Sete degraus sempre a descer

Hoje, chega às livrarias o segundo livro de poemas de Eugénia de Vasconcellos, de que sou editor. O título não podia ser mais bonito, com um fio de tristeza a roçar o desalento: Sete Degraus sempre a Descer.

Breve livro de 56 páginas, divide-se em quatro partes e reúne 23 poemas. É um livro de fogo e cinzas, que interroga dois ofícios, o poético e o amoroso. C’est quoi la poésie?,  o primeiro poema do livro, logo nos diz que essa interrogação dos ofícios não vai ser feita à maneira de um exercício formal, que não é esse o modo como operam a mão e o pensamento de Eugénia de Vasconcellos. Ao ofício poético e ao ofício amoroso, Eugénia de Vasconcellos interroga-os à faca e à vida, faca e vida que se fundem em desejo e em corte do desejo.

A poesia de Eugénia de Vasconcellos surpreendera-nos, no seu livro anterior, O Quotidiano a Secar em Verso, pela sua torrente discursiva, bem e malcriada, amorosa e violenta, sem remorsos ou ressentimento.  Sete Degraus sempre a Descer oferece-nos a brandura que antecede o reino dos infernos, uma brandura que espera a palavra que salva ou a boca que beija. Nunca chegam, nem a palavra, nem o beijo.

Este é o livro da respiração contida, da espera – horas que se sucedem às horas. Respiração e espera que antecedem o momento do ciclone ou da explosão escura. Estes são os poemas de músculos tensos, tesos, retesos. Uma palavra mais e acabarão, fora deste livro, taça transbordante, a devorar um corpo, outros corpos, faca enterrada na vida, porque «pode uma pessoa partir-se em bocados, / de tão funda ir a lâmina afiada.»

Esta é a capa. Em baixo, deixo-vos um dos poemas e um aviso: sou o editor, mas se querem encontrar a mais órfica beleza, têm mesmo de ler.Sete Degraus_300dpi

O Amor é um canto 
de riso e de lágrimas,
um canto concreto e fremente,
uma existência.
Uma oração.
A pequenina chama sempre acesa que
serve à adoração.

Soljenitsin, dez anos

alexander-solzhenitsyn

Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e os campos de concentração soviéticos.

Salvo para algumas cabeças descabeladas e furiosas, a denúncia e a prova da barbárie nazi foram um dado adquirido desde o final da Guerra, em 1945. Não foi tão fácil denunciar a barbárie estalinista. A ideologia e a bondade idealista dos amanhãs que cantam queimavam como um ferro em brasa qualquer prova da inenarrável dor e mortandade que escapasse das sombras do socialismo científico.

Este homem, Alexander Soljenitsin com uma só palavra, Gulag, quebrou o tabu e ajudou a libertar a humanidade de um pesadelo torpe. Uma palavra e duas mil páginas foram o legado de Soljenitsin. Um legado que nos fez mais livres e, acredito, mais humanos.

As negras escolhas musicais: Cara Sposa

 

Esta é, como vos explicaria, com conhecimento de causa, o meu amigo Henrique Monteiro, se a Página Negra fosse o Escrever é Triste, uma das mais sublimes árias da ópera italiana “Rinaldo”, criação do alemão Haendel, radicado em Londres e naturalizado inglês, em pleno século XVIII. Ou de como há 300 anos, pelo menos, a fusional vocação entre europeus é uma admirável constante criativa.

Sonho e tempo, tempo e sonho

Las Viejas
Goya, Las Viejas – uma interpretação do tempo?

Talvez a vida não seja mais do que sonho, talvez a nossa pequena vida esteja cercada, apenas e só, por um redondo sono.

Prefiro pensar que, mais do que a matéria com que se constroem os sonhos, é o tempo a substância de que todos somos feitos. Um tempo irreversível e inexorável.

Podemos sonhar, pode o sono obscuro invadir-nos, o que não podemos é negar o tempo. Negá-lo é negarmo-nos.

Por vezes é lícito trocar Shakespeare por Borges.

We are such stuff
As dreams are made on; and our little life
Is rounded with a sleep.
(Nós somos essas coisas
de que são feitos os sonhos; e a nossa pequena vida
está rodeado de sono.)

Shakespeare, The Tempest

El tiempo es la sustancia de que estoy hecho.
El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río;
es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre,
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego

(O tempo é a substância de que sou feito.
O tempo é um rio que me arrebata, porém sou eu o rio;
é um tigre que me destroça, porém sou eu o tigre;
é um fogo que me consome, porém sou eu o fogo.)

Borges, Otras Inquisiciones

As negras escolhas musicais: Schubert

Lembro-me do extinto, mas pronto a reviver Escrever é Triste. E a música? Essas horas passadas à frente de um piano ou qualquer outro instrumento, sem conjugar outro verbo que não seja tocar? Não é tão triste como escrever? Prescindir de beber, correr, saltar, amar, pondo, pela música, a  vida entre parêntesis?

Esta Serenata é a tristeza em corpo de música e corpo de gente. Criação de Schubert, transcrição e tratamento de Liszt, dedos e mãos de Khatia Buniatishvili. Negra solidão, branca tristeza.

Uma solidão de Joana d’Arc

O que estava combinado é que A Página Negra devia ser, como a vida de qualquer um de nós, um repositório de passado, o choque do inescapável presente, porventura algum balbuciante desejo de futuro. Há dez anos, uma mulher belíssima, a quem o mundo se ajoelhava, desapareceu na noite de Paris. Nessa altura, e por desafio do Vítor Coelho da Silva, escrevi este texto. E não me arrependo da solidão com que tentei enchê-lo.

katoucha-

Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro. Há dias, lia os jornais franceses. Os desenjoativos Monde e Figaro. Percebi que, à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada, que homenageia o czar de que herdou o nome, se vai acrescentar-se agora o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.

Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e ouro, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um homem sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro de 2008, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.

A que propósito vem o obituário, e logo subscrito por quem vos prometeu boa vizinhança e um destemperado optimismo? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos foi vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que, à noite, é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que não divide Paris. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.

A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.

Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc”. Cabe-nos a todos nós, homens, uma fatia da culpa da solidão que afogou esta mulher.

Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.

Katoucha-Niane

os livros negros da página negra

A razão pela qual não há duas sem três é só por ser certo e seguro que não há uma sem duas. Uma foi ontem – ter nascido, nas Página Negra, a secção das “negras escolhas musicais”, a segunda guardei-a para hoje: nasce a 5 de Outubro a secção dos “Livros Negros da Página Negra”.

lombada

O que esta edição de 1974, da Emecé Editores, de Buenos Aires, que é minha desde 1980, tem sofrido nestas atabalhoadas mãos! A sobrecapa já foi à vida, a guarda da capa já se rasgou e a tela do interior da lombada está ali por um fio, a precisar de restauro urgente. Uma coisa posso jurar, este livro não sofreu nunca longos períodos de imobilidade ou de abandono em silenciosa e labiríntica biblioteca pública.

Borges

Confesso que tenho um caso com Borges. Tudo começou na longínqua Luanda, nos remotíssimos primeiros anos dos anos 70, ainda vigorava o século XX. Li dele os poemas que outro poeta, Ruy Belo, lhe verteu para a tão próxima língua portuguesa. Foi amor à primeira vista ou leitura. É livro para, um destes dias, ser visita destes livros negros.

As negras escolhas musicais (2)

E para não deixarmos o Wynton Marsalis a tocar sozinho, vamos à segunda escolha negra.

O cinema faz mais milagres do que Jesus Cristo, o que faz dele o filho favorito de Deus. No cinema pode correr-se por cima do capot dos carros e pode cantar-se na rua, que a orquestra há-de vir dos céus. Tantos, tantos milhares que até Nicholas Cage pode cantar e comover-nos. A canção é Love Me Tender, o filme é Wild at Heart, do estranho, bizarro e inexplicável David Lynch.