Aos que acreditam em tudo

scouts
Este é texto de escuteiro

Façam o favor de ser felizes. É o voto que dirijo a todos. Mas ainda mais aos que acreditam em tudo.

Aos que acreditam que a vida tem um sentido e que esse sentido é de elevação e grandeza, de glória terrena e glória cósmica. Mas ainda mais aos que, acreditando em tudo isso, amam na vida uma necessária e abençoada dose de frivolidade e de alegria parva, a que finamente se chama gaieté, deixando-se por vezes andar como as aves do céu e os peixinhos do mar, na crença genuína de que Deus ou a bela Natureza hão-de prover ao seu sustento.

Aos que firmemente acreditando na justiça se empenham por tornar o mundo melhor, na incessante batalha da denúncia, campeões do bem desarmando o mal, mas ainda mais aos que acreditando na defesa dos fracos e oprimidos, sabem, como Humphrey Bogart, sorrir à adversidade e vilania e se dão ao luxo de também saberem desligar-se, por acharem que as pequenas alegrias do dia-a-dia é que são o sal da terra, até porque, mesmo quando enfrentou a mais odiosa opressão, o ser humano sempre foi capaz de construir casulos de felicidade.

Aos que amam os hermetíssimos ensaios de Heidegger, o desconcerto de sentido dos aforismos de Wittgenstein, a teia inenarrativa dos filmes de Béla Tarr, Malick ou de Manoel de Oliveira, mas ainda mais aos que, acreditando que a chata densidade e a espessa dificuldade são parte da humana construção da cultura, também acreditam e se divertem com a banda filarmónica a tocar o hino, com uma anedota brejeira de leitaria (se ainda houvesse leitarias), com a exaltante parvoeira de um jogo de futebol ou com um baile de aldeia, porque quem não é para essas emoções simples corre bem o risco de estar só a usar as emoções complexas como uma cortina de ferro.

Aos que acreditam, com devoção e militância, em Deus nosso senhor Jesus Cristo, na Virgem Santíssima, na transubstanciação, no Menino Jesus e no Presépio aquecido pelo hálito inodoro do Espírito Santo, mas ainda mais aos que acreditam que essa é mais uma das (muitas) maravilhosas capelinhas teórico-práticas elaborada pela genialiadade de povos e seus profetas para consolação e encanto das mulheres e dos homens face ao ciclópico e inóspito mistério da vida, uma calorosa forma de conferir beleza e arquitectura ética a uma vida que aos nossos avoengos, descendentes de Adão e Eva, parecia um caos, uma balbúrdia babilónica, big bagunça de um primordial bang, porque com essa construção religiosa, e outras similares de outros povos e culturas, os humanos foram mais fortes e sobreviveram, como Darwin lhes pedia, e bastava isso para ser de Darwin o reino dos céus.

Aos que acreditam no Amor e na fidelidade, no casamento, na família e numa vida sã, mas ainda mais aos que acreditando na bondade e no equilíbrio dessas instituições, sabem e acreditam que sem a marivaudage, a graciosa e ligeira subversão sacha-guitriana, as mulheres e os homens não teriam experimentado delícias venusianas, mergulhos dionisíacos e outras formas acrobáticas de prazer, nem sequer teríamos de Shakesperare o Otelo, ou de Oscar Wilde e Ernst Lubitsch o Leque da Senhora Windermere, para não falar da faraónica Cleópatra ou do fumegante Bill Clinton.

Aos que acreditam na frugalidade de uma vida estóica, tendo sempre presentes os grandes valores, a contenção e a poupança, a recusa da ostentação, empenhados numa seriedade exemplar e humilde, mas ainda mais aos que sem abdicarem dessa inflexível crença, sabem e acreditam que é preciso povoar a vida com o humaníssimo e sumptuário brilho de luzes e que esse luxo nos prepara, com bom senso e calma, para aceitar ainda mais os outros, recebendo-os com o breve estrondo da rolha que salta de uma garrafa de champanhe e um grama de caviar, porque a humanidade também precisa por vezes de deslizar com e na suavidade de um Rolls-Royce.

Façam todos o favor de ser felizes. Por acreditarem. E em particular ao Menino Jesus que um dia irrompeu no poema de Alberto Caeiro, fugido ao Deus das barbas e mau feitio, à Nossa Senhora dobrada a fazer meia, para vir à Terra levantar as saias às raparigas, a pular que nem doido numa poça de água, a roubar fruta nos pomares. Anda fugido esse Menino. Estará cansado e vai ter frio, com o frio que neste mundo está. Se o virem, se vos tocar à campainha, abram-lhe a porta, dêem-lhe colo, troquem com ele histórias e sonhos. Façam-lhe o favor de ser felizes.

two-kids
Dêem-lhes colo

4 thoughts on “Aos que acreditam em tudo”

  1. A ingenuidade e a inocência não são coisas negativas em cada um de nós, Manuel.

    Embora sejamos mais facilmente enganados pelos “craques do expediente”, que adoram curvas, multidões e pessoas capazes de olhar as coisas com os olhos brilhantes.

    O São Tomé é que não deve ter achado muita graça a esta prosa. 🙂

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