Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Fez pelo menos uma dúzia de capas da Time e da Newsweek. O NY Times passa a vida a pedir-lhe ilustrações e, o que para mim equivale a um doutoramento, durante 10 anos desenhou, para a revista Playboy, os Playboy Funnies. Nem vou mencionar a New Yorker. Lou Brooks, nascido em 1944, com 20 anos a viver em Manhattan, não é um daqueles emproados e insuportáveis politicamente correctos de festas e cocktails. Basta ser-lhe um expoente da pop culture. Da sua iconografia. Como aqui se pode ver.
Em 2010, vi que se retirara para uma quinta perto de San Francisco. Junto às vinhas. Pensei que ia só para o remanso. Mas não, é o fundador e curador deste anacrónico museu, o Museum of Forgotten Art Supplies., museu dos apetrechos esquecidos ou tornados inúteis na arte da ilustração pelo avanço dos imparáveis computadores.
Do anacrónico e maravilhoso Lou Brooks, eis o que tenho para dizer: desenha bem e, escrevendo, dá ao mesmo desenho as voltas que muito bem lhe apetece.
Esta é a minha canção de despedida favorita. Porque, when the summer comes a-rollin’, tem de ser. I’ve got to ramble. Mas é a minha canção favorita porque, depois de a ouvir, já ninguém se quer ir embora: I never never gonna leave you baby.
A canção não é sequer dos Led Zeppelin. Pilharam-na, com modificações na letra, a uma folk singer berkeleyana, Anne Bredon. Andei à procura, mas não encontrei a Anne a despedir-se. Encontrei a versão da Joan Baez, igualmente pilhada, mas mais próxima do original (o que a mim não me faz gostar mais. O insuportável exibicionismo de Robert Plant vai mais com o meu gosto de despedidas e reencontros).
ps– Por honra das respectivas reputações, sublinhe-se que em segundos discos, tanto Baez como os Zeppellin acabaram por atribuir correctamente a autoria da canção à autora californiana. Ficam avisados: com uma canção destas não há mesmo ninguém que se separe.
Lou Salomé com Paul Rée e Nietzsche, em sugestiva encenação
Andava ele a matar Deus quando a conheceu. E nem foi ele que a descobriu, mas um Espírito Santo de orelha, o seu amigo Paul Rée. Adiante hei de falar eu da afrontosa trindade que juntos incarnaram. Agora apresento-os: ele é o filósofo Friedrich Nietzsche e ela é Lou Salomé, russa-alemã, romancista, poeta, filósofa, mais tarde psicanalista.
Lou Salomé foi uma fulgurante antecipação do século XXI no final do século XIX. A 13 de Maio de 1882, andava a Virgem Maria de agência em agência a ver se marcava viagem para Fátima, Rée e Lou encontraram-se com Nietzsche na Basílica de São Pedro, em Roma. A meia beleza tão moderna dela, que uns grandes olhos incendiavam, deixou Nietzsche de boca aberta. Eis o que disse: “De que estrelas caíste para nos encontrarmos agora aqui, tu e eu?” Lou esfaqueou-lhe logo a veia lírica: “Vim só de Zurique!”
Reparem, isto é tudo gente que estava em Itália, exilados, inquietos, gente com agulhas no rabo e na alma, acolhendo-se, em Sorrento, ao salão literário da prussiana Malwida von Meysenburg, livre pensadora, mulher que exerceu e gozou direitos antes que lhos reconhecessem. Foi lá que a total independência de Lou deu de caras com Rée. Logo lhe pediu que viesse viver com ela. E, ao esbarrar em Nietzsche, disse-lhe que onde cabiam dois muito mais felizes seriam três.
O triangular escândalo, concebido por uma mulher de 22 anos, cegou o plácido olhar burguês do tempo. Só que cegava também o grande olho boémio: Lou rivalizava em virgindade com Nossa Senhora. Em Sorrento, e sei do que falo, o azul mediterrânico a fundir-se no cítrico aroma a laranjas, Lou explicou a Rée e depois a Nietzsche que era de irmãos espirituais o amor dela. Ambos lhe propuseram casamento, o que Lou rejeitou com fúria amazónica: ofereceu-lhes o fogo da alma e o gelo do corpo. Defendia a sua virgindade como Joana d’Arc defendeu a França, única forma de garantir a plenitude intelectual, criadora, poética. Lou rejeitava o casamento, a monogamia, o masculino teleologofalicismo (bem sei, até dói!). Atormentado, Nietzsche já não sabia como amá-la. Lou esclareceu-o em verso: “Se já não tens mais felicidade para dar, dá-me então o teu sofrimento…” Não admira que Nietzsche tenha degolado o Senhor omnipotente.
Não obstante, aos 26 anos, Lou casou-se. O marido, um orientalista arménio, Andréas, experimentou a mesma exacta ardente paixão fria que congelou Rée e Nietzsche. Se me permitem uma nota de menor elevação direi, e é verdade, que teve filhos da criada. Uma das filhas seria a herdeira de Lou.
Só aos 30 anos, com um político, Georg Ledebour, Lou conheceu as delícias e os tormentos da carne. Lou cedeu o gelo do corpo. Mas só aos 36, com um jovem poeta, Lou se fundiu, carne e espírito, tocando a unidade primordial, essa mínima centelha de divindade que todos buscamos. Esse poeta, René Maria Rilke, entregou-lhe os sonhos e o vigor dos 22 anos. Ela acolheu-o, rejeitou mais um pedido de casamento, mudou-lhe o nome para Rainer, levou-o num périplo espiritual a conhecer a Rússia e Tolstoi. Lou mandou-o embora quatro anos depois.
Os homens abandonados por Lou davam à luz um livro nove meses depois. Nietzsche e Rilke confirmam: um escreveu “Assim Falava Zaratustra”, o outro “O Livro das Horas”.
Lou Andréas Salomé, já no século XX, ainda inquietaria Freud, a primeira mulher a entrar no círculo psicanalítico de Viena. Casada com Andreas até ao fim da vida, deixou-se morrer dias depois da Gestapo lhe confiscar a biblioteca, tão cheia de “autores judeus”.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios
Portugal foi à Suécia ganhar por 3-2 apurando-se para o Campeonato do Mundo no Brasil. O que Ronaldo fez nesse jogo deixou a perfeição vermelha de ciúmes. Eu escrevi, logo, o texto que se segue, no velho Escrever é Triste. Garanto-vos, foi o meu texto mais lido de sempre nesse velho blogue. Trago-o para aqui, a pedido, para ficar adormecido na Página Negra.
Foram três movimentos geométricos, até a bola começar a correr à frente dele. De quem? Da seta, do cavalinho Ronaldo.
Primeiro movimento
A defesa portuguesa recupera a bola que vai parar aos pés de Meireles. Junto à linha da grande área, Meireles, três suecos a 10 metros, recreia-se um pouco – faz passar a bola do pé esquerdo para a coxa direita, controla-a com um ligeiro toque e fá-la rolar na relva, um quarto sueco a tentar cair-lhe em cima vindo do lado esquerdo. Os olhos de Meireles estão no sueco, mas o seu pé direito ignora-o olimpicamente e coloca o esférico quase 40 metros à frente, no grande círculo.
Segundo movimento
Nani, de costas para o meio-campo adversário, oferece o peito a essa bola de Meireles e tabela para Moutinho. De peito para peito. E eu acho que não, que foi de coração para coração. Reparem, Moutinho é um tipo pequeno, mas faz dessa adversidade uma vantagem, um centro de gravidade inabalável. Recebe a bola no peito e deixa-a cair à sua frente. Tenho a certeza, juraria sobre a Bíblia, sobre a Constituição até, que Moutinho não se mexe, nada em Moutinho se mexe.
Terceiro movimento
A bola, que veio do peito de Nani, beija o peito de Moutinho. Desce, aninha-se, com vontade própria, no pé direito do pequeno médio – a bola ama o pé direito de Moutinho, afaga-o um segundo e deixa-o, toma a iniciativa de se ir embora (bola empreendedora), como quem muito cedo, demasiado cedo, se despede, e desliza, num movimento elíptico de 20 metros, desviando-se ligeiramente para a direita, equidistante dos dois centrais suecos, cientificamente colocados, mas humanamente perdidos. E talvez nada venha a acontecer porque há um outro sueco, o lateral esquerdo, Olsson, que vem desembestado.
Clímax
Olsson corre como uma velocidade viking: ele quer e a bola tem de ser dele. Seria, se pela direita, roubando-lhe o interior do relvado, não surgisse uma seta. A seta, camisa vermelha, sete nas costas, conquista o espaço, toca a bola com o pé direito, puxando-a para o centro em direcção à área, corre com a alegria de um garanhão a três por jogo, trote primeiro, galope depois, um segundo toque na bola ainda com o pé direito, para fechar o que qualquer professor sabe que é uma diagonal. Olhamos e parece que a seta, o cavalinho, Ronaldo, vai a fugir à baliza. Está entre três suecos, três amarelas damas de companhia, e tem pela frente o temor e o tremor de um verde guarda-redes kierkgardiano. E é quando o rigor de uma recta alinha já Ronaldo pelo poste direito da baliza sueca que a parte interior do seu pé esquerdo, musculada e nervosa pata de cavalinho lusitano, aplica, como numa mesa de snooker, uma tacada quase suave que projecta a bola para o canto esquerdo das redes. Um arco suave, de uma infinita doçura, tão perto e tão longe dos dedos do Isaksson, o guardião, dedos tão esticados e mais angustiados do que o rosto da figura n’ “O Grito” de Munch.
A bola beijou as redes, Ronaldo corre para além da linha final com a elegância de um matador, olé. E Portugal inteiro acaba de beijar o céu. O primeiro beijo. Bastaria. Mas quem um beijo beija, beija logo mais dois ou três.
Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 12 de Setembro
Para tomar a bica curta com o passado e saber quem somos, precisamos de três museus. No Museu dos Descobrimentos veremos como abrimos o mundo à glória da primeira globalização, glória que teve, é certo, o seu cortejo de Adamastores. No Museu Salazar veríamos o chefe de 40 anos da ditadura que nos reverteu a um casulo de mesquinha vigilância pidesca e criou um país proteccionista atrasado e anti-capitalista. No Museu Cunhal estaria o heróico combatente da ditadura, que no olho de Salazar viu o doloroso cisco da PIDE, mas no olho da sua URSS não viu a trágica viga dos campos de concentração. Três museus. Têm é de ser museus.
Os portugueses vão ver. Os americanos não. “Um Dia de Chuva em Nova Iorque”, último filme de Woody Allen, estreia em Portugal, em Outubro. Na verdade, estreia em todo o mundo menos numa América neo-macarthista, refém da histeria de acusações que fazem mais lei do que a lei. Acusado de abusar da filha adoptiva, filha da sua ex-mulher Mia Farrow, Allen foi investigado e ilibado por dois juízes em estados americanos diferentes.
Mas acima da culpa ou inocência dos criadores, está a absoluta liberdade das obras de arte. O poeta Rimbaud traficou escravas. O pintor Caravaggio matou. Porém, as suas obras são e serão faróis da humanidade.
Eusébio da Silva Ferreira morreu a 5 de Janeiro de 2014. Fará seis anos, daqui a três meses. Eu é que não consigo esperar e quero já deixar aqui o texto que escrevi mal soube da sua morte. Já o publiquei até num livro. Mas tem de ficar aqui, aconchegado, nesta Página Negra.
Se Eusébio morreu hoje, como dizem as infatigáveis notícias, morreu hoje o que restava dos meus anos 60 e o que restava de Portugal ter sido um império.
E embora morrendo hoje, como dizem as indesmentíveis notícias, as cores do mito – esse belo negro da sua pele, esse vermelho vivo da sua camisola – não deixarão nunca morrer Eusébio. E nem é preciso dizer aqui a palavra Benfica, porque a palavra Eusébio e a palavra Benfica beijam-se, fundem-se, são uma combinação amorosa de que a gramática tem ciúmes.
Eusébio era feito da mesma terra vermelha dos heróis. A força de pernas de um Hércules, veloz como Ulisses, o joelho onde Aquiles tinha o calcanhar. Há romance, mistério e aventura em toda a sua vida. Vejam como, da cidade colonial de Lourenço Marques, o trazem para Lisboa.
Numa noite de trópicos, um jipe leva-o à porta do avião. Clandestino quase. E em Lisboa escondem-no da bruxa má. Tudo porque Eusébio, personificação da bondade, fez o que um filho deve fazer, a vontade à sua mãe. O clube onde jogava queria mandá-lo à experiência para outro clube. Mas a mãe, como todas as mães, decidiu pela vontade do filho: recusar vir à experiência porque, como todos os verdadeiros humildes, Eusébio sabia o que valia.
E o que valia Eusébio? Outros dirão muito melhor do que eu. Eu conto-vos só as minhas perplexidades. Eu nunca conseguia saber se era o seu pé esquerdo, se o seu pé direito que chutava. Porque, em boa verdade, não era ele que chutava. A velocidade rematava por ele. E já estou a mentir ou a enganar-me, porque, em boa verdade, foi com Eusébio que a velocidade aprendeu a jogar à bola. Num tempo em que os carros tinham quatro velocidades, Eusébio já tinha a sexta.
Deixem deliciar-me vergonhosamente no vício das minhas recordações. Estou a vê-lo, em Amsterdão, alinhado com Águas, Coluna, Simões, antes da final com o Real Madrid começar. Está perfilado, a carapinha cortada quase rente, a cabeça redonda de menino, preciosamente desenhada e bonita, a pele negra brilhante, nobre, africana. E era, menino de Moçambique, o melhor jogador português. E eu tenho muito orgulho em que o melhor jogador português seja um africano, raio de um ex-império que nem um deputado negro consegue ter.
Nesse jogo, marcou dois golos, os dois, juram-me, e eu não teria tantas certezas, com o pé direito. Puskas, Gento e o semi-deus que era Di Stefano caíram aos seus pés. Eusébio, herói compassivo, foi ao chão buscar a camisola de Di Stefano. Pediu-lha, a esse semi-deus abatido. Di Stefano deu-lha, consolado por aquele pedido de menino, e Eusébio guardou-a, porque Eusébio é o guardião de todos os símbolos.
Eusébio foi o primeiro futebolista a justificar os 110 metros de comprimento de um campo de futebol. Se não fossem já essas as medidas, o campo teria de ser esticado. Eusébio comia com alegria metros de relva. Eusébio era um bicho dos grandes espaços, uma pantera que queria savana. Foi com ele que o futebol descobriu que a África existia.
Corria em linha recta ou em elipse, fazendo meias-luas, rápidas mudanças de direcção, reinventando a velocidade, baixando-a, subindo-a. Percebia-se assim, finalmente, por que razão um campo de futebol deve ter 75 metros de largura, uma área de 8250 metros quadrados. Corria e nas pernas dele corria a palavra Benfica. Mas também a palavra Portugal.
Foi em 1966, não dou novidade nenhuma a ninguém. Mas vejam outra vez as cores do mito a pintar Eusébio. Houve um sorteio dos números das camisolas. Saiu-lhe o 11, ao pequenino e maravilhoso Simões o 13. Simões queria jogar com o seu habitual 11 e, com a verdade, deu a volta a Eusébio: “Já viste o que é, se jogares com o 13 e fores, como vais ser, o melhor marcador e o melhor jogador do mundo?” E foi, com esse número que devia ser fatídico, com esse número da feiticeira Circe, o melhor marcador, o melhor jogador, o Melhor. As cores do mito, os números do mito, escolhem-no, querem-no como filho dilecto.
Vi o segundo golo dele ao Brasil num filme exibido no cinema Império, em Luanda. Uma obra de arte gigantesca em que potência e explosão se enlaçam. Um golo que ajoelhou o Brasil, esse império romano do futebol. De novo e sempre as cores do mito: com esse golo, aos pés alados de Eusébio, caía Pelé, uma lança espetada no flanco.
No jogo com a Coreia do Norte, Eusébio carregou, como Hércules, o mundo aos ombros. Ainda nem a meio da primeira parte íamos e a Coreia, abalando a ordem do céu e terra, de mares e ares, ganhava por três a zero. Eusébio reconstituiu minuciosamente a ordem do mundo, todo o universo. Agarrou nos destroços e com perseverança juntou as partes. Correu, driblou, foi atingido violentamente, mas triunfou. Quatro golos foram os trabalhos de Eusébio nessa tarde de glória que acabaria, dias depois, nas lágrimas de Wembley, momento mais bonito, mais lírico ou elegíaco do que qualquer vitória. Lágrimas de Eusébio que a camisola de Portugal recolhe e esconde. Nenhum outro gesto, outras lágrimas, poderão ser testemunho de mais amor.
Morreu hoje Eusébio da Silva Ferreira, meu Deus.
O ovo de madeira que a mãe de Almodóvar usa para cerzir meias é igual ao que vi na mão de minha mãe. São iguais os ovos de madeira que os filhos viram na mão das mães de famílias pobres ou remediadas. O que é bonito no cinema é ele restituir-nos o tempo perdido, o velho cheiro da bica, o amor que a vida nos fez esquecer. “Dor e Glória”, o filme de Almodóvar, está carregado de passado: tão bonita a cena das mulheres a lavar roupa na ribeira.
O de Tarantino, “Era Uma vez em Hollywood”, também. No corpo, silêncio e vagar de Brad Pitt recuperamos o orgulho de termos sido rapazes, do nosso desembaraço viril, o orgulho de sermos homens.