Lilly Tchiumba

tchiumba
Lilly e o irmão

Eu gostava de saber mais. Mas o que sei é mesmo quase nada de Lilly Tchiumba. Sei que andou no Liceu Salvador Correia, como no Liceu andou o seu irmão Eleutério Sanches, cuja vocação artística dormiu com a música e com a pintura. Foram os dois do Orfeão do Salvado Correia no final dos anos 50 e Tchiumba invadiu Lisboa, a RTP e o Festival da Canção, nos anos 60, com essa voz sublime que se ouve e arde branda em Luanda M’Bolo. Merecia ser muito mais ouvida.

 

Do marinheiro Cão ao marinheiro Conrad

porto de luanda
Eu tinha 15 anos adolescentes quando esta fotografia foi tirada. Largo Diogo Cão, o porto de Luanda ao fundo.

Os mais desolados dias da minha linda adolescência passei-os a olhar-lhe enfadadamente a estátua, no largo a que deu o nome. A meio caminho entre o melhor prego no pão do mundo (uma carne que se desfazia, julgo que por lhe juntarem o leite das canas de mamoeiro) e o cais principal do Porto de Luanda onde ia sacar as wrangler, as levis, as revistas americanas e, com o meu pai, nos almoços do Príncipe Perfeito ou do Infante D. Henrique, comer laranjas de casca colorida, que me pareciam doces como o mel, ao contrário das sumarentas, mais mais verdes e amargas laranjas angolanas.

Ele estava ali, erecto, mais orgulhoso e solitário do que imperial, no meio do largo, exposto à maresia e ao que de pombos é muito pior. Olhava-o, desde 29 de Junho de 1959, com a distância composta em partes iguais de cortesia, respeito e leve desdém de ele não ser nem Gama, nem Magalhães.

Hoje, o largo ainda lá está, ele não. Arrumado entre relíquias e franjas rotas de um passado sonolento, deixou de ver o mar e talvez nem saiba que a wikipédia o comemora em efeméride (que creio falsa na data e o que importa!) que me dá vontade lhe fazer vénia. A 6 de Julho de 1484, os olhos de um capitão de mar português, Diogo Cão, encontraram-se com a esplêndida, velocíssima, boca do rio Congo.

Olhos e boca juntaram-se: um odor queimado. Ardia, ali, no passado, o coração do futuro. O capitão de mar Diogo Cão fez o que a História diz que fez. Aventurou-se no Atlântico, escutou a inextricável fala do desconhecido, cumprindo a vontade do Infante e o plano megalómano de uma minúscula Nação. Mas nas veias do capitão de mar Diogo Cão corria um sangue que antecipava outro sangue, um sonho que sonhava outro abstracto sonho.

A 6 de Julho de 1484, o português Diogo Cão aflorou os lábios abertos do Rio Congo sabendo que, mais do que um império, começava a escrever um romance. Diogo Cão beijou a boca, um polaco, Joseph Conrad, chupar-lhe-ia o escuro coração. Primeiro publicado em revista, depois em livro, dava o século XX os primeiros passos, o polaco que cantou a língua inglesa com pureza a rondar a loucura, publicou Coração das Trevas, o romance de um rio cujo mistério passou do marinheiro Cão ao marinheiro Conrad.

Ambos subiram o rio. Diogo Cão só até Matadi. E até Matadi também Conrad, onde chegou em 1890, cinco séculos depois do português. Iria mais longe: o polaco prosseguiu a peregrinação, passando por Kinshasa, numa viagem de febre e horrores que o seu “Diário do Congo” relata.

Sem essas voltas biográficas será que poderíamos algum dia ter lido a história de Kurtz que Marlow, e não Conrad, nos conta até se calar, por já não serem dele os sons que, música espessa e irrespirável de uma noite equatorial, lemos assim:

He cried in a whisper at some image, at some vision—he cried out twice, a cry that was no more than a breath—“The horror! The horror!

Diogo Cão, a julgar que descobria mundos, não podia imaginar que as velas portuguesas e a cruz de Cristo também abriam caminho para o coração das trevas.

3D Book Coracao das Trevas
Adoro esta edição. Tão bem traduzida por Maria João Madeira. Não há nada mais bonito.

Fantasmas coloniais

LUanda

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 22 de Agosto

Esta é a minha centésima bica curta no CM. Para desbundar memórias afectivas, bebo café de Angola, dose certa de robusta misturado ao suave arábica. Bebo e leio o que disse ao “The Economist” um ex-ministro das finanças do Zimbabué, malhando no regime: “Hoje lavo-me num balde como se isto fosse a Rodésia do Sul de 1923.” As vozes livres de África não se calam. Na televisão de Luanda, o poeta e romancista angolano José Luís Mendonça foi claro: “O colonialismo hoje tem de ser repensado. Será que o colonialismo foi assim tão mau?”

A África será tanto mais livre quanto acerte contas, sem preconceitos, com os fantasmas do passado.

O corpete e a inútil bengala

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Rolla, Henri Gervex

A propósito de taxas de juros e outras trocas monetaristas e de coisinhas da silly season, tomem lá  o apogeu da procura e oferta do corpo feminino, no quadro de um tempo em que o bordel começou a rivalizar com a igreja como lugar de destino e culto. Visitem este quadro de Henri Gervex (que hoje nos cheira, se permitem que meta o nariz onde não se deve, a academismo).

“Rolla” (1878) foi pintado alguns anos depois da “Olympia” de Manet, e inspirado por um poema de Alfred de Musset. O centro do quadro é Marie, a prostituta pela qual Rolla, consumido pela paixão, pagou uma noite de amor. Dissipou assim as últimas notas, conseguidas com a venda da sua pistola, e algumas emprestadas pelos amigos aos quais jurara que, obtidos os favores de Marie (Marion), a luz do sol já não o voltaria a encontrar com vida. Cara, muito cara, Marie. Agora, a morte espera o apavorado Rolla enquanto o corpo macio de Marie se delicia com um sono tão lascivo como a satisfeita noite que os lábios entreabertos denunciam.

Gosto do luxo do leito, da invasora luz matinal, do corpete caído no sofá (diz-se que por sugestão de Degas), atravessado pela cana da inútil bengala. Para além da portada aberta, Paris, o boulevard.

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Henri Gervex em auto-retrato: Discussão de Amantes

Números ou poemas

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Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 21 de Agosto

Olho para o mundo com um optimismo que embaraça mesmo os meus melhores amigos. Às vezes, em vez da bica curta, já me atiram com um balde de água fria. Mas depois vem a UNESCO despejar-nos em cima estes números gloriosos: baixou para 14% a população mundial analfabeta. Há 30 anos havia 30% de analfabetos, há 70, 44%. Professores sejam louvados, 91% dos jovens de todo o mundo sabem hoje ler e escrever.

Eis o mundo melhor, eis o hoje que canta. Olhem para a satisfação pessoal desta gente! Nos países em que a alfabetização cresceu, cresce também o rendimento individual e o PIB põe-se aos saltos. São números e comovem: parecem poemas.

As pestanas de Anna

É tão, tão bonita a Anna Karina. E as pestanas? Bem sei, a canção de Aznavour, esse hino à flacidez e desencanto, também ajuda. Muito. Ah, que bom é estufar o amor a beleza e depressão.

O filme, do maravilhoso Godard dos anos 60, chama-se Une Femme Est Une Femme. Ao lado de Anna senta-se Jean-Paul Belmondo, o tipo das moedas para juke-box.

 

Pátroclo

 

Akhilleus_Patroklos_Antikensammlung_Berlin

Pátroclo é um herói sem biografia. Quando o vemos só o vemos para melhor vermos Aquiles. Teve mulher e filhos? Um cão que fosse?

Sabemos que amou Aquiles, o protegeu em vida e o assombrou depois da morte. Amou-o desinteressadamente. Amor romântico porventura, insinuam agora as leituras de revisão da matéria dada.

Aquiles amou-o também. Distraidamente. Dolorosamente só quando o soube morto: rojou-se pelo chão, cravou as mãos na terra que espalhou depois pelos cabelos, enquanto lhe corriam grossas lágrimas pelo rosto – são sempre grossas as lágrimas do herói clássico. As escravas choraram com ele e o clamor chegou ao céu, a Tétis, a deusa sua mãe. Porque Aquiles era divino e é mais fácil ser-se herói quando se é divino. Pátroclo era apenas herói de ser herói, por pura virtude, pura areté, essa virtude que Homero vê como sobre-humana, como me ensina a Paideia, minha grande educadora.

Há em Pátroclo uma resignada consciência do destino trágico. Como se soubesse que a única pincelada biográfica que lhe conhecemos – ter morto cobardemente, em criança, um amigo que com ele jogava aos dados – mais ou tarde ou mais cedo viria borrar a tela em que a sua madura are se fixou. Pátroclo sabe que é um herói homérico inserido num ciclo vicioso de vingança. E que ele é ou vai ser, mais tarde ou mais cedo, o bouc emissaire de um desfile de morte e impiedade. Esse momento trágico, a morte de Pátroclo, é o prelúdio para que, como uma orquestra sinfónica, Aquiles possa atacar a seguir com som e fúria.

Antes, o destino concede a Pátroclo o seu momento de volúpia. Entrou na tenda de Aquiles a chorar como uma menina (não sou eu, mas Aquiles quem o diz), aterrado com a mortandade que os gregos sofriam e a que Aquiles, ressentido com Agamémnon, continuava indiferente.

Aquiles ordena-lhe então que vista o seu escudo, o escudo em que Hefesto pintou céu, terra, mar, o fogo que tudo consome, o “sol infatigável”, as estrelas e a lua, as cidades mais belas, as bodas, as festas e as celebrações dos humanos. Essa faiscante visão harmónica do universo – concepção épica de Homero – fará, por si só, tremer o adversário.

Homero que fora abundante e eufórico quando noutro canto descrevera a vasta couraça é, agora que Pátroclo a vai vestir, sucinto à beira da escassez:

O guerreiro não esperou segunda ordem e começou a vestir a resistente couraça. Colocou, depois, as cabeleiras, que prendeu às pernas com fivelas de prata. Lançou aos ombros a espada de bronze com incrustações de prata e sobraçou o imenso escudo. Pôs o capacete de bronze, bem modelado e sólido, tendo no alto um penacho de crina, que por si só bastava para infundir pavor ao adversário, na cabeça.

Mas nós podemos adivinhar o frémito que Pátroclo se autorizou ao vestir as armas do amigo. Um pingo de divindade caiu-lhe e deslizou sobre o peito. Talvez tenha fechado levemente os olhos e sonhado, fugaz, a vida e a biografia que nunca teve: uma casa, filhos, o vinho espesso e doce que se bebe à lareira, o rumor das palavras de um filósofo que se convidou nessa noite. Um segundo apenas, o arrepio e o deleite de um segundo. Lá fora, a batalha esperava-o urgente, o fio da espada de um troiano sedento do seu sangue.

Recebêmo-lo hoje,a carne ainda retalhada, neste cemitério que é a Página Negra

Meu caro Donald

 

BRasil XVII

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 20 de Agosto

Meu Caro Donald, deves-nos uma. A nós, portugueses. Um dia destes, passamos por Washington, pagas-nos uma bica curta e está feito. Isso de desatares a comprar a Gronelândia, fingindo que é originalidade americana, sem dizeres que nos estavas a imitar, tem de acabar. Bem sabes que, à conta da ocupação espanhola, os holandeses nos sacaram o Brasil. Corridos os Filipes, fomo-nos aos holandeses e demos-lhes uns valentes enxertos de porrada, mas cansados de guerra acabámos por lhes comprar o Nordeste pelo que hoje seriam quase 550 milhões de euros. Ainda nem pátria tinhas, foi no século XVII, Donald. Vê se pagas direitos de autor!