Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Bica Curta servida no CM, na 3.ª feira, dia 10 de Dezembro
Há uma pistola apontada à cabeça dos livros. A leitura morre e sem o livro não há conhecimento sólido, seja científico, histórico ou cultural. O fim da leitura estrangula as livrarias, editores, autores. Hoje, bebo a bica curta com as livrarias. A nossa lei do preço fixo é parcial e má. Vem aí a Amazon. Na América, roubou 50% das vendas: livrarias tombaram como tordos. Se não queremos que o livro se enforque, precisamos de preço fixo para toda a vida do livro. Como em Espanha e França, só o editor pode mudar o preço fixo, e sempre em condições iguais para todo o mercado. É um primeiro balão de oxigénio. O segundo vem amanhã.
É amanhã, 3.ª feira, na Cinemateca, na livraria ao pé do bar, lá em cima, sobre as catacumbas que são as salas de cinema. Apresenta-se o n.º 4 da revista Granta. Vão falar o Pedro Mexia, o Daniel Blaufuks, Bárbara Bulhosa e João Rosas.
Eu junto-me com gosto a eles. Pedro Mexia convidou-me a escrever sobre a minha experiência da sala de cinema e dei comigo a escrever sobre salas de cinema improváveis e heterodoxas. Como a sala de cinema da estrada dos quartéis, em Luanda, o “cinema dos sargentos”, que evoquei assim:
“A mulher casada deu-ma a descobrir o meu sargento, mostrando-me Shirley Knight, ao volante de uma station, a deixar a sua casa numa plácida smalltown que, tivesse Angola auto-estradas, podia ser de Angola. Eu vi-a, de uma das minhas noites de cacimbo dos dezassete anos, saía ela de casa numa manhã de Inverno. A chuva pequenina, cambutinha, prima do cacimbo angolano, espalhava poças pelas ruas de Chattanooga, no Tennessee, onde Francis Ford Coppola filmou esta mulher grávida que, sem destino, deixa mansamente o marido e se mete à interminável estrada.
A luz, meu Deus e meus amigos! Tão fina e filtrada a luz, luz do sudeste americano a arrancar brilhos e reflexos ao asfalto, uma renda de humidade, a imarescecível humidade que a insatisfeita melancolia, se autêntica, não ousa dispensar. Shirley Knight encosta e acolhe a essa melancolia dois homens, James Caan e Robert Duvall. E Shirley devia ter-me acolhido a mim: eles não a amaram e incompreenderam mais do que eu.
Tudo nessa Shirley Knight é gentil, salvo o que é inexplicável ou insondável, que é praticamente tudo. As suas indizíveis razões, a sua inegociável solidão, a sua seguríssima incerteza comoveram a minha adolescência e eu, no cinema do meu sargento, que já me tinha dado a imagem do desumilhante e nietzschiano segundo riso, tomei de assalto a imagem independente e impossuível da mulher. Numa esplanada de ancas oferecidas à lua, ao cacimbo e às estrelas, o mouco rumor da guerra colonial que a plateia de soldados insinuava, conheci e entrou-me na pele a imagem da grave e errática liberdade da mulher casada. Quero que conste no meu cadastro: The Rain People chamava-se o filme de que Chove no Meu Coração foi o piedoso título português.”
Não houve ninguém na minha geração que não tivesse amado Anna Karina. Cresci com essa ideia de mulher, uns olhos carregados de beleza, sonho e insatisfação. Um desafio ao melhor que um homem pode dar, surpresa, uma dolorosa alegria, aventura, um livro e um cigarro, um carro a entrar pelo mar dentro. Relembro-a, no dia da sua morte. Lembrança em três breves actos.
De vez em quando uma mulher é uma bandeira. Ou, mesmo sem o saber, é um quadro de Renoir. Ou é mais bela do que um verso de Ronsard.
Anna Karina, que agora morreu, foi filmada contra brancos saturados, contra paredes rugosas, no contra-luz de uma janela. De Petit Soldat a Made in USA, em Une Femme Est Une Femme, em Pierrot le Fou. Nesses filmes, a preto e branco, em technicolor, foi a forma, rosto e corpo da nouvelle vague. Posou. Parece que se submete ao enquadramento. O resultado é Mondrian inundado de emoção.
O beijo ou é descapotável ou não é beijo
Tinham ambos bons lábios, carnudos, ágeis, oferecidos. São os lábios de Anna Karina e de Jean-Paul Belmondo. Juntou-os Jean-Luc Godard que, na altura, já deixara de beijar os de Anna Karina.
Aproximemo-nos deste beijo. É um beijo dos primeiros anos 60, de 65, julgo eu. Nada é deixado ao acaso. É um beijo de descapotável para descapotável. E é um beijo tricolor, patriótico e identitário, azul, branco e vermelho como a agitada bandeira gaulesa, o que discretamente a camisa vermelha de Belmondo confirma, se por acaso os nosso olhos não divagarem pela profusão geográfica da branca t-shirt de Anna Karina.
Os teus olhos
Pus-me a contar as estrelas Contei duzentas e doze Com as duas dos teus olhos São duzentas e catorze.
Está escrito. Pela mão do povo. O povo é português e escreve assim no amplo livro da memória. Com mais ritmo do que rima, que o povo não é estrito. Mas sabe, note-se, contar. Conta até mil e sabe adicionar.
As estrelas dos teus olhos não as escreveu só o povo. Filmou-as também Jean-Luc Godard, com esse líquido e galáctico brilho que foi roubar aos olhos de Anna Karina.
Bica Curta servida no CM, na 5.ª feira, dia 5 de Dezembro
Um gueto é uma fábrica de crime. Fechar, ou deixar que se fechem minorias étnicas em bairros monolíticos é assobiar à catástrofe. Imigrantes e minorias étnicas têm de beber a bica com os locais. É o que faz o governo dinamarquês. Nesses bairros, renovam e vendem apartamentos para que os dinamarqueses se misturem com os imigrantes, pondo estes em contacto com melhores oportunidades de emprego e cultura. Cria-se uma solidariedade nacional e os miúdos têm lições para conhecer os valores dinamarqueses.
O gueto é uma bala no coração do imigrante: segrega-o, corta-lhe as pernas no emprego, na cultura, na integração. Viva a mistura!
Bica Curta servida no CM, na 4.ª feira, dia 4 de Dezembro
Os suecos amam os seus super-ricos, bebem a bica com eles e até comeriam juntos uma sandes de courato se lá houvesse sandes de couratos. Li no insuspeito The Economist: a Suécia é dos países do mundo com mais desigualdade na distribuição da riqueza. Mas os bilionários gozam da popularidade de Marcelo numa feira e ninguém quer criar impostos especiais para dar tau-tau aos super-ricos. Acham que esse imposto ajudaria menos o estado social do que o livre desenvolvimento de multinacionais como a Volvo, Ikea, H&M e Spotify.
Os nossos ricos não ajudam e termos herdado contra eles um ressentimento salazaristo-comunista ainda menos ajuda.
Bica Curta servida no CM, na 3.ª feira, dia 3 de Dezembro
Já tomei aqui a bica com ela, apesar de Zineb el Rhazoui não a poder tomar livre e descontraída como nós. Jornalista do Charlie Hebdo, Zineb escapou ao abominável e sangrento atentado em quem assassinaram 12 dos seus camaradas jornalistas. Zineb, então em Casablanca, sobreviveu.
Desde esse dia, mais combate sem tréguas o integrismo islâmico. A sua filosofia é límpida e cristalina: só há uma lei, a lei da República, e essa lei aplica-se também ao Islão. Ameaçada de morte e a viver sob rigorosa protecção policial, recebeu agora o prémio Simone Veil. Escreveu um livro, “Destruir o Fascismo Islâmico”. Prometo que o vou publicar.
Botão de rosa. Falasse ele português, era o que teria suspirado Charles Foster Kane na hora da sua morte, ámen, num dos mais belos começos de um filme em toda a história do cinema. A nebulosa morte já a agasalhá-lo, “Rosebud” é a palavra inglesa que lhe sai da boca que o bigode exangue cobre. Quem viu o filme já sabe que, no final, se descobrirá ser “Rosebud” a evocação da infância desse homem, que foi dono daquilo tudo. Evocação da neve e de um trenó, irrepetível momento de inocência e plenitude. Mas será mesmo esse o botão de rosa?
O filme, de 1941, é “Citizen Kane”. Nele, Orson Welles afundou, num pântano de vã glória e fracasso, a vida de dois amantes reais, William Randolph Hearst, então o maior magnate da Imprensa do mundo, e a actriz Marion Davis.
No filme, Kane, personagem que Welles interpreta, tem uma máquina imperial nas mãos e serve-se dela para tentar converter a sua mulher, cantora sem talento, numa grande diva da ópera. Na vida real, Hearst e Marion Davis nunca casaram, mas Nova Iorque encharcava-se de cartazes e néones, a cada filme dela. Hearst, em São Francisco, redecorou um teatro só para ela, e construiu-lhe quase um Taj Mahal sobre a praia, outro no campo. Senhor de todos os jornais, sufocou de tal modo Marion Davis em publicidade que a América a enjoou.
Orson Welles, num acto de contrição tardio – como devem ser todos os actos de contrição, valha-nos Deus –, escreveu um prefácio à autobiografia de Marion Davis, louvando-lhe os méritos – reais – de actriz. Jurou que Kane, personagem que nasce pobre e é educado com dinheiro assistencial, jamais podia ser um retrato de Hearst, rico de nascença. E muito menos a história do casamento falhado e sem amor de Kane e da mulher poderia equivaler, no filme, à história de amor que, nunca casados, mas sempre juntos, Hearst e Marion viveram, e cito-o: “A deles é a autêntica história de amor. O amor não é um tema de ‘Citizen Kane’.”
Por muito que chateie os rebeldes sem causa ou lhes atormente o cotovelo, há ricos que se amam e Hearst e Davis amaram-se até ao fim, num estremecido e encantado oceano de prazer. Encanto que partilharam com os artistas deste mundo. Um dos convidados, Bernard Shaw, assombrado com a casa de uma das festas, disse: “Isto era o que Deus construiria se tivesse dinheiro para tanto.”
Só há uma frase no filme que Welles reconhece ser do Hearst real. Durante a Guerra de Independência de Cuba, no final do século XIX, Hearst mandou um pintor, o célebre Frederick Remington, para a ilha, para que ele enviasse ilustrações de atrocidades e batalhas. Mas o pintor telegrafou a dizer que não se passava nada, a guerra era um piolho… vinha-se embora. Hearst quase o matou: “Fique e mande desenhos, que a guerra faço-a eu.”
E “rosebud”? Tem que ver com Hearst? Nada, juraria Welles. Outra coisa diria Herman Mankiewicz, que escreveu o filme com Welles. Herman frequentava as festas de Hearst e Marion. Conhecia segredos do casal que Welles nem cheirava e irritava-o a mania da grandeza de Welles, a confiança arrogante daquele puto de vinte e cinco anitos: tudo era dele. Quando o via passar, dizia: “Ali, pela graça de Deus, vai Deus.”
Talvez, por isso, diz-se, o tenha rasteirado e deixado em “Citizen Kane” a marca de Mankiewicz. “Rosebud”, esse portuguesíssimo botão de rosa que falece na boca de Orson Welles, era a terna palavra com que Hearst, em momentos de humaníssimo deleite e abandono, chamava ao pequenino orgulho que assomava, tumescente e feliz, na íntima flor de Marion Davis.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios
Vamos ser injustos. Vamos eleger e beijar mais uns filhos do que outros. Vamos encher de ternura e carinhos os livros que ainda se publicam de poesia. Este ano, por razões tão diferentes, há três edições que me deixam, a mim, o editor da Guerra e Paz, felicíssimo.
Publiquei, logo em Janeiro, Guardados numa Gaveta Imaginária, da autoria de Tchiangui Cruz. Poeta angolana, sensível à tradição poética angolana do século XX, e em particular à poesia de Viriato da Cruz, Tchiangui estreou-se com «pedaços de mim esquecidos num canto escuro», numa poesia que cruza o passado angolano e a contemporaneidade de Lisboa, Luanda, Cabo e Bahia, tudo se convertendo em oração oração para ser rezada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, igreja de um dos seus versos. Este foi um livro de estreia, feminino, de uma perplexa angolanidade aberta ao mundo.
Em Maio, a Guerra e Paz encontrou-se com um grande poeta, que eu não sei se, como editor, mereço. Falo de João Moita, de quem publiquei Uma Pedra sobre a Boca. Velho e novo livro, reunindo, mas retrabalhando à maneira de Herberto Helder, a seleccionada obra poética anterior, acrescentada de novos poemas. Este é o livro de um ainda jovem poeta, cantor da anti-profecia, como nos avisa: «Poucas vezes mais farei esta viagem.» Porém, encontra-se também nele uma harmonia do mundo e uma aceitação serena dos dias. Basta lê-lo assim: «A erva cresce com o trigo, as flores desabrocham, as árvores segregam resina e dão sombra à terra ressequida. Os campos estão lavrados, o gado pasta ordeiramente, o rio segue amordaçado. Há pássaros invisíveis no horizonte e outros escondidos em ramos longínquos. Feras ocultas em recantos sombrios, a lentidão da seiva sob a descarnação do sol.»
Agora, em Novembro, editada quase em silêncio, fizemos chegar às livrarias uma Antologia da Poesia Romena Contemporânea, com tradução magnífica de Corneliu Popa. Reunimos aqui o melhor dos últimos 50 anos da poesia romena, uma poesia que balança entre uma firme vontade de autenticidade, hostil à metáfora, e um frémito nostálgico mais imaginativo do que passadista.
São três livros. Ficaram, tenho de o dizer mesmo que pareça mal, tão bonitos! E eu, se acreditam em mim, gostava muito que os lessem. Bem entendido, sempre que compram um livro ajudam a minha Guerra e Paz, mas não é essa caritativa ajuda ao livro e à poesia em extinção que vos peço. É mesmo o prazer da leitura e o encontro com a suavidade ou a violência do verso que vos recomendo.