Rutger Hauer

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Nunca falei ou sequer vi de relance na vida real, seja lá o que for a vida real, Rutger Hauer. E tenho tanto a agradecer-lhe. Hoje, na hora da sua morte, se pudesse, juntava à volta de uma mesa, o Francisco Balsemão, o Emídio Rangel, o Bastos e Silva. Só para, juntos, lhe agradecermos. Ao Rutger.

Por muito estranho que pareça, Rutger Hauer, e sobretudo o Rutger Hauer dos filmes low-budget, foi um dos actores que levou aos ombros o êxito da SIC nos anos 90. Os seus filmes de acção, que o Manuel Cintra Ferreira me ajudou a escolher, aquele incendiado vermelho das explosões, os hercúleos esforços, murros, a resiliência, o sofrimento ou a maldade conforme o lado de que estivesse, foram preciosos pontos de share que ajudaram a erguer a televisão privada em Portugal, com todos os muitos bens e alguns males associados, e Deus seja louvado, que é de haver bens e males que a humanidade se faz e vale a pena!

E agora que já me enrolei na saudade como o peixinho da horta no polme antes da fritura, eis o que verdadeiramente quero dizer. Rutger Hauer era tão belo que podia ser feio, era o bem e o mal, a perversidade e o angelismo. Era actor, persona, um físico flexível, dúctil, que ia por onde os olhos dele o levavam, levando-nos. E mesmo quem, por preconceito ou só manifesta infelicidade, não lhe tenha visto os filmes de acção, de porrada (e exagero, só pour épater l’intellectuel!), de explosões em vermelho SIC fim do século XX,  basta que o tenha visto ao lado de Michelle Pfeiffer em Ladyhawke, feito morte on the road de The Hitcher, replicante e elegíaco ao lado de Harrison Ford e Sean Young em Blade Runner. 

Morreu hoje um grande actor de cinema: instilou uma beleza sibilina na maldade, ou melhor, carregou de tristeza a bondade em que sempre descambam os autênticos gestos de maldade. Actor europeu, que em filmes europeus nunca teria sido o que foi em filmes americanos, poucas vezes, como com Rutger Hauer,  o dark side foi tão luminoso. 

ladyhawke