Correio da Manhã

Fui há pouco dizer adeus ao António Escudeiro, no Alto de São João. Ficarei com esta imagem, o António era uma coluna de fumo cor de África, que saía da chaminé do crematório. Uma coluna breve, que se confundiu com o tremendo calor das 14 horas deste penúltimo domingo de Setembro. Uma brisa levíssima, sopro da boca de Deus, e o fumo dissipou-se, ágil e breve.

Não sei para onde foi o fumo do António. Talvez tenha ido direitinho a esse terminal dos CFB, Caminho de Ferro de Benguela, no cais ferroviário do Lobito, que o António amava ainda mais do que eu. Foi ali que lhe aconteceu a despedida emocional da África a que nunca deixou de pertencer. Fora lá filmar uma cena do seu documentário de memórias. Quando entrou no gabinete do director, descobriu que a fotografia do pai, que fora director colonial dos CFB, estava na parede, acima do director angolano. «O seu pai marcou a história dos CFB, foi ele que permitiu que houvesse maquinistas negros», foi o que o António, comovido, ouviu da boca do director angolano. Depois, nova surpresa: tinham preparado a carruagem nobre e tinham-lhe reservado assento no lugar de honra que noutros tempo fora o do seu pai. O António chorava por dentro, tentando não dar parte de fraco por fora. Sentou-se e o comboio nunca mais partia. Pensou que seriam as burocracias angolanas, esses inenarráveis atrasos aprendidos com os portugueses e exponenciados pelo laissez faire tropical. Até que o chefe de cais lhe vem bater à janela e diz: «Senhor Director, só posso mandar partir o comboio se me der ordem, era assim quando o seu pai estava a bordo, é assim consigo.» Os olhos do António converteram-se num rio.

Hoje, no cais do Alto de São João, partiste, igualzinho a essas locomotivas que cruzavam Angola, do porto do Lobito direitas ao grande coração mineral de África. Dos rapazes do nosso grupo jantarista de Tróia já tinham partido, uns de barco, outros de avião, o Pedro Bandeira Freire, o Alface, o Dinis Machado. Andamos por cá o José Navarro, o António Mendes Lopes, o António Setúbal e eu. As raparigas resistem melhor: só se foi embora a Dulce, tantas eram as saudades do Dinis, e estão cá a Antónia, que ia quase sempre, a Gina Frazão, a Cristina e a Manuel Carona que vinham por vezes.

Morávamos na mesma rua e tínhamos ponto de encontro nos cinema do El Corte Inglès. Não nos voltaremos a cruzar e não te ouvirei dizer, «Pá, a crónica desta semana do Expresso não era má de todo.» Adeus, António.

8 thoughts on “Adeus, António Escudeiro”

  1. Uma despedida a um Amigo é sempre dolorosa .
    Acabo de me ver, frente a frente, com com um “Olá” e um “Adeus”…coisas desta Vida, mesmo.
    Vamos continuar, Manuel….vamos continuar!

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  2. Partem os amigos nesse Expresso sem destino conhecido … na plataforma fica a Amizade, se verdadeira foi.
    Lamento sua perda.
    E que negra, seja só a Página, não a Vida.

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  3. Ah, se eu tivesse talento para descrever o que me vai cá por dentro! Haveria de te narrar as muitas histórias que tive com o António muitas e daquela vez que fizemos a fita do Fernando Lopes “Matar Saudades”. Também é disso que não sou capaz de matar saudades. E ainda tenho amigos muito bonitos! Obrigado Manel por seres como és!

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