
Na Guerra e Paz, aquela editora com que, parece, eu tenho tudo que ver, armaram-me esta bela partida, pondo um paizinho a ler o meu Pequeno Livro dos Grandes Insultos. Acho muito bem e mando também beijinhos à Marina.
Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!

Na Guerra e Paz, aquela editora com que, parece, eu tenho tudo que ver, armaram-me esta bela partida, pondo um paizinho a ler o meu Pequeno Livro dos Grandes Insultos. Acho muito bem e mando também beijinhos à Marina.

O Simca Aronde, segunda mão, em que o meu pai me levava, era igual a este, mas azul e branco. Passámo-lo a cinzento metalizado, logo que a Direcção de Viação deu licença, nesse tempo de pedir licença. Andávamos pelas ruas de Luanda, asfalto e terra vermelha, Vila Alice, igreja de São Domingos ou Sagrada Família. E íamos até às praias, para sul, quase até à foz do Kuanza, pic-nic no Morro dos Veados.

A última vez, com as válvulas à beira do colapso, a cambota em surdos lamentos, os pistões a ameaçar greve, fomos way East, ao Dondo, passando por Catete, Maria Teresa, Zenza. Depois, uma subida a pique, até Cambambe. Fomos nós – o meu pai e a minha mãe, irmã e eu, candengue – que o levámos pela mão, ao Simca, já tão lacrimoso e ainda muito francês. Não o deixámos, mas se calhar devíamos tê-lo deixado morrer no meio do mato africano que tem o apetite voraz que as mães gostam de ver nos filhos.

Era uma altura em que havia a mania das listas. Foi há anos, quase uma dúzia, que me perguntaram. Confessei, então, estas seis manias, estes seis sinais particulares.
1. Ter a mania que vou escrever, numa semana, uma dissertação de mil páginas sobre o uso da palavra dor em Wittgentstein;
2. Detestar que digam “eles” quando se fala dos diferentes poderes;
3. Estimar o catolicismo apesar de funda crença agnóstica;
4. Gostar de pessoas que não aceitam convites;
5. Aceitar todos os convites;
6. Achar que o melhor do presente é a maleabilidade do passado. Futuro? Who cares!
Bem vistos de frente e até mesmo do avesso, são seis sinais particulares que justificam alguns cuidados médicos, mas o que vale é que mais compaixão no mundo do que aquilo que se pensa.

De vez em quando, baptizados, casamentos e funerais, o passado vem ter connosco. “Então, há quanto tempo! Tens andado desaparecido!”, diz-nos alguém que “está na mesma”, que na mesma pensa “as mesmas coisas” que sempre pensou e evoca os mesmos sonhos que “juntos, lembras-te, partilhámos”.
Ou, como diria um empedernido psico-sociólogo, as rupturas que tecem as nossas existências reenviam-nos a uma ruptura essencial, constitutiva. O que, se mal percebo, quer dizer que a ruptura é que nos funda e que sem mudança estaríamos mortos.
Mas é do amigo que já mal nos lembrávamos e “ai, mas como é que este gajo se chama?” que estávamos a falar. Reencontro ou ruptura, a coisa abre-nos no peito, e isto sou eu a falar outra vez, uma bela ferida. Dói muito ver, de olhos nos olhos, o passado que outros nos trazem. Entendamo-nos (tento, pelo menos, eu entender-me comigo), não se trata de sobranceria, de olhar os outros como alguém que já não queremos ouvir ou que não queremos, por precaução, que nos ouçam. O drama é que vemos nos outros, indesmentível, a preto e branco, um retrato nosso, implacável, que não podemos desmentir e não queremos reconhecer. O problema não “são eles”: o que é insuportável é o direito ao esquecimento que a sua presença nos recusa. Já fomos e agora já não queremos ser aquilo que os olhos dos outros vêem em nós.


Fuckin’ Globo, e não sou eu que o digo. É o nome de uma exposição colectiva que reanimou, em Luanda, o infalecido Hotel Globo. Apresenta-a, aqui, em português, o crítico de arte Adriano Mixinge, de quem sou fiel leitor, até por ele fazer o favor de ser meu autor, na Guerra e Paz editores – e nunca percebi o silêncio que em Portugal se fez à volta do seu O Ocaso dos Pirilampos, alegoria crispada e satírica a todos os ditadores, mas em que, a pinceladas expressivas e fortes, se chapava o perfil do ex-presidente angolano.

E, ficando dito o que dito está, o que eu quero dizer é que Mixinge apresenta tão bem os doze artistas angolanos que se albergaram no Hotel Globo, que logo dá vontade de um tipo se enfiar num avião e desembarcar em Luanda. E são eles: Toy Boy, Lubanzadyo Mpemba Bula, Ery Claver, Kiluanji Kia Henda, Maria Gracia Latedjou, Miguel Prince, Thó Simões, Joana Taya, Nelo Teixeira, Verkon, Daniela Vieitas, e Indira Grandê.
É claro que, se sobre arte, só admite ler coisas em inglês, o artigo de Mixinge está também aqui na traiçoeira língua de Shakespeare.


Os lindos pescoços de Modigliani, de que acima se pode ver um magnífico e sinuoso exemplo, não têm paralelo. Mas há uma rima apetecível. Esta, a que se encontra na estilização e rigoroso desenho de Amadeo de Souza Cardoso.

Não discuto elegâncias — prefiro Modigliani, está claro. Ah, mas o português Amadeo, com o pescoço destes galgos, tem pelo menos uma vantagem sobre o pescoço do modelo do seu amigo Modigliani: é muito mais veloz.

Caramba, vamos lá começar bem o dia. Sentem à mesa do pequeno-almoço um tipo cheio de fantasia, irreprimível na ousadia, adepto da multiplicação.
Há três razões para gostarmos dele:
inventou a dança nos filmes;
inundou o ecrã com delirantes visões eróticas;
celebrou no cinema o milagre da multiplicação das pernas femininas.
Estou a a falar de Busby Berkeley. Ou seja, ninguém! Pelo menos para qualquer pessoa que não tenha passado os cinco últimos anos fechado num arquivo de cinemateca. Ou então, alguém! O maior artista americano do século XX para Andy Warhol.
Era dance director, fosse lá o que isso fosse (mas era alguma coisa), quando chegou a Hollywood. E, vindo da Broadway, chegou desconfiado. Não é fácil de explicar, mas os filmes dos outros que ele fez, passaram a ser dele. Trabalhou, nos anos 30, com a explosão do sonoro, para a Warner Bros e para o produtor Daryl F. Zanuck. Cabia-lhe imaginar e executar as coreografias dos números musicais de filmes com histórias convencionalíssimas. Só queria, como disse, fazer as pessoas felizes nem que fosse por uma hora. Sem essas coreografias os pobres desses filmes estariam a arder em lume brando num purgatório perto de si.
O que é que Berkeley fez, então? Juntou água, mulheres, bandeiras, soldados, mulheres, noites, camas, pianos, mulheres e transfigurou tudo com uma poética a que podemos aplicar os qualificativos que quisermos – surreal, vanguardista, místico-freudiana – mas que só é explicável se usarmos o termo certo: hollywoodiana.

Poética hollywwodiana. De brancos imaculados, escuríssimos negros, combinatórias prováveis, mas tão deslumbrantes, de repuxos e nudez, da câmara colocada no ponto de vista de Deus com trompe l’oeil magníficos, imensas paradas de pijamas e ceroulas, centenas de pares sentados em cadeiras de balouço. Acreditem, essa multiplicação, feita com precisão geométrica, pode ser – era e é – a mais erótica, a mais carnal, das visões. Nas palavras directas e talvez tocadas por um módico de ciúme, doutro coreógrafo mais tardio, Berkeley “arranjava montes de louras e filmava-as de todas as maneiras aceitáveis para a classe média. Não as podia despir completamente, mas punha-as de pernas abertas e com os seios pendentes. Tudo aquilo era a sua maneira de olhar eroticamente para mulheres esplêndidas, servindo a câmara de substituto do pénis.”
Não será um artista como de Man Ray ou de Matisse se diz que são artistas. É talvez um sargento, ou um jovem tenente (o que bate certo com a sua formação na Academia Militar), com a obsessão das formaturas, mas nos jardins suspensos de Busby Berkeley, no começo dos anos 30, no glorioso preto e branco da Warner Bros, surgiu uma arte pop avant la lettre: a águia americana e as stars and stripes de Jasper Johns, os tintados retratos de celebridades de Warhol, já tinham sido imaginados e delirantemente sonhados em Footlight Parade, Dames, 42nd Street e nas Gold Diggers de Busby Berkeley, nascido em 1895 e chegado ao paraíso a 15 de Março de 1976. Presumo que o velho e perverso Jeová lhe tenha entregue as coreografias celestes: julgo tê-los visto, aos dois, a deslizar pelos túneis que Berkeley montou com milhares de angélicas pernas abertas.
I’d Rather Go Blind é uma canção de 1967. A interpretação original é de Etta James. Mas eu ouvi-a primeiro na versão dos Fleetwood Mac que, na altura (ou terá sido só para esta canção), integrava elementos de outra banda inglesa, os Chicken Shack.
A simplicidade da letra é extrema, como extrema é a sua emoção:
Something told me it was over
When I saw you and her talking
Something deep down in my soul said, ‘Cry, girl’
When I saw you and that girl walking out
Oh, I would rather go blind, boy
Than to see you walk away from me, child
You see I love you so much that I don’t want to watch you leave me, baby
Most of all, I just don’t want to be free, no
Experimentem ouvir agora o original de Etta James. Doce, redonda e cega como a alma, the soul.