Dois novos livros de Jorge de Sena

No centenário de Jorge de Sena, a Guerra e Paz tem a honra de anunciar a publicação, em breve, de dois novos livros do seu autor. Em primeiro lugar, a histórica correspondência trocada por Jorge de Sena com o capitão João Sarmento Pimentel. Depois, uma fotobiografia de Jorge de Sena. São edições que Isabel de Sena, a filha de Jorge de Sena, está a finalizar e que trazem nova luz, não só à obra de Sena e aos estudos senianos, mas também à História da oposição ao salazarismo.

Anunciamos estas novidades, hoje, no dia em que se comemora o centenário do nascimento de Jorge de Sena. Há pouco mais de 56 anos, Sophia de Mello Breyner Andresen, numa carta que Guerra e Paz publicou no livro, cuja capa podem ver aqui, em cima, escreveu-lhe assim: “Tenho andando muito soli­tá­ria, bas­tante desen­ga­nada de lite­ra­tos e sinto muito a sua falta, neste deserto inte­lec­tual. O saloísmo da mai­o­ria dos inte­lec­tu­ais por­tu­gue­ses é quase ina­cre­di­tá­vel e as for­tes desi­lu­sões que tenho tido fizeram-me per­der o ânimo.

Portugal ficou mais solitário. Perdemos Jorge de Sena há tanto tempo, e perdemos já, também, Sophia. Deixaram-nos as cartas – essa forma perdida de comunicação, cultura e afecto – de que a Guerra e Paz fez o seu primeiro livro, cartas que, ao longo de 19 anos, anos de exílio de Jorge de Sena, primeiro no Brasil, depois nos Estados Unidos da América, dois poetas maiores da língua portuguesa trocaram.

Se a correspondência entre Sena e Sophia é imprescindível, o copioso carteio que os poetas Eugénio de Andrade e Jorge de Sena trocaram, entre 1948 e 1978, é um monumento de informação poética, cívica e política e é outro dos grandes livros de Jorge de Sena publicado pela Guerra e Paz, a não perder.

Reúne uma correspondência de cerca de 30 anos, de 1949 a 1978. Por estas cartas e postais passa Portugal. As grandes batalhas literárias, os conflitos estéticos, o rumor pesado da Academia contra o qual Eugénio e Sena se batem, mas também a vida política, a falta de liberdade, a explosão dela no 25 de Abril, as esperanças e as frustrações que se lhe seguiram, que Eugénio, primeiro denuncia: “… a esquerda revolucionária já está a ser aproximada pelos bem pensantes do país, incluindo os comunistas, da mais sinistra reacção” e a que logo Sena responde “… revolução, que cada vez me parece mais um conluio de continuistas e de arranjistas, com alguns revolucionários parvos pelo meio, e muitos demagogos a agarrar os tachos com muita pressa…” de tudo isto há testemunho, vibrante, nestas cartas.

Esta é também, e sobretudo, a Correspondência de uma profunda e íntima amizade. São cartas de amor pelo tão emocionado amor que Sena e Eugénio têm pela literatura, pelo labor poético, pela forma como cantam e procuram a luz, que cega, da Beleza que pode haver num verso.

Melhor do que qualquer explicação, falam as cartas. Por exemplo estas duas que, com muito gosto, vos deixo ler, antes de correrem às livrarias para ficarem com um exemplar à cabeceira.

Carta de Eugénio de Andrade a Jorge de Sena

21 de Maio de 1969

Querido Jorge:

Recebi simultaneamente a tua carta e original de Cavafy, há já alguns dias, mas não tive ocasião de te escrever logo após a leitura dos poemas, como gostaria de ter feito. Comparei mesmo alguns poemas com a tradução do Pontani. Como imaginava, a tua tradução é incomparável, particularmente, os poemas breves, os mais difíceis de traduzir, pelo risco que alguns correm de se transformarem numa quase banalidade madrigalesca, o que acontecia com as traduções francesas, a que não escapam mesmo as traduções mais belas. É um prodígio o que consegues. E se podes afirmar, apoiado em Goethe, que não há grande poema que não possa ser traduzido, seria indispensável juntar que tudo vai do tradutor. Ora o Cavafy teve a sorte de te encontrar no caminho. Se dou mais relevo às traduções dos «eróticos » (achando igualmente notável o que fizeste dos três poemas do Cavafy que prefiro – «O deus abandona Marco António», «Ítaca» e «À espera dos bárbaros») é tão-só porque considero a tradução de tais poemas mais difíceis que os outros. A matéria, além de muito frágil é, em outro sentido, delicada. Tu resolves tudo com uma franqueza, uma elegância e uma frescura verdadeiramente notáveis. Reparo até que os poemas têm uma força explosiva que só intuíra nas traduções francesas ou italianas, receando até que tais poemas constituam um pequeno escândalo, justamente, como muito bem referes no teu prefácio, que é muito corajoso, pela nobreza moral que revelam, isentos, como são, dos perversos conceitos de «pecado».

As traduções deram-me uma grande alegria. Este livro pertence–me. A primeira vez que traduziste o Cavafy, lembras-te?, foi para mim, numa noite em tua casa, talvez depois da leitura de As Evidências. Quando apareceram as tuas primeiras traduções no Comércio, estimulei-te, através de correspondência, no sentido de publicares novas traduções. Quando o editor me pediu a indicação de alguns poetas estrangeiros para a colecção que iniciou com o Lorca, o Cavafy, traduzido por ti, foi dos primeiros nomes que apontei. «Um deus abandona Marco António» e «A origem» são poemas que me acompanham desde a tua tradução no Comércio. (Pude assim notar agora as variantes, importantíssimas, lendo agora «A Origem» neste teu volume).

Felizmente que a alegria que me deu o teu livro me compensou da melancolia da tua carta. O que sobretudo lamento, nesta história do prémio, é que por via de o não receberes sejamos privados de nova visita tua. Tu já sabes o descrédito que tem para mim a chamada glória literária. Ser-se Namora, para me servir da tua expressão, é coisa que suponho não interessa a ninguém. Que importa o êxito? Tu não és um escritor para multidões, não no fundo o desejaste nunca ser. De um certo êxito suponho que terás até desprezo. Podes estar tranquilo: a tua obra está aí, e brilha, e aquece. Ela pertence aos melhores, como bem sabes. É pena, realmente, que a tal ilha, Taiti ou outra qualquer (a minha fica no mar grego), não esteja nunca senão no nosso desejo. Que havemos de fazer? Suportar é tudo – não foi o Rilke que disse? Suportar – não há para nós outra solução sob pena de abdicarmos de sermos homens.

Na próxima carta já te direi quais são os teus 50 poemas que prefiro. Tenho o maior gosto em indicar-tos.

Lembranças afectuosas à Mécia. Para ti o maior abraço do muito

teu, Eugénio

Carta de Jorge de Sena a Eugénio de Andrade

Madison, Wis., USA, 25 de Maio de 1969

Querido Eugénio

Ontem chegou a tua carta com as tuas impressões do Cavafy traduzido, e a certeza de que ele aportou ao Porto em paz. Entretanto terá chegado a Emily Dickinson, criatura (e volume) menos alentada mas não menos grande à sua maneira. Creio ter-te dito que o novo livro de poemas (**) já foi, também pronto, para a Portugália. E todo o meu trabalho se concentrou furiosamente, depois disso, na revisão e cópia (e também conclusão de coisas começadas às vezes e não acabadas nunca) da Primeira Parte das minhas outras traduções: uma massa de cerca de 60 poetas desde 600 AC até 1900… com cerca de 200 poemas (mas muitos são poemas brevíssimos), que dará um volume de 200 e tantas páginas, com algumas das coisas mais belas que fiz na matéria e como «tour de force»: uma dezena de gregos, meia dúzia de romanos, dois chineses, dois provençais, uma dezena de italianos, outro tanto de franceses, cinco espanhóis, outro tanto de alemães, um japonês, uma dezena de gente em inglês. Gente de primeiríssima: Eurípedes, Horácio, Catulo, Li Po, Dante, Miguel Ângelo, Ronsard, Tasso, Góngora, Shakespeare, Bashô, Blake, Goethe, Leopardi, Heine, Mallarmé, Verlaine, Rimbaud, Nietzsche… Quase tudo inédito em letra de forma (só uma dúzia destas traduções todas foi alguma vez publicada, pois que, sobretudo «didacticamente», mais publiquei sempre os modernos que são outro tanto, mas mais concentrados em Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Itália, com alguma França).

Fiquei profundamente comovido e sensibilizado com o teu entusiasmo pelas e a tua apreciação das minhas traduções do Cavafy. Tens razão com a explosividade de muitos dos poemas dele, ante que todos os tradutores sempre preferiram recuar, ainda quando o admirassem e compreendessem. As variantes que encontraste nalguns poemas resultaram do intensivo confronto das versões e dos originais (com o meu grego analfabetismo), em que os eternos eufemismos se me desmascaram. O mal é que a maior parte das pessoas que traduz não são suficientemente poetas: e assustar-se-iam menos com um palavrão que com a franqueza de um poeta que do sexo fale como só aventura. Como o sentimentalismo romântico é um disfarce da moral burguesa (o melado João de Deus que o diga)! E como a «respeitabilidade» não é senão a manutenção dos mitos eróticos. Por isso, como verás, me consolei anos e anos a traduzir poetas que diziam o contrário: e nenhum que tenha sacrificado, pelo menos no poema que traduzisse, à hipocrisia idealizadora, eu jamais traduzi.

Na verdade, este livro pertence-te. E mais do que julgas. Podes estar certo que foi pensando no gosto que terias, que traduzi bastante mais Cavafy, apesar de quanto o admiro como poeta (e creio que o meu prefácio e as minhas notas o analisam bem – também nisso há algo de especial gosto, dada a fragilidade crítica de quase tudo que se escreveu sobre ele). A propósito: não te esqueças de inserir na lista bibliográfica aquela edição do Pontani, que foi a única que não consegui obter nem consultar e tu tens.

Em matérias de glórias, eu sou, francamente, um sujeito contraditório: ao mesmo tempo as pessoas incomodam-me (e muitas vezes até quando escrevem admirativamente a meu respeito, sem que nisto vá ingratidão), o êxito parece-me risível, e sei melhor que ninguém a que várias circunstâncias pode dever-se. Mas a hostilidade com que lutei desde a primeira hora, ou que suscitei sem querer (ou muitas vezes por querer), deu-me também uma sede de triunfo, de mundo a meus pés – talvez pelo que de outcast tenho sido sempre de grupos literários ou profissionais. E isso o não sinto menos na minha vida universitária, onde, no fundo, os meus «colegas» de cá e de lá não me perdoam que eu tenha entrado na profissão «por cima», por força de uma bagagem maior que a deles todos juntos. Mas tudo me fere: fui sempre a vida inteira o mesmo menino esquecido e jogado entre os pais, sedento de atenção e de amor, dividido entre estar só e acompanhado. Ainda há pouco, com o melhor dos sorrisos, um dos velhos daqui me dizia que, com o tempo, talvez eu até desse filologia (visto que, especialista de literatura que a si mesmo se fez, tenho só a filologia que sempre achei precisa só para ela, mas não posso evidentemente, a não ser que me desse uma veneta que não vale a pena, ensinar a dita cuja)…  Quem me dera ter a suprema isenção de um Eça, atento à Inglaterra e à França literárias, mas despegadamente longe de vidas literárias que não eram a sua (aliás, tenho-a por orgulho, pois que faço o mesmo, e não tenho relações literárias na América) – para suportar a babação dos meus colegas de espanhol ante um qualquer escritor espanhol de segunda ordem, comigo ao lado, que nunca leram. E havias de ver a fúria deles, quando um dos doutorandos, no exame escrito, sobre literatura contemporânea portuguesa, se referiu aos meus contos…

E o que mais me dói é o desprezo por tudo o que é português, como se fôssemos uma espécie de leprosos do universo, sem interesse algum. Ainda por cima, tenho de dar cursos de literatura brasileira, em que a maior parte dos admirados escritores não são de modo algum aos nossos superiores: há-os grandes, e isso é outra conversa – mas quanta coisa menor tenho de tratar, e trato, a sério! E é o que irremediavelmente me separa na profissão de professor. O homem de carreira estima tudo o que lhe disseram ou a bibliografia diz que é estimável, sem gastar nisso paixão ou gosto literário.

Eu estimo o que é admirável, ou, por interesse de cultura, o que seja significativo. Só peço aos deuses que o curso que, no ano próximo, vou dar no Departamento de Literatura Comparada, sobre o Maneirismo e o Barroco (Itália, Inglaterra, Alemanha, França, Espanha, Portugal, América Latina, e as artes juntamente), seja um êxito – porque possa eu passar-me, e os medíocres que venham consolar-se de mediocridade em Português, no meu lugar. Mas teria então raivas de pensar nisso. Tudo isto ainda é – ridiculamente – lamúria por causa do prémio. Não é grande coisa, nenhum é aí. Mas tapava a boca a muita gente, abria-me muitas portas, e teria enorme repercussão aqui, porque a essas coisas a americanada é sensível, vem no jornal. Uma das coisas que nunca perdoei nem perdoarei ao Brasil foi, para lá do prestígio dos meus artigos, das minhas ligações, das minhas artes de professor, nunca ter cuidado efectivamente de saber quem eu era. E o prémio seria também uma bofetada para lá. Paciência, boa para a vista, como dizia a minha avó. E o dinheiro, meu filho, neste inferno sem saída que é financeiramente a minha vida com a família que tenho ([…] que não posso ter dinheiro para educar universitariamente, se eles não arranjam notas que lhes garantam bolsas – e que, sem tal, nos tempos que correm, acabam a lavar pratos ou carros), donde venha faz-me arranjo. Que sou honesto, firme, etc., quando há tantos governos deste mundo para que se pode trabalhar chorudamente – mas eu estou sempre do lado dos que caem ou não sobem…

Logo que o volume das traduções esteja pronto – ficá-lo-á esta semana que entra, em que começam curtas férias antes dos cursos de verão –, mandar-to-ei, para que saboreies muito do que lá está. Passá-lo-ás depois ao Cruz Santos, a quem Deus e Mercúrio dêem vida e saúde e dinheiro.

Afectuosas lembranças da Mécia. E o grande abraço muito amigo

do Jorge

(**) Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta (Lisboa: Portugália Editora, 1969).

Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem, parte 3

Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem,
antes pelo contrário, parte 3

Fanny_et_Alexandre

[Continuação da Parte 1 e da Parte 2]

Continuemos com gangsters e vejamos como mesmo os gangsters também têm sonhos e como eles enterram os sonhos falhados. Numa das mais contidas e elegíacas histórias de despedida que o cinema já contou, vejamos como na obra-prima que é O Padrinho, parte 1, Marlon Brando e Al Pacino, Vito e Michael Corleone, enterram os seus sonhos.

 Don Vito Cor­le­one já fora bale­ado antes. Ouvira-se o baru­lho seco dos tiros e o Padri­nho dan­çara hesi­tante, um pé a fugir ao outro, o vulto patri­ar­cal a tom­bar sobre uma banca da fruta e legu­mes. Duas, tal­vez três balas no corpo, e uma laranja a rolar no can­sado alcatrão. Fiéis e inimigos percebem que chegara ao fim o reinado de Don Corleone.

Don Vito sobre­vi­veu, mas Sonny, o filho herdeiro, não teve a mesma sorte. Numa portagem fize­ram dele um pas­sa­dor. Nesse momento, The Godfather enche-se de punhais e sangue. Sobre­vi­ven­tes, pai e filho têm de conversar sobre a lide­rança da famí­lia. A cena não exis­tia no livro de Mario Puzo, nem no argu­mento de Fran­cis Cop­pola. Mar­lon Brando, o Padri­nho, já só tinha mais 24 horas de fil­ma­gens e Cop­pola pre­ci­sava de fazer a “pas­sa­gem” de teste­mu­nho. Que­ria tam­bém, diz ele, mos­trar o amor de pai e filho, de Don Vito e Michael. Chama­ram Robert Towne, um obs­curo gui­o­nista. Viu, em bruto, horas de mate­rial já fil­mado e escre­veu a cena. Che­gou ao pla­teau e Mar­lon Brando pediu-lhe que a lesse em voz alta. Quando aca­bou, ouviu-se “outra vez” e era a voz de Brando a res­cen­der a maçãs. Towne per­ce­beu que já tinha nas mãos o coração de Brando.

Fil­ma­ram. No recato de um quin­tal, Brando e Al Pacino, os dois Cor­le­o­nes, con­ver­sam. Uma haste de videira é a ténue alu­são a esta nossa Europa mediterrânica de onde a família partiu. O copo de vinho na mão do patri­arca, Don Corleone, subli­nha essa origem. Entre sor­ri­sos ter­nos, na doçura da tarde, dois homens que se amam, matam, um em frente ao outro, aquilo que amam. Em duas fra­ses sin­ge­las, Don Vito entrega um impé­rio ao filho: um sórdido impé­rio de crime e trai­ção. O filho terá de matar para não ser morto e o pai diz-lhe como matar e quando matar.

E, ao mesmo tempo, paredes meias com palavras sobre o crime e a traição, falam da mulher de Michael, dos filhos de um, netos do outro. No rosto de Pacino esconde-se uma tristeza sem fim. Todas as suas espe­ran­ças, a esperança de uma vida limpa, uma vida de verdade e beleza, vão a enter­rar, ali no quin­tal, ao lado da horta onde cres­cem os tomatei­ros.

E Don Vito, ou tal­vez devês­se­mos dizer um bíblico Abraão, sufo­cando a culpa, dilacera-se, evo­cando um futuro que nunca chegará: um filho sena­dor, um Michael com uma car­reira legí­tima. A desilusão res­vala no olhar de Mar­lon Brando: pelo preço de manter o poder na fami­glia acaba de afo­gar o filho, como na minha infân­cia se afogava uma ninhada de gatos recém-nascidos.

Dois séculos e meio depois, num pátio de Nova Ior­que, na cena escrita por um obs­curo e divino argu­men­tista, Abraão con­suma o sacri­fí­cio do seu filho Isaac. Tudo se repete, menos Deus, que já não com­pa­rece para tra­var a mão que se estende con­tra o menino dei­tado na lenha do holo­causto. Vejam como se enterram os sonhos.

Como vêem, não há só Ilíadas e Odisseias no cinema. Por vezes, tantas vezes, o cinema, neste caso Hollywood, reza pela Bíblia.

Quando Francis Coppola recebeu o Oscar por Godfather, logo ali, no palco, fez justiça a Robert Towne, o argumentista e escritor desta cena, que não vinha no livro de Mario Puzo que foi a base do filme. Disse Coppola: “Vito a dizer a Michael, no jardim ‘I never wanted this for you?’ Isso não é de Puzo.” Não é! É de Robert Towne, argumentista também de outro prodígio chamado Chinatown.

Das muitas histórias de filmes e nos filmes que escolhi, tive de abdicar, por razões de tempo das histórias de Citizen Kane, da exemplar adaptação que Elia Kazan fez do A Leste do Paraíso, de John Steinbeck, e de mais uns dez filmes exemplares.

Preferi, a muitos filmes cheios de significado, um filme sem significado nenhum, escolha que, na arte, na literatura e no cinema, tem sido a minha, a de escolher o poema, o romance, o filme, a pintura que não tem no significado a sua justificação. A arte devia sempre orgulhar-se de apanhar falta injustificada e chumbar no progressivo exame das grandes razões e da grande moral.

Há um filme de Hitchcock, e nesse filme esta cena, que eu considero o melhor exemplo de arte pela arte, o melhor exemplo da insignificância levada ao sublime.

Ainda por cima, uma cena de sedução, num comboio, quando os comboios tinham aquela maravilhosa música intermitente de sobe e desce, que era o pouca terra, pouca terra, pouca terra.

Só há, nestes dois minutos e meio de conversa entre Cary Grant e Eva Marie Saint, um defeito impertinente: o excesso de prazer. São dois minutos e meio de puro prazer de cinema com cerca de 60 planos em campo-contracampo, o que dá pouco mais de dois segundos por plano. É uma loucura de rapidinhas, com a câmara imóvel a entregar-se ao obsceno prazer de contemplar a beleza de dois rostos.

É a felicidade de um diálogo que cumpre a suprema missão de um escritor, a de encantar, e que, sem ter sentido nenhum, tem mais inuendos e subentendidos do que tem brilhos ao sol a cauda aberta de um pavão real.

Uma mulher e um homem falam um com o outro, a mulher delicia-se em desconcertante abuso da sua posição dominante, mas mesmo que tirássemos o som ao filme, bastava o diálogo de olhares, bastava a entoação dos olhares que trocam, para que a palpitante emoção que sentimos, e permitam-me que não diga onde é que a sentimos, nos fizesse também aborrecer, como Eva Marie Saint diz que se vai aborrecer com o livro que temos para ler hoje à noite.

Escolhi outra cena deste North by Northwest:

Cary Grant ia a meio das filmagens e estava mais baralhado do que quando o filme começou. Virou-se para Hitchcock e disse-lhe: “Mas que pepineira de argumento é este que eu não lhe consigo perceber nem os pés nem a cabeça.” Foi música para os ouvidos de Hitchcock.

O argumento, absolutamente perfeito, é de Ernest Lehman, e usa a confusão de identidade de Cary Grant como sua energia eólica. Na verdade, a personagem, que põe em brasa, tanto Cary Grant como os espiões, e causa a mistificação a que assistimos neste filme, é um agente secreto falso, que nem sequer existe. É bem possível que esse magnífico fait-divers português que se chama Tancos, tenha sido um legado de Hitchcock, uma practical joke que ele nos deixou.

Cary Grant não sabe, mas é um cavalo de Tróia infiltrado num ninho de espiões soviéticos, e também não sabe que Eva Marie Saint, desde aquela cena do comboio, que já vimos, vai escondida dentro dele, como os aqueus no grande bicho de madeira que os troianos metem dentro das muralhas.

Nesta cena, em que o inimigo o descobriu e cercou, Hitchcock é um menino guloso a mamar doces: os mesmos olhares cheios de música e emoção que vimos em Cary Grant e Eva Marie Saint estão agora nos olhos de Cary Grant e dos espiões que lhe fecham a saída, e a surpresa que era cada réplica de Eva Marie Saint transitou para o delirante nonsense que é a licitação de Cary Grant às peças do leilão.

Acabo. Com uma discreta concessão à Bíblia, defendi, no essencial, que o cinema é uma invenção grega que passa o tempo a repetir duas histórias, a guerreira Ilíada e a deambulatória Odisseia.

Há pouco defendi também que as melhores histórias, as que têm mais pregnância artística, são as que não têm significado nenhum. Quero, para minha desgraça pessoal, acabar a defender o eufórico valor artístico do traque. Mas antes de dizer seja o que for peço a Ingmar Bergman, sueco vindo dos mortos, que interceda por mim.

Há muitas cenas metafísicas e sublimes de Bergman, até mesmo neste seu tão confessional e bonito Fanny e Alexandre. Mas é nesta cena, digo eu, que está inscrito tudo que nos faz contar histórias.

Contamos histórias porque queremos maravilhar e ser maravilhados. Contamos histórias porque queremos ouvir o traque, o sonoro flato, a ventosidade que faz bruxulear a luz de uma vela. As histórias são os traques que ressuscitam e fazem rir o menino que os trabalhos e os dias adormeceram em nós. Peço-vos uma coisa. Como o tio de Bergman, subam e desçam as escadas a correr, baixem as calças, levantem as saias, e façam o que faz o tio de Bergman.

Eu por mim, e para me despedir, plagio o que li há dias numa revista. Um visitante que vá regalar-se a ver as ruínas de Herculano, perto de Nápoles, se procurar bem, encontrará, em latim, esta antiquíssima inscrição de um cidadão do império romano, que eu traduzi assim: “Aqui, de nádegas viradas para o céu, fiz amor com a minha mulher, mas escrever isto, ah, que grande vergonha.” Obrigado.

The end

Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem, parte 2

Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem,
antes pelo contrário, parte 2

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[continuação da Parte 1]

E agora deixem-me descambar um bocadinho. Estou para aqui com um paleio de narrativa, Dantes e Homeros, como se tivessem enfiado por mim acima com um pináculo de torre de marfim. Peço desculpa por isto do pináculo, mas é o que me teriam dito os meus camaradas do blogue Escrever é Triste, Pedro Norton e Diogo Leote, que aqui estão, se eu lhes tivesse mandado o texto antes. E o meu Triste camarada Pedro Norton acrescentaria, “deixe-se lá de mariquices e conte mas é como é que fizeram o filme”.

Sim, afinal, quem fez este filme e como se fez este filme? As filmagens de A Desaparecida era uma cambada de gajos, um acampamento ecuménico de escuteiros, cow-boys e índios, mexicanos e americanos. Ford filmava as cenas de fuga e perseguição de cavalos e cavaleiros com a câmara em cima das mesmas carrinhas americanas, Ford e Chevrolet, em que eu andei, atrás, na caixa aberta, de monangambé, na minha Luanda colonial.

Um dia, John Wayne encontrou a chorar, na sua tenda, Beulah Archuletta, a actriz índia que no filme se casa acidentalmente com o sobrinho de Ethan. Ela contou-lhe que o seu filho, da vida real, se ia casar e ela não poderia assistir à cerimónia por ter filmagens. Comovido, Wayne, conseguiu suspender a rodagem do filme e levou-a, no seu avião, ao casamento na Califórnia. Os índios passaram a chamar-lhe “O Homem da Grande Águia”.

Não foi neste filme, foi em Mogambo, mas também tenho direito a aldrabar um bocadinho: um dia veio um produtor atazanar a mona a John Ford, dizendo que ele estava atrasado três dias nas filmagens. E ai, o meu dinheirinho, como é que é, você pensa que isto é subsidiado pela Gulbenkian ou quê?! Ford deve ter mudado a pala do olho direito para o esquerdo, que foi a forma de nem ver o patético contabilista ou lá o que era. Agarrou no guião, no script, contou, uma, duas, três, quatro páginas, rasgou-as e virou-se para o patrãozinho: “Prontos. Já estamos dentro do prazo outra vez.” E, nesse filme, Ford não filmou mesmo as cenas que rasgou do script, prova insofismável de que nenhum filme confirma ou desmente a sua própria história, antes pelo contrário.

Na Desaparecida, e foi mesmo na Desaparecida, Ford foi mordido por um escorpião e levaram-no, de aflitos, para dentro de uma tenda. O senhor da massa ficou aflito, “e se o Mestre morre, que é que a gente faz? Temos aqui enfiada uma pipa de dólares”. John Wayne ofereceu-se para ir ao improvisado hospital ver o que se passava com Ford. Foi, viu e lá volta ele, naquele passo bêbado, e diz: “Tá tudo bem, o homem está fixe. Quem morreu foi o escorpião.

Bora lá, ponham um pé no escorpião de Ford e venham comigo até Casablanca. Acho que foi por alturas do referendo do Brexit ou não sei se foi na votação entre Trump e Hilary, mas fosse em que altura fosse, votou-se também a escolha do melhor argumento, do melhor script, de sempre. Ganhou Casablanca.

Para que conste, a autoria desse argumento é muito disputada. Assinam-no dois irmãos, Julius e Philip Epstein, mas reclama-o também Howard Koch. E embora não reclame coisa nenhuma houve um tipo, Casey Robinson, que afinou, poliu e reescreveu ou criou de raiz muitos dos maravilhosos diálogos a que só apetece dar beijinhos ufanos e humedecidos.

O filme foi adaptado de uma peça que ainda ninguém tinha levado à cena. Os manos Epstein iam começar a escrever-lhe o argumento, mas a missão patriótica de escrever o filme Why We Fight, de Frank Capra, documentário que justificava a entrada da América na II Guerra, pôs o argumento de Casablanca na mão de Howard Koch, conhecido por ter feito, na rádio, A Guerra dos Mundos com Orson Welles. Os manos voltaram um mês depois e tomaram conta da loja. Dizem que deitaram fora tudo o que Koch escreveu, fazendo eles um tratamento, com o alinhamento das cenas, e a rodagem arrancou com o script a ser escrito, às vezes no dia anterior às filmagens. O famoso final do filme foi mesmo improvisado no último minuto. Ou seja, isto faz de Casablanca praticamente um filme português do chamado “cinema novo” ou uma obra fracturante da nouvelle vague.

Mas vamos ao filme. Sem querer enfiar apela garganta abaixo, seja de quem for, a minha nervosa e obscura teoria grega de um cinema todo feito de Ilíadas e Odisseias, não resisto a chamar Aquiles a Humphrey Bogart.

Tenham lá paciência, mas Bogart é um Aquiles. Homero emprestou a Aquiles uma ira famosa, tremenda e tremente. Essa ira aquiliana vestiu em Bogart o fatinho branco, de civilizado lacinho, do handsome dono de um bar.

A ira de Aquiles metida no corpinho de um americano de meia-idade transformou-se em cinismo, um cinismo muitas vezes delicioso, mas um cinismo de quem decididamente abdicou de lutar, o cinismo de alguém descrente e sem ideais. Dou-vos um exemplo.

Que herói é este Bogart que entrega aos bichos a fraca figura de Peter Lorre, mesmo sabendo-se que Lorre é um escroque, que faz dinheiro a fingir que quer salvar refugiados com os seus salvo-condutos?

Que Aquiles é que Bogart engoliu e o deixa direito como quem engoliu um garfo, recusando arriscar o pescoço por um desgraçado, tal qual Aquiles recusa a sua espada e o seu resplandecente escudo aos seus irmãos aqueus, indiferente ao rio de sangue da carnificina causada pelos troianos à solta?

A Aquiles, num conluio indigno, roubaram-lhe a escrava Briseida, que já o amava e que ele amava. Que amor roubaram a Rick Blaine, o Bogart de Casablanca? Aos 20 minutos de filme, com a devida licença dos argumentistas e dos acordes de As Time Goes By, saberemos que foi Ingrid Bergman, pelas mais nobres razões e por escolha sua, que feriu de morte o orgulho viril de Bogart.

Ela escolheu Paul Henreid – talvez nem o tenha escolhido por amor, mas por essa admiração que, na sua nobreza e fidelidade à cidade, na sua bravura anti-nazi, fazem de Paul Henreid um Heitor!

A perda do amor transforma Aquiles e Bogart em lagartos, bichos de sangue frio, atirando para fundos subterrâneos a virtude guerreira que é a natureza mais profunda e autêntica deles. Até um dia! Porque há sempre um dia em que essa natureza volta e emerge, esplêndida, irresistível. E, às vezes, tudo começa por um sinal, por um simples acenar de cabeça, como o gesto de aquiescência, que nos empolga nesta cena arrebatadora em que, como se fossemos meninos, voltamos a acreditar no triunfo do bem, do belo, do bom.

Como sabem os que se lembram ainda bem do filme, aquela mulher que canta em estado de pura exaltação místico-patriótica, as lágrimas a saltarem-lhe o dique dos olhos, é, em Casablanca, uma prostituta suave.

E eu julgo que esta cena lava, a todos os espectadores, todas as culpas e todos os pecados, os da carne e os do espírito, lava os pecados cometidos por palavras, obras ou omissões. Nesta cena, na pequenina história que nela se tece e canta, toda uma comunidade de ratos que fazem pela vidinha, intrigando e traficando, recuperam a dignidade. Em três minutos de miraculoso cinema.

E há outra história por trás desta história. Na verdade, os nazis deviam estar a cantar o “Das Horst-Wessel-Lied” (já sei, Rita, minha filha, que o meu alemão é miserável, escusas de fazer essa cara), dizia eu que deviam cantar o hino oficial do partido de Hitler e, na altura, segundo hino do Terceiro Reich.

Mas os manos Warner, donos da Warner Bros, descobriram que o raio do hino tinha direitos. Mudaram do hino para a canção que ouvimos, recusando a ideia absurda de serem processados pelos nazis e ainda terem de lhes pagar direitos para que o filme fosse exibido.

Já agora, fique aqui registada outra história fora da história: os nazis que ali estavam a cantar obviamente são tudo menos nazis. Conrad Veidt era casado com uma judia e, veemente anti-nazi, fugiu da Alemanha aplicando parte da sua fortuna no auxílio de guerra aos britânicos. Os outros oficiais eram judeus alemães que escaparam a Hitler. A reacção à cena depois de feita foi de exuberante felicidade. O ambiente das filmagens era, aliás, para muitos dos secundários fugidos a Hitler, fervoroso e militante, por ser o primeiro filme de Hollywood abertamente anti-nazi.

E a propósito de anti-nazis e alemães em fuga, chamo aqui, para o meio de nós, Billy Wilder. Há dias, numa espécie de segundo referendo que o Brexit não teve, fez-se uma consulta só a argumentistas de elite para se eleger o melhor de sempre na profissão.

Elegeram Billy Wilder, esse austríaco que pronunciava cada palavra inglesa com os pés, mas que tinha ideias e sacava diálogos de uma afrontosa originalidade, para não dizer virgindade.  Ninotchka, um filme de Ernst Lubitsch, foi uma das obras-primas que ele escreveu. Deram-lhe um mote: “Jovem russa impregnada de ideais bolchevistas vai para a assustadora, capitalista e monopolista cidade de Paris. Apaixona-se e passa uns dias de gozo do caneco. Talvez o capitalismo não seja assim tão mau.” Desta ideia, Wilder sacou Ninotchka.

Vamos ver a cena da chegada, a uma gare de Paris, dessa rapariga, Ninotchka, a que Greta Garbo emprestou os dez réis de figurinha que tinha. Na gare estão à espera dela três camaradas soviéticos, já inclinados a essa condescendência social-democrata com que uma certa dirigente do Bloco de Esquerda recentemente assombrou o mundo.

Há qualquer coisa de mortaguiano no primeiro contacto da camarada Greta Garbo com um representante dessa espécie chauvinista, arrogante, machista, que é o aromático burguês de infeliz produção capitalista, que vamos já ver.

Como se fosse numa inapelável sessão parlamentar, Greta Garbo disseca o bicho e expõe, com uma imbatível lógica escolástica, as misérias que o lacinho de seda, o belo chapéu, o delicado fatinho, procuram esconder. Veja-se como Greta Garbo desfaz a miséria do capitalismo.

Verifiquei, com certa surpresa, tão justa é a previsão do fim do chauvinismo capitalista, que o filme foi, ao tempo, proibido na solar União Soviética, onde julgo que nada era proibido.  Palpita-me que a culpa foi das palavras que Wilder pôs na boca de Ninotchka, depois dela experimentar uns apaixonados french kisses arrancados aos lábios e língua do execrável e perfumado burguês, beijos acompanhados por umas flûtes desse borbulhante champagne, que faz a glória da França, curiosamente a única etílica libação que a minha mulher, a revolucionária Antónia, consente. E diz Ninochka, de olhos postos no amado burguês e na taça de champagne: “Estou tão feliz. Oh, que feliz que estou. Ninguém pode estar tão feliz sem ser castigado. Vou ser castigada. Tenho de ser castigada.

O castigo de Billy Wilder foi saltar dos braços de Greta Garbo para os braços de Marilyn Monroe. Foi um salto de vinte anos, de 1939 para 1959. Escreveu, com I.A.L. Diamond, e realizou ele mesmo Some Like It Hot. A ideia do filme era simples: meter dois músicos homens travestidos numa orquestra de mulheres sem que, num espírito BPN ou BES, ninguém se apercebesse, tirando partido dos mal-entendidos, equívocos e trapalhadas de lingerie, com a cumplicidade de sutiãs, négligés, cuequinhas de renda, afagos e abraços femininos, que a situação certamente ia originar.

Primeiro, para justificar a ida dos músicos para a orquestra feminina, Wilder pensou numa situação tipo troika, crise económica colheita 2011, um desemprego monocasta de alto lá com ele, e os músicos a tentarem engatar a primeira oferta que lhes aparece.

Mas depois veio-lhe a palavra mágica à cabeça: gangsters! Palavra obviamente inaplicável aos casos BPN, BES ou Lehmans Brothers. Os dois músicos iam parar à orquestra feminina, por estarem a fugir de um bando de gangsters, depois de terem testemunhado um massacre igual ao do dia de São Valentim.

Entram na orquestra e Marilyn logo se converte na melhor amiga deles, ou delas como queiram, confessando a Tony Curtis a alegria de encontrar uma saxofonista mulher, porque os saxofonistas homens por quem se apaixonara, acabavam sempre por fugir, deixando-lhe na boca, nas suas imortais palavras, o gosto do seco pauzinho do chupa-chupa.

Bom, há um amigo meu que diz que se as coisas ainda não estão bem é porque ainda não acabaram. No fim de Some Like It Hot tudo acaba surpreendentemente bem.

A réplica final do milionário Osgood Fielding III, interpretado pelo intrépido actor secundário Joe E. Brown, é um abençoado acaso dos Távoras, se na vida dos Távoras tivesse havido alguma bênção.

“Nobody’s perfect”. Wilder e o seu amigo Diamond escreveram essa frase com a mesma convicção com que, depois destas últimas eleições, António Costa se sentou à mesa com Catarina Martins para renovar a geringonça. Disse Wilder: “Deixa ficar enquanto não arranjamos melhor!” Ficou, e ficou para a eternidade.

Por aqui se vê quais são as melhores histórias das histórias que os filmes contam. Para seu epitáfio, e numa auto-homenagem, Wilder não resistiu a plagiar-se a si mesmo: “I’m a writer, but then nobody’s perfect.

E há a história de Marilyn. No filme, Marilyn chamava-se Sugar, e para ronronar como só ela ronronaria a simples frase “It’s me, Sugar”, Wilder teve de filmar a cena 47 vezes. Desde “Sugar, it’s me” a “It’s Sugar, me” e “Me, it’s Sugar”, Marilyn não acertava com a réplica. Com um ataque de nervos a roer-lhe a cabeça, desatava a chorar e lá se ia a maquilhagem.

Wilder escreveu a frase “It’s me, Sugar” na porta a que Marilyn batia, como escreveu depois, em todas as gavetas em que Marilyn teria de ir buscar uma garrafa de bourbon, a frase “where’s, the bourbon”, que Marilyn trocou por “where’s the bottle” “where’s the whiskey” ou where’s the bonbon”, e que ela só conseguiu dizer certo após 59 repetições. Marilyn disse a frase de costas, oferecendo o esplendor do seu posterior à câmara – talvez Billy Wilder a tenha dobrado.

Milagre do cinema, esse inferno das filmagens não está no filme. O que está no filme é uma Marilyn que transforma Some Like It Hot numa obra-prima, ensinando-nos como é que uma mulher dança a sua sexualidade a passos de ingenuidade, ironia, sinceridade, candura e fé. E eu estou disposto a desafiar para um duelo à pistola o céptico, incréu e vagamente míope Pedro Norton, se ele vier aqui, todo Rita Pereira e anti-Marilyn, dizer o contrário.

[continua]

Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem, parte 1

Fui convidado para o evento O Fascínio das Histórias, organizado pela Fundação Gulbenkian. Pediram-me uma intervenção de uma hora e meia. Aqui fica, dividida em 3 partes, como o mafiosíssimo filme de Francis Coppola, não por acaso também citado. É, como não podia deixar de ser, um texto marcado pela oralidade, aviso já.

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Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem, antes pelo contrário

Dedicatória
Dedico esta apresentação ao Bando de Tróia.
Juntámo-nos no Festival de Tróia, nos anos 80 e, depois, jantamos juntos durante duas décadas. Estão hoje, aqui, comigo, a Antónia Fonseca, quadro da Cinemateca, e o António Gutierres Setúbal, dos melhores cirurgiões do mundo, especialista em endometríose.
Com uma saudade imensa, lá vai para o céu um abraço ao Pedro Bandeira Freire, fundador dos cinemas Quarteto, que tanto fizeram pelo nosso imaginário.
À Dulce Cabrita, cantora de ópera, e ao escritor Dinis Machado, alegria dos nossos dias. A outro casal, a artista Gina Frazão e o escritor João Alfacinha da Silva. Ao meu amigo, irmão e sócio Manuel Cintra Ferreira, o mais cândidos dos cinéfilos. Ao cineasta e director de fotografia António Escudeiro. Aos talentosos e brilhantes cinéfilos que são o José Navarro e o António Mendes Lopes.

Estive aqui o ano passado, no evento “O Gosto dos Outros”. Gostei muito de ter feito parte de um evento tão luminoso, alegre e participado, que foi das duas da tarde e fugiu noite dentro. É ainda com mais gosto que volto, este ano, e até com um certo anseio outonal, a aninhar-me nos braços da Fundação Gulbenkian, entregando-me aos afagos do Nuno Artur Silva, procurando a doce almofada do peito benfiquista do senhor administrador Pedro Norton, e implorando o colo protector da Senhora Presidente Isabel Mota, desde já lhe pedindo desculpa pelo desaforo. Obrigado por acolherem o pequeno ser delicodoce e enjoativamente nostálgico que eu sou.

E obrigado a todos os presentes por se terem enganado na sala! Agora já não há remédio, está posto um cadeado na porta e daqui ninguém sai. A ver se, de disparate em disparate, não vos desiludo.

O meu obrigado à Inês Meneses pelo apoio moral que aqui me deu, e muito obrigado à Maria Cristina Barbosa, minha produtora que foi inexcedível.

O Nuno Artur Silva, que na óptica do Chega facilmente passaria por um cigano faquista, pôs-me um punhal ao peito. Ora, letrado como o Nuno é, o punhal que ele usou foi um punhal de Jorge Luís Borges, um punhal mítico, experimentado e viajado em labirintos. Chamou a esse punhal “histórias” e disse-me para eu descobrir as melhores que há nos filmes, se é que alguma história ambiciona ser a melhor, não lhe bastando o prazer de ser história.

Sonâmbulas como um punhal, que histórias é que estão em cada filme? Que histórias são essenciais para que os filmes que as acolhem sejam os filmes que são, mesmo sabendo-se que os filmes são o que são por serem mais do que as histórias que contam?

Vejamos, o Nuno, que na óptica do Bloco de Esquerda é uma Ariadne, pôs, na minha mão de Teseu, o fio que me obriga a mergulhar no labirinto em busca desse monstro a que os gregos emprestaram corpo de homem e cabeça de touro, erro que, séculos depois, Dante corrigiu atribuindo-lhe corpo de touro e cabeça de homem, chifruda embora, como deveria ser a cabeça de cada homem, pelo resguardo e imponência que isso oferece.

E vamos então entrar nos armadilhados mil ecrãs de Dédalo a ver se esfaqueamos o cinéfilo Minotauro. Se houvesse um Genesis do cinema, teria de começar assim: no princípio era o papel. Os filmes antes de serem imagens em movimento são frases escritas e escritas em folhas de papel. Nós, portugueses, chamamos a essa prévia e desengraçada peça de papel “argumento”, palavra que herdámos do latim e que, neste caso, foge ao seu habitual campo semântico, que é o de significar prova ou raciocínio de que se tira uma consequência.

Os americanos chamam-lhe script, termo que foram também desencantar ao latim, por obra e graça do old french. Ora, os novos franceses, ao papel que antecede o filme, chamam scènario, dando relevo ao palco, à encenação que já se adivinha na folha de papel.

Muito embora os americanos tenham escrito 90 % dos melhores scripts que se conhecem, os franceses têm toda a razão, uma vez que o scènario justifica e convoca esse desenfreado gosto pelo paradoxo que faz a graça, a fortuna, mas também a desgraça da França.

Um scènario só é transitoriamente script. Nada há de mais instável do que o script, que está para o filme como a tendida massa do padeiro está para o pão que sai do forno: o que antes era mole, informe e incomestível sai do forno tostado, codeúdo e saboroso.

O script é, portanto, flutuante, uma bóia, o realizador de cinema deita-se nele como numa cama de água. E vai daí, o realizador filma o script.

Ora, o que se faz a um script depois de se filmar? Eu digo-vos, deita-se fora. Porque a intriga, a história que está no papel, logo que filmada fica irrisória e anacrónica.

O enquadramento da câmara, a iluminação, a intensidade dos actores, por mais fiéis que sejam ao papel, já são outra coisa, muito ou completamente diferente desse papel original.

No princípio era o papel, mas Truffaut, que sabia do que estava a falar, avisou: “filma-se contra o script.” Ora, ele também dizia, valorizando a montagem, essa operação que dá a ordem definitiva às imagens, “monta-se contra as filmagens”, donde a famosa frase “montage mon beau souci”, “montagem minha bela obsessão”.

A frase saiu da boca de Godard, o mais irado Aquiles, que via em Hollywood uma Tróia que ele bem gostaria de ter conquistado e arrasado, começando por arrastar pelos cabelos o linear Heitor de Hollywood chamado Spielberg, destroçando-lhe o cadáver, se o tivesse apanhado à má fila. E já vão ver que Aquiles e Heitor não me entraram, aqui, pela porta dentro, por acaso.

Resumindo, eis o que é um filme: é a soma de duas oposições, “filmar contra o script, montar contra as filmagens.” A realização, o que os franceses chamam mise-en-scène, introduz ou acrescenta uma perturbadora ambiguidade à letra das histórias. E agora digam-me, que outra coisa faz a delícia do mundo que não seja a ambiguidade, e tanto faz que estejamos a falar da ambiguidade da devoção neo-flamenguista de Pedro Norton a Jorge Jesus, como da ambiguidade com que homens e mulheres se espreitam pelo canto do olho, ou ainda da ambiguidade que, por exemplo, como um estaladiço croque-monsieur, crepita todas as manhãs nas páginas homéricas do meu Correio da Manhã.

E cheguei onde quero, ao salto de fé do Correio da Manhã para Homero. Vamos então voltar ao princípio. O cinema é uma invenção grega. Digo isto, com o meu melhor ar de Mickey Rourke, e já sei que tenho o Matt Dillon aos gritos comigo. Lembram-se da explosão dele no Rumble Fish do Francis Ford Coppola? “Man, what the fuck did the Gre­eks have to do with anything?”

Desculpa Matt Dillon, mas têm. Têm. Homero inventou o cinema há 30 séculos, inventando as duas grandes formas narrativas que, mais às escondidas ou mais à descarada, estão presentes em centenas de grandes filmes.

Homero inventou essas duas irmãs gémeas, muito giras e muito cheias de curvas épicas, chamadas Ilíada e Odisseia. Vaidosas como são, não lhes bastava a orgia literária que provaram e gozaram em tantas camas: no primitivo rolo de pergaminho, nas monásticas páginas dos manuscritos, em refulgentes iluminuras, nos incunábulos guttenberguianos.

Não, as manas Ilíada e Odisseia tinham de aparecer no cinema. E hoje, está claro, um bocadinho envergonhadas e disfarçando-se com outros nomes, até aparecem na televisão e em streaming.

E aqui está o que tenho a dizer a Nuno Artur Silva, a quem o PCP facilmente acusaria de querer fazer de mim um stakhanovista das histórias na História do cinema. Nuno, as melhores histórias, as que subjazem ao filme, enquanto o filme ainda está a caminho de ser um filme, são a Ilíada e a Odisseia.

E tanto é assim que Jean-Luc Godard, numa forma de acumulação primitiva de capital estético, quando filmou Le Mépris, O Desprezo, adaptando o romance de Alberto Moravia, põs as personagens a arranjar dinheiro e a discutirem um script para filmar uma Odisseia, quando em boa verdade estava a filmar uma Ilíada. Para me desmentirem têm mesmo de voltar a ver o filme.

Mas não é esse o primeiro filme de que vos quero falar e mostrar. Trago como primeiro exemplo um filme de um género humilde e popular, um western, no caso Rio Bravo, realizado por um dos dez maiores génios do cinema, Howard Hawks.

Nesse filme tudo se passa numa aldeola perdida na Grécia! – perdão no Oeste. É um lugar fechado que um xerife defende contra os bandidos que querem devassar a aldeia. Um deles, um criminoso mais cabotino do que Billy the Kid, foi capturado pelo xerife, John Wayne, e jaz agora na cadeia local, refém, tão refém como refém estava Helena em Tróia, ainda que por mais doces razões.

E essa pequena Tróia sofre o cerco de um bando irado e criminoso. Em Rio Bravo, como em Tróia, vai ser à porta dessa miserável vilória que os heróis se vão bater para defender a lei da cidade. E os heróis são: um xerife que é uma espécie de Heitor, um amigo afogado em álcool, um velho coxo apaixonado pelo xerife, um jovem inexperiente.

Vejam como eles defendem e fazem da sua Tróia uma Tróia impenetrável.

Esta é a Tróia de Rio Bravo, uma Tróia muralhada a dinamite e a uma pontaria infalível por heróis bizarros e de baixa extracção. Defendem a lei, o bem comum, se quisermos, o princípio da democracia.

Mas há, como em todos os filmes de Hawks, a mulher. A mulher hawksiana é torrencial, indómita, heroína como heroínas foram uma Clitemnestra ou uma Antígona. E em Rio Bravo, a mulher hawksiana é Angie Dickinson de que logo vemos, se começarmos a olhar para ela de baixo para cima, as esplêndidas pernas protegidas por um seguro de um milhão de dólares no Lloyds Bank of London.

Além das pernas, Angie Dickinson tinha voz, ao contrário do silêncio feminino que impera na Ilíada. Na Ilíada, Briseida, a escrava amada de Aquiles, não tem voz, a não ser para chorar Pátroclo, e a voz de Andrómaca é a do lamento, implorando ao marido Heitor que não vá lutar com Aquiles.

Angie Dickinson tem outra voz e é nessa voz imparável, suavemente dominadora, que John Wayne busca e certamente encontra o consolo que Heitor nunca terá na Ilíada, porque Homero pode muito bem ter inventado o cinema, mas não foi na Ilíada que inventou o happy-end.

Só mais uma breve nota: Hawks gostou tanto de fazer esta sua Ilíada, que voltou às personagens do xerife, do alcoólico, do velho rezingão, da mulher, repetindo a mesma estrutura de cerco troiano em El Dorado e Rio Lobo.

O actor John Wayne foi o protagonista dos três filmes e durante a rodagem do último, Rio Lobo, numa cena, parou, intrigado, e perguntou a Hawks: “Mas, olha, não fizemos já este filme?” Ora, John Wayne ainda não tinha feito nenhuma destas Ilíadas com Hawks quando filmou The Searchers com o mítico poeta irlandês John Ford.

O nosso sôfrego e amargo gosto de histórias, a lenta raiva em que ardemos a cada insónia, a inquieta angústia que o primeiro raio de sol de cada dia acende em nós, é essa a matéria do sublime pesadelo que nos exalta e nos esmaga em The Searchers.

The Searchers, A Desaparecida é um filme de deambulação, de peregrinação, a mais perfeita das Odisseias que o cinema já filmou. Deixem-me mostrar-vos a cena de abertura do filme. Vamos ver, vindo do fundo do tempo, de um cósmico buraco negro, John Wayne chegar a casa. John Wayne regressa a uma Ítaca que não lhe pertence, a uma Penélope que não se lhe pode oferecer e que ele não pode desejar.

Que deserta Ítaca é esta, enquadrada entre aqueles dois altos penhascos de Monument Valley? Que maciça silhueta de cavaleiro é que provoca um tão luminoso sobressalto na bela mulher madura, de pele ainda tintada de desejo, que surge à porta da casa? Que tensão, que camuflada distância, congela os dois irmãos que, separados há anos, se apertam as mãos quase com vergonha?

Viram o beijo de John Wayne à testa da cunhada? Que envio lírico se solta desse beijo e embaraça aquela esposa e mãe, pondo nas nossas faces de espectadores o carmim do rubor? Que antigo romance adivinhamos no pudor desse beijo? Que Circe feiticeira? Que canto de sereia? Que Ulisses sem Penélope é este John Wayne, saco de desilusão montado a cavalo, de andar desengraçado, de corpo tão estranho à harmonia familiar? Que deus ou deusa da desgraça o soprou do fundo e dantesco horizonte, cavaleiro vindo dos mortos, para vir assombrar a plácida rotina dos vivos?

Nenhum argumento, nenhum script, nenhum scènario escreveu antes nenhuma destas histórias. Estas são histórias que estão além da história que o script oferece ao realizador. Quem as conta é a prodigiosa e poética realização de John Ford, quem as contas são os olhares, os gestos quase imperceptíveis, as inflexões de voz da personagem de Wayne, Ethan de seu nome, quem as conta são as hesitações e a tão bonita discrição do irmão e da cunhada, quem as conta é a ousada intrusão da música de Max Steiner.

É esse o milagre do cinema, do pantagruélico cinema que se alimenta do Homero de há 30 séculos. Tão moderno como Homero, John Ford deixa, em pinceladas rembrandtianas, a sugestão de um romance familiar tabu, deixa cair no rosto de John Wayne e da cunhada a gota de amarga saudade do raio de um desejo talvez nunca consumado; John Ford deixa-nos, enfim, adivinhar o escuro ressentimento de quem, como Ethan, nunca provou a lenta pasmaceira da felicidade doméstica.

Não é para essa felicidade que John Wayne, Ethan, está guardado. Ele traz nos alforges os mesmos ventos que um dos deuses deu a Ulisses. E os ventos vão soltar-se e devastar esta perfeita família que aqui vimos, vão devorar esta mulher que vemos entrar em casa de costas, recuando, para não deixar de olhar para John Wayne, numa coreografia tão bailarina, que até dói no nosso manso coração de espectadores.

Os índios, os terríveis comanches, hão de vir a seguir, numa via dolorosa de destruição e morte. Só sobrevive Debbie, que os índios raptam. John Wayne, Ethan, o Ulisses mais carregado de ódio que a história da ficção já viu, John Wayne, essa funda mina de negrume, sem ouro nem lítio, irá, de ilha em ilha, de deserto em deserto, em busca da sobrinha Debbie, para repetir o gesto que há pouco vimos: Ethan a agarrar na pequena Debbie e a levantá-la no ar com quem segura nas mãos, contra o céu, a inocência, a essência da inocência.

Chamei a esse prodigioso movimento, gesto – qual gesto, é mas é um verso, o primeiro verso, verso suspenso à espera da rima que o feche e feche em redenção um longo poema de raiva, som e fúria.  E é este, depois de obtida a redenção, o fecho de A Desaparecida.

A porta que tínhamos visto abrir-se para que este filme começasse e pela abertura dela percebêssemos ao longe a silhueta fantasma de cavalo e cavaleiro, esse Ulisses fordiano que vem em busca da sua Ítaca, fecha-se agora.

No doce útero que é a casa entram e ficam todos, Telémaco, o índio Moses, Debbie que um dia talvez venha a ser outra Penélope. Cá fora, de fora, fica apenas, agarrada ao seu amado cotovelo, olhos a esvaziarem-se no infinito, a solidão irremediável, peregrina e estrangeira de John Wayne, espectro de dois metros e 120 quilos, que dá corpo ao mais pungente dos Ulisses, épico como em Homero, trágico como em Dante.

[Continua]

Sutiãs e négligés

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Marilyn Monroe telefonou para casa de Billy Wilder. Atendeu-a a mulher dele. Com aquela voz que provocava arrepios a um eucalipto, pinheiro manso ou até a um rijo carvalho, Marilyn disse-lhe, “diga ao seu marido que se vá…” e usou como ponto de exclamação a expletiva palavra inglesa que começa por “f” e tem quatro impronunciáveis e por vezes aprazíveis letrinhas.

Ora, Marilyn queria ser tudo menos aprazível. Acabara de filmar com Wilder o “Some Like It Hot”, comédia que metia gangsters e uma orquestra de mulheres. Tinha corrido mal tudo o que podia correr mal entre a protagonista, Marilyn, e o realizador, Wilder. Correu tão mal que Wilder deu uma festa à equipa e aos actores no final do filme e, suprema afronta, não convidou a actriz.

Eis a trama do filme. Dois músicos testemunham a matança, à metralhadora, de uns gangsters por outros gangsters. São testemunhas indesejáveis e os gangsters vivos querem matá-los. Os dois músicos disfarçam-se de mulheres, escondendo-se numa orquestra de jazz feminina. Fazem amizade com Marilyn, a cantora, numa cumplicidade de sutiãs, négligés, cuequinhas de renda, afagos e abraços, que foi quando houve anjos a demitirem-se no céu por quererem vir viver na Terra. Queriam talvez provar o que se derretia nos braços de Tony Curtis e Jack Lemmon, os dois músicos homens disfarçados de mulheres, a quem Marilyn revelavas os seus vitoriosos segredos.

Mas uma coisa é o pão, outra coisa é o forno, que é como quem diz, uma coisa é o filme, outra as filmagens. No filme, Marilyn chamava-se Sugar, e para ronronar como só ela ronronaria a simples frase “It’s me, Sugar”, Wilder teve de filmar a cena 47 vezes. Desde “Sugar, it’s me” a “It’s Sugar, me”, Marilyn não acertava com a réplica. Com um ataque de nervos a roer-lhe a cabeça, desatava a chorar e lá se ia a maquilhagem. Wilder escreveu a frase “It’s me, Sugar” na porta a que Marilyn batia, como escreveu depois, em todas as gavetas em que Marilyn teria de ir buscar uma garrafa de bourbon, a frase “where’s, the bourbon”, que Marilyn trocou por “where’s the bottle” “where’s the whiskey” ou where’s the bonbon”, e que ela só conseguiu dizer certo após 59 repetições. Disse a frase de costas, oferecendo o esplendor do seu posterior à câmara – talvez Billy Wilder a tenha dobrado.

Marilyn chegava ao estúdio com duas e três horas de atraso e filmava sempre com a presença, na sombra, de Paula Strasberg, a sua mentora, ou coach, como agora se diz. Quando Paula, com um discreto aceno, desaprovava, Marilyn interrompia ou enganava-se, matando a cena. Mas terá sido mesmo, Paula, essa sombra negra de Wilder a culpada? Jack Lemmon tem outra teoria. Marilyn nunca deveria ser posta em frente a uma câmara enquanto não estivesse pronta – psicológica e absolutamente pronta.

E, no entanto, se “Some Like It Hot” é uma obra-prima, a Marilyn o deve. Nele se aprende o que é uma mulher dançar a sua sexualidade a passos de ingenuidade, ironia, sinceridade, candura e fé. Pode o forno ter tido brasas a mais, lenha que não tenha ardido, mas o pão que de lá saiu é um prodígio de comédia, como Wilder reconheceria, reconciliando-se com Marilyn.

E depois soube-se que Marilyn estava grávidas nas filmagens e teve um aborto espontâneo. Estava casada com Arthur Miller, mas o pai era Tony Curtis, seu parceiro no filme.  Já tinham tido uma relação dez anos antes e, o reencontro foi fatal. Nas imortais palavras dele: “Eu era mais activo do que o Monte Vesúvio: foram homens, mulheres e animais.”

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Bicas a sonhar com o futuro

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 Estas foram as bicas servidas no CM, de 3.ª, dia 22, a 5.ª, dia 24 de Outubro

Um futuro feliz

Quero, hoje, beber a bica cheia com o cineasta Francis Coppola. Tem 80 anos e anda a montar a produção de um filme, “Megalopolis”, que vai mostrar a raça humana em rumo a um futuro mais feliz.

Delírio de um velho? Também já vou para velho e estou 100% com ele! As visões catastrofistas dos progressistas regressivos negam a realidade. Coppola tem razão: o mundo é hoje muito melhor do que há 80 anos. Há menos miséria e fome, menos mortos em guerra, mais igualdade de mulheres e homens, menos mortalidade infantil. “Megalopolis” vai celebrar a inteligência humana. Confiem nos velhos: já viram e experimentaram muitas vezes o futuro.

Duas mulheres

Pode alguém tomar a bica curta no espaço? Temos de perguntar a Jessica Meir e Christina Koch, astronautas americanas que saíram da nave espacial em que viajavam e mergulharam no vazio para substituir baterias de 100 quilos que pifaram, digamos assim, dias antes. Pela primeira vez, duas mulheres, sem nenhum astronauta masculino a fazer par, flutuaram no cosmos durante sete horas. Do espaço, a 420 km do Brexit, da Catalunha, do novo governo de António Costa, viram a Terra rodar a cada 90 minutos, o Sol pôr-se e nascer, olhos postos no infinito.

Duas mulheres caminharam no espaço e fizeram, bem, o trabalho que tinham de fazer.

Um dedo no olho

Lá vai Jerónimo de Sousa, formoso e não seguro: acerta em tudo mesmo se se engana.  Meteu um dedo no olho do grande capital, culpando-o de esganar o PCP. Ora, o drama de Portugal é não beber a bica cheia com o capitalismo.

Chama-se unicórnio às empresas tecnológicas que valem mil milhões de dólares, essenciais para a riqueza de um país. Na América estão 49% dos unicórnios. Na China, 24%, A Inglaterra e a Índia têm 5%. A Europa está no fim da bicha e Portugal tem três unicórnios. Eis o que nos falta: a Europa tem de ser um pólo do capitalismo, eixo para criar e distribuir riqueza. Isso é que é espetar o dedo no olho do populismo.

Granta: a minha sala de cinema

Já está nas livrarias a revista Granta. A convite de Pedro Mexia, escrevi um texto sobre a experiência da sala de cinema. A escrever um texto teórico preferi servir-me da minha realíssima e concreta experiência e escrevi um texto autobiográfico. Deixo aqui um pequeno excerto.
Façam o favor de comprar a revista para eu não ficar mal visto…

Granta

Com excepção do cinema dos padres capuchinhos, na Missão de São Domingos, até aos dezassete anos, mais de 90% dos filmes que vi, vi-os com os olhos a fugir para o céu. Muitos na melhor das minhas salas, o cinema Miramar, o mais belo do mundo, levantado, como John Wayne levanta Natalie Wood em The Searchers, sobre as barrocas de Luanda. O Miramar, logo depois do seu jardim com as weliwítschias de longos braços estendidos atrás do pasmoso ecrã, caía a pique sobre o mar, tendo em fundo a baía, guindastes e os grandes navios conradianos do porto de Luanda, as refulgentes locomotivas do caminho-de-ferro da linha de Malange. Foi no meio dessa barriga de vida que vi, quinze anos, ainda mal o meu polegar do pé direito roçava a cinefilia, o Pierrot le Fou, de Jean-Luc, esse torcionário Godard, que tão depressa me salva de afogamentos, como me embrulha a cabeça numa toalha, enfiando-ma na água de uma banheira.

Pesca à linha

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Eis Hollywood à mesa no Musso & Franks Grill

Nesse tempo ainda se ia à pesca. Foi há menos de um século, começo dos anos 30, que o escritor William Faulkner e o realizador Howard Hawks foram à pesca. Leva­ram o actor Clark Gable. Gable não sabia que Faulkner era um escritor, mas cheirou-lhe a inte­lec­tual e perguntou quem eram os melho­res escri­to­res. “Hemingway, Willa Cather, Tho­mas Mann, John dos Pas­sos e eu” res­pon­deu Faulk­ner, incluindo-se, sem falsa modés­tia. Gable ficou de boca aberta: “Você escreve, Mr. Faulk­ner?” “Sim, Mr. Gable. E o senhor o que faz?”

Antes de conhe­cer Faulk­ner, Hawks lera um livro dele, “Soldier’s Pay”, e proclamou em Hollywood que des­co­brira o mais talen­toso escri­tor daquela geração. Quem conhe­cia a sua incli­na­ção para reconhecer talentos, levou-o a sério e cor­reu às livrarias. Já Faulkner publicara um novo romance, “O Som e a Fúria”, obra-prima que con­fir­mava tudo. O nome do escritor começou a encher mais bocas do que as braised short ribs of beef do velho Musso & Frank Grill, o Gambrinus da Hollywood da época. E logo essa insaciável Hollywood o convidou. Aceitou e as vestais da literatura hão de sempre chorar a vil traição e achar que foi um desper­dí­cio, uma imo­ra­li­dade.

Outro escritor, Raymond Chandler, a quem quase tudo correu mal em Hollywood, se calhar por ter investido mais nos dry-martinis do que nas short ribs of beef, parece confirmar o tremor e temor dos moralistas: “Se os meus livros tivessem sido só um bocadinho piores eu nunca teria sido convidado para Hollywood. Se tivessem sido só um bocadinho melhores não teria precisado mesmo de vir.”

Não peçam arrependimento e ranger de dentes a Faulkner. Com o diáfano sentido prático de quem monta uma geringonça, Faulkner garantiu que “escre­ver por dinheiro não é pro­pri­a­mente pros­ti­tuir o talento, mas apenas encur­tar as fra­ses.”

Voltemos à pesca. A ami­zade de Hawks e Faulk­ner foi mais longa e bela do que a de Bogart e Claude Rains, em “Casa­blanca”. Não obstante, a colabora­ção deles não escapa a alguma artística ambi­guidade. Faulk­ner queria escrever com a téc­nica do cinema europeu experimental e van­guar­dista dos anos 20. Muita montagem, flash-backs, jus­ta­po­si­ção de rea­li­dade e fanta­sia. Mas Hawks explicou-lhe que talvez não valesse a pena o esforço, tendo em conta a tortura que ia dar, como realizador, ao que Faulkner escrevesse: “Espremo-te a histó­ria que é a primeira coisa que quero. A seguir, que­ro per­so­na­gens. Depois passo por cima de tudo o que tu pen­sas que tem inte­resse.”

Faulk­ner foi o escri­tor que mais bem resis­tiu a Holly­wood. Em Feve­reiro de 1949, a MGM pagou-lhe o que era então a milionária fortuna de 50 mil dóla­res pelos direi­tos de “Intru­der in the Dust”. O livro só tinha saído há um mês. Faulkner desatou a correr pela Sunset Street: “Tenho direito a embebedar-me e a dan­çar descalço.”

E falta-me falar, nesta crónica de pesca à linha, de outro pescador, Hemingway. Era também amigo de Hawks. Hemingway riu-se quando Hawks lhe disse que faria um bom filme do pior li­vro dele. “Qual é o meu pior livro?”, per­gun­tou. E Hawks: “Aquele pedaço de lixo cha­mado ‘To Have and Have Not’.” Hemingway concordou e apostou: “Nin­guém con­se­gue tirar um filme daquilo”. “OK – disse Hawks – arranjo o Faulk­ner para o reescrever. Seja como for, ele escreve melhor do que tu.”

O que terá sen­tido Hemingway? Ciúme ou lisonja? Ele e Faulk­ner admira­vam-se e temiam-se. Aposta feita, nasceu o filme. “To Have and Have Not”, obra-prima, é o filme pedaço de céu em que nasceu, de um assobio, o amor de Lauren Bacall e Humprey Bogart.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” no Jornal de Negócios