Se queres ter sete vidas, lê. Ler acrescenta outras vidas à vida que já tens.

A Página Negra de Manuel S. Fonseca
Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Se queres ter sete vidas, lê. Ler acrescenta outras vidas à vida que já tens.

O pai diz que eu… pai, diz que eu pai, diz que eu pai, diz que eu pai.
A canção, chamemos-lhe assim, é do rapper Papillon, com intervenção de Slow J, na produção.
Não vou estragar o encanto (porque, além da inteligência social, estamos a falar de encanto e de estética), com despropósitos.

Há sempre outra forma de dizer as coisas. Há muitos anos, Michel Leiris, um francês esquecidíssimo, ensinou e, por um feliz acaso de leitura, ensinou também ao “eu” que eu era aos 18 (?) anos, que a escrita é uma forma de tauromaquia – como o amor e a foda do amor. Escrever é expor-se: um tipo escreve como um matador dança à frente de um touro em pontas. Se o touro marra, um tipo esvai-se em sangue. Para delicadezas é melhor que se escolha outro ramo.
Agora, ouço o recado, o pequeno e delicado conselho que Bukowsky, o orgânico Bukowsky, deu (talvez não exactamente como Rilke) a todos os futuros escritores. Ouvi-o e, para castigo, ficarei a ouvi-lo todo santo dia, toda a santa noite.

Bem sei que o país está ufano e, turístico,, e já só de esguelha olha para o deficit. Mas o meu sentimento de culpa é inabalável. Parte do deficit do país está em duas estantes à minha frente. Devia ter-me prometido, de joelhos e a mim mesmo, não comprar mais de 1.001 “dêvêdês”, mas comprei. Só de filmes. Porque, como o odioso Billy the Kid que não contava mexicanos entre os tipos a quem furava o coração com uma bala, também não conto “dêvêdês” de séries televisivas.
A derrapagem descontrolada, a hemorragia orçamental, são bem visíveis na forma como as estantes com filmes foram, como eucaliptos, comendo terreno à floresta dos livros.
Nas minhas estantes, o pai fundador Griffith, os discutíveis irmãos Cohen, a mafiosa obra de Coppola, o conservador Ford a quem a ordem alfabética colou o iconoclasta Godard, empurram séculos de civilização com cega energia. De Platão a Tolstoi, da “Ilíada” aos sete vagamente entumecidos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, os livros acantonam-se, frágeis, tigres de papel tremendo e temendo as faúlhas de tanta luz, tanta explosão.
E para quê? Em primeiro lugar, não valem nada a não ser a imensa gargalhada de hiena que a Netflix, e mais umas inenarráveis plataformas de streaming, soltam com a altivez de quem diz «isso já não serve para nada». Em segundo e patriótico lugar, os mil e um filmes na minha estante, de improdutivos, só dão razão às agências de rating, e são mil e uma agulhas de traição que fui espetando no coração do cinema a que jurei fidelidade.
De repente, com a boca a saber a madalenas, lembro-me do Grande Auditório da Gulbenkian na noite em que, mil e duzentas pessoas a transbordar das cadeiras, balcão e plateia em overbooking, o João Bénard subiu ao palco para apresentar, em sessão dupla, o “Nosferatu” de Murnau e o “Nosferatu” de Herzog.
Parecia o costume, uma sala contente de o ver e ouvir, à espera de imagens e movimento. Veio o escuro e veio a mudez do filme de Murnau, num tempo em que as cinematecas ainda projectavam filmes mudos sem música. A surpresa do total silêncio, para uma plateia sem hábitos desse cinema, sem o hábito dos gestos desmesurados de Max Schreck o mais nosferatu, o mais vampiro actor que algum dia se filmou, fez a sala tossir, pigarrear.
Normalmente, abafados pela banda sonora, no cinema não nos ouvimos. Ali, a sala ouvia-se: mexer o rabo na cadeira ouvia-se, engolir ouvia-se, bater as pestanas também. E a sala, nervosa de se ouvir, frente a um ecrã de sombras e silêncio, começou a rir-se. Foram os primeiros vinte minutos de cinema mudo mais memoráveis de que me lembro: até que o filme de Murnau, sinfónico, raptou os risos, as gargantas e os catarros, os rabos inquietos e, dos anos 80 em que estavam, levou os espectadores para os anos 20.
Nenhum DVD me dará a experiência que é o espectáculo de uma sala a render-se a um filme, uma sala a descobrir o sublime em gestos que, sem a confiança da entrega, seriam ridículos, 1200 pessoas desconhecidas, odiosamente diferentes, com o sangue gelado pela nocturna silhueta de um vampiro que só pode ser vencido pela gloriosa luz da aurora.
O que podem contra os vampiros do Auditório da Gulbenkian os exércitos de 1001 DVD?
Só para que saibam, Deus não é nenhum santo.

Em caso de dúvida perguntem a Jó (também conhecido por Job). Ou mesmo a Isaac ou a Abraão. Para não falar, claro, dos nossos putativos pais, Adão e Eva.
Sim, Deus não é nenhum santo.

Há riscos no céu…

que abrem crateras no chão…

para que escorram rostos pelas paredes novas.
Peripatética digressão editorial a ver se me surge uma ideia não-aristotélica para as linhas de publicação da Guerra & Paz. Numa tarde de Lisboa.

Há quem pense que, num homem, talentos poéticos e dotes de escrita indiciam uma clara e preocupante sublimação da sexualidade. Está a chegar o Inverno, e não vejo que venha mal ao mundo em discutir-se já a tese.
Haverá, de facto, alguma relação causal entre o uso da pena e o desempenho do gládio? O arrebatamento com que um homem se entrega às elegantes e cursivas expansões da escrita implicará um murcho e recolhido cativeiro da sua potência sexual?
A pergunta é muito mais embaraçosa do que parece. Qualquer tentativa de argumentação – ainda por cima na forma escrita – arrisca-se a mal entendidos e a destruir a mais férrea e viril das reputações.
Opto por oferecer-vos uma lista concludente e irrebatível de histórias de êxito em batalhas de lençóis. Sim, é possível, como vão ver, passar horas a escrever e outras tantas entregue a inconfessáveis apetites. Espero, assim, dar um contributo cultural indelével para que jovens e promissoras vocações não deixem de cumprir-se por venal temor de uma insidiosa e infundada acusação.
Lembro-vos, para começar, o caso famoso de Giacomo Casanova. Escreveu 28 volumes de memórias. Nelas revela 132 casos de sedução ardente. Pormenor saboroso: era, avant la lettre, um homem de e da globalização, já que essas 132 mulheres que lhe concederam favores eram de 99 nacionalidades diferentes. Chamo a atenção para o facto destas memórias serem só a ponta (em todo o caso firme e meritória) do iceberg. Consta que Casanova terá dormido (e, sem ofensa, presumo que nalguns casos tenha sido apenas isso) com cerca de 10 mil angélicas representantes do sexo oposto.
Outro exemplo. Dois escritores franceses de inabalável estirpe, Guy de Maupassant e Georges Simenon, parecem ter-se fixado num número fetiche: as mil mulheres. Com elas gozaram delícias venusianas. Há diferenças que convirá realçar. Maupassant auto-imputava-se o dom de múltiplos orgasmos e músculo para levantar bem alto a bandeira por toda uma noite. Já Simenon, para perfazer a milenar contabilidade, não se eximiu a arredondar a cifra arregimentando prostitutas.
Mais moderado foi Balzac. É verdade que escrevia cerca de 15 horas por dia e que o tempo, mesmo para o autor dos 100 romances da “Comédia Humana”, não estica. Tudo esticado, na carnal matéria em apreço, a ele deu-lhe para mais de 10 e menos de 20 amantes ao longo da vida. Mas, note-se, com atenção dedicada e sustentada.
A outro símbolo da bela França, Victor Hugo, louva-se a alvoroçada diligência com que encarou a noite de núpcias, em que terá levado à glória, por 9 vezes, a sua bem amada Adele Foucher. O autor de “Os Miseráveis” foi também, num precursor referendo feito aos bordéis gauleses, considerado o patrono das prostitutas. Quando morreu, o governo autorizou aquelas horizontais eleitoras a acompanharem o funeral. Vieram, cobrindo com lenços negros as partes anatómicas mais sinceramente enlutadas.
Poderia invocar o maldito nome de Sade, os insaciáveis apetites de Robert Louis Stevenson e de Lord Byron, a infidelidade crónica de Kingley Amis, o sexo sem nexo de Henry Miller. Não interessa. Creio ter já provado o meu ponto. Lá fora, o mundo continua esplêndido, a pedir mais do que argumentos literários. Ou, nas calorosas palavras do mesmo Miller: “I hear not a word because she is beautiful and I love her and now I am happy & willing to die.”
Hoje, chega às livrarias o segundo livro de poemas de Eugénia de Vasconcellos, de que sou editor. O título não podia ser mais bonito, com um fio de tristeza a roçar o desalento: Sete Degraus sempre a Descer.
Breve livro de 56 páginas, divide-se em quatro partes e reúne 23 poemas. É um livro de fogo e cinzas, que interroga dois ofícios, o poético e o amoroso. C’est quoi la poésie?, o primeiro poema do livro, logo nos diz que essa interrogação dos ofícios não vai ser feita à maneira de um exercício formal, que não é esse o modo como operam a mão e o pensamento de Eugénia de Vasconcellos. Ao ofício poético e ao ofício amoroso, Eugénia de Vasconcellos interroga-os à faca e à vida, faca e vida que se fundem em desejo e em corte do desejo.
A poesia de Eugénia de Vasconcellos surpreendera-nos, no seu livro anterior, O Quotidiano a Secar em Verso, pela sua torrente discursiva, bem e malcriada, amorosa e violenta, sem remorsos ou ressentimento. Sete Degraus sempre a Descer oferece-nos a brandura que antecede o reino dos infernos, uma brandura que espera a palavra que salva ou a boca que beija. Nunca chegam, nem a palavra, nem o beijo.
Este é o livro da respiração contida, da espera – horas que se sucedem às horas. Respiração e espera que antecedem o momento do ciclone ou da explosão escura. Estes são os poemas de músculos tensos, tesos, retesos. Uma palavra mais e acabarão, fora deste livro, taça transbordante, a devorar um corpo, outros corpos, faca enterrada na vida, porque «pode uma pessoa partir-se em bocados, / de tão funda ir a lâmina afiada.»
Esta é a capa. Em baixo, deixo-vos um dos poemas e um aviso: sou o editor, mas se querem encontrar a mais órfica beleza, têm mesmo de ler.
O Amor é um canto
de riso e de lágrimas,
um canto concreto e fremente,
uma existência.
Uma oração.
A pequenina chama sempre acesa que
serve à adoração.