Isto com música, os instrumentos todos, já é muito bom, mas a cappella, apanha-nos ainda mais de surpresa: é néctar de deuses.
A Página Negra de Manuel S. Fonseca
Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Isto com música, os instrumentos todos, já é muito bom, mas a cappella, apanha-nos ainda mais de surpresa: é néctar de deuses.

Por favor, deixem-me contar-vos como é que conheci, nunca o conhecendo, Jonathan Demme. Coisas do século passado, já tinha escrito sobre ele para o “Expresso”, a propósito de um filme estimável, “Melvin e Howard”, pequena delícia monocasta, todo feitinho em cima de um único e improvável fait-divers: quem o viu sabe que é o filme de um tipo que, na highway 95, pára para dar uma aflita mijinha e encontra estatelado numa valeta, se assim se pode dizer, o ultramilionário e incógnito Howard Hughes, que espatifou a moto em que vinha a zunir. Para começo de conversa é mais do que bem caçado. Jonathan Demme caçava e bem.
Poucos depois, e não foi para dar uma aflita mijinha, vou a Los Angeles. Aboletei-me, nesses anos 80 do século XX, em Westwood, bairro selecto e universitário, todo encavalitado na UCLA. E mergulhei nas salas de cinema.
Os cinemas de que eu mais gostava ficavam ao lado de uma gelataria drive-in. Lembro-me: de carro em carro, as saudáveis pernas das mocinhas giravam, ágeis e velozes, em cima de patins. Transfigurados anos 80, na irreal Los Angeles.
Naquele tempo, via os genéricos dos filmes até ao fim. Nesse cinema de Westwood, ecrã cheio de nomes, últimos acordes da banda sonora, de repente leio em militantíssimo português, “A Luta Continua”. Por cima, a figura de um velho guerrilheiro ou, quem sabe, um jamaicano cerzido a reggae.

Sempre desconfiei que o passado se dana por nos pregar partidas, mas nunca o imaginei a atropelar-me, em L.A., no “Something Wild”, de Jonathan Demme. O filme começa com Charlie (Jeff Daniels), executivo certinho que esconde um grão de rebeldia no mais acrisolado dos seus ventrículos. Almoçou rapidinho e, revolta de menino, sai rapidinho sem pagar a conta. Lulu (Melanie Griffith) viu e gostou. Moreníssima, franja negra a reiterar o nome, boca de frutos vermelhos, Lulu vai dar guita à rebeldia de Charlie. Mal dá conta e Charlie está como Deus o mandou ao mundo, em sítio onde Deus não costuma estar e se dispensa que esteja. Charlie já tem um par de algemas a prender-lhe as mãos à cabeceira da cama, Lulu está de lábios e mãos livres, o indesculpável pecado das pernas, a dar-nos vontade de estar onde está, não sei se humilde ou humilhado, o rebelde Charlie. Chega de humildade e pequemos: com a guita com que estão, Charlie e Lulu voam tão alto como os papagaios da minha infância. Coisas destas sabem bem e, depois de a língua as tocar, quem é que quer saber de empregos e família. Charlie já não quer e é nisto que o cinema dá vinte a zero à vida.

“Something Wild” começa assim, americano, mas a grande surpresa vem no fim. A música do genérico amarra-nos o rabo à cadeira, e deixamo-nos ficar a ver os mil nomes dos técnicos até que, num português que nenhum americano na sala beijou, inalou ou fumou, surgiu um gigantesco “A Luta Continua”. Onde, Demme, é que foste buscar isto, este “A Luta Continua”, que me fez cheirar África e, de África, a moreníssima Angola, Lulu dos meus 20 anos? Nem emprego, nem família, lembrei-me da noite da independência de Angola, 11 de Novembro de 1975, em Novo Redondo, a bater estrada, como Howard Hughes (querias, não querias?) a caminho de Luanda. Noite dormida em cama de estrelas, céu e mar, os miúdos das Fapla a fazerem das Kalaches o festivo fogo-de-artifício. A luta continua e, olha Charlie, se aos 20 anos não fores anarquista, aos 40 nem chefe de bombeiros hás-de ser.
Enganei-me no sabor a África de “Something Wild”? Li, e acho que ainda anda pela Wikipédia, que a frase, repetida por Demme em “Married to the Mob”, “Silence of the Lambs” e “Philadelphia”, seria tributo ao 25 de Abril. Estranhei: não parece, não é, a língua dele.
Vai daí, um dia apanho o Demme e o Neil Young a trocarem prazeres perversos e culpados. O Neil Young dizia os filmes favoritos dele, o Demme respondia-lhe com a sua lista de canções preferidas. E eis que o Demme escolhe o jamaicano Big Youth e dele um álbum com título em português: “A Luta Continua”. Big Youth e Demme falam o mesmo idioma, falam reggae. Ao reggae, a Luta Continua chegou de Angola e Moçambique, via Miriam Makeba. Sem África, Demme nunca teria assinado em português, mas com cantado sotaque jamaicano, o final dos seus filmes.
Não me enganei quando, num cinema de L.A., a boca me soube a África. No fim do filme, já mudados, Charlie e Lulu reencontram-se. Queixa-se ele de que ela não lhe chegara a dizer adeus. Ela jura: “Claro, eu nunca te quis dizer adeus”. Nem eu à terra morena da luta continua, nem a ti Jonathan Demme, que nos morreu no dia 26 de Abril de 2017.
E a luta, meu kamba? Há dois anos que nos deixaste para aqui com o “Silêncio dos Inocentes”, o “Married to the Mob”, o “Philadelphia”, deixaste-nos para aqui com o intenso, leve e adorável canibalismo familiar de “Rachel Getting Married”, mas e a luta, a luta não continua?

O quinto mandamento, versão talmúdica ou católico-romana, era uma auto-estrada por onde Eugen Weidman entrava, imparável, a zunir e em contramão. Não matarás! Mas Eugen matava, matou com gosto, e mataria sempre e mais se não lhe têm posto o corpinho com dono.
Eugen nasceu na Alemanha e matou em França. Nascimento fofo, criado nas palminhas por avós que o cobriam de ternura adâmica, os pouco mais de 22 anos de Eugen depressa malham na cadeia por tentativa de rapto. Cinco anos de aturada pedagogia prisional e regressa à liberdade: está um homem de físico muito bem feito, um rosto de santo, um olhar de veludo. No calabouço fez dois amigos franceses. Em Paris, 1937, Eugen e os amigos alugam uma vivenda e apostam num negócio de lógica cafajeste: rapto e resgate.
A primeira vítima é uma bailarina nova-iorquina. Passeava uns incautos 22 anos pela adorável margem esquerda e deslumbrou-se com a desenvoltura física, a conversa de Eugen, rã saltitante de Goethe a Wagner, como de nenúfar em nenúfar. A bailarina escreverá a uma amiga, contando-lhe que ele vivia na mansão que Napoleão ofereceu a Josefina e prometera levá-la lá. Leva e, ó silêncio, já de lá não sai. As angélicas mãos de Eugen acariciam-lhe o pescoço, entusiasmam-se, ganham vida própria e sufocam-na. Antes tinham tirado fotografias inocentes, a fumar, a beber um intranquilo copo de leite. A jovem bailarina acaba enterrada no jardim da casa. Eugen tira-lhe da carteira 400 dólares em travellers cheques, se alguém ainda se lembra que raio é um traveller cheque.
Eugen rapta mais a seguir, homens e mulheres. Seduz pelas maneiras, pela graça. Em quatro meses, um tiro na nuca ou por estrangulamento, Eugen mata mais um, dois, três, quatro, cinco. Ele e os cúmplices descontam aqui mil, ali dois mil sórdidos francos, um anel mais caro.
Em Dezembro, ou não fosse Natal quando um homem quisesse, dois polícias vêm à mansão. Querem fazer uma pergunta a Eugen. Ele sorri – meu Deus, a educação deste homem, derrete-nos – vai à frente abrir a porta, mas volta-se de repente e a fusca, que trazia escondida, despeja balas. Um dos agentes tomba mas apanha do chão um providencial martelo. Arreia com ele na cabeça alemã de Eugen.
As fotos de Eugen, preso, cabeça entrapada, o sangue a perlar a magnífica camisa branca iluminam as primeiras páginas dos jornais. Os agentes só iam fazer-lhe uma pergunta, Eugen, mostrando não ser de segredos, confessa-lhes de rajada os seis assassínios. Com uma alegria despreocupada mostra-lhes os cadáveres.
O tribunal condena a duras penas os cúmplices, ao alemão matador dão de prenda a guilhotina. A 17 de Junho de 1939, a menos de dois meses da II Guerra Mundial, o sol das cinco da manhã a alumiar Paris, uma pequena multidão junta-se à volta da guilhotina, na rua à porta da prisão. A execução era pública. A multidão vibra, as mulheres gritam pelo sedutor Eugen num frisson de enlevo e excitação. Surge o belo alemão, há gritos e desmaios. O carrasco acomoda-lhe o pescoço na barra de madeira. Os 40 quilos da lâmina losangular estão lá em cima, quietos. O carrasco solta a corda que a prende e, num milésimo de segundo, a bruta lâmina viaja os dois metros e meio que a distanciam da cabeça de Eugen, separando-a do corpo criminoso. O sangue de Eugen jorra e as francesas correm a empapar lenços brancos: souvenir e, diz-se, promessa de fertilidade. Há fotografias, um filme feito da janela em frente. Foi a última execução pública em França. A civilização chegaria em 1977 com a extinção da pena de morte.

Publicado na coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 4 de Julho
Mas que grandes pontapés tem levado o traseiro do passado. Vêm os activistas sociais e chutam, vêm os identitários étnicos e lá vai pontapé, vêm o arco-íris dos géneros, os vigilantes savonarolas da linguagem correcta e zás, enfiam o elegante sapato no vetusto cu do passado. Eis o pontapé: o passado foi burro e mau como as cobras, é culpado, o passado tem de pedir desculpas.
Mentem. Devíamos era tomar mais bicas com o passado. Se nos sentamos neste sofá do presente, com menos pobreza, menos mortalidade infantil, mais conhecimento, é por estarmos sentados em cima dos ombros de gigantes do passado. Sem passado, caímos no abismo.
E já que estávamos aqui com a mão na deposição de Cristo no túmulo, juntemos as mãos para assistir à criação de Deus pela insatisfeita e perplexa humanidade.

É um bocadinho estranho que haja quem acredite em Deus. Mas o que é mesmo bizarro é que possa haver quem acredite que não acredita.
Acreditar em Deus é ser um menino, ter sonhos de astrónomo que até muda a posição dos planetas, ter medo dos trovões ou de que ela, “tão linda que ela é!”, nunca vá gostar de mim, e poder dizer, “ó meu Deus, dá-ma inteirinha, toda, que eu prometo ser muito bonzinho!”
Acreditar que não se acredita em Deus é uma coisa de miúdos impertinentes, que se julgam muito espertos por descobrirem que já não há Pai Natal e por andarem a dizer coisas muito feias sobre a Capuchinho Vermelho. Enfim, aquele género de miúdos que esfolam o joelho e se põem com cara de pau em vez de chorarem e já passou.
Na verdade, há um sentido de acreditar em Deus em que ninguém acredita. Nem mesmo o Papa. É o Deus homenzarrão, todo nu e só com umas barbas que parecem estar a arder. Perguntei na minha rua, na pastelaria da esquina, na oficina, nos dois cabeleireiros que não se podem ver nem mortos, e as pessoas acreditam em Deus como numa mousse de chocolate, como se fosse a afinação do motor que vai pôr esta máquina a rasgar como uma seta, como a doce massagem ao couro cabeludo. Todos me disseram que não é Deus quando atropelamos uma pessoa com o nosso carro, nem é Deus (embora pareça) que escreve a poesia de Herberto Helder. As pessoas sabem. Deus é um miminho que só se mete na nossa vida quando o chamamos. Em geral, quando andamos mais aflitos.
Estas pessoas, que são, todas, meninos bonzinhos, acreditam em Deus à confiança. Não precisam de estar a perguntar se Ele existe ou não, ou se é Ele com letra grande ou ele com letra pequena. Ouviram dizer e acreditam. Leram histórias e acreditam. Sabem, dos milagres “é verdade!”, e acreditam. Não se vão dar ao trabalho desagradável de ler Platão ou São Tomás de Aquino e fazem bem porque o que é bom é acreditar.
“Por amor de Deus!”, dizem elas, as pessoas da minha rua, com orgulho por continuarem a ser como os pais deles, os pais dos pais, os pais dos pais dos pais. São, já perceberam, pessoas que não se envergonham dos pais que tiveram e que os apresentam às outras pessoas, mesmo às mais finas, sem estarem a dizer “ai, desculpem lá que eles são um bocadinho saloios e têm medo de fantasmas.” A mim dá-me uma grande alegria não se deitar fora uma família com mais de 2.500 anos. E sei que é mais, mas não consigo arranjar fotografias.
É por isso que me fazem aflição, não os que não acreditam (nem a Madre Teresa acreditava!), mas os que acreditam que não acreditam. Será que não viram que os que acreditam estão quase todos a fazer de conta? Alguns dos que não acreditam viram, mas o que querem mesmo é acabar com esse jogo da imaginação. Percebe-se. Quer dizer, é irritante. Só não se percebe que não percebam a inteligência da brincadeira e tentem fazer-nos crer que não é um lindo fazer de conta em que tanto se inspiraram os outros faz de conta que são a poesia, a pintura, o teatro, a música. Até mesmo os faz de conta que é fazer cidades, dar horários aos comboios e cozinhar como Jamie Oliver.
Para que faça algum sentido eles acreditarem que não acreditam, os que acreditam que não acreditam precisam de fazer passar os que acreditam por totós. “Olha, aquele acredita!” e apontam e é feio.
Tentam fingir que os que acreditam não sabem que acreditam no que sabem muito ter sido inventado com a imaginação delicada de uma menina que veste vestidos à boneca. Às vezes a boneca veste um vestidinho escolástico, outras vezes renascentista, às vezes despe-se com audácia iluminista.
Há uns (tenho mesmo um nome na ponta da língua, mas não digo), que não querem que se vistam mais vestidos à boneca. Temos de estar sempre a lembrar-lhes que, assim, não se tem o prazer de a despir, levantar um bocadinho o virginal manto à bonequinha cristã, tirar a burka à islâmica, desenrolar o sari sarapatel à budista.
Acreditar-se que não se acredita, mesmo que se tenha razão (mas razão em quê, se ninguém “acredita”), é a coisa mais chata e “desimaginativa” que pode haver. É como provar que a poesia não tem valor científico – “pronto, leva lá o raio da bicicleta, ó meu génio da matemática!”
Ainda se os que acreditam que não acreditam, acreditassem que não acreditam de faz de conta, mas não, eles garantem que é científica a sua negação e que mesmo que um dos outros meninos seja bom cientista, bom político, bom poeta, só pelo facto de acreditar já é menos brilhante ou nem cintila de todo.
Os que acreditam, sabem que acreditam em histórias inventadas pelo tetravô grego com caos e noite e dia e que depois o trisavô judeu começou a contar uma história com milagres, espinhos, um calvário e não sei quantas bem-aventuranças. E sabem que há tetravôs chineses e indianos, árabes. E sabem sobretudo, sem se zangar e pôr a cara de pau de quem tem os joelhos esfolados, que foram estas histórias que nos fizeram amar como às vezes amamos, odiar, salvar, matar, socorrer, louvar, queimar, inventar, ou seja, conjugar os verbos regulares e irregulares, transitivos e intransitivos, na mais louca e imperfeita sinfonia, a única em que, afinal, nos soubemos e saberemos cantar.
Todo o crente é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é crença, a crença que deveras sente.

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 3 de Julho
Reversões e reposições salariais foram a passadeira vermelha pela qual António Costa se passeou, geringoncial, dando petisquinhos à boca dos portugueses. Parecia emendar os cortes cruéis de Passos Coelho. Ora, já dizia o outro, a Terra move-se. E ao mover-se deixa a descoberto as catacumbas das cativações. Passos proclamava cortes na praça pública. As cativações, furtivos cortes de Centeno, cosem-se às paredes clandestinas.
Passos quis que o povo soubesse que estava em austeridade. A cativação fecha-se no gabinete e não toma a bica democrática com o povo. Cativado o açúcar, pode o povo não apreciar o sabor amargo do café.

Reflexões, se assim se pode dizer, a partir da Deposição de Cristo no Túmulo, de Giambattista Tiepolo, quadro do Museu Nacional de Arte Antiga
O dia desta tela de Giambattista Tiepolo está chuvoso e agónico. Olho e vejo-o, um corpo. Está ali, desfalecido, descido da cruz, de frágil e modesta mortalidade, a carne exposta e pálida, as pernas tristemente pendentes. Eis um homem a ser metido no seu túmulo. Decido trazê-lo para aqui, sentá-lo connosco, consciente de que me vou meter em trabalhos.
Não é um morto como os outros. Volta não volta, ressuscita, o que nos vai obrigar a aturada vigilância para que não ande por aí, sempre ao laréu. E nem posso dizer que não fui avisado. Alertou-me voz amiga que ele adorava caminhar: metia-se pelo deserto, descia ao longo do rio Jordão e, com uma ousadia que mesmo ao mais ousado dos nossos políticos não lembra, conseguia andar sobre as águas.
Olho e vejo a azáfama à volta do corpo despido. Já foi muito popular, conta-me o pessoal que o tenta encaixar na arca fúnebre mal amanhada – agora, há dúvidas de identidade e já nem o nome se sabe. Biografia errática, chegaram a dá-lo nascido numa vaga cidade da Judeia, embora a família fosse da Galileia. A paternidade é duvidosa, com insinuações de inseminação artificial, de acordo com espíritos mais prosaicos. Outros, arrebatados, falam de anjos serenos e anunciadores, de um mítico sopro que semeia a vida.
Do pouco que lhe consegui saber sobre a infância, o mais credível é o testemunho de um empregado de escritório português, alcoólico nas horas vagas, que diz tê-lo visto, menino, a chapinhar nas águas (apurando futura técnica, já se vê) e a levantar as saias às raparigas. Ainda que para dizer isto, o empregado de escritório se tenha negado a si mesmo, usando outra identidade.
(Há um curioso paralelo entre a heteronímia a que, em delírio, este empregado de escritório se entregou e a ideia de que o nosso morto era uma trindade una e indivisível, segundo informação que consta de cartas encontradas em Tarso).
No primeiro acto público parecia aprontar carreira promissora, tendo surpreendido uma sedenta multidão de convidados, num casamento, em Canaã, com o primeiro tinto monocasta de que há memória. Embalado pelo sucesso, abriu olhos a cegos, ouvidos a surdos, fez coxos andarem e pôs mudos a discursar (esta última, prática perniciosa que ainda hoje infesta televisões e parlamentos).
Embora a sua actividade tenha desencadeado vibrantes e histéricas resistências sindicais, primeiro com a menina dos olhos de Jairo, depois com o filho de uma obscura viúva, e por fim com Lázaro, em Betânia, os problemas com o sistema de justiça começaram quando lhe deu para ressuscitar mortos. Puseram-lhe escutas, providência cautelar e, por fim, em sentença de lava mãos, na cabeça uma coroa ecológica e, ao corpo, morte carpinteira, de pregos e madeiro.
Olho e vejo o peito magro, as costelas marcadas na pele macilenta. É corpo de poeta. Foi o que o perdeu. Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra, bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. Devia dizer estes versos com voz de tenor, ao mesmo tempo que advogava, na mão uma pedra e uma linda mulher de rastos na poeira do caminho, uma poética do perdão, sem o triste espectáculo do ressentimento nem faca e alguidar de vingança. Só perdão entre iguais de amai-vos uns aos outros como eu vos amei.
Olho e vejo-o: a pele branca, anémica. Trago-o para aqui, para ser mais um entre nós, com a condição de que não ressuscite e não fale por parábolas. Mas pode muito bem ensinar-nos a ser humildes de espírito para que seja nosso, na terra, o reino dos céus.

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 2 de Julho
Que bom é tirar o cavalinho da chuva. É tudo culpa deles. Mas eles não somos nós? Um exemplo, os governos de Sócrates, Passos Coelho, Costa são “eles” ou somos “nós”? Não fomos “nós” a dar-lhes a bica cheia do poder?
Escrevi, há dias, que o livro está a morrer. Vieram consolar-me culpando os poderosos. Ah, caneco: “Eles!” Ora, o livro está a morrer é mesmo por “nós”. Todos. Por não lermos, por não irmos às livrarias comprá-lo. Nós mudámos e na mudança a leitura deixou de contar. Não foram “eles” que proibiram, somos “nós” que não lemos. Se achamos que perder o livro é uma catástrofe, somos “nós” que temos de parar o terramoto.