
Há riscos no céu…

que abrem crateras no chão…

para que escorram rostos pelas paredes novas.
Peripatética digressão editorial a ver se me surge uma ideia não-aristotélica para as linhas de publicação da Guerra & Paz. Numa tarde de Lisboa.
A Página Negra de Manuel S. Fonseca
Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!

Há riscos no céu…

que abrem crateras no chão…

para que escorram rostos pelas paredes novas.
Peripatética digressão editorial a ver se me surge uma ideia não-aristotélica para as linhas de publicação da Guerra & Paz. Numa tarde de Lisboa.

Há quem pense que, num homem, talentos poéticos e dotes de escrita indiciam uma clara e preocupante sublimação da sexualidade. Está a chegar o Inverno, e não vejo que venha mal ao mundo em discutir-se já a tese.
Haverá, de facto, alguma relação causal entre o uso da pena e o desempenho do gládio? O arrebatamento com que um homem se entrega às elegantes e cursivas expansões da escrita implicará um murcho e recolhido cativeiro da sua potência sexual?
A pergunta é muito mais embaraçosa do que parece. Qualquer tentativa de argumentação – ainda por cima na forma escrita – arrisca-se a mal entendidos e a destruir a mais férrea e viril das reputações.
Opto por oferecer-vos uma lista concludente e irrebatível de histórias de êxito em batalhas de lençóis. Sim, é possível, como vão ver, passar horas a escrever e outras tantas entregue a inconfessáveis apetites. Espero, assim, dar um contributo cultural indelével para que jovens e promissoras vocações não deixem de cumprir-se por venal temor de uma insidiosa e infundada acusação.
Lembro-vos, para começar, o caso famoso de Giacomo Casanova. Escreveu 28 volumes de memórias. Nelas revela 132 casos de sedução ardente. Pormenor saboroso: era, avant la lettre, um homem de e da globalização, já que essas 132 mulheres que lhe concederam favores eram de 99 nacionalidades diferentes. Chamo a atenção para o facto destas memórias serem só a ponta (em todo o caso firme e meritória) do iceberg. Consta que Casanova terá dormido (e, sem ofensa, presumo que nalguns casos tenha sido apenas isso) com cerca de 10 mil angélicas representantes do sexo oposto.
Outro exemplo. Dois escritores franceses de inabalável estirpe, Guy de Maupassant e Georges Simenon, parecem ter-se fixado num número fetiche: as mil mulheres. Com elas gozaram delícias venusianas. Há diferenças que convirá realçar. Maupassant auto-imputava-se o dom de múltiplos orgasmos e músculo para levantar bem alto a bandeira por toda uma noite. Já Simenon, para perfazer a milenar contabilidade, não se eximiu a arredondar a cifra arregimentando prostitutas.
Mais moderado foi Balzac. É verdade que escrevia cerca de 15 horas por dia e que o tempo, mesmo para o autor dos 100 romances da “Comédia Humana”, não estica. Tudo esticado, na carnal matéria em apreço, a ele deu-lhe para mais de 10 e menos de 20 amantes ao longo da vida. Mas, note-se, com atenção dedicada e sustentada.
A outro símbolo da bela França, Victor Hugo, louva-se a alvoroçada diligência com que encarou a noite de núpcias, em que terá levado à glória, por 9 vezes, a sua bem amada Adele Foucher. O autor de “Os Miseráveis” foi também, num precursor referendo feito aos bordéis gauleses, considerado o patrono das prostitutas. Quando morreu, o governo autorizou aquelas horizontais eleitoras a acompanharem o funeral. Vieram, cobrindo com lenços negros as partes anatómicas mais sinceramente enlutadas.
Poderia invocar o maldito nome de Sade, os insaciáveis apetites de Robert Louis Stevenson e de Lord Byron, a infidelidade crónica de Kingley Amis, o sexo sem nexo de Henry Miller. Não interessa. Creio ter já provado o meu ponto. Lá fora, o mundo continua esplêndido, a pedir mais do que argumentos literários. Ou, nas calorosas palavras do mesmo Miller: “I hear not a word because she is beautiful and I love her and now I am happy & willing to die.”
Hoje, chega às livrarias o segundo livro de poemas de Eugénia de Vasconcellos, de que sou editor. O título não podia ser mais bonito, com um fio de tristeza a roçar o desalento: Sete Degraus sempre a Descer.
Breve livro de 56 páginas, divide-se em quatro partes e reúne 23 poemas. É um livro de fogo e cinzas, que interroga dois ofícios, o poético e o amoroso. C’est quoi la poésie?, o primeiro poema do livro, logo nos diz que essa interrogação dos ofícios não vai ser feita à maneira de um exercício formal, que não é esse o modo como operam a mão e o pensamento de Eugénia de Vasconcellos. Ao ofício poético e ao ofício amoroso, Eugénia de Vasconcellos interroga-os à faca e à vida, faca e vida que se fundem em desejo e em corte do desejo.
A poesia de Eugénia de Vasconcellos surpreendera-nos, no seu livro anterior, O Quotidiano a Secar em Verso, pela sua torrente discursiva, bem e malcriada, amorosa e violenta, sem remorsos ou ressentimento. Sete Degraus sempre a Descer oferece-nos a brandura que antecede o reino dos infernos, uma brandura que espera a palavra que salva ou a boca que beija. Nunca chegam, nem a palavra, nem o beijo.
Este é o livro da respiração contida, da espera – horas que se sucedem às horas. Respiração e espera que antecedem o momento do ciclone ou da explosão escura. Estes são os poemas de músculos tensos, tesos, retesos. Uma palavra mais e acabarão, fora deste livro, taça transbordante, a devorar um corpo, outros corpos, faca enterrada na vida, porque «pode uma pessoa partir-se em bocados, / de tão funda ir a lâmina afiada.»
Esta é a capa. Em baixo, deixo-vos um dos poemas e um aviso: sou o editor, mas se querem encontrar a mais órfica beleza, têm mesmo de ler.
O Amor é um canto
de riso e de lágrimas,
um canto concreto e fremente,
uma existência.
Uma oração.
A pequenina chama sempre acesa que
serve à adoração.

Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e os campos de concentração soviéticos.
Salvo para algumas cabeças descabeladas e furiosas, a denúncia e a prova da barbárie nazi foram um dado adquirido desde o final da Guerra, em 1945. Não foi tão fácil denunciar a barbárie estalinista. A ideologia e a bondade idealista dos amanhãs que cantam queimavam como um ferro em brasa qualquer prova da inenarrável dor e mortandade que escapasse das sombras do socialismo científico.
Este homem, Alexander Soljenitsin com uma só palavra, Gulag, quebrou o tabu e ajudou a libertar a humanidade de um pesadelo torpe. Uma palavra e duas mil páginas foram o legado de Soljenitsin. Um legado que nos fez mais livres e, acredito, mais humanos.
Esta é, como vos explicaria, com conhecimento de causa, o meu amigo Henrique Monteiro, se a Página Negra fosse o Escrever é Triste, uma das mais sublimes árias da ópera italiana “Rinaldo”, criação do alemão Haendel, radicado em Londres e naturalizado inglês, em pleno século XVIII. Ou de como há 300 anos, pelo menos, a fusional vocação entre europeus é uma admirável constante criativa.

Talvez a vida não seja mais do que sonho, talvez a nossa pequena vida esteja cercada, apenas e só, por um redondo sono.
Prefiro pensar que, mais do que a matéria com que se constroem os sonhos, é o tempo a substância de que todos somos feitos. Um tempo irreversível e inexorável.
Podemos sonhar, pode o sono obscuro invadir-nos, o que não podemos é negar o tempo. Negá-lo é negarmo-nos.
Por vezes é lícito trocar Shakespeare por Borges.
We are such stuff
As dreams are made on; and our little life
Is rounded with a sleep.
(Nós somos essas coisas
de que são feitos os sonhos; e a nossa pequena vida
está rodeado de sono.)
Shakespeare, The Tempest
El tiempo es la sustancia de que estoy hecho.
El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río;
es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre,
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego
(O tempo é a substância de que sou feito.
O tempo é um rio que me arrebata, porém sou eu o rio;
é um tigre que me destroça, porém sou eu o tigre;
é um fogo que me consome, porém sou eu o fogo.)
Borges, Otras Inquisiciones
Lembro-me do extinto, mas pronto a reviver Escrever é Triste. E a música? Essas horas passadas à frente de um piano ou qualquer outro instrumento, sem conjugar outro verbo que não seja tocar? Não é tão triste como escrever? Prescindir de beber, correr, saltar, amar, pondo, pela música, a vida entre parêntesis?
Esta Serenata é a tristeza em corpo de música e corpo de gente. Criação de Schubert, transcrição e tratamento de Liszt, dedos e mãos de Khatia Buniatishvili. Negra solidão, branca tristeza.
O que estava combinado é que A Página Negra devia ser, como a vida de qualquer um de nós, um repositório de passado, o choque do inescapável presente, porventura algum balbuciante desejo de futuro. Há dez anos, uma mulher belíssima, a quem o mundo se ajoelhava, desapareceu na noite de Paris. Nessa altura, e por desafio do Vítor Coelho da Silva, escrevi este texto. E não me arrependo da solidão com que tentei enchê-lo.

Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro. Há dias, lia os jornais franceses. Os desenjoativos Monde e Figaro. Percebi que, à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada, que homenageia o czar de que herdou o nome, se vai acrescentar-se agora o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.
Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e ouro, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um homem sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro de 2008, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.
A que propósito vem o obituário, e logo subscrito por quem vos prometeu boa vizinhança e um destemperado optimismo? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos foi vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que, à noite, é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que não divide Paris. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.
A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.
Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc”. Cabe-nos a todos nós, homens, uma fatia da culpa da solidão que afogou esta mulher.
Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.
