o simca aronde

Simca
O que gos­tava de ter tido um Simca Aronde ver­me­lhi­nho como este

O Simca Aronde, segunda mão, em que o meu pai me levava, era igual a este, mas azul e branco. Passámo-lo a cin­zento meta­li­zado, logo que a Direc­ção de Via­ção deu licença, nesse tempo de pedir licença. Andá­va­mos pelas ruas de Luanda, asfalto e terra ver­me­lha, Vila Alice, igreja de São Domin­gos ou Sagrada Famí­lia. E íamos até às praias, para sul, quase até à foz do Kuanza, pic-nic no Morro dos Veados.

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deixá-lo ao ape­tite voraz do mato africano

A última vez, com as vál­vu­las à beira do colapso, a cam­bota em sur­dos lamen­tos, os pis­tões a ame­a­çar greve, fomos way East, ao Dondo, pas­sando por Catete, Maria Teresa, Zenza. Depois, uma subida a pique, até Cam­bambe. Fomos nós – o meu pai e a minha mãe, irmã e eu, can­den­gue – que o levá­mos pela mão, ao Simca, já tão lacri­moso e ainda muito fran­cês. Não o dei­xá­mos, mas se calhar devía­mos tê-lo dei­xado mor­rer no meio do mato afri­cano que tem o ape­tite voraz que as mães gos­tam de ver nos filhos.

Seis manias

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Fernando Vicente, da série Anatomias

Era uma altura em que havia a mania das listas. Foi há anos, quase uma dúzia, que me perguntaram. Confessei, então, estas seis manias, estes seis sinais particulares.

1. Ter a mania que vou escrever, numa semana, uma dissertação de mil páginas sobre o uso da palavra dor em Wittgentstein;
2. Detestar que digam “eles” quando se fala dos diferentes poderes;
3. Estimar o catolicismo apesar de funda crença agnóstica;
4. Gostar de pessoas que não aceitam convites;
5. Aceitar todos os convites;
6. Achar que o melhor do presente é a maleabilidade do passado. Futuro? Who cares!

Bem vistos de frente e até mesmo do avesso, são seis sinais particulares que justificam alguns cuidados médicos, mas o que vale é que mais compaixão no mundo do que aquilo que se pensa.

As feridas da memória não se curam a betadine

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De vez em quando, bap­ti­za­dos, casa­men­tos e funerais, o pas­sado vem ter connosco. “Então, há quanto tempo! Tens andado desa­pare­cido!”, diz-nos alguém que “está na mesma”, que na mesma pensa “as mes­mas coisas” que sem­pre pen­sou e evoca os mes­mos son­hos que “jun­tos, lembras-te, par­til­há­mos”.

Ou, como diria um emped­ernido psico-sociólogo, as rup­turas que tecem as nos­sas existên­cias reenviam-nos a uma rup­tura essen­cial, con­sti­tu­tiva. O que, se mal percebo, quer dizer que a ruptura é que nos funda e que sem mudança estaríamos mortos.

Mas é do amigo que já mal nos lembrávamos e “ai, mas como é que este gajo se chama?” que estávamos a falar. Reen­con­tro ou rup­tura, a coisa abre-nos no peito, e isto sou eu a falar outra vez, uma bela ferida. Dói muito ver, de olhos nos olhos, o pas­sado que out­ros nos trazem. Entendamo-nos (tento, pelo menos, eu entender-me comigo), não se trata de sobrance­ria, de olhar os out­ros como alguém que já não quer­e­mos ouvir ou que não quer­e­mos, por pre­caução, que nos ouçam. O drama é que vemos nos out­ros, indes­men­tível, a preto e branco, um retrato nosso, implacável, que não podemos des­men­tir e não quer­e­mos recon­hecer. O prob­lema não “são eles: o que é insu­portável é o dire­ito ao esquec­i­mento que a sua pre­sença nos recusa. Já fomos e agora já não queremos ser aquilo que os olhos dos outros vêem em nós.

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Fuckin’ Globo

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Kiluanji Kia Henda

Fuckin’ Globo, e não sou eu que o digo. É o nome de uma exposição colectiva que reanimou, em Luanda, o infalecido Hotel Globo. Apresenta-a, aqui, em português, o crítico de arte Adriano Mixinge, de quem sou fiel leitor, até por ele fazer o favor de ser meu autor, na Guerra e Paz editores – e nunca percebi o silêncio que em Portugal se fez à volta do seu O Ocaso dos Pirilampos, alegoria crispada e satírica a todos os ditadores, mas em que, a pinceladas expressivas e fortes, se chapava o perfil do ex-presidente angolano.

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Indira Grandê

E, ficando dito o que dito está, o que eu quero dizer é que Mixinge apresenta tão bem os doze artistas angolanos que se albergaram no Hotel Globo, que logo dá vontade de um tipo se enfiar num avião e desembarcar em Luanda. E são eles: Toy Boy, Lubanzadyo Mpemba Bula, Ery Claver, Kiluanji Kia Henda, Maria Gracia Latedjou, Miguel Prince, Thó Simões, Joana Taya, Nelo Teixeira, Verkon, Daniela Vieitas,  e Indira Grandê.

É claro que, se sobre arte, só admite ler coisas em inglês, o artigo de Mixinge está também aqui na traiçoeira língua de Shakespeare.

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Miguel Prince

o pescoço em Modigliani e em Amadeo

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Os lin­dos pescoços de Modigliani, de que acima se pode ver um mag­ní­fico e sinuoso exem­plo, não têm para­lelo. Mas há uma rima apetecível. Esta, a que se encon­tra na estiliza­ção e rig­oroso desenho de Amadeo de Souza Car­doso.

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Não dis­cuto elegân­cias — pre­firo Modigliani, está claro. Ah, mas o por­tuguês Amadeo, com o pescoço destes gal­gos, tem pelo menos uma van­tagem sobre o pescoço do mod­elo do seu amigo Modigliani: é muito mais veloz.

Busby Berkeley: o erotismo em delírio

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Caramba, vamos lá começar bem o dia. Sentem à mesa do pequeno-almoço um tipo cheio de fantasia, irreprimível na ousadia, adepto da multiplicação.

Há três razões para gostarmos dele:

inventou a dança nos filmes;
inundou o ecrã com delirantes visões eróticas;
celebrou no cinema o milagre da multiplicação das pernas femininas.

Estou a a falar de Busby Berkeley. Ou seja, ninguém! Pelo menos para qualquer pessoa que não tenha passado os cinco últimos anos fechado num arquivo de cinemateca. Ou então, alguém! O maior artista americano do século XX  para Andy Warhol.

Era dance director, fosse lá o que isso fosse (mas era alguma coisa), quando chegou a Hollywood. E, vindo da Broadway, chegou desconfiado. Não é fácil de explicar, mas os filmes dos outros que ele fez, passaram a ser dele. Trabalhou, nos anos 30, com a explosão do sonoro, para a Warner Bros e para o produtor Daryl F. Zanuck. Cabia-lhe imaginar e executar as coreografias dos números musicais de filmes com histórias convencionalíssimas. Só queria, como disse, fazer as pessoas felizes nem que fosse por uma hora. Sem essas coreografias os pobres desses filmes estariam a arder em lume brando num purgatório perto de si.

O que é que Berkeley fez, então? Juntou água, mulheres, bandeiras, soldados, mulheres, noites, camas, pianos, mulheres e transfigurou tudo com uma poética a que podemos aplicar os qualificativos que quisermos – surreal, vanguardista, místico-freudiana – mas que só é explicável se usarmos o termo certo: hollywoodiana.

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Poética hollywwodiana. De brancos imaculados, escuríssimos negros, combinatórias prováveis, mas tão deslumbrantes, de repuxos e nudez, da câmara colocada no ponto de vista de Deus com trompe l’oeil magníficos, imensas paradas de pijamas e ceroulas, centenas de pares sentados em cadeiras de balouço. Acreditem, essa multiplicação, feita com precisão geométrica, pode ser – era e é – a mais erótica, a mais carnal, das visões. Nas palavras directas e talvez tocadas por um módico de ciúme, doutro coreógrafo mais tardio, Berkeley “arranjava montes de louras e filmava-as de todas as maneiras aceitáveis para a classe média. Não as podia despir completamente, mas punha-as de pernas abertas e com os seios pendentes. Tudo aquilo era a sua maneira de olhar eroticamente para mulheres esplêndidas, servindo a câmara de substituto do pénis.

Não será um artista como de Man Ray ou de Matisse se diz que são artistas. É talvez um sargento, ou um jovem tenente (o que bate certo com a sua formação na Academia Militar), com a obsessão das formaturas, mas nos jardins suspensos de Busby Berkeley, no começo dos anos 30, no glorioso preto e branco da Warner Bros, surgiu uma arte pop avant la lettre: a águia americana e as stars and stripes de Jasper Johns, os tintados retratos de celebridades de Warhol, já tinham sido imaginados e delirantemente sonhados em Footlight Parade, Dames, 42nd Street e nas Gold Diggers de Busby Berkeley, nascido em 1895 e chegado ao paraíso a 15 de Março de 1976.  Presumo que o velho e perverso Jeová lhe tenha entregue as coreografias celestes: julgo tê-los visto, aos dois, a deslizar pelos túneis que Berkeley montou com milhares de angélicas pernas abertas.

as músicas negras: I’d rather go blind

I’d Rather Go Blind é uma canção de 1967. A interpretação original é de Etta James. Mas eu ouvi-a primeiro na versão dos Fleetwood Mac que, na altura (ou terá sido só para esta canção), integrava elementos de outra banda inglesa, os Chicken Shack.

A simplicidade da letra é extrema, como extrema é a sua emoção:

Something told me it was over
When I saw you and her talking
Something deep down in my soul said, ‘Cry, girl’
When I saw you and that girl walking out
Oh, I would rather go blind, boy
Than to see you walk away from me, child
You see I love you so much that I don’t want to watch you leave me, baby
Most of all, I just don’t want to be free, no

Experimentem ouvir agora o original de Etta James. Doce, redonda e cega como a alma, the soul.

Meus Kambas: o Velho

Meus Kambas é uma varanda pequenina, com porta para a cozinha, que eu arranjei aqui, na Página Negra. Todas as semanas, ou mais ou menos, conforme os amigos apareçam, virá um amigo que eu convide sentar-se à trémula mesa dessa varanda, numa das cadeiras (na outra sento-me eu), para petiscarmos o que seja, uma alheira de caça que o forno faça suar, um queijinho de Serpa ou um que o meu cunhado me traga de Pinhel. Uma taça de tinto a riscar liquidamente a linha de horizonte.

Velho com gato

Já convidei vários amigos, eis que chega o primeiro. Fernando Jorge Machado Antunes será o que ele muito bem queira e o que, numa vida rica e cheia, construiu. Para mim é só o Velho, nome de guerra com que e pelo qual o conheci, naqueles anos de brasa que foram os anos da dipanda. Somos de Luanda, se ser de Luanda foi sonhar uma Nação, um Povo que soltasse algemas. O Velho sonhou muito e sonhou alto: deu o corpo ao sonho. Tanto que podia até granada ter sido seu caixão. Há gente assim, que poderia mesmo ter morrido em Angola para não morresse nunca em Angola.

Hoje, o sonho transformado em poesia, autor de Amores em LuaLis, o Velho, meu kamba, no seu modo descalço e caluanda, deambula pelas palavras, o amor de Luanda, inexclusivo, a amar tanto Lisboa. Pedi-lhe que escrevesse um texto e o viesse aqui conversar, a esta fragilíssima mesa da Palavra Negra. Eis o que ele nos quis dizer.

Fernando

LISBOA, ESTA MENINA JÁ MOÇA
Fernando Jorge Machado Antunes ( “Velho” )  

De uma forma empírica, avessa à filosofice da definição, pode-se dizer que uma cidade é cosmopolita, ou caminhará para tal, quando transcende a(s) sua(s) qualidade(s)  de dentro e se abre ao diferente e aos diferentes de fora. Quando passa a ser uma cidade do mundo, maior ou menor, mega ou a atirar mais para o mini. Não se preocupem, nem sintam comichões com desejos de precisão filosófica da definição. Que eu também não.

Escorrendo apenas pelo “lado bom da coisa” – que é sempre “coisa boa” – digamos, então, que  Lisboa abriu-se ao cosmos, fechada aos ismos dos tempos perigosos que correm. Beneficiou, é certo, das arestas quebradas e dos alicerces roídos de outros lugares, flagelados que foram pelos ventos semeados pelos que querem caos e não sossego.

E aproveitou. É a vida… Chegou a sua vez! Tocou os sinos, sorriu, convidou para comer e beber, que a sua comida só do cheiro enfeitiça o visitante, ajudando o bom vinho à degustatividade em trânsito fluído, sem “relevés” de maus circuitos. E abraçou, como sabe fazer, incondicionalmente hospitaleira (… contando, cá para nós, que não a piquem lá no duodeno dos seus). E porque é linda, na sua luz, sons e tons, cheiros e coisas suas.

Miscigenada, a caminho, arranhem-se os puristas, da mestiçagem.

Lisboa, terra, rio e mar

  Podia-te chamar Lisrio
num calafrio
de corpo e pele
Tejo, voz e mel
nos dedos, nos lábios
sábios
de melodias
todos os dias…
como se fosse lá na canção
fado da gente fugindo do não…
cheiro a gaivotas e canoa.

Podia-te chamar de Lismar
oceano de encorajar
gentes idas
mãos sorridas
sabor a cheiro
mar inteiro
estrela aos céus
sal dos choros teus…
como se fosse lá na poesia
sul num sol de fantasia…
ao leme de uma qualquer proa.

Podia-te chamar Lisluz
sol do rio que seduz
mestiçagem, perfume
lume
de aqui e de acolá
jacarandá
dias de cores
noites de amores…
como se fosse lá no cinema
cidade branca, azul e poema…
sol amigo e lua boa.

Podia-te chamar só Lisboa…