Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem, parte 1

Fui convidado para o evento O Fascínio das Histórias, organizado pela Fundação Gulbenkian. Pediram-me uma intervenção de uma hora e meia. Aqui fica, dividida em 3 partes, como o mafiosíssimo filme de Francis Coppola, não por acaso também citado. É, como não podia deixar de ser, um texto marcado pela oralidade, aviso já.

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Histórias que os filmes não confirmam nem desmentem, antes pelo contrário

Dedicatória
Dedico esta apresentação ao Bando de Tróia.
Juntámo-nos no Festival de Tróia, nos anos 80 e, depois, jantamos juntos durante duas décadas. Estão hoje, aqui, comigo, a Antónia Fonseca, quadro da Cinemateca, e o António Gutierres Setúbal, dos melhores cirurgiões do mundo, especialista em endometríose.
Com uma saudade imensa, lá vai para o céu um abraço ao Pedro Bandeira Freire, fundador dos cinemas Quarteto, que tanto fizeram pelo nosso imaginário.
À Dulce Cabrita, cantora de ópera, e ao escritor Dinis Machado, alegria dos nossos dias. A outro casal, a artista Gina Frazão e o escritor João Alfacinha da Silva. Ao meu amigo, irmão e sócio Manuel Cintra Ferreira, o mais cândidos dos cinéfilos. Ao cineasta e director de fotografia António Escudeiro. Aos talentosos e brilhantes cinéfilos que são o José Navarro e o António Mendes Lopes.

Estive aqui o ano passado, no evento “O Gosto dos Outros”. Gostei muito de ter feito parte de um evento tão luminoso, alegre e participado, que foi das duas da tarde e fugiu noite dentro. É ainda com mais gosto que volto, este ano, e até com um certo anseio outonal, a aninhar-me nos braços da Fundação Gulbenkian, entregando-me aos afagos do Nuno Artur Silva, procurando a doce almofada do peito benfiquista do senhor administrador Pedro Norton, e implorando o colo protector da Senhora Presidente Isabel Mota, desde já lhe pedindo desculpa pelo desaforo. Obrigado por acolherem o pequeno ser delicodoce e enjoativamente nostálgico que eu sou.

E obrigado a todos os presentes por se terem enganado na sala! Agora já não há remédio, está posto um cadeado na porta e daqui ninguém sai. A ver se, de disparate em disparate, não vos desiludo.

O meu obrigado à Inês Meneses pelo apoio moral que aqui me deu, e muito obrigado à Maria Cristina Barbosa, minha produtora que foi inexcedível.

O Nuno Artur Silva, que na óptica do Chega facilmente passaria por um cigano faquista, pôs-me um punhal ao peito. Ora, letrado como o Nuno é, o punhal que ele usou foi um punhal de Jorge Luís Borges, um punhal mítico, experimentado e viajado em labirintos. Chamou a esse punhal “histórias” e disse-me para eu descobrir as melhores que há nos filmes, se é que alguma história ambiciona ser a melhor, não lhe bastando o prazer de ser história.

Sonâmbulas como um punhal, que histórias é que estão em cada filme? Que histórias são essenciais para que os filmes que as acolhem sejam os filmes que são, mesmo sabendo-se que os filmes são o que são por serem mais do que as histórias que contam?

Vejamos, o Nuno, que na óptica do Bloco de Esquerda é uma Ariadne, pôs, na minha mão de Teseu, o fio que me obriga a mergulhar no labirinto em busca desse monstro a que os gregos emprestaram corpo de homem e cabeça de touro, erro que, séculos depois, Dante corrigiu atribuindo-lhe corpo de touro e cabeça de homem, chifruda embora, como deveria ser a cabeça de cada homem, pelo resguardo e imponência que isso oferece.

E vamos então entrar nos armadilhados mil ecrãs de Dédalo a ver se esfaqueamos o cinéfilo Minotauro. Se houvesse um Genesis do cinema, teria de começar assim: no princípio era o papel. Os filmes antes de serem imagens em movimento são frases escritas e escritas em folhas de papel. Nós, portugueses, chamamos a essa prévia e desengraçada peça de papel “argumento”, palavra que herdámos do latim e que, neste caso, foge ao seu habitual campo semântico, que é o de significar prova ou raciocínio de que se tira uma consequência.

Os americanos chamam-lhe script, termo que foram também desencantar ao latim, por obra e graça do old french. Ora, os novos franceses, ao papel que antecede o filme, chamam scènario, dando relevo ao palco, à encenação que já se adivinha na folha de papel.

Muito embora os americanos tenham escrito 90 % dos melhores scripts que se conhecem, os franceses têm toda a razão, uma vez que o scènario justifica e convoca esse desenfreado gosto pelo paradoxo que faz a graça, a fortuna, mas também a desgraça da França.

Um scènario só é transitoriamente script. Nada há de mais instável do que o script, que está para o filme como a tendida massa do padeiro está para o pão que sai do forno: o que antes era mole, informe e incomestível sai do forno tostado, codeúdo e saboroso.

O script é, portanto, flutuante, uma bóia, o realizador de cinema deita-se nele como numa cama de água. E vai daí, o realizador filma o script.

Ora, o que se faz a um script depois de se filmar? Eu digo-vos, deita-se fora. Porque a intriga, a história que está no papel, logo que filmada fica irrisória e anacrónica.

O enquadramento da câmara, a iluminação, a intensidade dos actores, por mais fiéis que sejam ao papel, já são outra coisa, muito ou completamente diferente desse papel original.

No princípio era o papel, mas Truffaut, que sabia do que estava a falar, avisou: “filma-se contra o script.” Ora, ele também dizia, valorizando a montagem, essa operação que dá a ordem definitiva às imagens, “monta-se contra as filmagens”, donde a famosa frase “montage mon beau souci”, “montagem minha bela obsessão”.

A frase saiu da boca de Godard, o mais irado Aquiles, que via em Hollywood uma Tróia que ele bem gostaria de ter conquistado e arrasado, começando por arrastar pelos cabelos o linear Heitor de Hollywood chamado Spielberg, destroçando-lhe o cadáver, se o tivesse apanhado à má fila. E já vão ver que Aquiles e Heitor não me entraram, aqui, pela porta dentro, por acaso.

Resumindo, eis o que é um filme: é a soma de duas oposições, “filmar contra o script, montar contra as filmagens.” A realização, o que os franceses chamam mise-en-scène, introduz ou acrescenta uma perturbadora ambiguidade à letra das histórias. E agora digam-me, que outra coisa faz a delícia do mundo que não seja a ambiguidade, e tanto faz que estejamos a falar da ambiguidade da devoção neo-flamenguista de Pedro Norton a Jorge Jesus, como da ambiguidade com que homens e mulheres se espreitam pelo canto do olho, ou ainda da ambiguidade que, por exemplo, como um estaladiço croque-monsieur, crepita todas as manhãs nas páginas homéricas do meu Correio da Manhã.

E cheguei onde quero, ao salto de fé do Correio da Manhã para Homero. Vamos então voltar ao princípio. O cinema é uma invenção grega. Digo isto, com o meu melhor ar de Mickey Rourke, e já sei que tenho o Matt Dillon aos gritos comigo. Lembram-se da explosão dele no Rumble Fish do Francis Ford Coppola? “Man, what the fuck did the Gre­eks have to do with anything?”

Desculpa Matt Dillon, mas têm. Têm. Homero inventou o cinema há 30 séculos, inventando as duas grandes formas narrativas que, mais às escondidas ou mais à descarada, estão presentes em centenas de grandes filmes.

Homero inventou essas duas irmãs gémeas, muito giras e muito cheias de curvas épicas, chamadas Ilíada e Odisseia. Vaidosas como são, não lhes bastava a orgia literária que provaram e gozaram em tantas camas: no primitivo rolo de pergaminho, nas monásticas páginas dos manuscritos, em refulgentes iluminuras, nos incunábulos guttenberguianos.

Não, as manas Ilíada e Odisseia tinham de aparecer no cinema. E hoje, está claro, um bocadinho envergonhadas e disfarçando-se com outros nomes, até aparecem na televisão e em streaming.

E aqui está o que tenho a dizer a Nuno Artur Silva, a quem o PCP facilmente acusaria de querer fazer de mim um stakhanovista das histórias na História do cinema. Nuno, as melhores histórias, as que subjazem ao filme, enquanto o filme ainda está a caminho de ser um filme, são a Ilíada e a Odisseia.

E tanto é assim que Jean-Luc Godard, numa forma de acumulação primitiva de capital estético, quando filmou Le Mépris, O Desprezo, adaptando o romance de Alberto Moravia, põs as personagens a arranjar dinheiro e a discutirem um script para filmar uma Odisseia, quando em boa verdade estava a filmar uma Ilíada. Para me desmentirem têm mesmo de voltar a ver o filme.

Mas não é esse o primeiro filme de que vos quero falar e mostrar. Trago como primeiro exemplo um filme de um género humilde e popular, um western, no caso Rio Bravo, realizado por um dos dez maiores génios do cinema, Howard Hawks.

Nesse filme tudo se passa numa aldeola perdida na Grécia! – perdão no Oeste. É um lugar fechado que um xerife defende contra os bandidos que querem devassar a aldeia. Um deles, um criminoso mais cabotino do que Billy the Kid, foi capturado pelo xerife, John Wayne, e jaz agora na cadeia local, refém, tão refém como refém estava Helena em Tróia, ainda que por mais doces razões.

E essa pequena Tróia sofre o cerco de um bando irado e criminoso. Em Rio Bravo, como em Tróia, vai ser à porta dessa miserável vilória que os heróis se vão bater para defender a lei da cidade. E os heróis são: um xerife que é uma espécie de Heitor, um amigo afogado em álcool, um velho coxo apaixonado pelo xerife, um jovem inexperiente.

Vejam como eles defendem e fazem da sua Tróia uma Tróia impenetrável.

Esta é a Tróia de Rio Bravo, uma Tróia muralhada a dinamite e a uma pontaria infalível por heróis bizarros e de baixa extracção. Defendem a lei, o bem comum, se quisermos, o princípio da democracia.

Mas há, como em todos os filmes de Hawks, a mulher. A mulher hawksiana é torrencial, indómita, heroína como heroínas foram uma Clitemnestra ou uma Antígona. E em Rio Bravo, a mulher hawksiana é Angie Dickinson de que logo vemos, se começarmos a olhar para ela de baixo para cima, as esplêndidas pernas protegidas por um seguro de um milhão de dólares no Lloyds Bank of London.

Além das pernas, Angie Dickinson tinha voz, ao contrário do silêncio feminino que impera na Ilíada. Na Ilíada, Briseida, a escrava amada de Aquiles, não tem voz, a não ser para chorar Pátroclo, e a voz de Andrómaca é a do lamento, implorando ao marido Heitor que não vá lutar com Aquiles.

Angie Dickinson tem outra voz e é nessa voz imparável, suavemente dominadora, que John Wayne busca e certamente encontra o consolo que Heitor nunca terá na Ilíada, porque Homero pode muito bem ter inventado o cinema, mas não foi na Ilíada que inventou o happy-end.

Só mais uma breve nota: Hawks gostou tanto de fazer esta sua Ilíada, que voltou às personagens do xerife, do alcoólico, do velho rezingão, da mulher, repetindo a mesma estrutura de cerco troiano em El Dorado e Rio Lobo.

O actor John Wayne foi o protagonista dos três filmes e durante a rodagem do último, Rio Lobo, numa cena, parou, intrigado, e perguntou a Hawks: “Mas, olha, não fizemos já este filme?” Ora, John Wayne ainda não tinha feito nenhuma destas Ilíadas com Hawks quando filmou The Searchers com o mítico poeta irlandês John Ford.

O nosso sôfrego e amargo gosto de histórias, a lenta raiva em que ardemos a cada insónia, a inquieta angústia que o primeiro raio de sol de cada dia acende em nós, é essa a matéria do sublime pesadelo que nos exalta e nos esmaga em The Searchers.

The Searchers, A Desaparecida é um filme de deambulação, de peregrinação, a mais perfeita das Odisseias que o cinema já filmou. Deixem-me mostrar-vos a cena de abertura do filme. Vamos ver, vindo do fundo do tempo, de um cósmico buraco negro, John Wayne chegar a casa. John Wayne regressa a uma Ítaca que não lhe pertence, a uma Penélope que não se lhe pode oferecer e que ele não pode desejar.

Que deserta Ítaca é esta, enquadrada entre aqueles dois altos penhascos de Monument Valley? Que maciça silhueta de cavaleiro é que provoca um tão luminoso sobressalto na bela mulher madura, de pele ainda tintada de desejo, que surge à porta da casa? Que tensão, que camuflada distância, congela os dois irmãos que, separados há anos, se apertam as mãos quase com vergonha?

Viram o beijo de John Wayne à testa da cunhada? Que envio lírico se solta desse beijo e embaraça aquela esposa e mãe, pondo nas nossas faces de espectadores o carmim do rubor? Que antigo romance adivinhamos no pudor desse beijo? Que Circe feiticeira? Que canto de sereia? Que Ulisses sem Penélope é este John Wayne, saco de desilusão montado a cavalo, de andar desengraçado, de corpo tão estranho à harmonia familiar? Que deus ou deusa da desgraça o soprou do fundo e dantesco horizonte, cavaleiro vindo dos mortos, para vir assombrar a plácida rotina dos vivos?

Nenhum argumento, nenhum script, nenhum scènario escreveu antes nenhuma destas histórias. Estas são histórias que estão além da história que o script oferece ao realizador. Quem as conta é a prodigiosa e poética realização de John Ford, quem as contas são os olhares, os gestos quase imperceptíveis, as inflexões de voz da personagem de Wayne, Ethan de seu nome, quem as conta são as hesitações e a tão bonita discrição do irmão e da cunhada, quem as conta é a ousada intrusão da música de Max Steiner.

É esse o milagre do cinema, do pantagruélico cinema que se alimenta do Homero de há 30 séculos. Tão moderno como Homero, John Ford deixa, em pinceladas rembrandtianas, a sugestão de um romance familiar tabu, deixa cair no rosto de John Wayne e da cunhada a gota de amarga saudade do raio de um desejo talvez nunca consumado; John Ford deixa-nos, enfim, adivinhar o escuro ressentimento de quem, como Ethan, nunca provou a lenta pasmaceira da felicidade doméstica.

Não é para essa felicidade que John Wayne, Ethan, está guardado. Ele traz nos alforges os mesmos ventos que um dos deuses deu a Ulisses. E os ventos vão soltar-se e devastar esta perfeita família que aqui vimos, vão devorar esta mulher que vemos entrar em casa de costas, recuando, para não deixar de olhar para John Wayne, numa coreografia tão bailarina, que até dói no nosso manso coração de espectadores.

Os índios, os terríveis comanches, hão de vir a seguir, numa via dolorosa de destruição e morte. Só sobrevive Debbie, que os índios raptam. John Wayne, Ethan, o Ulisses mais carregado de ódio que a história da ficção já viu, John Wayne, essa funda mina de negrume, sem ouro nem lítio, irá, de ilha em ilha, de deserto em deserto, em busca da sobrinha Debbie, para repetir o gesto que há pouco vimos: Ethan a agarrar na pequena Debbie e a levantá-la no ar com quem segura nas mãos, contra o céu, a inocência, a essência da inocência.

Chamei a esse prodigioso movimento, gesto – qual gesto, é mas é um verso, o primeiro verso, verso suspenso à espera da rima que o feche e feche em redenção um longo poema de raiva, som e fúria.  E é este, depois de obtida a redenção, o fecho de A Desaparecida.

A porta que tínhamos visto abrir-se para que este filme começasse e pela abertura dela percebêssemos ao longe a silhueta fantasma de cavalo e cavaleiro, esse Ulisses fordiano que vem em busca da sua Ítaca, fecha-se agora.

No doce útero que é a casa entram e ficam todos, Telémaco, o índio Moses, Debbie que um dia talvez venha a ser outra Penélope. Cá fora, de fora, fica apenas, agarrada ao seu amado cotovelo, olhos a esvaziarem-se no infinito, a solidão irremediável, peregrina e estrangeira de John Wayne, espectro de dois metros e 120 quilos, que dá corpo ao mais pungente dos Ulisses, épico como em Homero, trágico como em Dante.

[Continua]

Sutiãs e négligés

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Marilyn Monroe telefonou para casa de Billy Wilder. Atendeu-a a mulher dele. Com aquela voz que provocava arrepios a um eucalipto, pinheiro manso ou até a um rijo carvalho, Marilyn disse-lhe, “diga ao seu marido que se vá…” e usou como ponto de exclamação a expletiva palavra inglesa que começa por “f” e tem quatro impronunciáveis e por vezes aprazíveis letrinhas.

Ora, Marilyn queria ser tudo menos aprazível. Acabara de filmar com Wilder o “Some Like It Hot”, comédia que metia gangsters e uma orquestra de mulheres. Tinha corrido mal tudo o que podia correr mal entre a protagonista, Marilyn, e o realizador, Wilder. Correu tão mal que Wilder deu uma festa à equipa e aos actores no final do filme e, suprema afronta, não convidou a actriz.

Eis a trama do filme. Dois músicos testemunham a matança, à metralhadora, de uns gangsters por outros gangsters. São testemunhas indesejáveis e os gangsters vivos querem matá-los. Os dois músicos disfarçam-se de mulheres, escondendo-se numa orquestra de jazz feminina. Fazem amizade com Marilyn, a cantora, numa cumplicidade de sutiãs, négligés, cuequinhas de renda, afagos e abraços, que foi quando houve anjos a demitirem-se no céu por quererem vir viver na Terra. Queriam talvez provar o que se derretia nos braços de Tony Curtis e Jack Lemmon, os dois músicos homens disfarçados de mulheres, a quem Marilyn revelavas os seus vitoriosos segredos.

Mas uma coisa é o pão, outra coisa é o forno, que é como quem diz, uma coisa é o filme, outra as filmagens. No filme, Marilyn chamava-se Sugar, e para ronronar como só ela ronronaria a simples frase “It’s me, Sugar”, Wilder teve de filmar a cena 47 vezes. Desde “Sugar, it’s me” a “It’s Sugar, me”, Marilyn não acertava com a réplica. Com um ataque de nervos a roer-lhe a cabeça, desatava a chorar e lá se ia a maquilhagem. Wilder escreveu a frase “It’s me, Sugar” na porta a que Marilyn batia, como escreveu depois, em todas as gavetas em que Marilyn teria de ir buscar uma garrafa de bourbon, a frase “where’s, the bourbon”, que Marilyn trocou por “where’s the bottle” “where’s the whiskey” ou where’s the bonbon”, e que ela só conseguiu dizer certo após 59 repetições. Disse a frase de costas, oferecendo o esplendor do seu posterior à câmara – talvez Billy Wilder a tenha dobrado.

Marilyn chegava ao estúdio com duas e três horas de atraso e filmava sempre com a presença, na sombra, de Paula Strasberg, a sua mentora, ou coach, como agora se diz. Quando Paula, com um discreto aceno, desaprovava, Marilyn interrompia ou enganava-se, matando a cena. Mas terá sido mesmo, Paula, essa sombra negra de Wilder a culpada? Jack Lemmon tem outra teoria. Marilyn nunca deveria ser posta em frente a uma câmara enquanto não estivesse pronta – psicológica e absolutamente pronta.

E, no entanto, se “Some Like It Hot” é uma obra-prima, a Marilyn o deve. Nele se aprende o que é uma mulher dançar a sua sexualidade a passos de ingenuidade, ironia, sinceridade, candura e fé. Pode o forno ter tido brasas a mais, lenha que não tenha ardido, mas o pão que de lá saiu é um prodígio de comédia, como Wilder reconheceria, reconciliando-se com Marilyn.

E depois soube-se que Marilyn estava grávidas nas filmagens e teve um aborto espontâneo. Estava casada com Arthur Miller, mas o pai era Tony Curtis, seu parceiro no filme.  Já tinham tido uma relação dez anos antes e, o reencontro foi fatal. Nas imortais palavras dele: “Eu era mais activo do que o Monte Vesúvio: foram homens, mulheres e animais.”

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Bicas a sonhar com o futuro

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 Estas foram as bicas servidas no CM, de 3.ª, dia 22, a 5.ª, dia 24 de Outubro

Um futuro feliz

Quero, hoje, beber a bica cheia com o cineasta Francis Coppola. Tem 80 anos e anda a montar a produção de um filme, “Megalopolis”, que vai mostrar a raça humana em rumo a um futuro mais feliz.

Delírio de um velho? Também já vou para velho e estou 100% com ele! As visões catastrofistas dos progressistas regressivos negam a realidade. Coppola tem razão: o mundo é hoje muito melhor do que há 80 anos. Há menos miséria e fome, menos mortos em guerra, mais igualdade de mulheres e homens, menos mortalidade infantil. “Megalopolis” vai celebrar a inteligência humana. Confiem nos velhos: já viram e experimentaram muitas vezes o futuro.

Duas mulheres

Pode alguém tomar a bica curta no espaço? Temos de perguntar a Jessica Meir e Christina Koch, astronautas americanas que saíram da nave espacial em que viajavam e mergulharam no vazio para substituir baterias de 100 quilos que pifaram, digamos assim, dias antes. Pela primeira vez, duas mulheres, sem nenhum astronauta masculino a fazer par, flutuaram no cosmos durante sete horas. Do espaço, a 420 km do Brexit, da Catalunha, do novo governo de António Costa, viram a Terra rodar a cada 90 minutos, o Sol pôr-se e nascer, olhos postos no infinito.

Duas mulheres caminharam no espaço e fizeram, bem, o trabalho que tinham de fazer.

Um dedo no olho

Lá vai Jerónimo de Sousa, formoso e não seguro: acerta em tudo mesmo se se engana.  Meteu um dedo no olho do grande capital, culpando-o de esganar o PCP. Ora, o drama de Portugal é não beber a bica cheia com o capitalismo.

Chama-se unicórnio às empresas tecnológicas que valem mil milhões de dólares, essenciais para a riqueza de um país. Na América estão 49% dos unicórnios. Na China, 24%, A Inglaterra e a Índia têm 5%. A Europa está no fim da bicha e Portugal tem três unicórnios. Eis o que nos falta: a Europa tem de ser um pólo do capitalismo, eixo para criar e distribuir riqueza. Isso é que é espetar o dedo no olho do populismo.

Granta: a minha sala de cinema

Já está nas livrarias a revista Granta. A convite de Pedro Mexia, escrevi um texto sobre a experiência da sala de cinema. A escrever um texto teórico preferi servir-me da minha realíssima e concreta experiência e escrevi um texto autobiográfico. Deixo aqui um pequeno excerto.
Façam o favor de comprar a revista para eu não ficar mal visto…

Granta

Com excepção do cinema dos padres capuchinhos, na Missão de São Domingos, até aos dezassete anos, mais de 90% dos filmes que vi, vi-os com os olhos a fugir para o céu. Muitos na melhor das minhas salas, o cinema Miramar, o mais belo do mundo, levantado, como John Wayne levanta Natalie Wood em The Searchers, sobre as barrocas de Luanda. O Miramar, logo depois do seu jardim com as weliwítschias de longos braços estendidos atrás do pasmoso ecrã, caía a pique sobre o mar, tendo em fundo a baía, guindastes e os grandes navios conradianos do porto de Luanda, as refulgentes locomotivas do caminho-de-ferro da linha de Malange. Foi no meio dessa barriga de vida que vi, quinze anos, ainda mal o meu polegar do pé direito roçava a cinefilia, o Pierrot le Fou, de Jean-Luc, esse torcionário Godard, que tão depressa me salva de afogamentos, como me embrulha a cabeça numa toalha, enfiando-ma na água de uma banheira.

Pesca à linha

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Eis Hollywood à mesa no Musso & Franks Grill

Nesse tempo ainda se ia à pesca. Foi há menos de um século, começo dos anos 30, que o escritor William Faulkner e o realizador Howard Hawks foram à pesca. Leva­ram o actor Clark Gable. Gable não sabia que Faulkner era um escritor, mas cheirou-lhe a inte­lec­tual e perguntou quem eram os melho­res escri­to­res. “Hemingway, Willa Cather, Tho­mas Mann, John dos Pas­sos e eu” res­pon­deu Faulk­ner, incluindo-se, sem falsa modés­tia. Gable ficou de boca aberta: “Você escreve, Mr. Faulk­ner?” “Sim, Mr. Gable. E o senhor o que faz?”

Antes de conhe­cer Faulk­ner, Hawks lera um livro dele, “Soldier’s Pay”, e proclamou em Hollywood que des­co­brira o mais talen­toso escri­tor daquela geração. Quem conhe­cia a sua incli­na­ção para reconhecer talentos, levou-o a sério e cor­reu às livrarias. Já Faulkner publicara um novo romance, “O Som e a Fúria”, obra-prima que con­fir­mava tudo. O nome do escritor começou a encher mais bocas do que as braised short ribs of beef do velho Musso & Frank Grill, o Gambrinus da Hollywood da época. E logo essa insaciável Hollywood o convidou. Aceitou e as vestais da literatura hão de sempre chorar a vil traição e achar que foi um desper­dí­cio, uma imo­ra­li­dade.

Outro escritor, Raymond Chandler, a quem quase tudo correu mal em Hollywood, se calhar por ter investido mais nos dry-martinis do que nas short ribs of beef, parece confirmar o tremor e temor dos moralistas: “Se os meus livros tivessem sido só um bocadinho piores eu nunca teria sido convidado para Hollywood. Se tivessem sido só um bocadinho melhores não teria precisado mesmo de vir.”

Não peçam arrependimento e ranger de dentes a Faulkner. Com o diáfano sentido prático de quem monta uma geringonça, Faulkner garantiu que “escre­ver por dinheiro não é pro­pri­a­mente pros­ti­tuir o talento, mas apenas encur­tar as fra­ses.”

Voltemos à pesca. A ami­zade de Hawks e Faulk­ner foi mais longa e bela do que a de Bogart e Claude Rains, em “Casa­blanca”. Não obstante, a colabora­ção deles não escapa a alguma artística ambi­guidade. Faulk­ner queria escrever com a téc­nica do cinema europeu experimental e van­guar­dista dos anos 20. Muita montagem, flash-backs, jus­ta­po­si­ção de rea­li­dade e fanta­sia. Mas Hawks explicou-lhe que talvez não valesse a pena o esforço, tendo em conta a tortura que ia dar, como realizador, ao que Faulkner escrevesse: “Espremo-te a histó­ria que é a primeira coisa que quero. A seguir, que­ro per­so­na­gens. Depois passo por cima de tudo o que tu pen­sas que tem inte­resse.”

Faulk­ner foi o escri­tor que mais bem resis­tiu a Holly­wood. Em Feve­reiro de 1949, a MGM pagou-lhe o que era então a milionária fortuna de 50 mil dóla­res pelos direi­tos de “Intru­der in the Dust”. O livro só tinha saído há um mês. Faulkner desatou a correr pela Sunset Street: “Tenho direito a embebedar-me e a dan­çar descalço.”

E falta-me falar, nesta crónica de pesca à linha, de outro pescador, Hemingway. Era também amigo de Hawks. Hemingway riu-se quando Hawks lhe disse que faria um bom filme do pior li­vro dele. “Qual é o meu pior livro?”, per­gun­tou. E Hawks: “Aquele pedaço de lixo cha­mado ‘To Have and Have Not’.” Hemingway concordou e apostou: “Nin­guém con­se­gue tirar um filme daquilo”. “OK – disse Hawks – arranjo o Faulk­ner para o reescrever. Seja como for, ele escreve melhor do que tu.”

O que terá sen­tido Hemingway? Ciúme ou lisonja? Ele e Faulk­ner admira­vam-se e temiam-se. Aposta feita, nasceu o filme. “To Have and Have Not”, obra-prima, é o filme pedaço de céu em que nasceu, de um assobio, o amor de Lauren Bacall e Humprey Bogart.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” no Jornal de Negócios

Três bicas já frias

Tenho andando numa azáfama do caneco. Sabe-me a vulcão em erupção. Mas não sei se é bom para a minha idade. Assim como assim, deixei esfriar as bicas de há duas semanas. Aqui estão elas.

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Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 15 de Outubro

A Natureza

Por falar de natureza. O meu pai sabia coi­sas pelo vento, sol e nuvens, se ia chover, se era meia-noite ou meio-dia. Sou de uma gera­ção que soube tudo pelos livros. Muitos livros que li ama­vam o ar alto que roça o céu, a fímbria do mar, o capim do mato. Num livro do Oeste Sel­va­gem, “Desert Gol­d” de Zane Grey, litera­tura de ter­ceira classe, havia um índio yaqui que se fun­dia com a noite, com o rumor de um rio, com os cac­tos do deserto, num pan­teísmo de aven­tura e risco. Falhei a vida: eu nunca quis nem quero ser nenhum livro. Eu que­ria ser o índio – e hoje sei que nunca o serei.

E pronto, já falei de natureza – e do meu pai.

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 16 de Outubro

Umas estátuas

E se o debate político bebesse um jarro de detox? Ou, à ordem dos meus avós Isaura e Brigas, fizesse uma purga? Queixamo-nos da língua grossa de André Ventura. Mas mesmo a linguagem do debate entre esquerda e direita democráticas é um estrugido de populismo.

Vítor Gaspar e Mário Centeno mereciam duas estátuas pela restauração das nossas finanças. Passos Coelho e Costa mereciam outra, a de Passos dois dedos maior do que a de Costa: tiraram-nos da bancarrota. Começar por saudar o óbvio no campo democrático talvez ajudasse a estancar a avassaladora suspeita de café, táxi e facebook de que os políticos são só e apenas corruptos.

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 17 de Outubro

Qual fogo, qual nada

Apetece ir tomar a bica à universidade de Stanford nos Estados Unidos. Cientistas e engenheiros desenvolveram uma espécie de gel, à base de fosfato de amónio, que pode ser facilmente pulverizado em vastas áreas de floresta sujeitas a alto risco de incêndio, impedindo o aparecimento de fogos. Mesmo que venham chuvadas malucas o gel resiste e não deixa que o fogo se propague. Este gel dá beijinhos a Mário Centeno: é barato e fácil de aplicar. E dá beijinhos ao ambiente: não é tóxico, feito de produtos da indústria alimentar e médica. Basta pulverizar zonas de risco e a sua acção é garantida por meses. Nunca o fogo viu nada assim.

De canhão apontado

Esta tem dedicatória: ao meu amigo Victor, em lembrança de um almoço confessional

Tianmen

Tiananmen é uma criação platónica do meu amigo Victor. A vagarosa humanidade abriu os olhos, espantada, em 1989, para os protestos na poética Praça da Paz Celestial, em Pequim. E abateu-se sobre as nossas almas o silêncio frio que precede a tragédia, quando um solitário cidadão chinês, singela camisa e calça, opôs a sua humilde fragilidade tolentina ao poder dos explicativos tanques que o comité central mandou para dissuasiva conversa com o povo da rua. Dancin’ in the street, o mundo assistiu então ao bailado de um homem e um tanque, pas de deux de canhão apontado, que tornou obnóxia e risível a velha arte de Fred Astaire, Gene Kelly e Cyd Charisse.

Ontem, num desses almoços em que só se serve o húmido empadão do passado, mousse de nostalgia à sobremesa, soube que, antes de Tiananmen, a matriz dessa arriscada e épica dança nascera em Luanda, no dia 27 de Maio de 1977. Dançou-a o Victor, meu amigo, kamba, irmão de várias fés.

O que nos juntou, no final dos anos 60 hippies, make love not war, foi Jesus Cristo, bailarino de cruz e espinhos. Jurámos por ele e fomos, de musseque em musseque, pelo método Paulo Freire alfabetizar o povo de Luanda, para que um dia pudesse recitar poemas nas suas praças de Tiananmen. E se alguém disser que não foi isso o que objectivamente fizemos, direi que foi com essa subjectiva intenção piedosa que o quisemos fazer. Resumindo, foi com o coração a gotejar de alegria e a alma a entoar hossanas que recebemos a independência de Angola, a nossa dipanda. E descruzámo-nos, eu e o meu Victor. Eu de esqueleto e músculos oferecidos ao monástico maoismo e bando dos quatro, o Victor encantado com a sufocante vodka soviética e o fidelizado charuto havano.

E agora vejam como dançava o Victor, com o seu branco corpo trangalhadanças nascido em Portugal e a sua bem negra alma angolana. Um dia, na turbulenta Luanda pós-independência, roubaram-lhe um táxi que ele comprara e pintara de preto, um daqueles rijos Mercedes que duravam os quarenta anos de uma ditadura. Vai ele já noutro carro e vê o Mercedes gloriosamente guiado por um soldado das Faplas, ou seja, um John Wayne caluanda. O Victor ultrapassou-o, guinou para a direita e chocou contra ele. O cow-boy saiu de AK na mão. “E agora quem vai pagar o arranjo?”, lhe reclamou o fapla. O Victor disse: “Eu pago o arranjo dos carros. São os dois meus!” O faplinha apontou-lhe a AK, aqui para nós a Scarlett Johansson das metralhadoras. “Dispara já então, camarada, ou foge a pé. Vou chamar o comando, acuso-te de ladrão e não vai ficar bom para ti.” E eis como o Victor ficou com dois carros, numa avenida de Luanda, tendo de explicar como ia a conduzir os dois e chocou contra si mesmo.

Não sabia, ainda, que este fora só um ensaio. O 27 de Maio de 1977 foi dia de golpe de Estado, Nito contra Neto, um banho de sangue. A amada do Victor estava a trabalhar no velho Hospital Maria Pia e sussurram-lhe um “foge, que estás aqui a correr perigo”. O Victor foi em velocidade buscá-la. Mas na volta, já os dois, no cruzamento que leva ao palácio do presidente, cortam-lhe a passagem. Um tanque avança para o carro, o canhão move-se e visa-o. O Victor sai e a equipagem do tanque ameaça: “Ninguém passa. Recua já camarada!” O Victor, o seu carro obstinado como o heróico chinês de Tiananmen, respondeu: “Passo, sim, camarada. Vou para casa. Ou tens de me matar aqui!” Do nada, mandado por algum génio da lâmpada, surge um comandante: “Deixa passar o homem.” E o tanque, pernas de Fred Astaire, amochou e recuou.

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Três bicas curtas

Por razões que não vêm ao caso e se vão manter, há uns bons dez dias que não vinha à Página Negra. Aqui vão as minhas três bicas curtas de há duas semanas,a primeira logo na ressaca eleitoral.

curdos
os nossos homens

Bica Eleitoral
servida no CM na 3.ª, dia 8 de Outubro

Tomo a bica eleitoral e saem-me 5 questões:

  1. Em que futuro populismo desaguarão os votos do populismo científico do falecido PCP?
  2. Estão os 77 deputados do PSD reduzidos à irrelevância de, com a sua abstenção, aprovarem alguma medida mais à direita de Centeno?
  3. Com o galope do Parlamento para a esquerda, a única direita com que Costa tem de dirimir é a Europa e os credores?
  4. A falta de comparência da direita ditará o fim da geringonça, a menos que um Passos Coelho vestido de Joker irrompa na primeira esquina?
  5. A hotelaria já não é o que era: raio de empregados que não perceberam que Costa tinha pedido bica cheia.

A vítima de ouro
servida no CM na 4.ª, dia 9 de Outubro

Criado nos anos 60, bebi em cada bica a utopia do prazer. Era “proibido, proibir” e o orgasmo, intelectual, sentimental ou sexual, atacava 24 sobre 24 horas. Acabou. O manto da proibição está de volta. Proíbe-se o consumo, o avião, o bife com ovo a cavalo. Do gozo do prazer passou-se, num salto de fé, ao gozo da vitimização. Os filhos da classe média idolatram a vítima de ouro e nada se compara à glória de exibir, com um pingo de êxtase, a discriminação de que se reclama ter-se sido alvo. O frémito obscurantista do apocalipse galvaniza a nova multidão. Medo e irracionalismo ressuscitam o milenaríssimo culto da morte.

Os nossos homens
servida no CM na 5.ª, dia 9 de Outubro

Não é só deixar os nossos homens para trás. É consentir que se matem os homens que deixámos para trás. Os nossos homens. É o que Trump está a fazer, estendendo um miserável tapete ao ataque do populista Erdogan aos curdos. Os curdos lutaram com bravura contra os terroristas do Daesh, ao lado das tropas americanas. À custa de sangue, suor e lágrimas, venceram a hidra islamista. Agora, desdenhando a bica curta, Trump mandou retirar os seus soldados e deixou os combatentes curdos, homens e mulheres, à mercê de um inimigo cujo desígnio é a política de extermínio. É cobardia dar à morte os nossos homens e mulheres.