O #MeToo do século XIX

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Pelas agruras das camas das gerações anteriores conheceremos as nossas? Lençóis à parte, o que tem uma cama do século XIX a ver com uma cama #MeToo?

Espreitemos. A irrupção de Léonie d’Aunet na vida e na cama de Victor Hugo, autor de “Os Miseráveis”, alegrou-o tanto a ele como a Adèle Foucher, sua mulher. Outra mulher naquela cama era uma boa notícia: Adèle estava pelos cabelos com a amante oficial de Hugo, a actriz Julliete Drouet.

E já estou a pôr duas camas à frente do amor. Volto atrás. Victor Hugo e Adèle eram quase noivos de infância. Teriam casado aos 16 anos dela, se a aristocrata mãe de Hugo não desdenhasse a origem sem pedigree de Adèle com o mesmo maternal complexo de superioridade que, hoje, um sociólogo de esquerda aplica à observação da abnegada doçura do povo: Adèle era boa para brincar à cabra cega, mas não para casar. Morreu a mãe e, livre, Hugo casou com Adèle.

Hugo e Adèle tiveram cinco filhos, mas fizeram das suas vidas linhas paralelas que nem a cama conseguia já juntar. Adèle não acompanhava a turbulência boémia de pintores e escritores, nem essa declamatória voz de Hugo, que imagino com a potente sonoridade da de Manuel Alegre. Um amigo de Victor Hugo, amigo lá de casa, o escritor Saint-Beuve, insidioso, ofereceu a Adèle o sub-reptício ombro meloso. O banho-maria intimista de Saint-Beuve era o oposto da truculência viril de Hugo. Adèle apreciou o contraste e tomou a metade de homem que era Saint-Beuve como amante.

Há dois parágrafos que tenho a bela Léonie d’Aunet à espera. Foi a primeira mulher numa expedição ao Árctico. Romancista, amiga das artes, era casada com o pintor François-August Biard. Mas este parágrafo é ainda de Juliette. Victor Hugo perdoou a infidelidade a Adèle, mas sentiu-se autorizado a ter também uma amante oficial. Juliette viera pedir um papel numa peça dele. Era um pé como actriz, mas de uma beleza que fazia soltar “ohs!” de espanto às pedras da calçada. Apaixonaram-se e foram amantes nos 50 anos seguintes. Tudo consentido por Adèle, ressentida apenas com a tamanha exclusividade que os amantes se dedicavam.

O arranjo levava dez anos quando o grande escritor conheceu a bem casada Léonie. Tenho aqui de usar um neologismo: irresistiram-se, caindo nos braços um do outro. Durante dois anos gozaram uma clandestinidade de beijos roubados, camas e quartos de sabe Deus. Até que Léonie falou ao marido de divórcio. François-August já sabia do affaire e consentiria em tudo, menos no divórcio. Veio com um comissário de polícia e surpreendeu-os na cama, em flagrante delito.

Eis o #MeToo do século XIX, acusar a mulher livre e autónoma. Léonie foi arrastada para o calabouço de Saint-Lazare e enfiada num convento por seis meses. Victor Hugo, por ser “par do reino”, era intocável: gozava a imunidade do nosso deputado de Lisboa ou Bruxelas. Foi preciso que o imperador de França, Luís Filipe I, aconselhasse o marido de Léonie a regressar à pascácia calma civilizacional. François-August desistiu da queixa: recusar o conselho imperial seria como recusar uma palavra amiga de Marcelo, se Marcelo nos desse palavras amigas sobre patrióticos rompantes sexuais.

Para revolta da amante oficial, Juliette, que não aceitava traições, quem, depois, pôs Léonie sob a sua asa foi a esposa Adèle. Recebi-a em casa e trocava conselhos literários por dicas de beleza e decoração. Dissuadiu-a até de seguir o escritor quando ele foi exilado político. Victor Hugo honrou os compromissos com as três mulheres que amou e o amaram. Nunca se divorciou de Adèle.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

A Revolução de Outubro e a superioridade moral

Há quase dois anos, que se hão-de cumprir em Novembro, comemoraram-se os 100 anos da Revolução de Outubro. Publiquei então um livro da minha autoria, com o título Revolução de Outubro, Cronologia , Utopia e CrimeA jornalista Marta Talhão entrevistou-me na revista GQ. O resultado é o que se pode ler aqui e que, em altura de Brexit, me apetece recordar.

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Na sinopse do livro, diz que este é um livro de factos. Considera que são muitos os factos desse tempo hoje ignorados?

Os factos foram, durante muitos anos, omitidos, apagados e torpedeados. Mas houve historiadores, como Richard Pipes e Orlando Figes, que obrigaram as narrativas heróicas da revolução a confrontarem-se com os factos. Depois, o fim da União Soviética, a que a glasnost e a perestroika de Gorbachov conduziram, vieram a determinar a abertura dos arquivos do regime comunista. E são os factos que sempre lá estiveram, mas que foram metidos debaixo do tapete da história oficial, que hoje fundamentam a desmistificação das versões em missa cantada da revolução. Os factos mostram que a revolução de Outubro afasta do poder a esquerda, as várias esquerdas, contra as quais o golpe é feito. Os factos mostram que o partido bolchevique, depois partido comunista, era mais do que minoritário e que mesmo pensadores marxistas os consideravam uns alucinados da História.

Cem anos depois, ainda se sentem hoje ecos da Revolução?

A Revolução de Outubro determinou o mapa da Europa. A Europa que somos, com esta tensão tão viva entre a Rússia de Putin e a União Europeia ainda é um eco bastante audível dela. A Revolução de Outubro foi um Brexit avant la lettre. Esse golpe populista pôs a Rússia fora da Europa e influenciou a forma como as tensões políticas se extremaram na Europa o que deu gás (ou ainda mais gás) à emergência do nazismo. Num cenário de “what if”, se a Rússia tivesse evoluído para uma democracia, após a queda do poder autocrático, o que teria acontecido? Teria havido a II Guerra Mundial? Que cenário geo-estratégico teria sido o da segunda metade do século XX, certamente diferente da Guerra Fria e da ameaça de guerra nuclear que assombrou esses 50 anos?

Do seu ponto de vista, foram mais as conquistas ou os efeitos nefastos resultantes da Revolução?

É difícil ver conquistas num processo de terror que durou décadas. Todas as conquistas foram pesadas: a indústria cresceu com trabalho forçado, a unidade territorial e a expansão da Rússia com a criação dos países satélites do Leste são o resultado de uma repressão desmedida, com milhões de mortos e com a suspensão dos direitos humanos. Todas as conquistas do proletariado que o Manifesto Comunista de Marx e Engels entusiasticamente advogava foram conseguidas e adquiridas pelos proletariados dos países democráticos sem o sofrimento hediondo e repugnante que os totalitarismos sempre provocam, e que o totalitarismo soviético provocou a uma escala assustadora.

De que forma acha que o estudo mais aprofundado desta temática nos pode ajudar a definir melhor os caminhos a seguir enquanto sociedade em pleno século XXI?

Reflectir sobre estes pontos é essencial. Leva-nos a recusar os populismos de direita e de esquerda. E obriga sobretudo a esquerda a pensar que não tem nenhuma superioridade moral.

Ainda resta algo dos ideais e da esperança inicial da Revolução?

Tenho a certeza de que muitos dos revolucionários bolcheviques tinham uma vontade real de mudar o mundo e que a isso os impelia sobretudo o profundo desgosto e a revolta que as injustiças do czarismo causavam. Esse ideal é humaníssimo e não vejo nenhuma razão para abdicarmos dele. Mas é forçoso hoje pensarmos que a mudança pela mudança é um caminho para a catástrofe. Não há mudança sem a consciência da tradição. Não há mudança que não tenha de ser alicerçada numa História e num saber que é pertença da humanidade. A mudança que rasga todas as tradições, que se arroga a autoridade de destruir de forma maniqueísta outras classes e grupos humanos, étnicos ou religiosos, não é mudança é puro prazer de destruição.

Trair a raça

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Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 18 de Julho

A racialização das relações sociais é perigosa. É o que está a acontecer no actual PREC, Polémica Racial em Curso. Brancos e negros precisam de um traço de identidade para serem uma comunidade. Tem de nos unir um projecto de futuro comum. O apelo multiculturalista a uma identidade primária, rácica, leva ao fechamento em clã, um passo para um fundamentalismo que converte quem não tem a mesma pele num inimigo a odiar. E, a seguir, inimigos serão também os que ousem pensar diferente, traidores da sua raça. Brancos e negros.

Para bebermos a bica curta juntos e construir um futuro comum temos de fintar a ratoeira do multiculturalismo.

Rutger Hauer

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Nunca falei ou sequer vi de relance na vida real, seja lá o que for a vida real, Rutger Hauer. E tenho tanto a agradecer-lhe. Hoje, na hora da sua morte, se pudesse, juntava à volta de uma mesa, o Francisco Balsemão, o Emídio Rangel, o Bastos e Silva. Só para, juntos, lhe agradecermos. Ao Rutger.

Por muito estranho que pareça, Rutger Hauer, e sobretudo o Rutger Hauer dos filmes low-budget, foi um dos actores que levou aos ombros o êxito da SIC nos anos 90. Os seus filmes de acção, que o Manuel Cintra Ferreira me ajudou a escolher, aquele incendiado vermelho das explosões, os hercúleos esforços, murros, a resiliência, o sofrimento ou a maldade conforme o lado de que estivesse, foram preciosos pontos de share que ajudaram a erguer a televisão privada em Portugal, com todos os muitos bens e alguns males associados, e Deus seja louvado, que é de haver bens e males que a humanidade se faz e vale a pena!

E agora que já me enrolei na saudade como o peixinho da horta no polme antes da fritura, eis o que verdadeiramente quero dizer. Rutger Hauer era tão belo que podia ser feio, era o bem e o mal, a perversidade e o angelismo. Era actor, persona, um físico flexível, dúctil, que ia por onde os olhos dele o levavam, levando-nos. E mesmo quem, por preconceito ou só manifesta infelicidade, não lhe tenha visto os filmes de acção, de porrada (e exagero, só pour épater l’intellectuel!), de explosões em vermelho SIC fim do século XX,  basta que o tenha visto ao lado de Michelle Pfeiffer em Ladyhawke, feito morte on the road de The Hitcher, replicante e elegíaco ao lado de Harrison Ford e Sean Young em Blade Runner. 

Morreu hoje um grande actor de cinema: instilou uma beleza sibilina na maldade, ou melhor, carregou de tristeza a bondade em que sempre descambam os autênticos gestos de maldade. Actor europeu, que em filmes europeus nunca teria sido o que foi em filmes americanos, poucas vezes, como com Rutger Hauer,  o dark side foi tão luminoso. 

ladyhawke

O céu já não é o limite

Aeroporto-Baia-Maho-Saint-Martin

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 17 de Julho

Chineses, europeus, africanos, o que é que nos aproxima? Ouvi a resposta, tomava eu a bica curta: o que ajuda é conhecermo-nos. E conhecemo-nos cada vez mais. Em 2019, vamos bater o recorde de passageiros a viajar de avião. Mais de quatro mil e quinhentos milhões de passageiros vão saltar de país em país. Em 1970, só viajavam 300 milhões. As classes médias dos países emergentes estão a mudar céu e terra. O ano passado, só chineses foram 550 milhões a experimentar as delícias do avião, a felicidade de conhecer outros povos, línguas, culturas.

Eis um programa de combate a xenofobias e racismos: viajar e receber os que viajam.

Uma escrita miudinha

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Talvez ninguém queira entrar num quarto escuro se souber que está em Jerusalém. Mas é num quarto escuro que estão, e podem ser vistas publicamente, as 46 páginas manuscritas por Albert Einstein para expor a sua teoria da relatividade, que hoje é tão nossa por muito pouco que, diga-se a verdade, a compreendamos (falo por mim), e por outro tanto que, nos gestos quotidianos, sobranceiros a ignoremos. A menos que comecemos a beijar-nos e a fazer outras carinhosas coisas a uma velocidade superior à da luz e, nesse caso, comecem na nossa apaixonada mente, a surgir dúvidas quanto a, do ponto de vista da amada boca, estarmos em absoluto repouso ou em relativo movimento. (Isto está tudo errado, já sei, sem uma palavra que seja sobre a forma como os campos gravitacionais, e são tão fortes os de dois amantes, afectam o tempo e o espaço, mas é sabida, neste blog, a minha tendência para a leviandade e fraco humor).

Para que conste, e por causa de um paper intitulado “Sobre a Electrodinâmica dos Corpos em Movimento”, fez em Março 124 anos que aquela icónica e wharoliana cabeça com língua de Mick Jaeger publicou a sua “especial teoria da relatividade”.  O que me impressiona, nas fotos que vi, é a impecável e rigorosa organização da escrita de Einstein. Alinhadinha, miúda e segura (como a de Agustina Bessa-Luís), apoiada em esboços e desenhos a roçar o perfeccionismo, o que assegura aos manuscritos um valor estético de que Einstein era particularmente orgulhoso.

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O novo PREC

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Há uns anos tive o prazer de subir esta escadaria: UCLA

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 16 de Julho

O novo PREC, Polémica Racial Em Curso, tem um mérito: pôs a nu o medo na universidade. Num artigo veemente e frontal, o sociólogo Gabriel Mithá Ribeiro acusou a universidade de ostracizar quem não pensa pela cartilha de esquerda nas chamadas ciências humanas.

Mas o medo de falar – essa velha insídia salazarista – já passou da universidade à vida social. O espectro de décadas de pensamento unidimensional, a que a esquerda se rendeu, assombra cada conversa, cada bica curta. Há uma ameaça de censura e de exclusão, que não honram a liberdade de pensamento e a vontade de saber que esquerda e direita não extremistas têm de partilhar.