Bica Curta servida no CM, na 3ª feira, 30 de Abril
Casaram no dia anterior. Tomaram uma bica e suicidaram-se depois. Adolf Hitler e Eva Braun morreram, faz hoje, dia 30 de Abril, 74 anos. Hitler testou antes, no seu cão, o cianeto que ele e Eva engoliram depois. A si mesmo, Hitler deu ainda, por via das dúvidas, um tiro na cabeça. Deixou-nos o mais hediondo crime que a humanidade viu, a morte em massa de seres humanos em fornos crematórios. Matou por uma só razão: o ódio étnico, ódio ao judeu.
O monstro da irracionalidade atormentou nazis e comunistas no século XX. Invocou-se a raça, invocou-se a ideologia para matar sem lei. Não podemos deixar o monstro à solta no século XXI.
Estes são os veículos. Veículos da minha nostalgia. Atópicos. Utópicos. Sim, senhor guarda, pode mandar-me prender, estes veículos são historicamente comunistas.
Sim, camarada polícia, não tenho fotos dos próprios dos veículos. A pressa da vida não dava, naquele tempo, para selfies, os actuais soporíferos com que renunciámos a olhar directamente para as coisas.
Veja, camarada inspector, os meus veículos ideológicos. Chegavam a dar a mítica velocidade marxista de cem à hora.
Primeiro, lá em cima, aquele móvel objecto amado, migrador, fugitivo. Comprado a mielas, por mim e pelo meu avilo Rui, em Luanda, para nos levar a fazer a revolução no Lobito e que morreria, de morte matada, no pasto do fogo carcamano. As cinzas ficaram durante meses em frente ao Chá para Dois, no Terreiro do Pó, tão perto do mercado, esse picadeiro em que desfilavam, ao domingo, as miúdas lobitangas.
Foi o meu primeiro carro. Infantil e voluptuoso.
Depois, regressado a Luanda, e nos braços da sagrada desesperança da independência, outra vez a mielas, com o meu kamba Jorge, comprámos um quase igual a este aqui em baixo. Era o casulo não-conformista em que, pelos restos da revolução, circulávamos nós, os últimos hippies.
A violência que perpassa nestes poemas! A poesia de João Moita não nos põe só uma pedra sobre a boca. Esta é uma poesia que drena gangrenas, incuba miasmas. Eis um novo livro de poemas e vejam que nele regressa a voz mais íntima e física que a tradição poética universal nos soube dar.
João Moita, com a publicação de “Uma Pedra sobre a Boca”, oferece-nos a sua poesia toda: os primeiros livros, agora refundidos, todos os seus últimos poemas. Esta é uma poesia em que “os cães ladram com o bafo quente / das entranhas…” Repito, esta é uma poesia que murmura violência, que se esconde da sua própria, íntima e funda violência, como o mastim que dorme com as marcas dos nossos dentes sobre o dorso. E é uma poesia dolorosa, liturgicamente sexualizada, de amor estendido entre a luz e a escuridão.
João Moita nasceu em Alpiarça e tem 35 anos. Traduziu outros poetas, Saint-John Perse, Rimbaud, Whitman, Gamoneda, mas neste “Uma Pedra sobre a Boca” quer traduzir-se a si mesmo. Traduz-se em silêncio, sangue e volição. Eis a poesia de um falso monge, com o corpo a arder de vontade. João Mota parece querer privar-se do mundo, remeter-se à sua fome, caminhar com um anjo ferido pelos passos da escrita. Essa é a sua errância, uma errância que reconhece e quer reconciliar-se com a beleza ázima do mundo. Na sua céptica e escassa alegria confessa;
«Pôs-se uma manhã limpa como o escárnio,
estou prestes a ser feliz.»
A ler, com urgência. A tanto nos incita este poema que aqui vos deixo:
«Estou curado da minha juventude. Uma longa agonia precedeu uma repentina
convalescença. Receitaram-me doses cavalares de cinismo, fui aconselhado a
tomar exemplo nos cobardes, a aproveitar o estatismo da inquietação, a modorra
da desistência, a ebriedade do dever. Nada disso foi preciso. Sou autodidacta da
madurez: caio da árvore pelo meu próprio pé, e a árvore abate-se sobre mim.»
Bica Curta servida no CM (mesmo ao pé do Estádio da Luaz, na 5ª feira, dia 25 de Abril
O pé direito de João Félix é ainda do século XX: nasceu no fim de 1999. É esse pé, do século de Pelé, Maradona e Eusébio, que faz o génio de Félix. O futebol do século XXI, todo tiki taka, é geométrico e táctico. Menos João, que é um vadio. Lá vai Jesus Cristo, onde estão os discípulos? Também João, peregrino, aparece por milagre onde ninguém o espera. Bebe a bica, multiplica os pães: e é cá cada pão! Mesmo a bola, certinha com os outros jogadores, ao cheirar o pé dele logo se converte, romântica, numa Maria vai com o Félix.
Há um puto vadio no estádio: faz o que gosta, chora, ri e saca tempo para dar beijinhos ao irmão.
Do que eu gostava em Frank Zappa, além da música – e o que prezo e estimo os meus velhos vinis do The Grand Wazoo e do Waka Jawacca – era das afirmações cabais.
Desta sobre o comunismo:
O comunismo não funciona porque as pessoas gostam de ter coisas.
Desta sobre a América:
Os Estados Unidos é uma nação de leis: mal escritas e aplicadas ao acaso.
Estas duas frases copiei-as de um livro, W. C. Privy’s Original Bathroom Companion (2003) de Jack Mingo and Erin Barrett. As frases cintilam como estrelas. A música era cósmica. Separei-me de muita coisa. Nunca do inteligente caos de Cletus Awreetus-Awrightus.
Gosto de starlets. Negá-las, seria negar a minha adolescência. E o cinema precisou tanto delas. O que seria de Botticelli sem Vénus, essa starlet do Olimpo? Peço desculpa aos cinéfilos mais fundamentalistas, mas de vez em quando faz-me falta um fim-de-semana com Elke Sommer, fazendo notar que esta prosa foi redigida em tempos que menos prezavam a elegância política da Senhora Merkel .
Agora, a alemã Merkel já parece sexy mesmo à esquerda fracturante. Ora eu lembro-me que, grossos lábios pré-botox, grandes olhos de malícia infantil, nascida em Berlim quando pelo bigodinho do suástico Adolf passava o desvairado sopro da expansão, houve outra alemã que, anos 60, trouxe esse thrill que põe um calor húmido na escusa respiração de uma sala de cinema.
Chama-se Elke Sommer. Fotografa com a descarada ingenuidade que a perfeição do corpo, todinho em 3D, mais acentua. Via-a, agora, em “Deadlier Than the Male”, hospedeira em avião privado, a levantar a saia para tirar um charuto, que uma liga lhe prende à abençoada perna. Dá-o a um passageiro especial e acende-lho. O homem puxa uma passa com o celerado prazer com que Boris Johnson apoiou o Brexit. Puxa a segunda passa e uma bala, que o charuto esconde, dispara-se, abrindo-lhe um insidioso furinho na nuca. Está, digamos, morto. De pára-quedas à James Bond e já de fato de banho, Elke salta. O avião armadilhado explode atrás dela. O que Elke mata, nesse filme…
Se esta fosse uma crónica séria, com o decoro de um vago respaldo académico, diria que Elke Sommer foi o epítome da starlet. Dito à maneira do miúdo que fui, e que com ela privou no escuro do cinema e na intimidade couché das edições vintage da Playboy de 1964 e 1967, direi que Elke, filha de pastor luterano, foi uma alegria praticante para os meus olhos católicos.
Numas férias com a mãe, elegeram-na Miss Turista, em Viareggio, com foto no jornal. Viram-na outros olhos católicos, os do Signor Bertelli, que lhe bateu à porta da pensão, convidando-a a filmar “O Amigo do Jaguar”. Viu-a, depois, Vittorio De Sica: atirou-a para as estrelas, ou seja, para a América.
Filmou com Paul Newman, Peter Sellers, Glenn Ford e James Garner, mas o incidente que a ressuscitou nos jornais foi ter pespegado com um processo a Zsa Zsa Gabor, outra starlet. Foram as duas domar bichos no Circo das Estrelas e Gabor disse a jornais alemães que Sommer estava na miséria, vivia de vender roupa e parecia uma avó careca de cem anos. Tudo mentira e Gabor foi condenada a pagar três milhões de dólares. Pior, a última palavra foi a da ingénua Elke: “Tiveram de vir quatro homens pôr Zsa Zsa em cima de um cavalo, tão pesado tem o imenso rabo.” Por mais que a visada Zsa diga acomodar o posterior numas calças juvenis, a imagem dos homens a levantá-la em peso já é um número de circo.
Se isto não parece um James Bond vou ali e já volto
Façam o favor de ser felizes. É o voto que dirijo a todos. Mas ainda mais aos que acreditam em tudo.
Aos que acreditam que a vida tem um sentido e que esse sentido é de elevação e grandeza, de glória terrena e glória cósmica. Mas ainda mais aos que, acreditando em tudo isso, amam na vida uma necessária e abençoada dose de frivolidade e de alegria parva, a que finamente se chama gaieté, deixando-se por vezes andar como as aves do céu e os peixinhos do mar, na crença genuína de que Deus ou a bela Natureza hão-de prover ao seu sustento.
Aos que firmemente acreditando na justiça se empenham por tornar o mundo melhor, na incessante batalha da denúncia, campeões do bem desarmando o mal, mas ainda mais aos que acreditando na defesa dos fracos e oprimidos, sabem, como Humphrey Bogart, sorrir à adversidade e vilania e se dão ao luxo de também saberem desligar-se, por acharem que as pequenas alegrias do dia-a-dia é que são o sal da terra, até porque, mesmo quando enfrentou a mais odiosa opressão, o ser humano sempre foi capaz de construir casulos de felicidade.
Aos que amam os hermetíssimos ensaios de Heidegger, o desconcerto de sentido dos aforismos de Wittgenstein, a teia inenarrativa dos filmes de Béla Tarr, Malick ou de Manoel de Oliveira, mas ainda mais aos que, acreditando que a chata densidade e a espessa dificuldade são parte da humana construção da cultura, também acreditam e se divertem com a banda filarmónica a tocar o hino, com uma anedota brejeira de leitaria (se ainda houvesse leitarias), com a exaltante parvoeira de um jogo de futebol ou com um baile de aldeia, porque quem não é para essas emoções simples corre bem o risco de estar só a usar as emoções complexas como uma cortina de ferro.
Aos que acreditam, com devoção e militância, em Deus nosso senhor Jesus Cristo, na Virgem Santíssima, na transubstanciação, no Menino Jesus e no Presépio aquecido pelo hálito inodoro do Espírito Santo, mas ainda mais aos que acreditam que essa é mais uma das (muitas) maravilhosas capelinhas teórico-práticas elaborada pela genialiadade de povos e seus profetas para consolação e encanto das mulheres e dos homens face ao ciclópico e inóspito mistério da vida, uma calorosa forma de conferir beleza e arquitectura ética a uma vida que aos nossos avoengos, descendentes de Adão e Eva, parecia um caos, uma balbúrdia babilónica, big bagunça de um primordial bang, porque com essa construção religiosa, e outras similares de outros povos e culturas, os humanos foram mais fortes e sobreviveram, como Darwin lhes pedia, e bastava isso para ser de Darwin o reino dos céus.
Aos que acreditam no Amor e na fidelidade, no casamento, na família e numa vida sã, mas ainda mais aos que acreditando na bondade e no equilíbrio dessas instituições, sabem e acreditam que sem a marivaudage, a graciosa e ligeira subversão sacha-guitriana, as mulheres e os homens não teriam experimentado delícias venusianas, mergulhos dionisíacos e outras formas acrobáticas de prazer, nem sequer teríamos de Shakesperare o Otelo, ou de Oscar Wilde e Ernst Lubitsch o Leque da Senhora Windermere, para não falar da faraónica Cleópatra ou do fumegante Bill Clinton.
Aos que acreditam na frugalidade de uma vida estóica, tendo sempre presentes os grandes valores, a contenção e a poupança, a recusa da ostentação, empenhados numa seriedade exemplar e humilde, mas ainda mais aos que sem abdicarem dessa inflexível crença, sabem e acreditam que é preciso povoar a vida com o humaníssimo e sumptuário brilho de luzes e que esse luxo nos prepara, com bom senso e calma, para aceitar ainda mais os outros, recebendo-os com o breve estrondo da rolha que salta de uma garrafa de champanhe e um grama de caviar, porque a humanidade também precisa por vezes de deslizar com e na suavidade de um Rolls-Royce.
Façam todos o favor de ser felizes. Por acreditarem. E em particular ao Menino Jesus que um dia irrompeu no poema de Alberto Caeiro, fugido ao Deus das barbas e mau feitio, à Nossa Senhora dobrada a fazer meia, para vir à Terra levantar as saias às raparigas, a pular que nem doido numa poça de água, a roubar fruta nos pomares. Anda fugido esse Menino. Estará cansado e vai ter frio, com o frio que neste mundo está. Se o virem, se vos tocar à campainha, abram-lhe a porta, dêem-lhe colo, troquem com ele histórias e sonhos. Façam-lhe o favor de ser felizes.
A imaginação humana é esfomeada e vai com toda a sede ao pote. Não lhe chega o feijão com arroz da realidade. Ponham-se os olhos em Jean-Baptiste Botul. Ninguém sabe nada dos seus 51 anos de vida, de 1896 a 1947. Ora, nem todo o ouro do Banco de Portugal pagaria a riqueza da sua existência.
Botul foi filósofo. Tal qual Sócrates, nada deixou escrito. Errante, vamos descobri-lo a falar a uma comunidade alemã no Paraguai, fugida ao apocalíptico Exército Vermelho, em 45. Inspirada no pensamento de Kant, a comunidade veste-se como o filósofo, come e dorme como ele, dá, toda, o mesmo passeio vespertino com que Kant animava as ruas de Königsberg.
Bem antes do Paraguai, crava-se na biografia de Botul uma constelação de aventuras. Eis os cometas que atravessam incandescentes a sua vida: mulheres como Marthe Richard, a viúva-alegre de França da minha crónica anterior, Lou-Andreas Salomé, a amada de Nietzsche, a Beauvoir de segundo sexo, a adorável Josephine Baker; homens como o revolucionário Salazar, e falo neste caso de Emiliano Zapata Salazar, tão mexicano como o bandido Pancho Villa, ambos seus amigos, como finamente o foi Marcel Proust e depois André Malraux, ministro de De Gaulle, e ainda, ou por fim, Landru, o assassino em série, que esturricava viúvas, e em cujo forno se encontraram restos de mulheres correspondentes a três cabeças, cinco pés e seis mãos.
Voltemos ao Paraguai. Os refugiados alemães, porventura nazis de alto coturno, na sua perfeita imitação de Kant, deparavam-se com um dilema: como poderiam reproduzir-se se Kant foi em vida o exemplo da castidade absoluta? Botul, professor na Sorbonne, veio fazer-lhes um ciclo de cinco conferências em alemão, que alguém registou, e que, no último ano do século XX, outro francês descobriu e verteu para o livro com o título “A Vida Sexual de Emmanuel Kant”.
Numa revelação que rasga vestes de céus e terra, Botul esclarece, fulgurante, que a “coisa em si”, esse esplêndido conceito kantiano, é nem mais nem menos do que o sexo, confirmando o que, ao sussurrarem a branda expressão “dá-me a coisinha”, quer os habitantes da minha aldeia beirã de Vale de Madeira, quer os do meu musseque Sambizanga de Luanda, nocturnamente suspeitavam. E Botul, um passo adiante, acrescenta uma peculiaridade dos grandes espíritos: o filósofo é dotado de uma forma singular de se reproduzir, em vez de penetrar, retira-se. Esse retraimento – ou encolhimento – está na origem do estado de espírito de todo o filósofo: a melancolia.
A França universitária vibrou com a descoberta deste desconhecido Botul e houve quem, como o aturado pensador Bernard-Henri Lévy, o tenha citado com profusão num livro seu. Estaria tudo muito bem se não houvesse, e há sempre, um diabo nesta história. Botul nunca existiu. Esse filósofo, a sua biografia, os seus livros são um maravilhoso embuste literário primorosamente desenhado pelo professor de filosofia e jornalista Frédéric Pagès, da mesma forma que Orson Welles inventou a invasão da Terra pelos extra-terrestres na sua radiofónica Guerra dos Mundos. A França riu-se como o infeliz Macron não se consegue agora rir, e o vexado filósofo Bernard remeteu-se à dissecação terapêutica da coisa em si, relendo a “Crítica da Razão Pura” do sorumbático Kant.
O inexistente Botul continua a publicar livros, por exemplo “Landru, um percursor do feminismo”, e a associação dos seus amigos reúne-se em banquete anual, atribuindo prémios aos autores que o citam. Entre eles, Bernard-Henri, o mais cândido dos laureados.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios