Estes carros são comunistas

dois CV

Estes são os veículos. Veículos da minha nostalgia. Atópicos. Utópicos. Sim, senhor guarda, pode mandar-me prender, estes veículos são historicamente comunistas.

Sim, camarada polícia, não tenho fotos dos próprios dos veículos. A pressa da vida não dava, naquele tempo, para selfies, os actuais soporíferos com que renunciámos  a olhar directamente para as coisas.

Veja, camarada inspector, os meus veículos ideológicos. Chegavam a dar a mítica velocidade marxista de cem à hora.

Primeiro, lá em cima, aquele móvel objecto amado, migrador, fugitivo. Comprado a mielas, por mim e pelo meu avilo Rui, em Luanda, para nos levar a fazer a revolução no Lobito e que morreria, de morte matada, no pasto do fogo carcamano. As cinzas ficaram durante meses em frente ao Chá para Dois, no Terreiro do Pó, tão perto do mercado, esse picadeiro em que desfilavam, ao domingo, as miúdas lobitangas.

Foi o meu primeiro carro. Infantil e voluptuoso.

 

Depois, regressado a Luanda, e nos braços da sagrada desesperança da independência, outra vez a mielas, com o meu kamba Jorge, comprámos um quase igual a este aqui em baixo. Era o casulo não-conformista em que, pelos restos da revolução, circulávamos nós, os últimos hippies.

MG_LUanda