Fantasmas coloniais

LUanda

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 22 de Agosto

Esta é a minha centésima bica curta no CM. Para desbundar memórias afectivas, bebo café de Angola, dose certa de robusta misturado ao suave arábica. Bebo e leio o que disse ao “The Economist” um ex-ministro das finanças do Zimbabué, malhando no regime: “Hoje lavo-me num balde como se isto fosse a Rodésia do Sul de 1923.” As vozes livres de África não se calam. Na televisão de Luanda, o poeta e romancista angolano José Luís Mendonça foi claro: “O colonialismo hoje tem de ser repensado. Será que o colonialismo foi assim tão mau?”

A África será tanto mais livre quanto acerte contas, sem preconceitos, com os fantasmas do passado.

O corpete e a inútil bengala

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Rolla, Henri Gervex

A propósito de taxas de juros e outras trocas monetaristas e de coisinhas da silly season, tomem lá  o apogeu da procura e oferta do corpo feminino, no quadro de um tempo em que o bordel começou a rivalizar com a igreja como lugar de destino e culto. Visitem este quadro de Henri Gervex (que hoje nos cheira, se permitem que meta o nariz onde não se deve, a academismo).

“Rolla” (1878) foi pintado alguns anos depois da “Olympia” de Manet, e inspirado por um poema de Alfred de Musset. O centro do quadro é Marie, a prostituta pela qual Rolla, consumido pela paixão, pagou uma noite de amor. Dissipou assim as últimas notas, conseguidas com a venda da sua pistola, e algumas emprestadas pelos amigos aos quais jurara que, obtidos os favores de Marie (Marion), a luz do sol já não o voltaria a encontrar com vida. Cara, muito cara, Marie. Agora, a morte espera o apavorado Rolla enquanto o corpo macio de Marie se delicia com um sono tão lascivo como a satisfeita noite que os lábios entreabertos denunciam.

Gosto do luxo do leito, da invasora luz matinal, do corpete caído no sofá (diz-se que por sugestão de Degas), atravessado pela cana da inútil bengala. Para além da portada aberta, Paris, o boulevard.

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Henri Gervex em auto-retrato: Discussão de Amantes

Números ou poemas

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Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 21 de Agosto

Olho para o mundo com um optimismo que embaraça mesmo os meus melhores amigos. Às vezes, em vez da bica curta, já me atiram com um balde de água fria. Mas depois vem a UNESCO despejar-nos em cima estes números gloriosos: baixou para 14% a população mundial analfabeta. Há 30 anos havia 30% de analfabetos, há 70, 44%. Professores sejam louvados, 91% dos jovens de todo o mundo sabem hoje ler e escrever.

Eis o mundo melhor, eis o hoje que canta. Olhem para a satisfação pessoal desta gente! Nos países em que a alfabetização cresceu, cresce também o rendimento individual e o PIB põe-se aos saltos. São números e comovem: parecem poemas.

As pestanas de Anna

É tão, tão bonita a Anna Karina. E as pestanas? Bem sei, a canção de Aznavour, esse hino à flacidez e desencanto, também ajuda. Muito. Ah, que bom é estufar o amor a beleza e depressão.

O filme, do maravilhoso Godard dos anos 60, chama-se Une Femme Est Une Femme. Ao lado de Anna senta-se Jean-Paul Belmondo, o tipo das moedas para juke-box.

 

Pátroclo

 

Akhilleus_Patroklos_Antikensammlung_Berlin

Pátroclo é um herói sem biografia. Quando o vemos só o vemos para melhor vermos Aquiles. Teve mulher e filhos? Um cão que fosse?

Sabemos que amou Aquiles, o protegeu em vida e o assombrou depois da morte. Amou-o desinteressadamente. Amor romântico porventura, insinuam agora as leituras de revisão da matéria dada.

Aquiles amou-o também. Distraidamente. Dolorosamente só quando o soube morto: rojou-se pelo chão, cravou as mãos na terra que espalhou depois pelos cabelos, enquanto lhe corriam grossas lágrimas pelo rosto – são sempre grossas as lágrimas do herói clássico. As escravas choraram com ele e o clamor chegou ao céu, a Tétis, a deusa sua mãe. Porque Aquiles era divino e é mais fácil ser-se herói quando se é divino. Pátroclo era apenas herói de ser herói, por pura virtude, pura areté, essa virtude que Homero vê como sobre-humana, como me ensina a Paideia, minha grande educadora.

Há em Pátroclo uma resignada consciência do destino trágico. Como se soubesse que a única pincelada biográfica que lhe conhecemos – ter morto cobardemente, em criança, um amigo que com ele jogava aos dados – mais ou tarde ou mais cedo viria borrar a tela em que a sua madura are se fixou. Pátroclo sabe que é um herói homérico inserido num ciclo vicioso de vingança. E que ele é ou vai ser, mais tarde ou mais cedo, o bouc emissaire de um desfile de morte e impiedade. Esse momento trágico, a morte de Pátroclo, é o prelúdio para que, como uma orquestra sinfónica, Aquiles possa atacar a seguir com som e fúria.

Antes, o destino concede a Pátroclo o seu momento de volúpia. Entrou na tenda de Aquiles a chorar como uma menina (não sou eu, mas Aquiles quem o diz), aterrado com a mortandade que os gregos sofriam e a que Aquiles, ressentido com Agamémnon, continuava indiferente.

Aquiles ordena-lhe então que vista o seu escudo, o escudo em que Hefesto pintou céu, terra, mar, o fogo que tudo consome, o “sol infatigável”, as estrelas e a lua, as cidades mais belas, as bodas, as festas e as celebrações dos humanos. Essa faiscante visão harmónica do universo – concepção épica de Homero – fará, por si só, tremer o adversário.

Homero que fora abundante e eufórico quando noutro canto descrevera a vasta couraça é, agora que Pátroclo a vai vestir, sucinto à beira da escassez:

O guerreiro não esperou segunda ordem e começou a vestir a resistente couraça. Colocou, depois, as cabeleiras, que prendeu às pernas com fivelas de prata. Lançou aos ombros a espada de bronze com incrustações de prata e sobraçou o imenso escudo. Pôs o capacete de bronze, bem modelado e sólido, tendo no alto um penacho de crina, que por si só bastava para infundir pavor ao adversário, na cabeça.

Mas nós podemos adivinhar o frémito que Pátroclo se autorizou ao vestir as armas do amigo. Um pingo de divindade caiu-lhe e deslizou sobre o peito. Talvez tenha fechado levemente os olhos e sonhado, fugaz, a vida e a biografia que nunca teve: uma casa, filhos, o vinho espesso e doce que se bebe à lareira, o rumor das palavras de um filósofo que se convidou nessa noite. Um segundo apenas, o arrepio e o deleite de um segundo. Lá fora, a batalha esperava-o urgente, o fio da espada de um troiano sedento do seu sangue.

Recebêmo-lo hoje,a carne ainda retalhada, neste cemitério que é a Página Negra

Meu caro Donald

 

BRasil XVII

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 20 de Agosto

Meu Caro Donald, deves-nos uma. A nós, portugueses. Um dia destes, passamos por Washington, pagas-nos uma bica curta e está feito. Isso de desatares a comprar a Gronelândia, fingindo que é originalidade americana, sem dizeres que nos estavas a imitar, tem de acabar. Bem sabes que, à conta da ocupação espanhola, os holandeses nos sacaram o Brasil. Corridos os Filipes, fomo-nos aos holandeses e demos-lhes uns valentes enxertos de porrada, mas cansados de guerra acabámos por lhes comprar o Nordeste pelo que hoje seriam quase 550 milhões de euros. Ainda nem pátria tinhas, foi no século XVII, Donald. Vê se pagas direitos de autor!

A girafa não boceja

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Estudei o assunto por todos os ângulos possíveis e imaginários, mas a verdade é que a girafa é o único vertebrado que não boceja. Bocejam cães e gatos, quando alguém ao pé de mim boceja, bocejo logo eu – já levo uma média de quatro mil bocejos por anos, com tendência para um inusitado crescimento, agora,

Bocejam pássaros e peixinhos, até a esquiva serpente abre a boca sem pedir licença. A girafa não. É preciso ser muito cabeça no ar para se passar o dia a mastigar folhas sensaboronas e julgar que isso é que é uma vida excitante.

P.s. – Não juro pela cientificidade da coisa, mas com o que aí vai de fake news também tenho direito, não?

A Marinha boliviana

Marinha em terra.jpg

Titulado “Sognando l’Oceano”, a reportagem diz que a Bolívia, após uma guerra de 25 anos com o Chile, em 1904, assinou um tratado de paz que isolou o país do mar.

A Bolívia é, como o cozido das furnas, uma panela rodeada de terra por todos os lados. Querem mais angústia e razões para desamor patriótico? Mas os andinos. que “huelen a sangre y a gloria”, não se impressionam. Até hoje, a Bolívia mantém a Marinha como um ramo das forças armadas. Com aprumo, 5 mil marinheiros compõem a Força Naval da Marinha.

Exercitam-se na nobre arte da sua guerra no Lago Titicaca (nem o cacafónico nome os desmotiva), esperando que os 75 quilómetros de Chile que os separam do imenso Pacífico sejam um dia vencidos. Como diz um dos almirantes: “Se a Bolívia não chegar um dia ao mar, o mar chegará um dia à Bolívia”.

Para o nosso olhar cínico, europeu e sem pátria, são só marujos de cabotagem. Eles, crentes e poéticos, na impossibilidade de terem um navio escola, construíram uma escola em forma de navio e treinam-se com garbo, comemorando a 23 de Março o Dia do Mar com cujas ondas, sal e espuma sonham há 105 anos. A Bolívia é o único destino de sonho.